Avatares

I was watching all the people
Passing by me, going places
Just the loneliest guy in the town
Looking for a friendly smile
But all that I could see were faces

And then, just like the taste of milk and honey
I found the stranger I’d been looking for
The way my cup of love was overflowing
I knew the stranger in the crowd
And I would be strangers no more

(trecho de Strangers in the Crowd)

No último superbowl (o único dia do ano aqui no Brasil onde subitamente aquele esporte de ogros que é o futebol americano passa a ser discutídíssimo e eu, pobre menina ignorante, tenho que googlar cada frase proferida pelos seres com cromossomos xy) a Coca Cola lançou um comercial bárbaro,  onde um cara ao perambular pela cidade, consegue ver os avatares das pessoas pelas quais ele passa.
Deem uma olhada:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Kwke0LNardc]

É o tipo de comercial que dá margem à várias interpretações e obviamente, cada um adota a que bem lhe aprouver, certo? Mas percebi que duas interpretações eram majoritárias durante uma rápida pesquisa minha, quais sejam:

a)  aquela que vê as pessoas vivendo cada vez mais no mundo virtual (e aí a Coca Cola seria o que traria de volta as pessoas pra tal “real life”);

b) aquela que entende que o comercial afirma ser possível fazer-se uma conexão, uma junção entre o mundo virtual e o real (junção essa, obviamente, proporcionada pela Coca Cola);

A alternativa “b”, não por acaso, é a minha visão também – idéia essa talvez alicerçada em um debate do qual participei, chamado “Amor nos tempos do Scrap”,   realizado no último Campus Party (produção da IPTV Cultura e o Sesc), que discutia o surgimento e o desenvolvimento das relações afetivas no meio digital.

O debate foi mediado por  Gustavo Gitti que convidou a mim e mais uma moçada  ( Gabi e Eric Franco, Alê Felix, Mirian BottanGisele Honscha Rafael Ziggy, Guilherme Valadares e outros) e alguns  dos pontos sobre os quais  falamos muito foram  a personalidade, a atitude e formas de expressão que adotamos no cyber mundo.

Já pararam pra pensar? Justamente pelo fato de não termos que nos apresentar fisicamente  ali, o meio digital permite que nos reinventemos, que consigamos transmitir coisas que não temos condições ou tempo de transmitir no chamado “mundo real” em virtude de uma série de fatores; é como se pudéssemos praticamente nascer de novo:  como ninguém sabe o nosso background podemos externar o que quisermos sem que nos cobrem posições anteriores, podemos passar a borracha em tudo o que já fizemos ou dissemos antes e começar do zero (claro, estou exagerando um pouco, mas guardadas as devidas proporções, dá pra fazer isso sim).

Sim! Excetuados os casos patológicos, na maioria das vezes, longe daquela “persona” ser uma ficção, ela é antes o que aquela pessoa  é na realidade, lá no seu íntimo, e não tem condições de colocar para fora no “soidissant “ “mundo real” : normalmente são pessoas mais tímidas, que se sentem mais seguras no meio escrito, têm um conteúdo e bagagem interna imensos mas infelizmente não conseguem mostrar esse conteúdo todo na chamada “vida real” em razão de suas inseguranças.

Dentro dessa idéia, o avatar (e também o nosso nick, quando possuímos um) é  a primeira impressão que damos para as outras pessoas, para a partir daí o indivíduo começar a interagir – da mesma foram que no “mundo real” nosso cabelo e nossas roupas (de certa forma, obviamente) fazem algumas afirmações sobre a nossa personalidade. E é divertido né? No comercial da Coca Cola é bacana ver como as pessoas assumem personagens tão diferentes do que eles são na vida real – ou , se não diferentes, pelo menos a combinação é por vezes surpreendente -;  o que nos faz pensar (ou lembrar, pensando bem) que as pessoas não necessariamente são somente aquilo que enxergamos (ou queremos enxergar) nelas  (um bom exemplo é moça do final do comercial, que é toda bonitinha, na linha moça-meiga, mas se acha um Schrek – talvez porque se ache desajeitada, ou porque não lide muito bem com algumas situações, vai saber).

E nessa história de não sermos somente uma pessoa o tempo todo é que, a meu ver, se encaixa a tal  integração da chamada “vida real” e “vida digital”: como bem  lembrou o Gustavo Gitti no mesmo debate, do mesmo modo que deixamos em evidência esta ou aquela qualidade (ou traço da nossa personalidade) a depender do lugar, da situação e da pessoa com as quais convivemos (eu por exemplo, tenho o lado mãe, o lado mulher, um sem número de interesses, alguns deles até aparentemente incompossíveis), nossa faceta virtual é apenas mais uma das facetas de nossa personalidade; talvez seja a mais difícil de harmonizar com as outras, pois o meio virtual nos dá meio de experimentarmos mais – mas na maioria dos casos ela pode servir de trampolim para uma qualidade de vida melhor, como é o caso dos tímidos (os que tenham conteúdo, bien compris), que podem se valer da segurança adquirida na internet para conseguir uma auto-confiança maior na chamada “vida real”.

Agora, a pergunta que não quer calar: NOBS SÃO O COMERCIAL DA COCA COLA?

******

<ADENDO> Passei um tempinho lendo e pensando sobre o assunto antes de escrever o post, e achei algumas coisas interessantes, que vou deixar aqui para os que se interessarem:

* com relação ao comercial do avatar, gostei particularmente de dois comentários feitos no post do Eight Bar:

Mo Hax Says:

February 3rd, 2009 at 10:54 pm

My personal favorite was the super hero ambivalent to the mother in need and the mother texting while swinging her child.

I found this ad a pleasant, perfect walk down the fine line of showing how avatars are becoming mainstream virtual representations of ourselves and the importance of staying logged into real life. Both are critical parts of society today. It is not one v.s. the other.

epredator Says:There is certainly a lot of truth in not judging people on external appearance alone. This tends to be an objection by some people to the use of avatars in virtual worlds, that the avatar may not be an accurate representation of the person that they wish to judge based on appearance. When in fact is is often the case the choice of character or look is often a clearer indication of how that person would like to be seen.
The superhero avatar may well have been someone who wanted to learn to be more helpful and have more honour, but was struggling to come to terms with that, and had to practice it through online expression of that character.

** Ainda quanto aos avatares, e informação pessoal que  – texto falando sobre avatar anxiety, levantando uma comparação super interessante: que nós somos os pais de nossos avatares e personas da internet, de uma vez que somos os responsáveis pelo grau de informação e exposição que escolhemos publicar (via @josenilocm).

*** uma curiosidade sobre avatares – indicador de tendências futuras, maybe?

- Polícia Japonesa usa avatar de videogame para identificar suspeito

***** íntegra de Amor nos Tempos do Scrap

Amor nos tempos de scrap

***** Last but not least, para quem quiser ver a gravação original de Stranger in the Crowd com o Elvis Presley:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=QSMv0D8Lf6o]

filler

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6 comentários sobre “Avatares

  1. O avatar é uma forma de dar vazão a atitudes contidas. Melhor é poder sentir na virtual a reação dos outros…Depois podemos colocar em prática na vida real, já sabendo um pouco como os outros vão reagir. No fundo queremos mesmo é ser aceitos e se possível, melhor ainda, ser amados.

  2. Astrea tb acho! e se o virtual te der força para vc conseguir transportar isso pra vida real, melhor ainda né?

    beijos!

  3. Tenho uma amiga que é muito valente na web, protegida pela máscara que o IP lhe concede, mas na vida real…

    … sem contar que minha namorada também é um tanto valentona na web. Concordo, um avatar é uma forma dos tímidos de mostrarem quem são, mas e os extrovertidos? E os não tímidos? Para que o avatar deles serve, então? Foto do rg? :P

  4. _g boa pergunta!!! E eu até sou reservada, mas não tenho nada de tímida…acho que aí a gente só explicita o que tá dentro da gente. Quem me conhece na “vida real” não imagina uma menina sapeca que pode ser anjinho ou diabinho a depender da situação. E as opiniões são unânimes: ladyrasta é um nick que me cabe perfeitamente – mas quando vc olha pra mim, não é isso que vc vê, acredite!

    Beijos e obrigada pela visita!

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