Eu tinha uns 12 anos de idade mais ou menos, e fui com minha mãe cortar o cabelo em um salão nada chique, mas moderninho, na Rua Augusta, no começo dos anos 80. Falaram que quem cortaria o meu cabelo seria o Carlinhos.
Eis que surge uma moça loira, toda arrumada, cabelos compridíssimos, para cortar o meu cabelo. Quando saí do salão, pergunto pra minha mãe:
- Mas não era o Carlinhos que ia cortar o meu cabelo?
Ao que minha mãe responde:
- Minha filha, e le cortou ! Você já está bem grandinha para achar essas coisas estranhas não acha? Acorda!
É, pensando bem, na minha casa essas coisas nunca foram um problema. Desde menina convivi com uma seqüência de fitas cassete na minha casa intituladas “Medieval n°1″, “Medieval n°2″ (lembro de ver o número 9). Medieval, para quem não sabe, era o nome de um clube gay famoso na década de 70 aqui em São Paulo. Então vocês imaginem a intimidade dos meus pais com os DJs da casa para chegarem ao ponto de ter várias fitas cassete gravadas né?
Minha madrinha de batismo era bolacha (outro termo para sapata, para aqueles que não conhecem a terminologia), meus pais perderam alguns amigos para AIDs na década de 80, e isso era falado naturalmente na minha casa, apesar da rigidez com que fui criada.
É, devo dizer os gays faziam parte da minha vida. Achava até esquisito que as outras pessoas não os enxergassem tanto como eu fazia (não é pra menos que tenho um “gay radar” apuradíssimo e sou fag hag de carteirinha,
) e não via a menor graça nas bichas caricatas que a televisão brasileira sempre mostrou – talvez porque estivesse acostumada a vê-las no meu dia a dia e soubesse que não só não eram assim tão caricatas, nem tampouco alegres como também gostam de propalar; afinal são pessoas né? Com direito a altos e baixos na vida.
Então, hoje, quando fui assistir a Milk, filme vencedor do Oscar de melhor ator, levei um choque ao descobrir que num país como os Estados Unidos, um cara tenha sido morto a tiros ÀS PORTAS DA DÉCADA DE 1980 (1978, para ser mais precisa) APENAS POR DEFENDER OS DIREITOS DAS BIBAS!!!

E eu não sabia de uma coisa: nessa época, houve uma ameaça de retrocesso na política dos direitos civis, mais especificamente falando, dos direitos dos homossexuais. Sim, olhando a linha da evolução dos direitos dos gays, dá pra perceber que após um avanço substancial na década de 60 (com os protestos e tal) e começo de 70, os americanos mais conservadores tentaram, quase no fim da década de 70, voltar no tempo (e apesar de todo o avanço, não custa lembrar o retrocesso que foi a vitória da Proposition 8 nos Estados Unidos, na mesma eleição que tornou Barack Obama o primeiro Presidente negro daquele país)
Fiquei embascada de ver que em 1978, quando o Elvis Presley já tinha morrido, quando a Guerra do Vietnã já tinha acabado, quando já estávamos saindo da pior fase do regime militar (Geisel enviou em 1978 emenda para revogar o AI5), um cara foi morto por…ser gay (ou defender seus direitos, vá lá que seja). Maluco né? Isso não aconteceu quando eu era “pequenininha”, aconteceu depois de GUERRA NAS ESTRELAS TER SIDO LANÇADO!! É bom ter essa perspectiva para vermos que o mundo mudou muito paulatinamente quanto a essa questão entre Oscar Wilde ter sido condenado e a morte de Harvey Milk.
Posso falar? Saí do cinema emocionada. Meu pai morreu há quase 11 anos atrás e tive séria divergências com ele (principalmente pela educação muito rígida a que fui submetida), e não falo com a minha mãe há 10 anos, por motivos que não vêm ao caso. E acho que eles eram meio hipócritas sim, pois não sei se eles achariam a coisa mais normal do mundo se eu ou minha irmã fôssemos gays; mas a verdade é que sempre fui ensinada a tratar as pessoas com respeito, e a praticar isso dentro do meu lar, sem me importar com as suas práticas sexuais dentro de 4 paredes. Tenho sim, que agradecer a eles, onde quer que eles estejam – pois se saí chocada do cinema nesta noite, ao ver o tamanho do preconceito em um período tão perto dos nossos dias, é a eles que devo isso – eu simplesmente não sabia que as coisas eram assim tão duras. Pra mim, era parte da vida íntima deles que não me dizia respeito. E tenho muito orgulho de ter sido criada dessa forma.
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ADENDOS BACANAS
Vale a pena ver a matéria no noticiário do dia em da morte de Harvey Milk e do Prefeito de San Francisco
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=oUB-RCNBDnk]
Também vale ver a cena real da passeata após a morte de Harvey Milk, que tanto emocionou no cinema
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=SEcsms2L4uQ&NR=1]
- Texto do Pedro Dória sobre a Proposition 8 onde achei esse depoimento ao vivo, emocionado, feito por um âncora heterossexual ao vivo do “NÃO” à Proposition 8 – uma das coisas mais bonitas que já vi sobre o assunto nos últimos tempos.
- Matéria da Revista Time sobre o assassinato de Harvey Milk (a internet nessas horas é maravilhosa né? Temos acesso a um material antiquíssimo em minutos).
Trechos do Documentário Times of Harvey Milk, também premiado na década de 80:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=FkN8OZQ0EK8]
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Ohd2txsNf0o]
- entrevista com Cleve Jones:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=z6TDxs9kC5Y&feature=related]
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=KCGr2xeWZIM&NR=1]
Mais sobre Harvey Milk e seus parentes no New York Times
Last but not least: praqueles que não estão habituados, “biba” é um termo carinhoso para se chamar os gays tá? Não tem nada de preconceito aqui, juro!

















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