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Pelas quotas sociais para praias desertas

janeiro 15th, 2009 · 24 Comments · Comportamento

Se eu tivesse que descrever a “vida útil” de uma praia selvagem e linda ( o Ricardo Freire tem uma definição perfeita, mas não achei), seria mais ou menos assim:

1. os malucos descobrem a praia, e ficam lá acampando ou hospedados nas casas dos nativos (é imperativo que o lugar não tenha luz ou que seja de acesso dificílimo);

2. Um gringo desavisado chega e, cheio da vida de [coloque aqui a capital européia de sua preferência] larga tudo e abre uma pousada;

3. Um [coloque aqui a profissão descolada de sua preferência] descobre o lugar, provavelmente porque o estagiário (cujo irmão é um dos malucos do item 1) contou pra ele e vai conferir.

Pausa. Durante um idílico,  e (por que não dizer) orgasmático momento, temos um perfeito equilíbrio: o lugar tem tempero (proporcionado pelos nativos e malucos),  não está descaracterizado e ainda por cima tem conforto (nada como aquela pasta al dente ou drink bem feito depois do peixe frito caseiro na praia, fala a verdade…eu nunca acampei na vida, folks…).

O problema começa quando muitos descolados começam a conhecer o lugar e aí, um belo dia, uma patricinha (ou mauricinho) descobre o lugar – ou então o lugar aparece numa revista. Pronto. F**** de copas, porque o turismo-equilíbrio desaparece.

Irá se desequilibrar porque algumas tribos não querem viajar: elas querem simplesmente uma moldura bonita para seu eterno desfile. Não há qualquer interesse pelos costumes locais, pela música local, pela rotina dos nativos: há somente a necessidade premente de se voltar das férias contando que esteve lá onde ” todo mundo” (as mesmas pessoas do clube, da escola, da faculdade, whatever) estava.

E aí pessoas como eu são obrigadas a fazer parte do seguinte diálogo:

CENÁRIO: Ilha de Boipeba, local de difícil acesso (a não ser, obviamente, que vc se diponha a pagar uma pequena fortuna por um vôo de 20 minutos de monomotor) onde passei 10 dias nessas minhas férias na Bahia.

Praia em frente à minha pousada, num dia preguiçoso em que não quis fazer nada, nada, nada…

Boipeba

PERSONAGENS: Esta que vos fala e  uma turma no estilo maurícios- -em-férias-fazendo-de-conta-que-são-desprendidos (do tipo que até usa havaiana – afinal, são despojados- mas a camiseta é do MBA de Wharton, saca?) os quais estavam tomando sol e ouvindo música (os indefectíveis Café del Mar, Hôtel Costes e afins, normalmente  utilizados por  pessoas que não gostam de música – mas fingem que gostam, e se sentem “in” ouvindo aquilo).

Uma moça (no estilo patricinha pretensamente despojada) se aproxima e diz:

- Ei, será que dava pra usar a ducha da sua pousada pra tomar uma chuveirada? A da pousada (vizinha à minha) não está funcionando…

Como o dono da minha pousada não estava gostando da história de meio mundo entrar lá para pedir pra tomar uma chuveirada, respondi que a ducha não estava funcionando, e perguntei:

- Mas por que vc não dá um mergulho no mar? A água está uma delícia!

Ao que ela responde:

- É que quando a água seca, o sal gruda na pele e eu não gosto.

Eu olhei pra ela e achei que estava na frente de um alienígena. Alguém responde pra mim por favor: o que uma pessoa como essa está fazendo em um lugar onde não há carros ? Melhor dizendo: num lugar onde sequer há muitas ruas?

Vcs me conhecem né? Entre perguntar se ela já fazia terapia, ou  por que com mil demônios ela não foi para um resort com piscina, ou para o Club Med Trancoso, ou o que quer que ela quisesse desde que fosse longe das minhas vistas, eu disse, do alto do meu bitchy behavior:

- Hum…mas vc não trouxe aquele borrifador d’Eau Thermal? Não dá pra vir pra cá sem isso, darling!!! Tsk Tsk…

Aí foi a vez dela me olhar estupefata. Atônita. Eu queria rir né, mas mantive a linha de louca e ainda arrematei:

- Olha, tive uma idéia: compra água mineral, arruma um borrifador, senão não tem a menor condição de tomar sol do jeito que vc está!!!

Corta.

O que é que isso tem a ver com as tais quotas sociais do título? É muito simples comissário (ganha uma prenda aquele que descobrir o que é que o comissário tem a ver com isso…): eu quero dizer que Boipeba tem uma sobrevida curta. Eu quero dizer que aquele equilíbrio perfeito está em vias de acabar, porque já já aquilo vai virar mais chic que hippie.

O triste? O pior de tudo?  É que é isso mesmo, pois a  alternativa é tornar o lugar super visitado, na linha turismo de massa. É duro vc reconhecer que as duas alternativas possíveis são a) o lugar virar uma Porto Seguro, hoje um destino super popular;  b) o lugar virar Trancoso, um destino carésimo na alta temporada.

E está certo que seja assim né? Afinal, “o sol que renasce tem que anoitecer”, bla bla bla… Mas eu queria, sabe? Da mesma forma que gostaria de reter as sensações de alguns momentos mágicos da minha vida, eu queria manter uma praia bela e selvagem para sempre naquele “momento X” descrito acima.

TCHAN TCHAN TCHAN TCHAN!!!

Foi por isso que pensei nas quotas sociais!!!

Já pensou?  Alguém (meaning EUZINHA) decide que o ponto perfeito foi atingido. A partir desse instante, o lugar fica que nem aqueles bares badalados com fila na porta: só é possível entrar quando alguém sai, e mesmo assim, quando alguém da tribo do “candidato” sair, entenderam??

Decidido isso, só preciso:

a) que me ajudem a definir a proporção (onde os maurícios que ouvem Café del Mar decerto serão muito, muito poucos – e isso só  vai aumentar o status daqueles que conseguirem entrar no Paraíso, hehehe – tá vendo como sou boazinha?)

b) que me ajudem a elaborar o questionário a ser respondido pelos candidatos  para enquadrar as pessoas nas categorias disponíveis;

Genial, não acham?

Corta de novo.

Ah, se pudéssemos controlar tudo assim não? ;-) <suspiros> <suspiros>

Resumo da Ópera:

1. Visite Boipeba antes que acabe;

2. Procura-se praia deserta no estágio 2…

****

P.S. 1:Já ouviram falar de Moreré, moçada? Pois é… Eu já. E mais não conto.

P.S.2: Mais Boipeba pra vcs aqui

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24 Comments so far ↓

  • Mario Amaya

    Esse lugar com cotas existe, chama-se Fernando de Noronha.

  • Lady Rasta

    Mario acho que aquela taxa de Noronha foi o que a salvou. E Noronha tem outra coisa que a protege: vc não pode comprar imóveis lá, ao contrário do restante do litoral – e acho que foi isso que preservou o local, mais até do que a taxa de visitação.
    E tem a distância tb. O problema é que a Bahia é muito mais perto – e tem mais tempero…

    Beijos!

  • Matheus Araujo

    No meio do seu post eu já estava pensando que você não conhecia moreré… Tive que esperar a penúltima linha pra saber… :P Afinal, está praticamente no estágio 2. Mas infelizmente não vai demorar a seguir os passos de boipeba. Só que nesse caso, felizmente, um passo atrás…

    Sugiro que você conheça martins de sá aqui no Rio… Estágio 1… :D (Fotos de um conhecido meu: http://pinuts.net/joseotavio/MartinsDeSa)

    Bjs

  • Lady Rasta

    Matheus eu estive em Boipeba em 2005 pela primeira vez e me encantei com Moreré, dessa vez dormi uma noite lá (aliás, fui vizinha de David Byrne por uma noite, fiquei encantada que ele tenha ido parar lá). Fiquei numa pousada deliciosa, com café da manhã servido na varanda do chalé, um luxo.
    Moreré já tem inclusive um hotel mais chique – falta só um lugarzinho mais arrumadinho pra jantar, mas não vai demorar…
    Quanto a Martin de Sá, eu já ouvi falar e está nas minhas “pendências” do Sul. Vou muito praqueles lados de Ubatuba e Paraty (e uma época fui muito para uma praia encravada dentro de área de remanescentes de quilombolas chamada Cambury das Pedras)
    Valeu pela dica!! Agora uma pergunta: Vc conhece Moreré – mas conhece Bainema? :lol:

    Beijos!

  • Arnaldo

    Legal o texto. Mas afinal. o que é Café del mar?

  • Lady Rasta

    Arnaldo Café Del Mar é o nome de um bar em Ibiza, que lançou inúmeros discos de ambient music (ou lounge music, whatever). É legal até, eu gosto, mas pra mim virou música de quem não tem muita personalidade sabe? Não sabe o que colocar, coloca Café del Mar. Fica chato, fica pretinho básico, terno azul marinho…
    Tem Café Del Mar aqui
    e tb pra ouvir aqui
    Repito: Eu gosto. Tanto que fui ao show aqui em SP – e detestei, fui correndo pro Vegas, não aguentava o povo que tava lá. E detesto uniformizações…
    Feliz 2009 pra nós!!
    beijos!!!

  • Meilin

    Rasta, a-mei o texto! Vc sintetizou tu-do! O problema é que eu gosto mais quando tá na fase 1. Isso aconteceu comigo em Jeri, na Ilha do Mel, e na Praia do Espelho. Em Jeri, nem pousada tinha, o pessoal tava construindo uma ou outra muito safada, a gente tomava banho de cuia com platéia fazendo críticas à nossa higiene.
    Na Ilha do Mel eu dormi na casa de um pescador junto com umas 20 pranchas de surf e no Espelho só tinha OITO casinhas de uma mesma família. Teve um dia que a Elba chegou num barco, de topless e ninguém deu bola. Mas só acampei duas vezes e de-tes-tei. Beijins

  • Andrea

    Descobri seu blog e adorei.
    Bjs!

  • Andrea

    E borrifador de água termal é sensacional!!!

  • Lady Rasta

    Meilin na verdade esse “desnvolvimento” é do Ricardo, ele fez algo nessa linha, mas eu não achei – acho que está na edição em árvores do Freire’s, mas não tenho certeza… Eu curto quando a coisa está um pouco mais civilizada sim… um lençol melhor e uma pasta al dente fazem falta pra mim… na verdade, eu sou daquelas que quer o conforto, mas não quer que todo mundo vá para onde eu vou sabe? chata mesmo…

    Andreaobrigada! e seja bem vinda, viu? Quanto à água termal…eu não aguentei, precisei dar a resposta…mas sabe que tem umas nacionais que são excelentes para pós sol, melhor do que creme viu? (e agora é sério, juro!!!).

    beijos!

  • Geo

    Vim por indicação do blog do Riq Freire, adorei o material e ainda dei boas risadas. Muito bacana seu blog e, principalmente, seu estilo de escrita. Só preciso “fuçar” mais e entender direito como funciona. Rssss
    Agora vc me deixou curiosa. Qto vc pagou de diária nessa delícia de pousada?
    Meu marido e eu temos um projeto (ainda sem data = – $$$ hehe) de viajar pelo litoral da Bahia e é delicioso ler sobre este tipo de lugar.
    Beijo da Geo.

  • Ladyrasta

    Geo seja benvinda!!! Meu blog é um pouco confuso porque eu falo do que me dá na telha, não tem assunto específico – mas muita gente gosta. E qualquer dúvida, entra no último post e pergunta, vou ter o maior prazer em responder.

    Essa pousada não é cara não, na faixa de R$150,00 na alta temporada. O blog do Riq tem muito mais informação do que aqui, mas qualquer dúvida, pode perguntar, no que eu puder ajudar estou à disposição!

    beijos e obrigada pela visita!

  • Marcelo

    Lady, eu adorei sua proposta e estou de pleno acordo! Fui à Boipeba há 3 anos e me apaixonei por aquele bijouzinho de ilha, como diz o Ricardo Freire. Eu conheço Bainema! A impressão que eu tive é que ela não está sequer no estágio 1…rsrs…
    Vivo procurando destinos com esse perfil, vc conhece a Península de Maraú? Mais especificamente, a região da Lagoa do Cassange?
    Acho que vc iria gostar…

  • Ladyrasta

    Marcelo vou contar uma coisa: a dedicatória do Riq no meu Guia de Praias novo recomendava que eu continuasse passando reveillons em lugares paradisíacos como os que eu costumava ir! Passei o Reveillon de 2002-2003 em Barra Grande, em Saquaíra, que é pertinho da Lagoa do Cassange… Aliás, nesse post aqui eu conto uma história desse reveillon, hehehe
    Quanto à Bainema, ainda está deserta sabia? Passei uma noite em Moreré, e ninguém mais ninguém menos que David Byrne foi meu vizinho de pousada…
    Vc conhece Galinhos, no RN? Ou Icaraizinho d’Amontada? Ambos valem a visita…
    Mas Boipeba é minha atual paixão, confesso…
    Adorei a visita!
    Beijos!

  • Marcelo

    Hahaha…gostei da história do reveillon e te digo que vivi algo bem parecido por lá, mas não conto!!rsrsrs…aquele lugar é muito tranquilo e nos leva a aprontar dessas…
    Em Boipeba eu ia à Bainema à pé (nada de barquinho) desde a Boca da Barra!! Surreal aquela praiona quase selvagem!!
    Fiquei curioso sobre Galinhos…não é muito seco? É que eu gosto de um verdinho…
    Beijos, adorei seu blog!

  • Ladyrasta

    Marcelo eu adorei passar uma noite em Moreré, no próximo verão passarei mais um pouquinho…Bainema é realmente fantástica…
    Quanto à Barra Grande…não precisa contar, eu posso imaginar, hehehe…

    Galinhos é bem seca sim, mas é outro lance, saca só: imagine uma pousada de uma portuguesa chique de verdade, mas descoladaça. Imagine uma lua cheia no dia 30 de dezembro. Agora imagine que a portuguesa faz um arroz de frutos de mar, coloca numa caçarola que ela amarra num pano e embarca a iguaria, os hóspedes, e esteiras numa jangada. A jangada chega num lugar de dunas virgens (tá lembrando da lua cheia né?), ela manda os empregados estenderem esteiras, e comemos o arroz de frutos do mar com chardonnay num cenário que parecia a lua. Ainda tá sentindo falta do verdinho? Porque eu não senti…e nem te contei do Reveillon, hehehe…Não é pra ficar 10 dias, mas vale a viagem – veja os posts do Riq sobre Galinhos e vc vai entender (se não achar avisa que procuro e te mando)
    Que bom que vc gostou, fico super feliz quando alguém elogia meu “filhinho”…

    Beijossss!!!

  • Marcelo

    Eu me lembro dos posts do Ricardo sobre Galinhos! Aproveitei suas dicas e dei uma relida no 100 praias que valem a viagem sobre Galinhos e Icaraizinho. Na verdade, eu considerei bastante uma vez ir a Galinhos, mas o tal verdinho fica devendo. Porém, me pareceu que tem o isolamento que eu aprecio por demais…
    E Icaraizinho? Venta muito? Passa muito bugue?
    Desculpa tanta pergunta, mas é difícil encontrar quem goste de praias desertas entre meus amigos…eles vão pros lugares de sempre, que eu não vou nem de graça…rsrs
    Ah, uma dica, se é que vc ainda não sabe…há outras piscinas naturais em Boipeba além de Moreré e sem a muvuca daquele povo que descamba de Morro de São Paulo (éééécaaa), um lugar tranquilíssimo onde vc mergulhará sossegada…pergunte aos guias…

    Beijos

  • Ladyrasta

    Marcelo imagina, pode perguntar à vontade!! Eu sei bem como são esses lugares – en-fa-do-nhos, onde vc encontra todo mundo que vc já encontra o ano todo. Eu gosto de conversar com as pessoas, saber como elas vivem…e descansar, claro!

    Icaraizinho venta muito sim, mas é bacana. Estou reservando Barra Grande no Piauí em julho (vai lá http://viajeaqui.abril.com.br/indices/conteudo/blog/112280_comentarios.shtml?1311328 ou
    http://viajeaqui.abril.com.br/indices/conteudo/blog/112740_comentarios.shtml?1311328 ).
    E para o verão, considerarei Barra de Camaratuba, que pelo jeito, é mais a sua cara
    http://viajeaqui.abril.com.br/indices/conteudo/blog/70085_comentarios.shtml?1311328
    Vc obviamente conheceu Guarapuá né? Falta uma pousadinha mais ajeitada lá, mas amei aquele lugar, sério!

    Beijos !! Adorei que vc “voltou”!

  • Marcelo

    Não conheço Guarapuá, Flavia. Mas já ouvi falar, não imaginava que pudesse haver um lugar assim tão próximo a Morro (argh).
    Vc acertou em cheio, adorei as informações sobre Camaratuba, tem verde de monte!!rsrs
    Vai prá minha lista, com certeza! Pretendo viajar em outubro ou novembro e estou já estudando o destino. Quesitos fundamentais: praia nordestina, o mais deserta possível, muita cor local.
    Eu tb gosto muito de conversar com o povo, os guias, os donos e funcionários das pousadas…qdo estive em Maraú os guias me levaram prá conhecer as famílias, me falavam de suas vidas, foi muito bacana!!
    Brigadim, viu?
    Beijão

  • Ladyrasta

    Marcelo o Ricardo tem um texto sobre Garapuá também – mas as acomodações ainda são rústicas, falta um pouco de charme sabe?

    Mas é uma praia maravilhosa, de desenho perfeito!

    beijos!

  • Ana

    E Cajaíba (em Paraty), você conhece?

  • ChrisL.

    Pois é…. conheci Paúba no estágio 1….
    que saudade do meu litoral norte!
    Em SP agora só mesmo…Shhhhh

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