Meninas: comportem-se

Em uma semana, tivemos dois casos de revenge porn que terminaram com o suicídio de duas moças adolescentes que não suportaram a (suposta) vergonha de terem exercido o direito de realizar uma fantasia e cometido o “pecado mortal” de ter confiado no parceiro.

Em uma semana, ouvimos, novamente, como se estivéramos naquele famoso episódio do Monty Phyton, uma matilha de Donas Perpétuas apontando o dedo para essas meninas como se as culpadas fossem elas.

Em uma semana, continuamos a ler e ouvir a mesma cantilena de sempre: que como os homens não mudam e a sociedade “é assim mesmo”, nós temos que ensinar as meninas a não se deixar filmar; que como “os homens (vocês sabem, esses menininhos grandes inimputáveis que não sabem o que é certo é errado, tadinhos deles) dividem mulher em pra casar e pra zoar, nós temos que ensinar nossas filhas a se comportar” (não sei bem o que é se comportar – pra mim ainda é não roubar o lanche do amiguinho, mas enfim, sou moça antiga).

Tá errado, gente. Não é assim que as coisas vão mudar.

Ninguém está dizendo que não se deve refletir com quem uma foto íntima está sendo compartilhada; não é isso. Claro que devemos ter cuidado e pensar ao tomar essa decisão. Mas dizer “não tire fotos” é o mesmo que dizer “não saia nunca mais na rua e fique preso dentro do seu condomínio”, “não ande mais na calçada e só ande de carro”, quando o mais razoável é dizer “tome cuidado ao andar na rua”, escolha o bairro onde vai morar”.

Vivemos atualmente na sociedade da exposição. Uma sociedade onde tudo é colocado nas redes sociais e onde somos estimulados a nos expor. Mais: uma sociedade onde famílias de classe média alta e rica usam aplicativos em smartphones que RASTREIAM seus filhos e parentes, fazendo com que tudo e todos saibam o que está sendo feito em tempo real (já viram o Family 360? é praticamente uma pulseira de regime semiaberto, usada sob o rótulo da segurança – sempre ela). Uma sociedade em que câmeras existem em todos os lugares de nossas vidas.

Tudo, rigorosamente tudo é filmado e controlado. Tudo é exposto e estimulado a ser exposto. Menos a mulher que faz sexo e tem desejo.

A mulher que tem desejos e fantasias e as realiza, essa é uma Messalina despudorada. Atreve-se a ter vontades, ter tesão, tentar o homem e ó, horror, o horror, chega ao cúmulo de desprezar e não querer mais o homem que ela “tentou”. Um demônio que deve ser punido e apedrejado em praça pública, como em priscas eras.

Não, a mulher tem que lutar contra a exposição, os desejos e as fantasias. A mulher tem que ser precavida, se guardar, ser ciosa do seu “tesouro” (em que século estamos estamos mesmo?), que não deve ser visto a despeito de todas as câmeras existentes no mundo. Ela, ELA deve ser responsável, já que os homens, esses irresponsáveis, não entendem que todas as mulheres são iguais e “eles” decidiram que “tem mulher pra casar e mulher pra zoar”. Já que eles não entendem, NÓS temos que fazer tudo, né?

Sério mesmo que tem quem consiga repetir esse discurso e achar que ele faz sentido? Que à mulher cabe MAIS ESTA incumbência? Sério que é neste mundo que queremos que nossos filhos vivam? Porque eu quero que o meu filho viva num mundo onde as mulheres tenham desejos, fantasias e possam confiar no companheiro que escolheram para aquele momento.

Enquanto pensarmos com essa mentalidade medieval, tratando os homens como seres inimputáveis, nada vai mudar. Enquanto pensarmos que os homens são bebês incapazes de entender que TODAS as mulheres merecem respeito e que sim, é inadmissível dizer “tem mulher pra zoar e mulher pra casar”, meninas vão se matar de vergonha.

Não, não adianta falar “é assim”. Eu sei que é assim. Tanto é assim que meninas vêm morrendo, como antes eram expulsas de casa por não serem mais virgens ou por terem engravidado. E as coisas só vão “deixar de ser assim” quando a postura de pessoas decididas mudar.

Cabe a nós, adultos, mudar essa postura. Cabe a nós, pessoas cientes de nosso lugar na sociedade, questionar cada uma dessas vozes. Cabe a nós, a cada “vagabunda” que é dita em uma situação de porn revenge, defender a vítima e atacar quem violou sua confiança. Essas vozes devem ser questionadas e caladas. Só assim isso vai mudar. Se você é da turma que fala “ah, mas ela também…”, pense duas vezes. Você pode estar endossando a conduta desses caras. Você no fundo, também deve achar que “tem mulher pra casar e mulher pra zoar”. E sabe? Eu não queria dividir uma mesa de bar com você.

~~~~~~~~~~~00000000~~~~~~~~

P.S. Conversem com seus filhos. O termo que eles usam para esse tipo de coisa hoje é “arrastar” (de drag, da internet). Arrastar uma menina é cada vez mais comum. Ele acha que uma menina que é arrastada é uma vadia? Por quê? Por que ele pensa isso da menina e não desanca o pau no cara que arrastou ela? Você recebe o amigo do seu filho que tem o hábito de “arrastar” meninas? Acha que ele é um cara bacana? Isso é discutido na sua casa? É assim que hábitos e costumes são modificados. Arrastar meninas deve ser um hábito socialmente rejeitado e não socialmente aceito. E mães podem muito, vocês sabem. Sim, estou pregando uma caça às bruxas. O que eles fazem é crime. E eu não admito isso.

Youkali e os tons de cinza

Passeando com um dos meus amigos mais queridos da vida (falo dele no último trecho deste post) sábado na feira orgânica da Barra Funda, comentava sobre  um dos últimos textos do Contardo Calligaris, que eu adorei e que muita gente viu como um soco no estômago.

Segundo o Contardo Calligaris, depressão acontece quando as pessoas não conseguem mais ver o encanto do cotidiano, aquilo que eu chamo de ver ritual onde as pessoas vêem rotina aborrecida, ver cor no dia a dia, nas pequenas coisas, porque é disso afinal, que a vida é feita: de pequenos momentos aqui e ali, e não dos momentos grandiosos, dos acontecimentos retumbantes. Estes têm sua força, nos nutrem por certo, mas é nas cores do dia a dia, é na conversa de todo santo  jantar, naquele telefone de boa noite ou pra dizer “não tive um dia bom e precisava falar com você” que as relações se constroem e a vida acontece.

Aí ele responde: ” o problema está justamente aí: não é que você não vê cor; às vezes você até vê cor, mas as únicas cores que você vê são vários tons de cinza”.

Tive que concordar. Quem nunca esteve lá no fundo do poço que atire a primeira pedra.

Inconscientemente ou não (ele sempre teve o dom de saber o que acontece comigo sem que nem mesmo eu saiba, aquela peste), depois do almoço ele me mostrou um vídeo lindo, da soprano Teresa Stratas (que eu, felizmente eterna ignorante, não conhecia), um Tango Habanera tristíssimo chamado Youkali, de Kurt Weill (o mesmo que escreveu a deliciosa Speak Low), cuja música sem a letra originariamente fazia parte de uma peça chamada Marie Galante e que merece ser visto:

 

A

A letra é linda:

C’est presqu’au bout du monde
Ma barque vagabonde
Errant au gré de l’onde
M’y conduisit un jour
L’île est toute petite
Mais la fée qui l’habite
Gentiment nous invite
À en faire le tour

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Youkali
C’est la terre où l’on quitte tous les soucis
C’est, dans notre nuit, comme une éclaircie
L’étoile qu’on suit
C’est Youkali

Youkali
C’est le respect de tous les voeux échangés
Youkali
C’est le pays des beaux amours partagés
C’est l’espérance
Qui est au coeur de tous les humains
La délivrance
Que nous attendons tous pour demain

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

Et la vie nous entraîne
Lassante, quotidienne
Mais la pauvre âme humaine
Cherchant partout l’oubli
À, pour quitter la terre
Se trouver le mystère
Où nos rêves se terrent
En quelque Youkali

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Youkali
C’est la terre où l’on quitte tous les soucis
C’est, dans notre nuit, comme une éclaircie
L’étoile qu’on suit
C’est Youkali

Youkali
C’est le respect de tous les voeux échangés
Youkali
C’est le pays des beaux amours partagés
C’est l’espérance
Qui est au coeur de tous les humains
La délivrance
Que nous attendons tous pour demain

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

(a versão em inglês, pra quem não entende francês, está aqui)

Chorei de borrar o rímel vendo o vídeo. Tá tudo misturado ali: tem mulher velha com moço moço, mulher com mulher, velhinhos, gente gorda, gente magra, todo mundo dançando feliz… Tem esperança. Tem serenidade. Tudo flui.

Mas como a letra bem diz,  isso não existe, né? Principalmente nos dias intolerantes de hoje. Youkali é só um sonho, uma loucura, não existe, nos conta a letra.

O problema é quando a gente não consegue sequer sonhar com ele. Como eu sempre digo, a pior coisa que pode acontecer a alguém é sentir desesperança, ter a plena convicção de que vai ver tudo cinza pra sempre e o pior: se conformar com isso, sequer ter forças de se revoltar com essa cinzidão toda. Ter forças somente para respirar fundo e olhar para o outro lado, colocando um sorriso no rosto quando vê que vai chorar se parar pra pensar em determinados aspectos da vida, porque se parar para pensar, vai chorar dias a fio e entrar num buraco de dar medo aos mais corajosos. Só quem já esteve (ou está) lá sabe como é isso. Não quero isso para o meu pior inimigo. Vou contar pra vocês: sorte daqueles que ainda conseguem sonhar com Youkali.

 

 

Direito e Internet – Algumas Reflexões

Semana passada estive presente ao I CiberJur – Congresso Nacional de Direito e Tecnologia. Tenho achado muito bacana ver direito e internet discutidos com maior frequência (foi tema também do Social Media Week São Paulo), algumas palestras (como a do Alexandre Atheniense) foram instrutivas para mim, mas em outros campos, senti falta de um aprofundamento maior da matéria, abordando temas além de exposição de da pessoa, de imagem, direitos autorais e segurança.

O Congresso realmente procurou abarcar inúmeros temas (adorei uma discussão sobre direito autoral sobre comentários em blogs, por exemplo) e justamente por isso seria impossível termos profundidade.

Mas senti falta de uma maior intimidade com a internet por parte dos advogados lá presentes, sabem? A verdade é que a comunidade jurídica ainda é pouco familiarizada com ela. Seria de se esperar que em um Congresso de Direito e Tecnologia, o tema estivesse sendo ventilado pesadamente nas mídias sociais, como o Twitter por exemplo. Foi com muita decepção que constatei que uns 10 advogados, se tanto, estavam tuitando o evento. E aí fica a pergunta: será que dá pra ser especializado na área se você não vive o seu cotidiano?

A seguir um resumo do que vi e discuti e do que não vi e queria ter visto. Como disse, acho que há muito assunto além de propriedade intelectual, exposição na internet e comportamento. Faz-se mister avançar, porque a internet é rápida e não vai esperar a comunidade jurídica, sinto informar. Já estamos demorando bastante

Internet e direito do trabalho

Infelizmente, perdi uma palestra interessantíssima sobre internet e direito do trabalho. No entanto, o José Vitor esteve presente a ela e apesar de ter perguntado uma de minhas dúvidas principais, não obteve nenhuma resposta conclusiva. Tenho estado um tanto quanto preocupada (e agora receberei uma chuva de reclamações, mas aqui quem está escrevendo é a advogada e não a blogueira, desculpem) com os perfis que descrevem o cargo e a empresa da pessoa e a possibilidade de cobrança de horas extras no futuro. Eu sei que Twitter apaga o conteúdo três meses para trás, eu sei que a prova é meio complicada, mas eu também sei que a Justiça do Trabalho em algumas situações é bem favorável ao empregado, e a depender da forma como o perfil esteja descrito e do conteúdo deste, não acho difícil uma equiparação à jurisprudência do telefone celular e aos antigos bips (basta dizer que há julgados dizendo que basta a “o constante estado de alerta e disposição do empregado em relação ao empregador” . Quanto aos perfis que têm o nome da empresa em suas “arrobas” (por exemplo, @jose_jornaldascouves, eu diria quase que com 100% de chance de acertar que as empresas deveriam se preocupar com a Justiça do Trabalho – e gostaria muitíssimo de ver temas como esse mais discutidos.

Sem dúvida, discutir comportamento na internet, relacionamento empregado-clientes, empregado-patrão, comportamento de uma forma geral, critérios de demissão, danos à imagem da empresa em razão de política de demissões baseado em comportamento na internet é sem dúvida importante, não discuto isso. Mas com todo o respeito, são temas sem maiores dificuldades acadêmicas e daqui por diante aos advogados caberá antes um trabalho de evangelização ( o termo é bem esse) de seus clientes do que propriamente de estudo aprofundado do tema, de uma vez que estamos tratando de regras comezinhas de direito – enquanto isso, tem muito assunto bacana dando sopa por aí, né?

Agências Publicitárias e Advogados

Outro tema que tem me interessado muito é a mudança do perfil do advogado com o advento das mídias sociais.

Participei de uma discussão calorosa sobre qual seria a solução em casos de gerenciamento de crise, e devo dizer que nesse aspecto sou (para variar) totalmente contra a corrente majoritária.

Isto porque enquanto alguns entendem que um dos trabalhos principais do advogado hoje em dia é retirada de conteúdo desabonador, eu estou firmemente convicta que nos casos envolvendo ações publicitárias desastradas ou naquelas onde surjam problemas, ou ainda naqueles casos envolvendo direito do consumidor, medidas jurídicas visando a retirada de conteúdo (apesar de tecnicamente corretas, ressalto), têm um efeito nefasto nas redes sociais, causando um dano à imagem da marca ainda maior do que aquele que se visava evitar inicialmente.

Cliente contrariado sempre atrai a simpatia do público, que em última instância não deixa de ser cliente. Advogado não é publicitário, não tem que dar pitaco,  dirão alguns, e é bem verdade. Mas de nada adianta tomar uma medida jurídica tecnicamente correta visando sanar um problema da empresa se você vai criar outro, e acredito que a função de um bom advogado seja olhar para todos os aspectos do caso. Não aprovo portanto tais medidas nos casos que envolvam direitos do consumidor e campanhas publicitárias.

No calor da discussão, perguntaram o que eu acho correto fazer. Em primeiro lugar, acho que está na hora de publicitários e advogados deporem armas e trabalharem em conjunto, ao menos quando estamos falando de internet, porque é uma área sensível onde não basta só conhecer a legislação; há que também conhecer a reação da internet (falo dela como algo vivo, porque a vejo assim).

A meu ver, a partir do momento em que o cliente aprovou uma ação a ser veiculada na internet, o advogado precisa participar de tudo: desenvolvimento de aplicativos, adequação de regulamentos, revisão de contratos de parceiros, tudo isso adequado ao ambiente eletrônico, que é muito diferente dos outros em função da sua rapidez e abrangência – além de estarmos num meio híbrido, que passa a ideia de informalidade mas é escrito, publicado.Cumpre lembrar ainda que em termos de custo a advocacia preventiva é sempre muito menos custosa que a litigiosa – além de evitar danos à imagem da empresa.

Há casos por certo, em que mesmo com todos os cuidados tomados, o conflito instaurar-se-á. Nesse caso, devemos tomar o caminho da retirada de conteúdo? Eu ainda acho que essa é uma medida extrema que só deve ser tomada depois de muita reflexão. Acredito na solução de conflitos via acordo, em um tripé entre departamento de marketing, departamento jurídico e relações públicas das empresas. Aos advogados cumpre agir em consonância com os demais, o legal caminhando com a boa imagem da empresa. Estamos falando de consumidores, de público, e não podemos vê-los como inimigos, como “outra parte”; é por isso que esse tipo de advocacia deve ser menos truculenta na forma de agir – o que não significa de forma alguma, que não seja menos efetiva. É para se pensar, certo?

Direito ao silêncio do chip

Outra palestra que perdi que me pareceu muito interessante: hoje em dia, os passaportes americanos (e se entendi corretamente por esse texto aqui, os brasileiros também) têm um chip que o identificam. O problema é que eles não fazem só isso: identificam, por exemplo, quem é americano para outras pessoas. Um americano, dentro de pouco tempo, não terá o direito de circular pelo mundo sem as pessoas saberem que ele é americano e provavelmente as pessoas de outra cidadania também.

Isso deve ser complicado para um americano circulando pelo Afeganistão, mas igualmente complicado para um iraniano no meio oeste americano, imagino.

Só que a coisa não para por aí. Dentro em pouco tempo, não é só o Google que vai saber tudo o que nós pesquisamos na internet: empresas vão saber tudo o que nós compramos e possuímos dentro de casa graças aos chips que os produtos possuirão. É isso que deve e precisa ser estudado e regulamentado – a menos que ninguém se preocupe com qualquer tipo de privacidade (há quem acredite que se ninguém tiver privacidade isso não vai ser mais importante, é um ponto a se pensar também).

Como vocês percebem, há muito mais coisa a ser estudada na internet além de segurança, exposição e direitos autorais. Que venham mais debates e mais fóruns 🙂

 

 

 

Quando mudam as perguntas

Minha bio no twitter diz: “tem opinião pra tudo, até para o que não conhece. mas está sempre certa”. Gosto de brincar dizendo que estou sempre certa porque numa discussão, quando por vezes vejo que me enganei, dou o braço a torcer e mudo de lado (não reclamem, isso é estar do lado certo afinal :-p)

Mas aí vem a adolescência do seu filho e você cai do cavalo. E não, não estou falando cair do cavalo em decorrência daquelas coisas que todo mundo espera: brigas, bateção de porta (ao menos elas não começaram ainda), drogas. Para isso eu vinha me preparando há anos (eu diria que vinha me preparando desde que ele nasceu).

Você cai do cavalo porque seu filho de 14 anos resolve ter dois AVCs. É, isso mesmo. AVC. Aquele treco que você acha que só acontece com velho e com balofo, mas não com uma criança saudável e esportista.

um dos dias mais aflitivos da minha vida

<abre parênteses> Não, ele não teve sequela alguma, e está tudo mais ou menos bem, e esse post não é pra fazer mundo cão. Quem me acompanha pelo twitter e facebook sabe o sufoco que foi aquela semana no hospital e as subsequentes, e eu não terei jamais palavras pra agradecer os inúmeros votos de melhoras (por vezes de gente que até então jamais havia falado comigo) durante aqueles dias. Tal como o Inagaki, acredito que a internet por aproxima as pessoas de forma quase mágica. Banana e chorona do jeito que sou – apesar de as pessoas não me enxergarem assim, sei lá porque-, tenho certeza que teria sido muito mais difícil atravessar aquela semana sem o apoio de tanta gente que perguntava, rezava, se preocupava comigo e com o meu filho. Não quero correr o risco de esquecer alguém, por isso vai aqui o meu agradecimento profundo a todos aqueles que nos apoiaram, que se preocuparam conosco. Não vou esquecer aqueles tweets nunca. Quem diz que internet só constrói relações superficiais realmente não entende nada. Tolinhos.  </fecha parênteses>

Mas voltando ao assunto: O problema do mundo sempre é depois  do felizes para sempre né? Pois então, quando os filhos melhoram as mães tombam. E algumas percebem que não são tão boas quanto gostariam. Que não são tão fortes quanto gostariam. Muito menos tão adultas ou racionais quanto se imaginavam. Ou tão sabichonas. E mais do que isso: elas simplesmente não conseguem ser fortes e equilibradas quanto precisariam para dar apoio aos filhos, simplesmente porque não aguentam vê-los ficar tristes. Alguém gosta de se olhar no espelho, ou para dentro de si e não gostar do que vê? Poizé, eu também não. Muito menos eu, a dona sabichona.

A gente *acha* que está preparado para vê-los seguir o caminho deles. A gente *acha* que está preparada para vê-los sofrer na frente da gente. E sabe? Por um tempo, quando as coisas são só privá-los do programa da televisão, do videogame, e a gente consegue dizer não, por vezes conseguimos acreditar que realmente estamos conseguindo ser suficiente duros (ou ao menos realistas) com nossos filhos. A gente até consegue ler esse texto da Eliane Brum, bater no peito e dizer: “eu não, eu sou diferente”.

A verdade? A verdade é que quando a porca torce o rabo, você percebe quão pouco tolerante às frustrações você próprio é, o quão infantil você ainda é e o quanto você não suporta ver seu filho sofrer, ainda que esse sofrimento seja muito relativo. Ver seu filho preocupado porque não sabe o que causou o incidente e ter medo de ter outro é muita coisa? Ficar sem jogar as finais das Olimpíadas da escola pelas quais ele esperava há um ano é muita coisa? Racionalmente não, mas para ele é muito. Para mim também. Eu choro quando não devia, e acho que o mundo não é lá muito justo. Infantil né? Também acho.

ele recebeu a medalha apesar de não ter jogado as finais

A verdade é que quando a porca torce o rabo você faria quase qualquer coisa para que seu filho pudesse viver de forma menos frustrante. Como diz aquela música do Ray Charles que o apdeites tuitou segundos depois de um daqueles telefonemas que têm feito com que eu respire fundo e consiga arrumar coragem sei lá de onde (é, telefonema dado por você mesmo, que tem tido uma paciência de Jó, e que tá quase merecendo ser canonizado, hehehe), “If I could – I’d protect you from the sadness in your eyes”. Mas não podemos né?

Eu sei. Vocês  vão dizer que são os micos de viagem que a tornam divertida, são as pedras na estrada que a tornam diferente de tantas outras, no fim a gente ri, bla bla bla… mas sabe… na hora em que o mocinho tá apanhando do bandido, a menina sempre quer que ele pare de apanhar. Faz qualquer coisa para que isso aconteça. E se a mocinha faz, imagine a mãe do mocinho, né?

Só que não tem jeito. Por mais que a gente não queira, chega uma hora em que os filhos vão ter que passar as provações e os perrengues deles. São os *deles* e não os nossos, e temos que entender isso. Ficar lamentando que eles tenham que passar por eles só vai piorar tudo para os filhos. Só vai fazer com que eles pensem que a vida deles é uma injustiça quando na verdade… Quem disse que o mundo seria justo, não é mesmo?

É por isso que tenho estado tão chateada. Porque treinei tanto pra nada. Porque de tanto treinar passes, tenho batido pênaltis que nem o Elano. Porque tenho discursos prontos para os mais diversos problemas e eles vão direto pro lixo (a menos que eu os venda pra alguém, hehehe).

Como bem diz o ditado, a gente se preocupa tanto em saber as respostas das perguntas, que um dia as tais perguntas mudam. Tem sido um belo exercício de humildade, devo admitir 🙂

Cidades onde deixei meu coração

*Blogagem coletiva “Umas com tanto, outras com nada“, detalhes ao fim do post

Meu pai era do tipo para quem 600km de distância (de carro, bien compris) eram ali do lado. Programar viagem? Claro… Você comprava a passagem, reservava o hotel da chegada e o da volta, alugava um carro, fazia um roteiro aproximado das principais cidades que você queria conhecer e quantos dias gostaria de ficar em cada uma delas, e tava feito.

O estudo era do trajeto. Das cidades pelo caminho onde poderíamos parar. Ou não. Tudo podia ser mudado de última hora se, por exemplo, no meio do caminho tivéssemos um lauto almoço que nos obrigasse a parar para pernoitar no andar de cima do Relais Chateau em questão (como aconteceu uma vez em Dijon, cidadezinha pela qual me apaixonei). Dane-se se com isso um dia de [coloque aqui o nome de uma cidade gracinha da França de sua escolha] ia ser sacrificado. Ele não dava a mínima. “Não recebo do Guia Michelin por cidade ticada”, costumava dizer.

Para ele, realmente interessava o trajeto, e não o destino. “As únicas cidades que merecem 4 ou 5 dias são Paris, Londres, Nova York, Madrid; o resto, um ou dois dias está bom, então pra que se preocupar?”.

Exagero, claro. Mas meu pai era exagerado. Talvez por conta desse exagero, eu seja exatamente o contrário. Até curto o trajeto – porque nele, como bem diz meu sábio filho, normalmente acontecem os micos que distinguem a *nossa* viagem da viagem dos outros mortais.

Por isso, quero voltar sempre (assim como a Mari Campos) aos locais que já estive. Alguns acham isso perigoso. Mas sabem de uma coisa? Só é perigoso se vc quer viver exatamente a mesma experiência que viveu antes. E não dá né? Aquela história do homem no rio, bla bla bla. Mas se você não quiser repetir, e sim *descobrir* mais, devorar a cidade como um gafanhoto, aí é bacana… eu sou uma rata da minha própria cidade e nem mesmo assim consegui esgotá-la 😀

Por conta disso vivo sempre um dilema: quero conhecer lugares novos, mas quero voltar aos antigos. Não fazer isso me parece traição. E como não nasci milionária, instala-se um problema sério…

Tá, eu sei, tô enrolando e vocês querem saber pra quais cidades eu não me canso de voltar. Mas é que eu tô aqui mais interessada no motivo pelos quais as cidades nos fazem voltar. Beleza? Há cidades belas que nos fazem voltar, mas não creio que seja isso. Beleza não é (só) o que nos faz voltar a uma cidade, assim como não costuma ser o que nos prende a um companheiro por um grande período de tempo Adoro aquela música do Vinicius em que ele diz que “…senão, é como amar uma mulher só linda”. A música diz também que uma mulher tem que ter “aquele molejo de amor machucado” (uma frase que não me canso de repetir e de amar – e que espero ser um dia, aos olhos de alguém).

Acho que é isso, sabem?As cidades para as quais voltamos, de um jeito ou de outro, nos emocionam. Sempre. E eu acho que a emoção vem desse tal de “molejo de amor machucado” que cada uma delas tem para nós: o que elas têm de imperfeito que justamente as faz tão… humanas. Talvez seja o jeito de tratar o turista (mal ou bem), talvez sejam seus habitantes, mas de um jeito ou de outro, as cidades para as quais queremos voltar sempre nos aconchegam. E justamente por isso, o que apraz a uns não a outros, do mesmo jeito que eu só olho pra morenos e raramente pra loiros, e com outras pessoas é o inverso. Deu pra entender?

Nova York, apesar de fazer anos que não vou para lá, é quase hors concours: sua vida cultural feérica misturada com aquela bagunça de gentes (que eu enxergo um pouco em Londres) faz com que cada ida pra lá seja sempre tão diferente uma da outra que nem sei se dá pra dizer que você está voltando para a mesma cidade.

 

Paris idem. Paris pra mim tem uma peculiaridade: não dou a mínima se a parte cultural é bacana ou não. Sempre é, mas não é por isso que sempre quero voltar pra lá. Vocês vão rir, mas… é pelo jeito como em algumas padarias eles embrulham as tartelettes de framboesas, parecendo um origami.

Paris está nos detalhes, como eu sempre digo, precisa ser descoberta. E cada vez que estou lá, fantasio que moro lá um pouquinho naqueles dias. Vou comprar meus queijos, meus vinhos, paro pra tomar meu capuccino com croissant… eu não quero “fazer coisas” (como diz meu filho), não quero “ticar monumentos”, ou em ve-ene-vês, não quero fazer lerês; eu quero parisiar, flanar. Como diz a música, J’ai deux amours, mon pays et Paris.

Meu sonho de consumo? Ser clone do Jorge Amado e morar 6 meses em Paris e passar o verão na Bahia. Sim, na Bahia.

Porque eu adoro Salvador né? Aquela cidade feia, meio suja, que ninguém entende direito. Aquela mistura de sacro e profano que me encanta. Aquela mistura de sal, dendê (e xixi no Carnaval). Tem o lado feio também. O racismo (nem tão) surdo que você ouve, e que um dia vai explodir. Mas é ali que me refaço. É ali que chego quase todo final de ano quase rastejante, sem forças, e volto renovada. É, eu sei, eu pego o melhor que Salvador tem pra me oferecer: a cidade no seu auge, no seu melhor, com milhões de coisas acontecendo.

É um amor de verão. Mas ao menos eu sou uma amante de verão fiel, que a defende com unhas e dentes, e ela sabe disso. Não troco minha querida Salvador e suas festas de largo por praia de areia branca e mar verde do Caribe nenhum. Como diz o Riq Freire, e lá no Caribe tem sirigueloska por acaso? Tem não…

O Rio de Janeiro é outra cidade que não consigo ficar um ano sem ir. Seja pelos amigos queridos que tenho lá, seja pela paisagem impressionante, linda, pelas rodas de samba, calçadão, ah sei lá. Não dá pra falar do Rio depois desse texto aqui. Só sei que o Rio de Janeiro continua lindo, vale mesmo com chuva, e não vivo sem ele.

<abre parênteses>: não sei porque, mas uma cidade que acho visualmente parecida com o Rio, ainda que somente no jeitão, é Honolulu – talvez a Lucia Malla saiba me explicar por quê… </fecha parênteses>

Barcelona é uma cidade para se voltar sempre. Madrid também é, mas eu tenho ascendência catalã, então puxo brasa pro meu lado. Mas preciso conhecer Portugal. Tenho a impressão que vou adorar Lisboa.

E tenho medo de Berlim. Muito medo. Já desmarquei mais de uma vez passagem para Berlim, porque tenho a impressão de que se me soltarem por lá, periga de eu enlouquecer. Feeling. Um dia eu conto o que aconteceu 🙂

Na seção lindinhas queridas pra passar o fim de semana estão Ilhabela e Paraty. Ambas cidades coloniais paulistas (sim, paulistas. Cariocas têm essa mania boba de achar que Paraty lhes pertence só porque a cidade está do lado deles da fronteira, mas é bobagem. Em Paraty o dialeto dominante é o paulistês – nem sei se isso é bom, na verdade, mas é uma curiosidade sobre a cidade, hehehe), com vistas lindas, restaurantes gostosos e um pessoal bacana.

 

Ilhabela vista da pousada onde costumo ficar

 

 

não é uma delícia de lugar pra se tomar café lendo um livro?

Das cidades que eu não faço questão de voltar… Vocês vão me matar, mas Buenos Aires, que todo mundo adora, não me apaixona. Tenho preguiça. Tenho muito mais vontade de conhecer Santiago ou Lima do que voltar pra Buenos Aires. Tô nem aí pra Buenos Aires. Prefiro, sei lá, passar o fim de semana em Paraty (que eu adoro). Eu sei, ela vale a pena, tem os restaurantes, as compras, o câmbio tá bom… mas de novo: eu tenho preguiça.

Não preciso voltar pra Quebec, mas a viagem até lá é linda (alá meu pai influenciando). Niagara Falls definitvamente é lugar que não só não preciso voltar como também um ao qual não precisaria jamais ter ido. É um mix de Poços de Caldas com Chafariz de Shopping (sem o doce de leite de Poços, bien compris – nem o leitãozinho). Las Vegas é divertido, mas também não carece de mais que uma visita (um dia preciso contar o episódio em que o pai de lordrastajr foi preso no caminho de ida e eu tive que trocar travellers num casino furreca para soltá-lo, numa cidade daquelas de filme pesadelo no meio do deserto). Mas sei lá, de repente, num rompante…

Florianópolis é outra cidade pela qual não morro de amores (perdão amigos queridos que moram lá). E é linda né? Mas o tal do molejo de amor machucado, sacumé… Costumo provocar dizendo que praia sem coqueiro eu tenho aqui do lado, em Ilhabela.

 

 

O pôr do sol mais lindo que a poluição pode te proporcionar

Mas sabem? Eu reclamo, reclamo, reclamo… Mas a não ser aquele combo jorgeamadiano que mencionei, não troco esse maldito por do sol cor de rosa aí de cima por nada. Não adianta. Como dizia meu pai, melhor hotel ainda é a minha casa, e pra cá que eu sempre quero voltar. <3

****

Sobre a blogagem coletiva:

*Na semana passada, numa troca de tuites entre CláudiaNatalieCarinaPatriciaCarmemMarcie, surgiu a ideia de listar os lugares que cada uma delas considerava “viu-tá-visto”. Aí a conversa evoluiu e dedidiram fazer também uma segunda lista – com cidades ou países para onde voltariam sempre. Mais gente foi entrando na conversa e, no fim,  a notícia se espalhou e a gente decidiu, vejam só fazer uma blogagem coletiva com o tema “umas com tanto, outras com nada” hoje, dia 19. Então aqui vamos nós. VISITEM OS OUTROS PRA VER O QUE ELES APRONTARAM!!! CORRÃO!!

Blogs que participaram da postagem:

Abrindo o Bico

Agora Vai Mesmo

Aprendiz de Viajante

Área de Jogos da Dri

Big Trip

Blog da Nhatinha

Boa Viagem

Caderninho da Tia Helô

Colagem

Cristomasi

Croissant-Land

De uns tempos pra cá

De volta outra vez

Dicas e Roteiros de Viagens

Dividindo a Bagagem

Donde Ando? Por aí.

Dri Everywhere

Filigrana

Flashes por Si

Guardando Memórias

Inquietos Blog

JB Travel

Jr Viajando

Liliane Ferrari

Ladyrasta

Mi Blogito

Mala de Rodinhas e Necessaire

Mauoscar

Mikix

Olhando o Mundo

O que eu fiz nas Férias

Pela Estrada Afora

Pelo Mundo

Psiulândia

Rezinha Por aí

Rosmarino e Outros Temperos

Sambalelê

Senzatia

Sunday Cooks

Turomaquia

Uma malla pelo mundo

Uno en cada lugar

Viagem pelo Mundo

Viaggiando

Viajar e Pensar

Viagem e Viagens

 


Se pode marcha da maconha, pode marcha do nazismo e pró-homofobia, né?

Ontem houve julgamento da ação mencionada nesse post, proposta pela minha ídola Débora Duprat, onde a marcha pedindo a liberação de drogas proibidas, conhecida como “ marcha da maconha”, foi liberada, mandando de volta para os bancos da academia o Desembargador paulistano Teodomiro Fernandez e o membro do Ministério Público Marcelo Luiz Barone (o qual, ao invés de defender a liberdade de expressão, entendeu ser seu dever coibí-la).

 

Procuradora Geral da República, Débora Duprat, por Fellipe Sampaio

Destaco trecho da matéria do Conjur:

“Ministro Celso de Mello deixou claro que a defesa pública da legalização é lícita, embora não implique em uma permissão do uso de psicoativos durante esse tipo de ato. Pelo contrário, somente na via pública os cidadãos poderão “propor soluções, expressar o seu pensamento, exercer o direito de petição e, mediante atos de proselitismo, conquistar novos adeptos e seguidores para a causa que defendem”. Essa possibilidade de reunião, acredita o decano, é tanto uma liberdade, quanto uma obrigação que deve ser garantida pelo Estado. “

Foi uma grande vitória para as liberdades civis, mais uma, e o STF mais uma vez cumpriu seu papel de forma magnífica, com voto brilhante do Ministro relator Celso Mello. Os votos foram inclusive bem humoradíssimos, com a Ministra Carmem Lúcia destacando a criatividade dos manifestantes criando a alternativa “marcha da pamonha”, e o Ministro Aurélio afirmando que o voto do Ministro Celso de Mello tinha sido muito bem “baseado” (gíria que é sinônimo do cigarro de maconha).

No entanto, durante o julgamento, algumas vozes no twitter me assustaram um pouco, pois ouvia-se, aqui e ali, argumentos no sentido de que, se era possível sair às ruas para pedir a descriminalização de um produto proibido, tendo em vista que isso não seria apologia ao crime, poder-se-ia também sair às ruas apregoando o nazismo.

A mim tal argumento soa absurdo; me parece claro que sair às ruas pedindo para que você possa fazer algo sem coagir alguém é bastante distinto de sair às ruas pleiteando para discriminar outrem, não?

Não esquecendo nunca daquela máxima que o seu direito termina quando começa o do próximo. Mas vivemos mesmo em tempos estranhos.

Tanto vivemos que até mesmo jornalistas trabalhando em empresas conceituadas têm ideias equivocadas quanto à liberdade de expressão no país

 

Para esclarecer esses equívocos, é importante que se ressaltem as palavras do Ministro Marco Aurélio, que  em voto curto mas esclarecedor, nos ensina:

“O que extraio da Convenção? De início, o direito à liberdade de expressão é irrestringível na via legislativa. Cabe ao Estado somente tomar as providências para responsabilizar ulteriormente os excessos – artigo 13 (1) e (3). E por que estou recorrendo à Convenção? Porque o artigo 13 (5) prevê claramente as hipóteses em que é admissível a restrição à liberdade de expressão. Observem: 5. A lei deve proibir toda propaganda a favor da guerra, bem como toda apologia ao ódio nacional, racial ou religioso que constitua incitamento à discriminação, à hostilidade, ao crime ou à violência. Parece-me, portanto, ser legítimo afirmar ter havido derrogação do artigo 287 do Código Penal com o advento do Pacto de São José da Costa Rica. A conjugação dos preceitos 13 (1) e 13 (5) conduz à conclusão de que somente são legítimos os crimes de opinião quando relacionados ao ódio nacional, racial ou religioso bem como a toda propaganda em favor da guerra. Fora disso, o reconhecimento de que a emissão de opinião pode configurar crime deve ser considerado proscrito pelo referido Tratado.”

Creio que esteja bem claro, não? Ou preciso chamar o Conselheiro Acácio pra explicar? 🙂

****

P.S. Obrigada ao Fernando por ter dado a pauta pra esse post. É que pra mim é tão óbvio…

P.S. Minha total decepção com Dora Kramer, que eu julgava ser uma jornalista ao menos ponderada. O twitter destrói reputações, fazer o quê…

 

 

 

De Nova York: Oscar Wilde na Broadway

Continuando a saga “Andrea em Nova York“, conforme prometido ela agora nos conta sobre a peça de teatro que escolheu para assistir em sua semana por lá. Divirtam-se!!

Indo à Broadway: “The Importance of Being Earnest”

meu ingresso para a peça

Antes mesmo de comprar a passagem para Nova York, eu comprei o ingresso para ir ao teatro. Sim, porque, assim que deitei olhos sobre a programação da Broadway e descobri que estava em cartaz uma peça de um dos meus autores favoritos da literatura inglesa, eu não pensei duas vezes. Foi praticamente o motivo principal que me levou à Big Apple desta vez! 🙂

 

"Playbill", o livreto informativo distribuído ao público antes da peça

“The Importance of Being Earnest”, de Oscar Wilde, foi escrita em 1895, na época Vitoriana, e trata-se de uma comédia farsesca sobre a trivialidade dos costumes e regras sociais de então. O personagem principal, John Worthing (interpretado por David Furr), inventa um novo nome e personagem para si, enquanto no interior inglês, para fugir de certas obrigações. Da mesma forma, seu amigo Algernon Moncrieff (Santino Fontana) inventou um amigo muito doente, coisa que também o livra de certas chatices em momentos cruciais. A partir da mentirinha de John, Algernon – que achava ser o único que cometia “Bunberryism” – acaba criando uma situação hilária e quase desastrosa.  Certamente muitos de vocês leram essa saborosa peça, mas não quero contar mais sobre o plot para não incorrer em “spoiler”- inclusive, nem vou explicar o que é “Bunberryism”! 🙂

 

Apesar de não ser a personagem principal, Lady Bracknell, interpretada pelo próprio diretor da peça, o genial Brian Bedford, torna-se o centro indiscutível das atenções. Lady Bracknell é a mãe de Gwendolen Fairfax (Jessie Austrian) e faz um completo e hilário escrutínio das qualidades e origem familiar de John para aprová-lo como noivo da filha, dentre outros diálogos saborosos. A cada frase dita por Bedford na pele de Lady Bracknell o teatro explode em gargalhadas. Ele é já é sensacional simplesmente movimentando-se pelo palco com vestimentas femininas vitorianas. Imaginem então interpretando um texto cheio de verve como  o de Oscar Wilde.

David Furr e Jessie Austrian como John Worthing e Gwendolen Fairfax

Outro ator cuja interpretação achei ótima foi a de David Furr como John Worthing. Encarna deliciosamente bem um cara-de-pau de carteirinha que não perde a pose, mas que, por amor, assume todos os riscos que sua pequena fraude trouxe à tona. Interpretação muito divertida que também merece menção é a de Jayne Hoydyshell, no papel de Miss Prism, personagem relativamente secundária, mas composta com perfeição.  O elenco é ótimo e todos fazem um trabalho de alto nível.

E, para não perder o costume de mencionar um tema #Brioches, a maquiagem da produção é feita pela MAC Cosmetics. <ladyrasta entra na sala>: aliás, a Andrea está fazendo resenha de vários produtos de maquiagem trazidos da viagem no blog, vai lá! <ladyrasta sai da sala>

Se você ficou interessado/a, a peça fica em cartaz até o dia 03 de Julho, no teatro American Airlines, em Nova York. No mês de Junho, mais precisamente no dia 02 (e algumas outras datas ainda não definidas até o dia 28/06), haverá apresentações em alta definição em salas selecionadas de cinema através dos Estados Unidos.

 

Você pode comprar seu ingresso antecipadamente no site oficial da peça. Há uma pequena taxa de serviço de US$ 2 adicionais ao preço do ingresso. Os assentos do teatro podem ser escolhidos online através do mapa do local.  Onde me sentei, o assento B107, é a terceira fila a partir do palco, e exatamente no centro. Lugar excepcional.

A peça é dividida em 3 atos, com dois intervalos de 15 e 10 minutos. O teatro dispõe de bombonière bacaninha e é bastante confortável. Recomenda-se chegar com 30 a 15 minutos de antecedência para a troca de seu bilhete web pelo bilhete oficial, e para a acomodação do público em seu lugares sem gerar atrasos.

Marcha da Maconha pode ser autorizada pelo STF

Falei semana passada sobre a proibição da Marcha da Maconha, e do quanto eu achava importante ficar atento ao que o Poder Judiciário, mormente o Ministério Público e os Tribunais (no caso, Paulistas) andavam aprontando.

Ontem, apesar de ter sido proibida,  houve uma manifestação pacífica linda (infelizmente não pude ir, apesar de ter acompanhado bem de perto), mas ainda não é possível, ao menos no Estado de São Paulo, a realização de uma passeata reivindicando o fim da criminalização do uso da maconha.

Pois bem: dando uma passeada pela internet, descobri que a Débora Duprat, enquanto esteve à frente da Procuradoria Geral da República, preocupada com tais proibições, propôs duas ações sobre o tema: uma Ação por Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 187), e outra Direta de Inconstitucionalidade, as quais, segundo matéria do Conjur, pedem “liminar para suspender, até o julgamento final das ações, qualquer entendimento judicial no sentido de que o artigo 33, parágrafo segundo, da Lei 11.343/2006 (ADI 4.274) e o artigo 287 do Código Penal (ADPF 187), possa ensejar a criminalização da defesa da legalização das drogas, inclusive por manifestações e eventos públicos. E, no mérito, a confirmação da liminar”. Separei uns trechinhos da petição inicial para vocês (não está em advoguês, é non-lawyers friendly 😀 ):

 

 

 

 

Fui ao site do STF ver em que pé estavam as ações. Uma está nas mãos do Ministro Relator, Celso de Mello, para análise, desde maio desse ano e… uhuuuuu!! O Ministro determinou que ela seja colocada em pauta (ou seja, que ela seja enviada a julgamento):

A outra ação (Direta de Inconstitucionalidade 4287) está  no Gabinete do Ministro Relator, Ayres Britto, desde 2009.

Não sei qual é a previsão de julgamento para estes processos, mas certamente é interessante que as organizações da sociedade civil fiquem atentas a ele e na medida do possível, tentem agendar audiências com os Ministros explicando a urgência desse julgamento, ante às cenas terríveis que vimos na semana passada. O que vocês acham?

E vai aqui, mais uma vez, todo meu respeito e admiração pela Débora Duprat, que em pouquíssimo tempo na Procuradoria Geral da República tratou de colocar em discussão itens delicados e fundamentais para a evolução da sociedade brasileira.

Débora, sua linda, um salve pra você!