Só quem tem filho (e a oportunidade de andar a sós com eles no carro) sabe como são divertidas, ricas e proveitosas as conversas que rolam quando estamos, eles no banco de trás, nós no banco da frente, sem que um possa olhar diretamente para o outro É meio como sessão de terapia né? Pelo menos no caso do meu filho, é nessa hora que ele se abre mais, conta coisas que o afligem, faz confissões, e, principalmente, se atreve a fazer comentários e digressões sobre assuntos do interesse dele. E nessa Páscoa, indo para a fazenda de amigos, ele soltou uma frasezinha que me fez ficar pensando muito, muito tempo.
A gente tava falando das trapaças que o Dick Vigarista e o Mutley faziam (será que existe alguém com mais de 30 anos que não tenha visto a Corrida Maluca? Ai, como eu queria – continuo querendo aliás – ter aquele carro da Penélope Charmosa, com secador de cabelo e aplicação de make up automática…), quando ele solta essa:
“-Sabe Mã, o engraçado é que o Dick Vigarista faz todas aquelas coisas para ganhar a corrida, mas para fazer todas aquelas coisas ele tem que estar muuuuito na frente dos outros caras para executar os planos. Então, ele nem precisava fazer nada daquilo, porque muito provavelmente ele já ia ganhar a corrida. Não dá pra entender né?”.
Fiquei pensando, pensando… e quer saber? Tadinho do Dick Vigarista. Acredita tão pouco nele, acredita tão pouco na sua capacidade…. Por acreditar tanto que só tem condições de ganhar uma corrida se for desonesto, acaba perdendo mesmo – porque perde o tempo precioso dele pensando na corrida dos outros, pensando nos outros, ao invés de pensar nele e na corrida dele.
E cá entre nós, gente: quantas e quantas pessoas (para não dizer nós mesmos em algumas situações ou fases de nossas vidas – e aqui eu visto a carapuça um pouquinho…hehehe) não fazemos e-xa-ta-men-te a mesma coisa? Acho isso triste sabia? Ter consciência de que às vezes nossa auto estima é tão baixa que jamais imaginamos sermos capazes de atingir nossos objetivos, ou realizar um sonho.
Caramba, porque o Dick não pode acreditar que ele é bom e que pode, muitíssimo bem, ganhar a corrida daquele mala do Peter Perfeito ou dos goiabas dos Irmãos Rocha? Por que ele acredita tão pouco nele? E por que ele tem um cachorro que vive dando risada das besteiras que ele faz? Por que ele tem um cachorro que se diverte com a miséria dele? Cachorros não deveriam ser leais? Será que esse é o único amigo que ele consegue ter? Será que não tem ninguém que diga pra ele que o Mutley é um interesseiro sacana, e que tem gente mais legal no mundo? Que é só ter coragem de mandar o Mutley plantar batatas, e vai aparecer outro cachorro que sente-se ao lado dele e esteja e-fe-ti-va-men-te ao lado dele e não torcendo contra? Alguém que diga pro Dick que era só ele acreditar nele um pouquinhozinho só?
Vocês podem falar pra mim que o Dick é aquele tipo de pessoa que, em podendo optar por fazer algo do jeito certo ou do jeito errado, faz do jeito errado ainda que dê mais trabalho, porque ele tem prazer nisso. Mas alguma coisa me diz que ele não é assim.
Pra mim ele é uma daquelas pessoas que não acreditam no próprio potencial, que não acreditam que conseguem “chegar lá pelas próprias pernas; não acreditam que têm a condição, capacidade, oportunidade e talento para alcançar seus objetivos – e, de tanto não acreditarem nisso, acabam enfiando os pés pelas mãos, fracassam, e passam a achar que precisam ainda mais da trapaça para vencer – porque sem a trapaça eles perdem, como vocês mesmos viram…triste né? E para que ninguém “descubra” o inseguro que é, o Dick faz cara de mau, que nem o lobo bobo da música…
O Dick Vigarista é o aluno que, às vésperas de uma prova da escola, passa a noite lendo o livro da matéria para fazer uma cola perfeita – para nós, é óbvio que ele já sabe a matéria de cor, afinal ele leu o livro todo (quiçá decorou o dito cujo) pra fazer o raio da cola né? – mas ele não acredita que sabe – ele tem medo de esquecer e tirar zero. Aí, no dia seguinte, o professor pega a cola embaixo da carteira, dá zero na prova, ele se ferra e todos os Mutleys da classe morrem de dar risada…E ele sai pisando duro, dizendo que não tá nem aí, afinal ele é malvado e durão né?
Caramba, nunca vai aparecer ninguém que faça ele participar de uma corrida sem roubar, e sem o Mutley por perto para se divertir às custas dele? Nunca vai ter ninguém para dizer ao Dick que ele é bom, e que ele precisa acreditar nisso? E que não vai acontecer nada, as pessoas não vão gostar menos dele se ele perder uma corrida? Nunca vai ter ninguém dizendo que o Mutley só torce contra ele?
Eu queria viu? Queria que um dia ele se olhasse no espelho acreditando que é mesmo um ás do volante, um cara super inteligente (e ele é mais inteligente que a maioria dos outros competidores, senão jamais teria aquelas idéias divertidas e surreais), e que ele pode, sim senhor, ganhar uma corrida sem trapaças. Assim como eu queria que todos os Dick Vigaristas do mundo acreditassem na capacidade deles de vencer, acreditassem que eles não precisam ter medo de ficar sozinhos e que deviam mandar os Mutleys às favas, e não ficassem desesperados se por acaso desse tudo errado…
Alguém aí fazfavor de ter uma conversa com o Dick?
Abril de 2007
P.S.: Sim, eu sou aquela que acha que alguns “malvados” são bonzinhos. E tenho certeza que o Snape jamais traiu o Dumbledore, e vocês vão ver que eu tinha razão quando os outros livros saírem…
Pra matar a saudade: um episódio da Corrida Maluca no youtube: [youtube=http://br.youtube.com/watch?v=Ji7KHXDm8Qo]
















Nossa, agora que você falou eu senti pena também. Coitado.
Ronaud não é?