<parênteses> A Sam Shiraishi, minha conselheira de todas as horas nesse mundo digital que eu não entendo muito bem, conversando comigo no msn sobre educação falou pra eu escrever sobre o tema que estávemos discutindo. E não é que ela gostou tanto que publicou no blog Mães com Filhos? Aliás, o blog é essencial praqueles que estão dentro do perfil, juro! Publico o texto aqui embaixo, mas eu não deixaria de conferir os debates no lugar original dele, aproveitando para passear um pouco por lá…</fecha parênteses>
Semana passada acabei lendo, graças a um post da Sam Shiraishi, uma entrevista da Lúcia Guimarães (jornalista da qual sou fã) publicada no Digestivo Cultural e parei pra pensar num tema que eu sempre acho muito importante: o quanto adoramos meter o pau na televisão, no marketing absurdo que fazem em cima de crianças e adolescentes nos dias de hoje, na cultura de massa sem qualidade, sem que façamos um mea culpa, ou ao menos, sem que prestemos atenção nos atos que nós praticamos (ou não praticamos, pensando bem) para evitar comportamentos danosos ou a “ignorância da juventude de hoje”.
Explico.
Na entrevista, a Lucia abordou o tema da seguinte forma:
O outro problema é o da cultura consumida em guetos de geração. O adolescente consome cultura de adolescente. Na minha casa se ouvia Frank Sinatra, Sarah Vaughan, Pixinguinha e Lamartine Babo (Beatles e até Black Sabbath quando meu pai não estava por perto). Ainda que você, como qualquer adolescente saudável, buscasse rebeldia nos livros e na música, a experiência cultural adulta entrava no seu sistema como vitamina e proteína, e você caía no mundo relativamente bem nutrido. Hoje a indústria de entretenimento trata a infância, a adolescência e outros segmentos de idade como um fim em si, estágios de vida congelados. As crianças e os jovens se isolam cada vez mais no quarto e têm tolerância zero para a conversa e o mundo adulto. (grifos meus).
Na sequência, contou uma história sobre a filha:
Uma vez minha filha chegou do campus de Boston no fim de semana com um amigo que cursava comunicação. Estávamos acabando de jantar; um grupo pequeno. Havia editores e escritores na sala. Ninguém mudou de assunto, é claro, para perguntar sobre a MTV. Eles sentaram conosco um pouco, ouviram em silêncio e, depois, minha filha me contou, comentaram entre si, espantados: que conversa inteligente, que pessoas incríveis. Não havia nenhum gênio na sala. Era como se os dois tivessem saído de um prédio abafado (o gueto jovem) e tivessem recebido uma lufada de ar fresco na cara.
Bom, vocês irão perguntar: qual é o ponto?
E eu vou responder: O ponto é que as pessoas hoje em dia parecem achar que tudo é como é e não há nada que possa ser feito para evitar o fluxo dos acontecimentos; as pessoas simplesmente parecem se esquecer que educar DÁ TRABALHO, E MUITO TRABALHO. Educar implica em planejamento; implica em pensar quais atos ou comportamentos você deve ou não incentivar para formar um ser humano digno desse nome, e não mais um dos alunos do The Wall. Educar significa assimilar alguns comportamentos atuais e necessários para a diferenciação das gerações ao mesmo tempo em que se finca pé em alguns comportamentos, hábitos e atitudes das gerações anteriores, AINDA QUE ISSO DÊ UM TRABALHO DOS DIABOS, só porque achamos importantes que tais e tais [comportamentos, costumes, conhecimentos] são importantes, ainda que você tenha que ir contra o pensamento da maioria.
O bacana é que (ao menos sob o meu ponto de vista) a Lúcia levantou um ponto super importante (a segmentação) ao mesmo tempo em que deu a solução para o problema. Não conheço a vida da Lúcia, evidentemente, mas pela bagagem cultural dela e pelo comportamento da filha (que chegou com o amigo, cumprimentou os presentes e ficou ouvindo a conversa) posso imaginar que essa filha não foi criada à base de Xuxa e afins; tenho quase certeza que ela só conseguiu ficar lá naquela sala porque muito provavelmente, quando criança, fez coisa parecida; porque estava habituada a isso, ainda que depois tenha se distanciado ou passado mais tempo com o pessoal da sua geração (como deve ser mesmo, pois na adolescência temos que nos afastar da família para encontrarmos a nossa identidade).
Ou seja: é possível não deixar nossos filhos expostos apenas à cultura adolescente. Basta ter “vontade política”. Só isso.
Querem um exemplo?
Quando meu filho tinha uns 3 ou 4 anos de idade, cheguei à conclusão que, a menos que eu tomasse alguma atitude, corria o sério risco de virar roomate dele ao invés de sermos uma família – e uma das coisas que decidi fazer àquela época foi ter apenas uma televisão na casa. Sim, isso mesmo!!! Sabe pra quê? Pra gente brigar. É, isso mesmo que vocês leram: pra gente brigar – pois assim estaríamos interagindo, estaríamos tentando solucionar problemas de convivência ao invés de meramente dividirmos o mesmo teto.
A partir do momento em que se tem apenas uma televisão e 2 pessoas com interesses distintos, acontecem duas coisas:
a) existe uma discussão sobre qual programa é prioritário para cada uma das pessoas;
b) obrigatoriamente, a outra pessoa terá que assistir ao programa de televisão escolhido por você (sim!!! Tão pensando o quê? Que a criança vai pro quarto? Vai para o quarto somente quando a programação é imprópria – porque quando não for, ela fica lá, bonitinha, quer queira ou não queira; o “querer” das crianças aliás é um outro tabu que precisaria ser reavaliado…).
O mesmo vale para a programação cultural.. Existem inúmeros programas culturais para crianças (muitos deles gratuitos), aos quais os pais interessados no desenvolvimento intelectual de seus filhos devem levá-los. A criança nem sempre vai gostar - mas ela também não gosta de uma série de coisas que fazemos com elas certo? Apurar o gosto de uma criança às vezes implica em acostumá-la a desenvolver determinados hábitos, e viver em sociedade implica em sermos tolerantes com o outro.
Meu filho (com 12 anos) até hoje reclama quando temos mais de um do que ele chama de “programa cultural” no fim de semana (sim, “programa cultural” aos fins de semana é matéria obrigatória aqui em casa – assim como algumas músicas, algumas comidas, alguns livros e alguns comportamentos; minha casa tem bibliografia básica). Reclama a ponto de quebrar paus homéricos antes de ir, para depois curtir (e aí eu choro de dar risada vendo a cara dele tentando dizer que gostou mais ou menos, só pra não perder a pose).
No entanto, quando estivemos na França ano passado, depois de um dia somente flanando por Paris (e tem coisa melhor?) ele falou:
- Mã, amanhã eu quero começar a ver as coisas.
Ou seja: ele queria ver a programação cultural e artística; ele estava interessado – e estava interessado pelo simples motivo de ter sido estimulado a isso, do mesmo modo que aprendeu a comer frutos no mar, ou um prato requintado, ou um p.f. caso estivéssemos em um local mais simples…
Vou falar uma coisa: eu às vezes confesso que fico um pouco irritada quando dizem que meu filho é uma criança privilegiada – porque não é. Ele é muito inteligente, interessado, bonito (eu sou mãe gente, dá licença de corujar minha cria?), mas sobretudo, foi muuuito estimulado para as coisas bonitas que uma vida cultural plena pode proporcionar ao indivíduo.
Não é difícil – mas dá trabalho. Me responde uma coisa: como é que você vai querer que seu filho leia se você não lê? Como é que ele vai achar a leitura uma atividade prazerosa se você não a acha igualmente prazerosa? Como é que ele vai se interessar por Billie Holliday ( ou ao menos saber quem ela é – ainda que a ache uma mala) se você não se dá ao trabalho de colocar uma música de fundo na hora do jantar ou no carro e fala sobre isso?Não, a culpa não é da nova geração ou do marketing, ou da TV; a culpa é nossa, que não nos esforçamos o suficiente para transmitir o conhecimento. História, música, geografia, política, matemática, teatro, poesia, literatura, física e química são assuntos, e não matérias- e é esse conceito que deveria ser adotado pelos pais.
Aproveito algumas palavras da Lúcia quando falou dos amigos dela para utilizá-las de outra forma: não precisa ser um gênio para desenvolver o gosto pela cultura; você não precisa ser a pessoa mais culta do universo, ou só falar de temas complexos com seu filho de 6 anos; basta só querer, basta só se dar ao trabalho – porque como tudo na vida, educar os filhos é uma questão de esforço, estudo e dedicação…
P.S. Meu pai adorava um papo cabeça. Vi “2001 uma Odisséia no Espaço ” num cinema detonado, na Baixa dos Sapateiros (sim, aquela da música ) num dia de semana à noite, durante o período escolar, com 9 ou 10 anos de idade. Lembro até hoje do meu pai falando daquele monolito, e da interpretação dele para aquela cena memorável em que o macaco aprendia a usar um osso como arma – ele tentava me mostrar a importância daquilo para a evolução da humanidade com uma emoção que até hoje, 30 anos depois, me toca. Lembro dele imitando as vozes das personagens do Sítio do Picapau Amarelo nas “Reinações de Narizinho” para despertar a curiosidade e o prazer pela leitura – e parar nas melhores partes, dizendo que se eu quisesse saber como terminava, eu que continuasse a ler. Lembro dele me ajudando a fazer trabalhos de história que eram complicados para mim, pois na minha casa não se admitiam enciclopédias, e ele preferia ler comigo textos complicados e explicá-los do que me ver copiando trechos da Barsa. Meu pai não foi uma pessoa fácil – mas se hoje recebo tantos elogios pelo meu filho, é a ele que devo parte deles… E agora vocês me deem licença porque lembrei que meu filho ainda não viu 2001…















Esse educar que quero e ofereço pra minha Luisa culturete! aqui não tem Xuxa não!
Adorei ver a Sam por aqui no post!!
o Mãe com Filhos é um blog que a a gente faz com carinho!
E vc doida, sabia q eu tinha adorado essa história da Lucia Guimaraes!??(musa!)
Ah Leozinho! sempre se superando!!!!
bjs
Lili
Lili já coloquei o Mãe com Filhos nos meus favoritos quando o tema é tchãrãn…mãe com filhos…
A Luisa vai ser que nem o Leozinho, vc vai ver!!!
Qto à Lúcia…eu curto bastante as coisas que ela fala (só não concordo qdo ela fala que Sex and the City é um horror, mas…ninguém tem que pensar sempre igual né?)
Beijos!!!
carladobrasil (carladobrasil) // fev 11, 2009 at 7:58 PM
Antes de ter filhos, todo mundo devia ler esse texto da @ladyrasta: http://tinyurl.com/c73v2t
bhayashi (Bianca Hayashi) // fev 11, 2009 at 8:10 PM
Ret@carladobrasil Antes de ter filhos, todo mundo devia ler esse texto da @ladyrasta: http://tinyurl.com/c73v2t
aldurin (Thiago Gonçalves) // fev 11, 2009 at 11:04 PM
tem alguma coisa errada aqui. http://tinyurl.com/c73v2t muito errada. mas preciso de tempo.
Flavinha, primeiramente, PARABÉNS pela casa nova!!! Adorei!
Depois…..nossa…que post! Lindo, precisoso e necessário! Eu sempre digo que educar dá muito trabaho! Vc sabe que eu tenho duas princesas que são totalmente diferentes, a mais velha, é praticamente a mais velha da casa, um espírito velho, atenciosa, carinhosa, responsável…(tá, não é só corujisse, não!). A pequena, um raio de sol, viva, intempestiva, curiosa, contestadora (xodó da casa)…enfim, adora quebrar as regras. Fiz esse entróito pra te contar uma historinha. Semana passada estávamos lendo antes de dormir, eu e a mais velha, cada uma o seu livro. Aí, a pequena de tanto bufar por que não quis que eu lesse pra ela, foi na sala e voltou com um livrinho pequeno (minutos de sabedoria), deitou ao noss lado e ficou fingindo que estava lendo tb!
Foi muito engraçado, pq ela ainda não sabe ler! Mas, acho que é exatamente o que vc fala aqui! Filhos podem ter personalidades diferentes, uns mais fáceis, outros nem tanto, mas de uma forma ou de outra, com insistência e trabalho, conseguimos abordá-los de um jeito que eles compreendam, não é mesmo?!
Adorei!!! Lindo!!!!
Super bjo
Paula êêê, saudades de vc! Obrigada!! Ainda falta colocar os blogs da comunidade, umas frescuras, mas está mais legal sim! Adorei sua história, é realmente legal ver os filhos querendo fazer parte da brincadeira – ainda mais quando ela é saudável assim né?
O Leozinho fazia uma coisa parecida: ele decorava o que estava escrito nos livros quando ainda não sabia ler (a babá lia 50 vezes por dia, coitada) e lia para as pessoas fazendo pausas, meio gaguejando, para fingir que ele próprio estava lendo…
Vc disse tudo: a gente deve passar o que julgamos importante para eles sim, mas num approach, numa forma e linguagem que torne isso prazeroso e interessante para eles…
beijos!!!
Flavia, eu adorei o texto. Sabe, quando a Sofia nasceu me preocupava como amamentá-la, como alimentá-la, mas SEMPRE com a visão no futuro e uma preocupação maior que é como vou educá-la adequadamente. Meus pais cometeram muitos erros, assim como nós, certamente vamos cometer, mas o importante é fazermos o máximo que pudérmos para os tornar pessoas felizes, seguras, educadas e decentes, capazes de tornar o mundo um lugar melhor. E cultura e educação são os alicerces de uma pessoa. O berço, por assim dizer, valeu, eu precisava ler isso hoje.
Paula, que bom que vc gostou! Foi o que eu falei: dá um trabalho louco, mas quer saber? Quando eu vejo os elogios que meu filho recebe, que ele é requisitado e convidado pra ir em tudo quanto é lugar porque sabe se comportar, e quando vejo que hoje no rapaz que ele está se tornando, me dá uma alegria enorme. Vale cada minuto investido…Tenho certeza que será assim com a Sofia também!
Beijos