Quem me conhece um pouco sabe que tenho uma fascinação ingênua pelos véus islâmicos; acho que justamente pelo fato de adorar usar um decote, aquele ar de mistério emanado pela burqa e congêneres me é fascinante. Claro que não ignoro o que tem (aos olhos de uma ocidental) de opressão naquelas roupas, e as minhas fantasias são aquelas decorrentes de toda ocidental que possui plenos poderes e direitos sobre si própria; mas fantasias, como o próprio nome diz, não são exatamente a realidade, certo?
A polêmica sobre a proibição das burqas na França aguçou minhas reflexões sobre o tema (li bastante, inclusive um post ótimo da @semiramis, apesar de não concordar muito com ele) e nunca havia conseguido formar uma opinião. Isso porque, se de um lado eu entendia que a burqa poderia ser um símbolo da opressão da mulher e da enorme diferença de direitos existente entre homens e mulheres no Islã, de outro havia a questão cultural, e por mais que meus olhos ocidentais tendessem a enxergar alguns costumes como bárbaros, não podia deixar de pensar que isso é meramente uma questão de ponto de vista.
Por mais absurdo que possa parecer, penso eu, o que é bárbaro para uma cultura não necessariamente é bárbaro para outra – e o nome que se dá a impor nossos conceitos e ideias sobre as de outrem não é exatamente democracia, não é mesmo?
Essa semana, com o burburinho causado por decisão judicial afirmando que não é permitido usar burqa na França, pensei com mais afinco quanto ao tema e (acho que formei) minha opinião.
Antes porém, queria analisar alguns argumentos utilizados para proibir a burqa ( e outros contra a proibição) junto com vocês.

acima a partir da esquerda: burqa e chador; abaixo: hijab e niqab
1. Burqa é opressão ao feminino.
Sim, é opressão caso seu uso seja imposto (e nem todas as mulheres gostariam de deixar de usá-lo). No entanto, não acredito que ela seja mais opressiva para as muçulmanas do que são para nós ocidentais as revistas com mulheres irreais e a exigência cada vez mais premente e ridícula da mulher se manter bela e jovem como se tivesse 25 anos para sempre (esse artigo bárbaro nos explica isso muito bem – e o Fabio Hernandez o resumiu lindamente aqui).
Ora, existem grupos feministas que abominam a exposição do corpo da mulher; mas no que me diz respeito, acredito que somos donas dos nossos narizes (ou das nossas pernas e peitos) para decidirmos se queremos mostrá-los ou não (acredito também, com todo o respeito por quem pensa ao contrário, que sim, we do choose our choices); então, se vejo capacidade de discernimento na mulher que opta por andar seminua na rua, não posso (ou ao menos acho que não posso) negar capacidade de discernimento a uma mulher que opte por andar completamente vestida. Simples assim.
Para mim, a opressão ao feminino através das roupas ocorre quando a mulher não escolhe usar determinada roupa, é obrigada a fazê-lo (como o marido ou namorado que proíbe sua mulher de usar roupa decotada ou maquiagem); e se de um lado há mesmo muitas muçulmanas que são obrigadas a usar burqa, de outro há aquelas que gostam de fazê-lo, que se sentem mal sem eles.
Não pretendo deixar as muçulmanas obrigadas a aceitar o véu à própria sorte; no entanto acredito que a sociedade deva dar estrutura, força, instrumentos para que elas consigam deixar de ser obrigadas e façam sua própria opção, e não impor uma alternativa. Com todo o respeito, não faz sentido tirar a mulher de um algoz (no caso, aquele que a obriga a usar burqa) para entregá-lo a outro (o Estado que a obrigará a usar roupas ocidentais, ainda que ela não deseja isso). Aliás, se não me engano, esse é exatamente o tipo de política que imperou entre os países europeus na época da colonização da África: o “branco sabe tudo” impondo sua cultura e seus costumes aos “negros ignorantes”.
2. Há mulheres obrigadas a usar burqa
Há mesmo. E eu acho que elas não deveriam ser obrigadas a fazê-lo. Mas eu pergunto: por que a vontade das que são obrigadas a usar burqa deve prevalecer sobre a vontade daquelas que o usam por prazer? Neste vídeo temos um exemplo de que elas existem:
Eu tenho hoje plena convicção de que ao invés de impor roupas ocidentais às muçulmanas, dever-se-ia (através, isso sim, de coerção inteligente) dar às mulheres condição para que exerçam sua vontade, para que sejam independentes.
A proibição da burqa ou do niqab certamente fará com que muitas mulheres não possam sequer sair mais de casa, e eu acho isso uma temeridade, um fato que deve sim, ser levado em consideração, e não ser considerado um mal menor perto do “horror” (says who?) de usar a burqa.
Por outro lado, tenho certeza que ensino fundamental é obrigatório na França, seja para muçulmanos, para judeus, católicos ou protestantes.
Ora, não acho que se possa proibir mulheres de usar o que bem entenderem, mas acredito ser possível criar penas severas para os pais que não deixem suas filhas ir à escola. Estudo e instrução certamente garantirão que em uma ou duas gerações elas possam estar aptas a impor sua vontade – até porque há várias “categorias” de véus no Islã, e a combinação estudo+instrumentos de apoio certamente fará com que aquelas que não mais desejem usar a burca ou niqab passem a usar outro véu, caso queiram chegar a um meio termo entre a cultura da nação onde habitam e seus costumes ancestrais. Acredito que as mudanças paulatinas e mais embasadas sejam mais consistentes e por isso, tenham mais chance de se perpetuar (não nos esqueçamos que o finado Xá Reza Pahlevi proibiu o uso do véu como forma de “civilizar” seus súditos. Vocês lembram bem o que rolou depois de sua queda, né? Saca o Irã?)
3. Vestes incompatíveis com o mundo ocidental
Well, como bem lembrou o Paulo Nogueira, não há como sustentar esse argumento quando temos entre nós freiras que se vestem dessa forma:

A pergunta que não quer calar: no que a veste acima se distingue da veste abaixo?
Não entendo porque não há um movimento proibindo o hábito das freiras, ou dizendo que eles não cabem no nosso mundo… Eles não seriam também opressivos?
4. País laico não pode permitir tais vestes
O fato de um país ser laico não significa que seus habitantes devam igualmente sê-lo. Um país laico significa meramente um Estado separado da Igreja (qualquer que seja ela), e que não tome decisões ou promulgue leis que privilegiem uma religião em detrimento de outra.
Não é atribuição de um estado laico impedir que religiosos professem sua religião em público, ou restrinjam serviços públicos àqueles que o fazem, pois isto configura cerceamento de livre expressão e de professar sua fé.
Assim, um estado laico não pode ter uma cruz nas repartições públicas (como acontece direto e reto aqui no Brasil), mas não vejo porque alguém que adentre tal recinto não possa usar um crucifixo no pescoço, por exemplo.
Além do mais, acho esta conduta um tanto quanto “método avestruz amedrontada” : os conflitos inter-religiosos não deixarão de acontecer porque não vemos seus símbolos em recintos públicos e sim, quando houver tolerância religiosa – e esta só vem com o conhecimento e o respeito do que seja “o outro”. É a ignorância e a intolerância ao que seja diferente que causa conflitos, e não a existência de diferenças em si.
Cumpre lembrar que desde 2004 é proibido às mulheres adentrar as escolas públicas francesas usando qualquer tipo de véu, o que me soa pouco inteligente: por conta do que para nós não passa de um pano na cabeça, muitas meninas podem deixar de ir à escola. Eu pergunto: o que é mais importante? Que elas estudem e se estruturem para fazer uma opção futura, ou que elas corram o risco de seus pais proibirem-nas de ir à escola? Será que é mesmo na segurança e no bem estar das mulheres que a França está pensando?
Há portanto, que distinguir entre estado laico e estado que proíba manifestações religiosas, motivo pelo qual considero absurda a proibição de meninas usarem o hijab nas escolas sob o argumento da laicidade do Estado.
4. Questão da segurança
O @VladimirAras, conversando comigo no Twitter disse uma coisa muito importante, na qual não havia pensado: que há a questão da segurança. É impossível reconhecer um criminoso que usa burqa. Tive que dar a mão à palmatória, esse é um critério objetivo, não passa por juízo de valor de se avaliar qual sociedade é bárbara ou não, qual costume é mais libertário ou não.
Curvo-me portanto a esse argumento no que tange ao uso do niqab e da burqa; inobstante, acho que por uma questão de igualdade, deveriam ser proibidas todas as vestimentas, orientais ou não, que deixassem à mostra apenas os olhos, e isso não foi aventado, evidenciando que cerne da questão não é a segurança, e sim a proibição de se usar as vestimentas islâmicas.
5. Discriminação disfarçada de defesa dos direitos da mulher
Antigamente, nos blockbusters americanos, o vilão era sempre um “russo malvado”, tendo em vista estarmos vivendo, à época, a Guerra Fria. Nos dias de hoje, o vilão é sempre um árabe (e os acontecimentos de 11 de setembro não deixam muitas dúvidas do motivo para que isso ocorra, d’ accord?).
O islã é uma cultura (não acho que estejamos falando apenas de religião, acredito que seja um conceito mais amplo que isso) que assusta pela sua unidade, pela sua coesão, pela certeza daqueles que estão vivendo sob seu manto (gostei da metáfora aqui,
). É um pouco maluco aos olhos ocidentais ver religiosos que ainda hoje decidem morrer por sua fé para praticar atos terroristas, acreditando naquilo, ou mesmo vivendo sob leis e conceitos que nos remetem à Idade Média.
Acredito que quando vemos mulheres andando de burqas, niqabs e congêneres, essas ideias perpassam nosso cérebro, ainda que de forma muito randômica, e nos assustam. Será que não queremos (estou usando o nós como ocidentais de uma forma geral) acabar com a visão dos véus islâmicos para com isso, esquecer que há pessoas no mundo com valores, conceitos e ideais muito diferentes dos nossos, eles também acreditando que nós somos selvagens? Será que não queremos acabar com os véus islâmicos para com isso não precisarmos questionar e refletir sobre nossos costumes? Será que não estamos almejando uma homogeneidade que, como todos sabemos, sempre é mãe de ideias tacanhas e da intolerância?
6. Inexpressividade dos números
A França tem 63 milhões de habitantes, aproximadamente. O total de mulheres adeptas do niqab e da burqa é de menos de 2.000 mulheres (há pesquisas falando em 367 -!- mulheres). É um número ínfimo perto da população francesa, vocês hão de convir comigo (não é à toa que alegam interesses do governo francês em aplacar os radicais de direita que detestam os imigrantes…).
Causa espécie realmente que apenas 2.000 mulheres num universo de 64 milhões consigam nos impingir um medo do Oriente e dos seus costumes.
Faz pensar mesmo… Será que elas não nos assustam porque no fundo, tememos que eles tenham mais certezas que nós? Porque têm mais apego aos seus costumes que nós, que toda semana mudamos nossos hábitos de acordo com o que dita o mercado? Eu não sei. Mas eu sequer sei se é bom ter certeza de alguma coisa
Em resumo, me decidi: sou contra a proibição que o Governo Francês quer impor às muçulmanas. E vocês?
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P.S. Não posso deixar de fazer aqui um agradecimento especial ao Paulo Nogueira que, por conta desse debate no Twitter, me municiou de textos, vídeos e ideias para que eu formasse minha convicção. Muito, muito obrigada, viu?
P.S. II. Pra provocar um pouco, termino com o sexy e instigante vídeo abaixo…


















































































