From Lady Rasta

whatever pops in my mind

From Lady Rasta header image 2

(Algumas) considerações sobre a Parada Gay

maio 26th, 2008 · 2 Comments · Comportamento, Cultura, Eu tava pensando...

1. A Parada e eu

Sabe que é até engraçado? Eu, que costumo me identificar com o termo fag hag até com certo orgulho, que me considero uma S (de GLS) com “S” maiúsculo, não sou uma das que acha a Parada Gay o máximo – quando estou em SP acabo indo dar uma olhada porque moro a meio quarteirão da avenida Paulista, e aí não dá pra não ver mas…acho a vibe pesada. Pronto, falei. E espero que não seja apedrejada por causa disso.

Então, ontem não foi diferente – saí pra dar uma volta e dei uma olhada, claro. E confesso que com a música, acabo até me empolgando um pouco – mas não passa muito disso.

Eu nunca gostei muito da energia que rola na Parada, não por causa de preconceito; tenho o hábito (maior ou menor, a depender da fase da minha vida) de frequentar locais GLS; então, não é que eu me sinta pouco a vontade – mas sei lá…acho pesado – e ontem acho que finalmente consegui entender o por quê…

Porque ainda tem muita ansiedade e rancor, é a minha conclusão. Há uns dois anos atrás, ao ver o primeiro ou segundo carros (os quais normalmente pertencem àqueles super ativistas), eu quase comecei a chorar. Quase chorei porque a mídia sempre associa gay com alegria, e parece que todo mundo esquece que tem o outro lado: eles são humanos. E justamente por isso, têm suas tristezas, seus reveses (que, imagino, sejam de maior impacto porque além das vicissudes da vida, eles ainda por cima fazem parte de uma minoria. E se a vida às vezes não é fácil, que dirá vida de minoria). E, não sei se por defesa ou por orgulho, gays normalmente não gostam de mostrar a fragilidade que por vezes sentem…Então, eu ficava arrasada ao ver os gays que sofrem de AIDS e estão numa cadeira de rodas, os travestis que viraram tias velhas e hoje estão não só velhas mas também com os excessos de silicone aparecendo – e eu pensava, se isso (envelhecer) é complicado dentro do meio hetero, piora sensivelmente quando estamos falando de gays. Acho triste. Velhice aliás, é algo com o que nossa sociedade (ao invés da cultura oriental) lida muuuito mal – até pelo fato de não darmos valor a coisas importantes que alguns velhos podem nos dar: sabedoria, a vivência e a experiência ( o que é valorizado nas culturas orientais, dando, justamente por isso, um lugar de destaque – ou ao menos, um lugar – para os velhos naquelas sociedades).

Além da questão da velhice (que me pegou muito fundo), ontem finalmente consegui entender o motivo de eu achar a energia da Parada Gay muito pesada: porque ainda hoje existe um preconceito muito grande. Quer saber? Eu não queria estar na pele deles. Então, fico imaginando que, quando finalmente eles estão numa passeata na Avenida Paulista, eles também trazem para a avenida não só o orgulho por terem saído do armário, mas também tudo o que eles tiveram que passar para conseguir essa autonomia, essa afirmação – afinal, passaram por poucas e boas pra chegar lá certo?

Ora, é meio inevitável que a carga do preconceito e das desfeitas que passaram na vida estejam lá na avenida, junto com eles (como um fantasma a ser exorcizado) tornando a carga emocional de um evento desses muuuito diferente da Virada Cultural, do Reveillon na Paulista, etc. Eu sinto a história toda mais densa… O gozado é que, virando a Paulista e entrando na Consolação, a vibe muda radicalmente, e aí vira festa, fica gostoso, divertido. Sei lá porque, but that’s the way I feel…

Então é isso: podem me matar, mas eu acho a vibe pesada – talvez justamente por estarmos lidando com exposição de preconceito (exposição esta necessária, ressalto, até para minimizá-la).

*****

P.S.:Faço uma auto análise: talvez ao ver as bibas velhas na passeata, tenha ficado nervosa ao entender que sim, eu também vou ficar velha – e aí serei eu a fazer parte de uma minoria que, na nossa sociedade, também por vezes é invisível…

P.S. II: Não dá pra não mencionar uma frase do Ricardo Freire em post escrito ontem:

Há outras viagens, porém, em que gays e lésbicas vão em busca dos lugares onde se sentem mais à vontade. Não apenas por causa das possibilidades de romance e sexo que esses lugares proporcionam – e não há nada de mal nisso; na prática, a única diferença entre uma micareta e uma parada gay é o tipo de música –, mas pela sensação inusitada de sentir-se parte da maioria.

Lindo né?

P.S. III Nem por isso gente, deixo de ver a questão positiva, e acho que a principal delas é a possibilidade de, em pelo menos um dia, a sociedade enfrentar a questão. Sim, porque o volume de gays presentes e visíveis na cidade na semana da parada é tããão escandaloso, que as pessoas precisam, se não refletir sobre o assunto, ao menos enfrentar a realidade: os gays existem, são mais numerosos do que imaginamos, e não dá pra tratá-los como se eles fossem invisíveis…

2. A Parada e a mídia


Mas a mídia tem que tomar cuidado com o que escreve. E cuidado é diferente de censura, ressalte-se. E por isso fiquei bege, passada, engomada e plissada com a matéria que a Folha on line divulgou hoje, como se a Parada Gay tivesse sido uma Sodoma e Gomorra na terra. Porque em não sei quantas linhas, o cara não conseguiu ver um ponto positivo que tivesse havido (e certamente houveram). O cara tava de mal humor é isso? A namorada trocou ele por outra? Alto lá moçada – porque é justamente esse tipo de matéria que fortalece o preconceito.

A matéria fala que houve “utilizaçao explícita de drogas”. Meu Deus, estamos falando de um evento de 3,5 milhões de pessoas. A impressão que dá lendo a matéria é que somente gays consomem drogas. E não é por aí né? A matéria não fala de um aspecto positivo do evento, o que é deveras estranho. Dizer que 15 camas para utilização de emergência estão ocupadas como se esta fosse uma marca histórica é realmente fantástico. Peraí: QUINZE CAMAS em 3,5 milhões de pessoas, salvo minhas lacunas em matemática, não é um número tão grande assim. S efossem 500, não seria um número absurdo. Dizer que tem muita gente embriagada num evento dessa dimensão é realmente digno de uma matéria escrita pelo Conselheiro Acácio. Dirão que também ouve semelhantes comentários por ocasião da Virada Cultural – mas é nessa hora, justamente por causa do preconceito, que devemos fazer a ressalva: “como na Virada Cultural, VÍRGULA, também na Parada Gay o uso de drogas e o excesso de álcool foram constantes”. Se não, dá-se ao público uma visão distorcida das coisas…ou então é isso que o repórter pretende, e prefiro não pensar nessa hipótese.

Bom, nem tanto ao céu, nem tanto ao mar né gente? Acho que antes de tudo, independente da sexualidade de cada um, estamos falando de pessoas. E existem pessoas que bebem mais, que bebem menos, pessoas com bom caráter, com mau caráter, pessoas de energia ruim, pessoas de energia boa. Mas sobretudo, existem pessoas…

Em compensação, o Estado de São Paulo – tido como um jornal muito mais conservador do que a FSP -, fez uma matéria que, se por um lado não deixou de abordar os aspectos negativos, mostrou também coisas pitorescas  da festa (como o fato de as bibas a-do-ra-rem os PMs…hehehe…é, a linha “Village People” faz um sucesso danado, tão pensando o quê…).

3. As Paradas Gays no mundo


Fiz uma compilação zinha do youtube sobre as várias paradas gays no mundo (eu sou curiosa gente, fazer o quê). E tirando a de Berlin e a de Amsterdan, as outras me pareceram tremendamente chatas. Na verdade, acho que Berlin e Amsterdan levam a coisa mais pro Carnaval, pro festerê, do que para o ativismo político (mas estou chutando). A parada em Nova York me pareceu organizadinha demais…tem até uma de Reykjavic, chaaata…paraaaada..

Parada Gay ontem em Sao Paulo

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=eW-uvlXgoY0]

Parada Gay 2007 em Amsterdam

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=dBv1-y1-MNw&feature=related]

Parada Gay em Nova York 2007 (olha so que organizadinho gente!!!)

[youtube=http://www.youtube.com/watch?feature=related&v=Qcbj1xF_ihY]

Mais Parada Gay em Nova York 2007

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=O5mE2iGCCTg&feature=related]

Parada Gay em Berlim

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=B6iGxhW7ZJo]

Parada Gay em Reykjavic

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=fSBt--XcCF4&feature=related]

Mais Parada Gay em Sao Paulo

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=LioQk5Xk6wM]

Similar Posts:

  • Google Buzz
  • Google Reader
  • diHITT
  • Yahoo Buzz
  • Twitter
  • Share/Bookmark

Tags: ······

Facebook comments:

2 Comments so far ↓

  • Fabi

    Adorei a dica de leitura…
    Sou curiosa por natureza e seu blog vai entrar para minhas leituras diárias.
    Achei seu ponto de vista sobre a parada gay fantástico !!!
    Nunca tinha olhado por esse angulo do preconceito que massacra e sufoca o ser humano.
    A midia adora mostrar um mundo cor de rosa, né ?
    O jovem que bebe demais, o jovem que consome drogas, o jovem que transa é um “perdido”…
    Então, perdidos somos todos nós !!! Isso não é um “privilégio” do público gay…
    Pobre daquele que não consegue enxergar a realidade, e que acha que o filho não bebe, não se droga e não trepa !!!
    Provérbio de botequim:
    “Pior cego é aquele que não quer ver.”
    Beijos e voltarei mais vezes

  • Lady Rasta

    Êêêêbaaaa!!!! Fico feliz que vc tenha gostado! Demorei tanto tempo pra ter coragem…Pode vir sempre viu? Não é todo dia que eu posto, mas é pelo menos 2 vezes por semana. E tem bastante coisa divertida aí pra trás pra vc se divertir…
    Só tem uma coisa pior do que pai achar que filho não faz nada disso: quando os filhos acham que os pais não fazem nada disso…hehehe
    beijosssss!

Leave a Comment