Clichés só são clichés porque acontecem muito…Sim, post de dia dos namorados…

É mendigo

todo amor capaz de ser medido

(Shakespeare, in Antonio e Cleopatra)

Eu costumo dizer que clichés só são clichés porque são reais – pois ou são situações que acontecem com muita frequência, ou que imaginamos com muita frequência- e dá no mesmo né? Afinal de contas, o ser humano não mudou tanto assim; mudam os cenários, muda a carruagem, muda o conceito de amor ideal, mas quem não gosta de um xamego? Por isso, como eu sou adepta da camisa branca com o colar diferente (ou seja, pela customização do cliché…), vou aproveitar pra falar sim, de amor perto do dia dos namorados.

Eu sou uma daquelas românticas incuráveis: acho que amor é um sentimento muito forte, muito grande, pra vc sair por aí dizendo “eu te amo” como quem diz “adorei esse par de sapatos”.

Por isso, tenho uns casais “queridos” da literatura ou cinema: são os “econômicos” – os que dificilmente falam de amor a torto e a direito; aliás, justamente por sentirem muito, por possuírem dentro de si um sentimento muito grande, não conseguem (ou têm medo de) expressá-lo.

Nietschze dizia que havia algo de inútil no ato da fala, e que só conseguíamos expressar o que já estava morto nos nossos corações (não tenho a citação literal, mas é por aí) e eu concordo: afinal, quando conseguimos falar, quando conseguimos exprimir o sentimento, é sinal de termos conseguido entendê-lo, dimensioná-lo – e quanto maior um sentimento, mais difícil é fazer isso (fica mais fácil demonstrar através de atitudes do que falando).

É por essa razão que gosto dos casais que mordem a língua mas não se declaram – acho que eles se preservam justamente porque sentem muito, ou então respeitam muito o outro (quando sabem que não são correspondidos). Hummmm…ou será que eu acho isso porque me identifico com eles? Boa pergunta.

Exemplo clássico é um dos “moços de cinema” (ou literatura, whatever) que eu adoro, o Mr. Darcy: me encanta essa coisa contida dele, o jeito como ele faz de tudo para ajudar a Elizabeth sem se gabar disso, no melhor estilo cavalheiro apaixonado (“Orgulho e Preconceito” é um dos meus livros prediletos – aliás adooooro Jane Austen). Acho pungente quando ele fala que ama apesar de não dever amar, esse jeito durão, vomitando o que sente porque não se aguenta mais…quase uma “megera domada” ao inverso…

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=JF3ueHjUc3k&feature=PlayList&p=6ADA10695C7195CB&index=15]

(se o vídeo não estiver rodando, tente por aqui).

Ah, porque um outro “moço de filme” que eu adoro é o Petrucchio da Megera Domada (que eu gosto de ver com o Richard Burton e a Liz Taylor, por motivos óbvios). Ele, bonachão, estouvado, agressivo, grosseiro; ela aquela coisa “cavalo bravo”, com aquela agressividade típica das pessoas que são frágeis demais, doces demais e, de medo que as pessoas descubram isso, se fingem de megeras (por que será que gosto dela hein? hehehe). Nas brigas que eles têm, fica evidente que um morre de tesão pelo outro – e depois, com o tempo, que eles se amam…O Petrucchio e a Catarina pra mim são o Calvin e a Susie quando crescerem (crescerem? e lá apaixonados crescem? acho que não)…

Essa aqui é a cena em que eles se conhecem (sorry, não achei com legendas -mas é um clássico maravilhoso, que vale a pena ser visto um dia…).

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=tmOQh5RNveQ&feature=related]

E finalmente, Harry and Sally. Porque felizes daqueles capazes de viver um grande amor com amizade e cumplicidade tão profundas, como o do filme…

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=PRhCTnkd3vM]

Ah, mas eu tenho que colocar uma musiquinha aqui né? E agora? Gershwin ou Cole Porter? Fiquei na dúvida com qual dos dois eu terminava esse post mas…quer saber? Se eu não consigo escolher, vou colocar aqui uma música de cada um (e poderia colocar 20 de cada um falando de amor e variantes): “I loves you Porgy”, cantada pela Nina Simone, e “So in love” cantada pela K.D. Lang…Enjoy babes!

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=NcIunSkns0s]

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=ablm52o6DxU]

*****


P.S. Tenho visto pra tudo quanto é lado entrevistas e estudos sobre o “amor nos tempos modernos”, e coisas do gênero. E acho que não há receitas, mas tem alguns ingredientes que são fundamentais: respeito pela individualidade, lealdade, companheirismo. De preferência em casas separadas, que é pra ninguém brigar por besteira…

P.S. II. Mais uma do Calvin e da Susie vai…

definition of love

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Adendo em 02.07.2008

Folks, e não é que dia 30 o Contardo Calligaris (cujos textos eu simplesmente adoro e leio sempre) escreveu um texto com um tema bem parecido?

O link pra quem quiser ler o texto na íntegra, está aqui. Mas quero colocar só dois pedacinhozinhos:

O segundo problema é que nossa verborragia amorosa atropela o outro. A complexidade de seus sentimentos se perde na simplificação dos nossos, e sua resposta (“Também te amo”), de repente, não vale mais nada (“Eu disse primeiro”).
Por isso, no fundo, meu ideal de relação amorosa é silencioso, contido, pudico.
Para contrabalançar os romances e filmes em que o amor triunfa ao ser dito e redito, como um performativo que inventa e força o sentimento, sugiro dois extraordinários romances breves, de Alessandro Baricco, o escritor italiano que estará na Festa Literária Internacional de Parati, na próxima semana: “Seda” e “Sem Sangue” (ambos Companhia das Letras).
Nos dois, a intensidade do amor se impõe com uma extrema economia de palavras (“Sem Sangue”) ou sem palavra nenhuma (“Seda”). Nos dois, o silêncio permite que o amor vingue -apesar de ele não poder ser dito ou talvez por isso mesmo.

[...]

Nos dois romances, a ausência da fala amorosa acaba sendo um presente que os amantes se fazem reciprocamente, uma forma extrema (e freqüentemente perdida) de respeito pela complexidade de nossos sentimentos e dos sentimentos do outro que amamos.

Olha, eu gostei de ver que não sou a única que penso mais ou menos assim viu?

****

Um leitor viu esse post aqui e fez uma consideração interessante: que se quiséssemos associar as músicas que eu coloquei com os filmes, “So in love” seria, digamos assim, a trilha sonora de “Orgulho e Preconceito”, enquanto “I loves Porgy” ficaria com “A Megera Domada”. E como eram apenas duas músicas, para arrematar ele sugeriu uma música da dupla  Rodgers and Hart , “I could write a book“, fizesse companhia a “Harry and Sally” (por sinal, a música faz parte da trilha sonora do filme, com uma versão do Harry Conick Júnior, que vale a pena ouvir). A versão sugerida foi a original, cantada pelo Frank Sinatra no filme “Pal Joey” (com a Kim Novak e a Rita Hayworth) mas…algumas coisas eu simplesmente prefiro ouvir com Ella:

[youtube=http://br.youtube.com/watch?v=Dl-I_x_0aSo&feature=related]

Impressionante como as idéias vão surgindo e se complementando né? E ao autor da idéia, I humbly thank you!

P.S. do adendo: claaaaro que ja viciadona aqui já comprou “Seda”. Conto depois…

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10 comentários sobre “Clichés só são clichés porque acontecem muito…Sim, post de dia dos namorados…

  1. Pq será que o CLICHÊ tem um significado tão “negativo” no dicionário ?

    No Houaiss: “frase freq. rebuscada que se banaliza por ser muito repetida, transformando-se em unidade lingüística estereotipada, de fácil emprego pelo emissor e fácil compreensão pelo receptor; lugar-comum, chavão.”

    Será o peso da palavra banaliza ?

    Vou ser sincera: EU ADORO UM CLICHEZINHO !!!

    Pronto, falei, me sinto melhor !!!

  2. ai Fabi, ainda bem que tem gente que concorda comigo!!! eu sou dez mil vezes um cliché do que uma história metida a original cretina. Como disse o Alexandre Inagaki outro dia no blog dele , falando sobre o mesmo assunto:

    Nome: Flavia · http://ladyrasta.wordpress.com/
    só pra assinar embaixo também do “batido é ponto de vista acomodado”. Pessoalmente, acho que alguns temas são recorrentes (e não batidos) porque o ser humano na essência não mudou tanto assim, e gostamos de ver histórias sobre esses temas (como amor entre duas pessoas de classes sócio-econômicas diferentes, como é o caso).
    O importante é que a história seja bem contada, o resto é chateação de crítico que não tem o que fazer…

    R: Exato, Flavia. Os dilemas existenciais e os grandes temas como amor e morte são eternos e permanecerão relevantes até o fim dos tempos. E eu prefiro mil vezes assistir a uma história bem contada, mesmo que ela seja “apenas” uma história de amor a uma obra pretensiosa que almeja os píncaros da originalidade, mas que conta de trás para frente a trama de um cabrito albino que cacareja em sânscrito, tem como amante uma filósofa muda que engatinha usando pantufas do Garfield, e pretende bater o recorde mundial de segurar uma vela acesa, em uma trama originalíssima filmada em super slow motion com 7 horas e 43 minutos de duração.
    link 12.06.08 @ 14:28

    de chorar de rir né? beijos!

  3. Clichê é clichê, mas em alguns casos, não há nada melhor né?
    Nem preciso dizer que amei as músicas…
    Beijos querida.
    Dé.

  4. Flavia…Mr. Darcy na versão Colin Firth é jogo sujo :mrgreen:
    Aliás, está aqui mais uma fã da Jane Austen: além de toda a questão da crítica social, acho que ela fala de amor de uma maneira direta e honesta. Ela é menos fantasiosa que as irmãs Brontë, por exemplo. Já perdi as contas de quantas vezes já reli os livros dela…
    Calvin e ‘I loves you Porgy’ também deixam o post delicioso ;-)
    Até!

  5. Obaaaa, que bom ganhar visita! Não sei se vc leu o Diário de Bridget Jones (eu leio tudo o que aparece na minha frente), ela era super apaixonada pelo Mr. Darcy “versão Colin Firth”.
    Eu li todos os livros da Jane Austen, e concordo com vc: ela coloca a amizade como ponto de partida de qualquer amor duradouro e possível – ela é menos carnal, eu acho (ao contrário das irmãs Bronte, onde a tensão sexual é mais forte). Vc sabe que ela nunca saiu da cidade dela, ou saiu pouquíssimo né? E no entanto, tinha uma compreensão do humano muito grande…O Harold Bloom é fã de carteirinha dela, e no “Gênio” fala coisas lindas, tente achar o livro pra ler. E a Virginia Woolf no livro de crítica literária dela (acho que chama “A room of one’s own) também.
    Quanto ao Calvin…Não tem gente que lê aquelas “pérolas de sabedoria”, ou a Bíblia? Eu abro randomicamente uma tirinha do Calvin…tá tudo lá!
    Adorei sua visita e seus comentários viu?
    beijos!

  6. um filme ótimo é ” O amor e outros desastres”. um filme lindo cheio de clichês leves e que desdenha dele mesmo.

  7. Vejo que você pensa como eu. O problema é que é da natureza do ser humano mentir. Vá lá que existem ocasiões em que mentir é necessário, mas tornou-se cômodo, e a mentira é usada nas mais corriqueiras situações, incluindo o eu-te-amo, que virou um chavão, clichê, desculpa… em suma, mentira. Não todos, claro, mas é só ver o índice de divórcios por aí para se perceber que uma grande parte. Daí a minha frase “‘Eu te amo’ não se escreve nem se diz; ‘Eu te amo’ faz-se.” É muito difícil manter uma mentira com ações. Quem quiser cair no conto do eu-te-amo pede para ouvir, percebe que soa falso, mas contenta-se com isso. Sou muito mais a favor de demonstrar, embora eu saiba que minha mulher às vezes quer ouvir. Vai da cultura, da experiência de cada um. Já falei muito eu-te-amo só para agradar ex-namoradas e até ex-ficantes, e, em parte, para agradar a mim mesmo, como se o fato de eu falar fizesse eu acreditar no que que estava saindo das minhas cordas vocais. Talvez por isso, hoje, mesmo quando eu falo e sei que sinto, minha sensação é de um clichê. Meu “Eu te amo” provavelmente nunca vai deixar de ser eu-te-amo. Ao menos não para mim.

    Ah, e adorei o trecho no comentário: “Não tem gente que lê aquelas “pérolas de sabedoria”, ou a Bíblia? Eu abro randomicamente uma tirinha do Calvin… tá tudo lá!”

  8. Qual música/cantor que toca no momento em que Mark Darcy (Colin Firth ) diz a Bridget Jones que gosta dela do jeito é???

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