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Manda a empregada varrer o lixo pra debaixo do tapete

outubro 13th, 2008 · 9 Comments · Comportamento

Sabe de uma coisa? Eu não me importo quando me chamam de burra. Ao contrário, dou risada da pessoa, e se estiver de bom humor ainda concordo. Mas se me chamar de gordinha, de mulher farta e outros eufemismos…eu vou correndo me olhar no espelho e vou ficar encanada o resto do dia (minto, da semana) – porque sei que estou gordinha mesmo.

Vcs devem estar perguntando: e com mil demônios, por que ela resolveu falar disso agora? Eu explico.

Semana passada, um dos bas-fonds comentados no Twitter foi o caso do texto de Henrique Goldman, chamado  “Carta Aberta para Luísa” publicada na Trip (que vcs podem conferir aqui )

Na chamada, podíamos ler o seguinte:

Nosso colunista pede desculpas públicas à empregada da família com quem transou, contra a vontade dela, quando tinha 14 anos

Mais adiante:

Quantos anos você tinha? Vinte, trinta? De onde você era? Quem você era? Só sei que você era empregada de casa, que teus seios eram fartos e que eu tinha 14 anos. Você era tímida e já trabalhava em casa há algumas semanas quando a Sheilinha, uma colega de classe, me disse que você já tinha trabalhado na casa da família dela e que você “dava para um motorista de táxi”.

A idéia de que você “dava” não saiu da minha cabeça, e você começou a estrelar obsessivamente todas as minhas punhetas. De tarde eu ficava rondando pela área de serviço enquanto você lavava a roupa. Era um tesão incontrolável, aflito, desesperado e covarde.

Inicialmente, não se tinha certeza se o texto era “baseado em fatos reais” ou não – e o estardalhaço foi tanto que a Trip teve que fazer uma advertência informando que o texto era fictício (bem como o autor teve que  dar mais explicações e detalhes sobre o caso, confirmando que se tratava de ficção).

Bom, o assunto é mesmo polêmico: trata do assédio sexual e/ou estupro de empregadas domésticas por parte de seus patrões, ou filhos de patrões. Empregadas domésticas essas que antigamente costumavam inclusive ser menores de idade (sim, muitas pessoas tinham não só um, mas 2 ou 3 empregados em casa – e era comum, por exemplo,  a filha da cozinheira, com 16, 17 anos, trabalhar de arrumadeira. Estou falando de São Paulo, no interior isso é ainda mais comum).

O texto é pesado? Sim, óbvio. Daqueles que, para usar um cliché cafona e demodé (sorry, adoro galicismos) “dá um tapa na cara da classe média”. Não tem como não ler e não desviar os olhos sabe? E na sequência se perguntar “ai meu Deus, quem dos meus amigos pode ter feito isso”?

Mas sabe o que me chamou a atenção? A forma como as críticas foram feitas. Era de uma revolta absurda, claro, mas não (só) pela situação, e sim pelo fato do cara ter escrito o texto!!! Como se o fato de não falarmos sobre o holocausto tornasse ele mais suave – ou inexistente…

Sim, eu concordo que é realmente é impossível  ler aquilo e não sentir um mal estar, repulsa  e vergonha profundos (eu mesma confesso que pulei alguns trechos, tamanho o mal estar); mas esse mal estar vem porque o texto pode ser fictício, mas retrata um costume generalizado no nosso país – costume esse, eu espero, em vias de se extinguir. Ou não?

Aí é que tá: será que ao invés de jogarmos a sujeira para baixo do tapete não deveríamos aproveitar a oportunidade que esse assunto veio à baila e discuti-lo?

Fica todo mundo discutindo se o texto é de mau-gosto ou não, se é verdadeiro ou não, qual o valor do texto se for fictício, bla bla bla; vi comentários de pessoas dizendo que “esse texto jamais poderia ser publicado” – meu Deus,  mas por que não? O texto não endossa o ato; pelo contrário, só pinta o (grotesco) retrato da nossa sociedade.

Então, por que ao invés de ficarmos com dez pedras em cada mão, não aproveitamos que esse comportamento foi trazido à baila e nos informamos? Por que não se fala abertamente sobre isso, não se procura empregadas que tenham passado pela situação (e patrões falsamente acusados, pois posso apostar que eles também existem), por que não escancaramos o assunto ao invés de fingir uma indignação que existe apenas nas palavras, e não nos atos?

Digo que existe somente nos atos porque nós somos a sociedade brasileira,  nós somos o conjunto de pessoas, atitudes, pensamentos, preconceitos que cria (ou criou) um ambiente favorável a esse tipo de comportamento odioso. Ambiente este que não vai deixar de existir só porque não falamos num assunto dolorido.

Pra mim,  dizer que um texto desses não deveria ser publicado é realmente brincar de “o rei está nú” – e esse tipo de atitude  não vai fazer com que a situação desapareça (se é que há condições dela desaparecer, bien compris).

Quer saber? Se a gente levar em consideração o princípio de que o caminho para a cura é reconhecer a doença, estamos longe, muuuito longe desse tipo de comportamento ser eliminado da sociedade brasileira. Pensando bem, os caras que meteram o pau no texto têm razão: melhor mesmo varrer a sujeira pra debaixo do tapete e não falarmos no assunto. Assim a gente finje que ele não existe, certo moçada? :-)

****

P.S. O Blog da Cidinha escreveu uma resposta ao texto , que vc confere aqui - e tem também um outro post legal aqui

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9 Comments so far ↓

  • Renata

    Fantástico teu post. E sim, essa mania ridícula atual do “politicamente correto” tenta eliminar expressões como o texto desse cara, porque mostra uma realidade que ninguém quer ver, ninguém quer aceitar que existe. Outro dia um colega meu escreveu uma crônica sobre um leitor dele que reclamou dele usar palavrões num texto, lembrei-me dela quando li seu post. Vou procurar aqui e te envio.
    Bjos!

  • Lady Rasta

    Renata nossa muito obrigada!!! Se vc soubesse como é bom receber um elogio quando eu escrevo um texto um pouco mais polêmico…

    adorei o texto q vc me mandou, já coloquei no meu delicious!!!

    E o texto da Trip só é forte porque a carapuça serve, infelizmente…

    beijos!!

  • ana maria

    Li seu comentário sobre um texto do Gravataí que me chamou a atenção e vim aqui. Bem, sobre a Trip, eu fui uma das que ficou indignada com a atitude do calhorda, até porque publicou um texto como fato consumado. Depois do escândalo, se retratou. Esperado. Minha mãe foi doméstica numa cidade do interior do Brasil e, 2º ela, sofreu assédio, etc e tal, nunca entrou nos detalhes, porque não é boa lembrança. São atutides que fizeram e fazem parte dos costumes brasileiros, ainda de senzala. Tem tbem o componente sedução de patrãozinho sobre doméstica jovem, enfim, acontece ainda e se o infrator for rico, louro, de olhos azuis, aí… um abraço.
    Sds.

  • Lady Rasta

    ana maria em primeiro lugar, obrigada pela visita!
    e eu concordo com vc, é um comportamento ultrajante mesmo. Só que eu acho q justamente pelo fato de ser ultrajante é que esse assunto precisa ser trazido à baila. Jogar a m… no ventilador mesmo.
    Não dá pra saber se o fato ocorreu mesmo, nunca saberemos. Mas ainda q tenha ocorrido, só o fato dele ter vindo a público contar e dar a cara para bater já tem seus méritos – afinal, estamos falando do assunto e não fingindo q ele não existe né?
    E quanto à sua mãe…eu não sei o q dizer, sinceramente. A não ser q espero q um dia nesse país isso não mais seja uma questão corriqueira…
    beijos

  • Cristina

    Oi querida!

    Não entrava aqui há uns tempos – o livro não deixava. Vim aqui ler coisa inteligente – estou muito chocada com a história da Elloah. Nem sei se vc vai comentar aqui, mas sabia que ia encontrar um texto rico como esse – tô passada com essa história da Trip, eu não sabia! Como uma revista publica isso?!!!Fez muito bem de colocar a discussão em aberto.

    Naquele Congresso de RH que me levou a Sampa em Agosto, assisti algumas palestras sobre a necessidade de um resgate de valores essenciais no mundo e desde então venho refletindo sobre isso, tenho falado nas minhas aulas…. Parabéns por colocar no ventilador e ajudar nisso!

    Já pensou se todo cara que a gente dissesse “não, não quero sair com vc”, “não, não quero mais namorar vc”, “não, desculpe, não posso”, tivesse a mesma reação?! Toda hora infelizmente vemos alguém ser assassinado, roubado etc por problema político, mílicia, dinheiro – já estamos até “acostumados”. Mas filho matando pai e mãe, ex-namorado matando alguém com quem conviveu por 3 anos, bandido arrastando criança, isso sem falar nas Caras e Quems da vida com o casa-separa-casa-separa, isso é mais recente – que valores as famílias estão transmitindo aos seus filhos? E não estamos falando só de classes sociais mais baixas não!

    Bem, valeu! Precisava escrever isso, obrigada pelo espaço!

    te vejo aqui no Rio semana que vem com Riq e turma?

    bjs,
    Cristina

  • Lady Rasta

    Cris é isso aí! Mas no caso da Trip acho q ela fez bem em publicar, justamente para chamar a atenção para um costume q já tava na hora de ter acabado né?
    Esse caso aqui de SPaulo eu tô me coçando pra não falar nada, uma vez q a minha posição não será muito parecida com a do resto não.
    Acho na verdade q esse problema todo teria sido evitado se as duas meninas tivessem pais atuantes. Criança e adolescente não pode fazer o que quer. É função e obrigação dos pais zelar por isso, e… bom, pensando bem, talvez eu escreva mesmo sobre isso. Mas conversamos semana q vem. 5a tô aí, com saudades!!!
    beijos!

  • Cristina

    É pensando por esse lado, esse ponto de vista tá certo. É aquela velha história, não tô vendo o todo, só uma parte.
    Nos vemos então aqui! bjs

  • aline

    oi td bem
    tenho um texto para contar
    ta bom bejinhosss

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