Pois é: não é só por causa da Revolução de 32 (que me é particularmente cara, e um feriado que faço questão de honrar) que 9 de julho é um dia importante.
Descobri que Vinicius de Moraes morreu em um 09 de julho, mais precisamente, em 09.07.80, fuçando em um site (sabe que essa é uma palavra que sempre me causa dúvidas de como escrevê-la? Amo “sítio” – formal, mas eu acho podre de chique-, e adoro a versão Millor Fernandes, “çaite” – acho desbocada e meio James Joyce. hummm…pensando bem posso usar qualquer uma a depender do texto certo? Ninguém vai cortar minha mesada ou puxar meu cabelo e me chamar de boba se eu fizer isso…).
Eu adoro Vinicius. Adoro os poemas (e já aviso: “Soneto de Separação” não é um dos meus prediletos não – até porque nessas coisas de amor, sou mais rodriguiana…); adoro os textos, a história da vida dele e acho que nunca vou me cansar de ouvir as músicas…
Se eu tivesse que fazer um post caprichado, completo, ia ser imenso. Porque eu teria que falar muito de “Para viver um grande amor” – que na verdade é bem mais comprido do que aquele pedaço mais manjado que todo mundo conhece, e que o fim é o mais bonito de todos, quando ele fala que o importante é “nessa selva oscura e desvairada, encontrar a bem amada, para viver um grande amor”.
Teria que lembrar de várias letras de músicas lindas.
Como a que fala: “a hora do sim é o descuido do não” (em Sei lá – a vida tem sempre razão) – e eu queria ter tempo de escrever isso com calma, pra lembrar como chama essa figura literária onde vc contrapõe dia e noite, sim e não (Camões usava isso, e essa música é assim também…eita letra bonita…). Ah! Antítese né?
Como as divertidas : “Maria era uma boa moça”, que conta que “Maria, além de ‘cusê’ e ‘rezá’, também era Maria de ‘pecá’ (acho que a letra fica mais sem vergonha quando a gente escreve como eles falam…hehehe). Ou a “tonga da mironga do kabuletê”…
Como o “amor é um carinho, é um espinho que em cada flor; é a vida quando chega sangrando em pétalas de amor” (em o Velho e a Flor).
Ou, machismo em grau máximo, quando ele fala que a mulher não basta ser linda, que ter um molejo de amor machucado (Samba da Benção)? E que eu acho uma verdade verdadeira…
Então, pra lembrar dele hoje, fiz uma playslistizinha com algumas músicas. Vcs vão ver que tem mais músicas da fase do Toquinho do que com o Tom. Atenção especial para versão de 1975 d’ “O velho e a flor” – é ainda mais emocionante (acho eu) que aquela com os coros alternados mais conhecida (ai como eu queria uma assessoria musical nessas horas, pra não falar besteira…mas vcs sabem que podem me corrigir né? Emaisl e comentários please! Eu sempre melhoro os textos depois deles…). E o Toquinho contando como é que “O filho que eu quero ter” foi escrita pelo Vinícius também é um pedaço lindo…Enfim, dêem uma ouvida, espero que gostem:
PLAYLIST DO VINICIUS AQUI
Separei 2 poemas completamente diferentes um do outro. Um, chamado “Soneto da Quarta Feira de Cinzas”, que sempre foi um dos meus preferidos, desde a minha adolescência:
Soneto de quarta-feira de cinzas
Por seres quem me foste, grave e pura
Em tão doce surpresa conquistada
Por seres uma branca criatura
De uma brancura de manhã raiadaPor seres de uma rara formosura
Malgrado a vida dura e atormentada
Por seres mais que a simples aventura
E menos que a constante namoradaPorque te vi nascer de mim sozinha
Como a noturna flor desabrochada
A uma fala de amor, talvez perjuraPor não te possuir, tendo-te minha
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada
Hei de lembrar-te sempre com ternura.Rio de Janeiro, 1941
in Poemas, sonetos e baladas
in Antologia Poética
in Livro de Sonetos
in Poesia completa e prosa: “O encontro do cotidiano”
Tem também um vídeo do Vinícius e do Toquinho em “A Felicidade”:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Ka44wBAypuA&feature=PlayList&p=45227295B430179E&index=29]
O outro poema, bem engraçado, fala da aversão a saladas e comidinhas saudáveis, chamado “Não comerei da alface a verde pétala”. Não é muito conhecido, mas é curioso (e dá pra imaginar ele bebaço escrevendo o dito cujo no Antonio’s...):
Não Comerei da Alface a Verde Pétala
Vinicius de MoraesNão comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem maior aprouver fazer dieta.Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro: dêem-me feijão com arrozE um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.(Iludia-se o poeta. Num tempo em que as coisas andaram meio pretas, ele teve que se enquadrar direitinho e andou comendo legumes na água e sal como qualquer outro).
Extraído do livro “Para Viver um Grande Amor”, Livraria José Olympio Editora S. A.- Rio de Janeiro, 1984, pág. 84.
E mais dois vídeos dele. Um deles, com um pedacinho do filme de anos atrás, com a famosa história do “whisky é o cachorro engarrafado”, e de quebra o Zeca Pagodinho interpretando “Pra que chorar” (é, ele mesmo – e antes de falar ouçam!); e outro com o Vinícius e o Tom Jobim briacos, babalus d’aldeia em grau máximo…Olha, esses caras viveram né? Bem que ele dizia que a gente tinha que viver a vida muito bem vivida, porque não dava pra ter certeza que tinha outra…taí uma coisa que a gente não pode esquecer nunca: vida é uma só – então vamos tratar de vivê-la bem vivida. E pra mim, viver uma vida bem vivida, é vivê-la de acordo com a nossa essência – pois só assim vamos ter paz de espírito e não teremos arrependimentos lá na frente. E pra vcs?
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=2XbXA2Hhr0M&feature=PlayList&p=8B506C374684BE16&index=1]
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O texto integral de “Para viver um grande amor”:
Para viver um grande amor
Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso – para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher… – não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro – seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada – para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o “velho amigo”, que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade – para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô – para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito – peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista – muito mais, muito mais que na modista! – para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor…
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs – comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica, e gostosa, farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto – pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer “baixo” seu, a amada sente – e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia – para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que – que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada – para viver um grande amor.in Para viver um grande amor (crônicas e poemas)
in Poesia completa e prosa: “Para viver um grande amor”****
O site oficial do Vinícius de Moraes é aqui (de onde os poemas foram retirados)



















Vinícius é tudo…
Amei.
Bjks
Vc viu que eu gosto tanto dele, mas tanto dele, que dei um jeito de fazer um post né? hehehe. Não sei se vc chegou a entrar na playlist, mas eu coloquei até ele declamando o Soneto do Amor Total que eu acho lindooooo…
bjs
MA-RA-VI-LHO-SO!
Pots assim = sempre bem-vindos.
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