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Calcinha Preta – um estudo antropológico

agosto 10th, 2007 · 3 Comments · Eu tava pensando..., Música


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Calma! Primeiro, não é nada disso que vcs estão pensando. Segundo, não precisa espinafrar, nem pra achar o fim do mundo tá?

É até bem cabeça, apesar de divertido… Eu explico.

É assim ó:

Eu sempre achei que ter preconceito com música pó-pu-lar (daquelas que tocam no último volume justamente no dia em que vc tá a fim de ouvir um chetbakerzinho báásico), é prova da maior insegurança possível, e além disso, um pouco de pedantismo. Me conta: por que só o que vc ouve e gosta é “in”, e o que o trocador do ônibus ouve é um lixo? (bom, eu responderia que é porque como sou eu que ouço, é bom, e o resto é um lixo…mas sou eu né? zi pretencious lady…).

Aos fatos: tava nos Lençóis Maranhenses em julho, e cruzei uns amigos em Jericoaquara, que estavam entre…digamos, pasmos e extasiados com o famoso conjunto chamado…tchan tchan tchan tchan… Calcinha Preta!!! Isso mesmo. Cal-ci-nha Pre-ta (pra dizer que eu nuuuunca tinha ouvido falar desse conjunto, quando voltei das minhas férias de janeiro o taxista que tinha ido me buscar no aeroporto disse que “eles” estavam no mesmo vôo que o meu. Mas confesso que não tinha captado a importância de tal encontro até outro dia. Porque os caras, pelo que entendi, são os reis da cocada preta no Nordeste).

Vc vai perguntar: Reis da cocada preta com esse nome? Sucesso? E vc tá perdendo seu tempo falando deles? Mas e as músicas?

Bom… tem aquela coisa dor de cotovelo básica, sim. Mas o que pega é que eles abordam questões do cotidiano das pessoas de menor poder aquisitivo, em ritmo de forró (forró bem comercial, diga-se de passagem). E é disso que elas gostam, porque se identificam.

E, como é que eu vou dizer… Eles não são os gênios da composição, longe disso. Mas é que é tão de verdade, que vc até releva…

Querem ver? Tem uma que chama “Leite Ninho” – a letra é sobre uma mulher que teve um filho com um cara, e ele não está nem aí com as suas ahn…”responsabilidades”. Dá uma olhada ( e clica no link pra ouvir): Faltou o Leite Ninho – Calcinha Preta

“Não é você quem passa fome
Não é você que vê um filho chorar
Você foi homem na hora da cama
Tem que ser homem pra suas contas pagar”

A moça aí tá dando a maior intimada no cara, viram? E essa coisa despudorada de falar “vc foi homem na hora da cama, tem que ser homem pra suas contas pagar” é tão real que eu quase posso ver a moça num baile, com a mão na cintura, vendo o cara “raparigando outra”, e passando o maior pito no tal fulano…(e cá entre nós, esta cena rola em qualquer estrato social…só muda a trilha sonora).

Mas peraí, não para por aí não!!! Tá pensando o quê? Olha só a continuação, com a “protagonista” reclamando:

Eu era uma menina linda, linda
E você foi chegando, me seduzindo
Eu fui me apaixonando
E você foi me iludindo
E aí deu no que deu
Nasceu, nasceu, nasceu
E você correu, correu, correu

Fiquei de pneuzinho
Aumentei uns quilinhos
Você me abandonou e nem olhou mais pra mim (ou ou)
Faltou o leite ninho do nosso filhinho
E você raparigando com as outras por ai”.

Gente, não dá pra não achar isso o máximo! A moça falando que embagulhou e levou um fora…

Acho engraçado…Toooodo mundo acha o máximo aqueles pintores naifs justamente porque eles não têm uma técnica muito apurada (bom, eu acho que é por isso que eles são chamados naifs, se estiver errada, me corrijam…), mas quando é música, só se houve um “ah, isso não é arte, isso é só pra ganhar dinheiro”…

Claro que eu estou careca de saber que, em termos musicais, ninguém ali é o Vinicius, o Cole Porter, ou o Jobim. Claro que eu sei que o objetivo é ganhar dinheiro. Claro que os versos são pobres (provavelmente tão pobres quanto os fãs – que ouvem a letra e se identificam), mas são letras que retratam a realidade da gente (a gente = brasileiros. Tá na hora de admitirmos que somos o conjunto disso tudo, que fazemos parte desse todo, inclusive junto com aqueles caras lááá em Brasília – não gostou? eu também não gosto. Mas não dá pra dizer que eles são normandos, dá? E cá entre nós, vc não tem nenhum primo, prima, tia, cunhada, que, se vc pudesse, não apresentava pra ninguém…nem pra vc? então…pois é…).

Voltando ao assunto: esses meus amigos falaram que ouvindo outra música em um taxi (dessa vez chamava “Pensão Alimentícia”), o motorista comentou: olha aí patrão, essa é a história da minha vida sabia?

Tá curioso? Olha aqui: Pensão Alimentícia – Calcinha Preta

“Que foi que eu fiz pra você
Mandar os “homi” aqui vir me prender

Tudo era tão lindo um conto de fadas
Tão maravilhoso a gente se amava
Foi nessa brincadeira que aconteceu
Nasceu um lindo filho que é seu e meu

Sou cachaçeiro sou cabra raparigueiro
Mas eu nao sou vagabundo
Eu sou do mundo
Sou de responsa eu sou mais um brasileiro
Com pensão para pagar e vou pagar
Mas nao é justo que pensão alimenticia
Vire caso de policia
Isso complica
Tá atrasada mas você não precisava me denunciar”.

Tem coisa mais legal que o taxista se identificar tanto com o “protagonista” a ponto de comentar isso com o passageiro (se bem que eles sempre comentam tudo…hehehe). Pode ser comercial, musicalmente pobre, mas o fato é que elas conseguem fazer uma conexão com o ouvinte.

Olha, eu acho que arte é qualquer coisa não advinda da natureza (criada pelo homem) que consiga, de algum modo, transmitir alguma sensação para a pessoa que entra em contato com a criação: sensação de repulsa, horror, medo, alegria, felicidade, identificação…Se pensarmos assim, eles são o máximo. Ou vai precisar o Caetano cantar “não é vc que passa fome”, que nem o “um tapinha não dói”, pra todo mundo falar que pensando bem, até que não é tão ruim?

Bom, dá licença que preciso apertar o play do CD de novo…(E isso porque vcs nunca ouviram falar de uma música que chama “vou te excluir do meu orkut”…hehehe…)

Ah! Vcs não vão acreditar: minha empregada acabou de ver a capa do disco. Sabem o que ela falou? “Sempre que toca “Pensão Alimentícia” minhas colegas cantam olhando pra mim e falando: olhaí a música do galego...” Eu tô dizendo...

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