Amy Winehouse e Felicidade (o livro)

‘Quando estamos nos degraus mais baixos da escada do pesar, nós choramos.

Quando chegamos à metade dela, emudecemos.

Mas quando alcançamos o topo da escada do pesar, nós convertemos a tristeza em canto (poema hebraico extraído do livro Felicidade).


Anos e anos atrás, eu comprei o livro do Eduardo Gianetti chamado “Felicidade”. Ele ainda não era o “filósofo darling” que é hoje, mas eu já gostava dele. E esse é um livro beeem interessante. Conta a história de uma turma de amigos de faculdade que resolve se reunir com uma frequência X para discutir o tema da felicidade. A cada encontro é discutido um aspecto da felicidade, tendo como base textos previamente selecionados e lidos pelos participantes do sarau (é, acho que posso chamar de sarau sim…).

Em um dos capítulos (e o meu preferido, by the way) discute-se a utilização de drogas que alteram a consciência e, principalmente, sobre quais as consequências de se utilizar uma pílula da felicidade, de modo que o mal estar, depressão, tristezas, angústias e todos esses demônios que assolam a alma não mais se fizessem presentes.

Aí chegou-se no seguinte ponto: é incontestável que algumas pessoas passam por angústias, depressões, etc, e como forma de libertar-se dessas angústias, criam. O processo criativo é, para determinadas pessoas atormentadas (atormentada aqui não é depreciativo tá?) um liberador das suas angústias. O livro cita Max Weber, mencionando que ele ficou seis meses em um estado de depressão lancinante e profunda antes de conseguir escrever uma de suas obras mais conhecidas, ” A ética protestante e o espírito capitalista“.

Aí o pessoal no livro discute: se àquela época tivesse uma pílula da felicidade (o livro é de 2002, Prozac tava engatinhando), será que o Max Weber iria tomá-la? E em tomando, será que produziria a sua obra prima, já que o sofrimento propulsor do processo criativo não estaria mais lá? E ainda: será que, entre escolher sair da depressão e ter uma vida “normal” sem escrever p… de livro nenhum e comer o pão que o diabo amassou e escrever o livro, ele escolheria a 2a opção? Mais: temos o direito de querer que alguém continue sofrendo só porque não queremos que o processo criativo daquela pessoa se interrompa?

Claro, não só os atormentados conseguem criar. Há aqueles que, apesar de gênios, conseguem ser cidadãos pacatos (Montaigne é o primeiro que me vem à cabeça, e acho que Shakespeare não era louco de dar nó) – mas as exceções só confirmam a regra. Porque o time dos “atormentados” é bem maior.

Nesse capítulo do livro, fala-se bastante da música não só como canal para o processo criativo, como também como transformador do humor (tipo um Prozac em forma de IPod). Fala-se na Flauta Mágica. E quem gosta de música sabe o quanto a música tem a condição de alterar o nosso humor. Aliás, como a (também citada) música diz né?

” cantando eu mando a tristeza embora”

(mas antes a música fala que “desde que o samba é samba é assim, a tristeza é senhora”).

Pensei muito nesse livro essa semana, quando pulularam posts e notícias sobre a apresentação de Amy Winehouse no último Rock in Rio (em Lisboa). Não vou dizer que ela é o Tim Maia de saias porque, até onde eu sei, o Tim Maia não inspirava pena – as pessoas ficavam putas quando ele saía na metade do show. A Amy não – dá pena ver uma pessoa naquele estado porque, como muito bem dito (em um post que eu procurei horrores pra colocar aqui e não achei mais), aquilo, se não for um pedido de socorro, é uma declaração de incapacidade de lidar com a vida…ou ambos…

Fico pensando aqui: é triste ver pessoas tão talentosas se auto flagelarem dessa forma – ou melhor, sofrer dessa forma (porque pra mim auto-flagelo é apenas uma forma da pessoa contar pra todo mundo a quizumba que tá dentro dela… ). Mas o pior é que não sei se elas não fossem tão torturadas assim elas iriam ser os gênios criativos que são (ou foram), porque tenho a impressão de que a arte é um tranquilizante para elas, do mesmo jeito que as drogas (e por isso, talvez, quando não estejam criando, estejam drogadas – porque simplesmente não aguentam o que tem dentro delas). E o que elas escolheriam se pudessem? A alma genial atormentada ou uma vida serena e pacata? Ainda: será que dá pra fazer essa escolha, será que é assim tão fácil?

Em um livro cujo nome não me lembro mais, o Ruy Castro mencionava alguém diferenciando Ella Fitzgerald da Billie Holliday. Era uma coisa mais ou menos assim: quando Ella Fitzgerald cantava em alguma música “my man has gone” vc conseguia ver o cara largando ela, mas era uma coisa “vou ali comprar um maço de cigarros e já volto”. Billie não. Quando ela cantava “my man has gone” numa música, vc via o cara batendo nela, jogando ela no chão, roubando o dinheiro dela para aí sim, ir embora para nunca mais voltar. A mesma coisa Amy Winehouse, cantando “You know I’m no good”. Eu sei que choro por qualquer coisa (até em comercial de margarina, segundo meu filho), mas…fiquei triste. Não porque “ó meu Deus, as drogas, bla bla bla”, mas simplesmente porque era alguém sofrendo profundamente na frente de 90.000 pessoas. E podem me chamar de sentimental que eu não ligo…

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=h83MCZM2evk&eurl=http://tdias.wordpress.com/2008/06/01/amy-winehouse-rock-in-rio-lisboa-2008/]

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P. S. : Coloquei o vídeo só praqueles que não viram conseguirem ter uma noção do tamanho da encrenca…

P.S. II: Na playlistizinha do post coloquei também o “Samba da Benção”, igualmente mencionado no livro, por causa da “necessidade de haver um bocado de tristeza para se fazer um samba”…

MÚSICAS DO POST

P.S.III: Tem um pedaço desse capítulo do livro que eu acho ma-ra-vi-lho-so, e que vale a pena mencionar para terminarmos isso aqui: a necessidade de auto-controle para uma pessoa poder desfrutar da sua liberdade (de novo, a letra da música né? “liberto-me ficando teu escravo”). Olha só:

” ‘Toda emancipação do espírito é perniciosa se não vier acompanhada de uma maior capacidade de auto-controle’. A sentença goethiana, penso eu, vai ao cerne da questão. O caminho da liberdade Otto, pode revelar-se uma estratégia liberticida. Foi exatamente porque soube dar ouvido aos seus limites humanos que Ulisses, atado ao mastro, ouviu o canto das sereias, quase enlouqueceu de desejo, mas não se deixou levar e destruir. Quem quer que se examine de perto se dá conta de que o autoconhecimento e o autocontrole do ser humano são limitados. Restringir a liberdade é às vezes uma forma sábia de proteger a liberdade. Não há nada mais irracional do que ignorar os limites da racionalidade”. (os grifos são meus).

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Nota em 14.07.08: link para o post de Daniel Piza sobre o assunto aqui

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11 comentários sobre “Amy Winehouse e Felicidade (o livro)

  1. Concordo contingo em muita coisa… Pra acrescentar um pouco ao assunto, em “Quando Nietzche chorou” tem uma frase supostamente atribuída ao filósofo, uma alma profundamente atormentada, não apenas por questões psicológicas, mas por um corpo fustigado por doenças: “Eu tenho por quê viver, então não me importa o como”.
    E no livro “A idade da razão”, de Sartre, o personagem principal fica tão obsecado com a idéia da liberdade e se prende tanto à obrigação de se manter livre, que não consegue fazer qualquer escolha, e percebe que, na verdade, isso toma-lhe a tão desejada liberdade. ;)
    Valeu, bjs.

  2. lendo o seu post me lembrei de várias coisas. elas não têm muito a ver umas com as outras, mas acho que vale comentar [não acrescentar]:

    - Fiquei com pena da Amy, também, aqui no Rio – e isso só a humanizou para mim. O Dapieve escreveu na sua coluna d’O Globo que ela representava, com seus erros e acertos, com seus defeitos muito aparentes e suas qualidades evidentes, o ser humano, na sua amplitude, no que há de melhor e pior.

    - Pensei que estávamos vendo uma pessoa que não era profissional [e isso não é um defeito, mas uma característica] sendo exposta aos tubarões porque é uma freak. Claro que há muito mais desdobramentos nesse raciocínio [e muito mais complexidade também], mas acho que ela estava sendo exibida, na sua intimidade, à “força”.

    - Acho também a comparação com o Tim Maia exagerada. Amy é tão frágil que essa é uma explicação até meio óbvia para o fato de usar qualquer entorpecente: aguentar o tranco [do palco, da vida...].

    - Enfim, é isso…

  3. Eu tive pensando aqui.

    Tava vendo um canal católico, e comecei a ter um brinstorm.

    Normalmente, bandas gospel não costumam ser geniais (às vezes, chegam a ser chaaatas) pq, em tese, possuem integrantes frequentadores da Igreja e não passam tanto pelo sofrimento. A religião os ajuda. Em contrapartida, há aqueles que são atormentados, possuem uma porrada de problemas e criaram álbuns sensacionais. O Nine Inch Nails tinha o Trent Reznor. E ele, de tanto que era atormentado, criou álbuns aclamados pela crítica. Que o diga também o Radiohead, com um vocalista totalmente fora dos padrões e com uma mentalidade levemente doentia (mas que não usa drogas. ao meu ver.)

    Acho que a arte, como você mesmo colocou, serve pra muita gente colocar pra fora seus sentimentos. Serve pra aliviar o transtorno causado pelas drogas. É uma forma poderosa de expressar seus sentimentos.

    E, por isso, acho que vou cantar um pouco pra ver se fico um pouco mais feliz. =)

    Ótimo texto.

  4. Sofrimento, processo criativo e drogas – daria uma excelente discussão. No meu caso em particular, raiva e fluoxetina não combinam e a criatividade sai perdendo.

  5. Muito bom saber que não sou só eu que penso deste jeito a respeito de criação e sofrimento. A diferença é que tu tem muito mais competência pra escrever do que eu :D

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