Outro dia uma amiga minha contou que estava em dúvida se mergulhava fundo numa relação que estava começando muito bonitinha porque além de estar meio…hum…dividida entre dois moços, ela estava com medo de quebrar a cara.
E eu, naquele meu modo meigo de aconselhar pessoas que por vezes é ativado, disse (por incrível que pareça, pra incentivá-la): uma hora vc vai quebrar a cara. Vocês não vão casar e ter 10 filhos, e uma hora esse relacionamento vai acabar. Se vai acabar daqui a um mês ou daqui a 10 anos, não há como saber. Mas vai acabar. Aliás, vai acabar ainda que vcs se casem e tenham 10 filhos e vivam felizes para sempre porque uma hora um dos dois morre. Ou seja: uma hora vai acabar, e vai ser ruim. Simples como isso.
Aliás, curiosamente na mesma hora estava vendo um episódio do House onde ele às tantas falava, comentando sobre uma situação amorosa X : It’s not easy – but it’s simple (não é fácil- mas é simples).
Eu tenho uma forma muito particular de enxergar determinadas situações: eu não sou uma daquelas mártires que adora sofrer, que adora se sentir miserável ou que fica feliz quando tudo dá errado, nada disso; mas partir do princípio que uma hora todo príncipe vira sapo ajuda horrores na hora em que tenho que decidir alguma coisa. É como se, tendo certeza de um final e de que tudo uma hora acaba, fosse mais fácil ir em frente (vocês vão dizer que não dá pra saber se o final será triste, alegre, mas acho que todo fim é triste – só porque é fim, como diz a música do Paralamas…). Aliás, ainda bem que ficamos tristes né? Sinal de que a relação valeu a pena ser vivida. Sinal de que ela fez diferença. E eu gosto que as pessoas façam diferença na minha vida e vice-versa; gosto de carregar orgulhosa as cicatrizes que tenho no coração, do mesmo modo que os soldados mostram ferimentos de guerra. Significa que eu vivi né?
Tem gente que acha engraçado que eu funcione “ao contrário”; acham que eu sou do tipo que pula do avião sem paraquedas, mas não sou, até porque não faço nada sem pensar, sem avaliar – só não deixo de fazer, entendem? Não deixo de fazer em razão de achar ” e se” a expressão mais triste que pode haver na história da vida de uma pessoa. Sim! Pra mim, a perpetuação do talvez, a ideia daquele “e se” infinito na minha vida é um zambilhão de vezes mais apavorante e triste do que sofrer ao fim de uma história romântica. O pior dos “nãos” pra mim é melhor do que qualquer “e se”.
E não é uma questão de não se arrepender depois, pois só idiotas falam isso (sim, porque de uma vez que erramos, é idiota não admitir que poderíamos fazer algumas coisas de outra forma); na verdade, eu gosto de saber que, dentro das minhas condições e convicções à época, eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para ir atrás do que eu acreditava e buscava, mesmo quebrando a cara depois; me tranquiliza saber que não tem nada pra trás que eu pudesse fazer diferente – excetuada a opção de tomar um caminho ra-d-ical-men-te diverso.
Vocês dirão que sempre tem um “e se” quando temos uma encruzilhada e tomamos um dos caminhos, e no fundo é verdade. Mas estou falando aqui em investir na mediocridade ao invés de arriscar – estou falando da situação onde, apesar de ficarmos tentados a escolher um caminho, continuamos no mesmo lugar em que estamos, estatelados, “just to be on the safe side”. Querem saber? Eu prefiro uma dor intensa que certamente passará (ou ao menos transforma-se-á numa cicatriz bonita, da qual me orgulhe) do que uma dorzinha incômoda martelando na minha cabeça (ou no coração?) até eu morrer (sim, porque eu iria pensar nisso até o fim dos meus dias!).
É, eu não me acho nada corajosa – no meu caso, dói mais ficar parada. Dói mais não saber. Não! Eu não vou em frente porque tenho “guts”, como todo mundo pensa; vou em frente porque tenho medo daquela dorzinha chata durando a vida toda, é isso gente. É a covardia que me move, e não o inverso.
Quando me separei, a frase que eu mais ouvi foi: uma pena que não deu certo. E eu ficava brava, porque na minha cabeça não era isso: tinha dado sim, muito certo. Não se pode chamar de fracassada uma relação que durou 11 anos, resultou numa criança maravilhosa (cujas condições de nascimento sem dúvida me fizeram evoluir como ser humano) – não, não deu errado; ela simplesmente foi boa durante 11 anos e uma hora acabou. Fiquei triste quando acabou? Sim, claro. Mas nem por isso deixaria de vivê-la, porque o saldo foi positivo.
E a constatação acima não significa que eu seja Polyana. Muito ao contrário! Significa que reconheço a finitude dos relacionamentos; que reconheço o fim de todas as coisas da vida (inclusive dela própria), mas que não é por isso que vou evitar viver determinadas histórias. Alguém aqui mata bebezinhos só porque eles vão morrer um dia? Não né?
Como dizia Vinicius (pra variar) : “depois da chegada tem sempre a partida, porque não há nada sem separação”. É isso. Não é fácil, mas é simples, hehehe.
Querem saber? Uma das coisas boas de se envelhecer é entender que no fim, tudo passa. A pior dor do mundo passa. Claro, nem por isso vc deixa de ter medo de viver aquela dor de novo – mas como disse uma vez a Maitê Proença, corajoso não é o que não tem medo; corajoso é o que tem medo e mesmo assim pula. É isso. Eu pulo porque se eu não pular, estarei igualmente triste: então vcs me desculpem, mas prefiro morrer pulando a morrer em razão da tristeza e do torpor do “e se”, pois não há nada mais libertador na vida do que a certeza de se ter vivido o que podíamos.
Espero que a minha amiga seja feliz. Enquanto durar. Sabe-se lá Deus com qual moço.
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P.S. I. Eu sei que falo dele toda hora, mas não dá pra não pensar em “A vida tem sempre razão” do Vinícius quando se escreve um texto como esse; tanto que citei parte da letra aí em cima. Mas é que eu realmente acredito que nada renasce antes que se acabe, e que é preciso paixão sabe? E como é preciso…
Toquinho – Vinicius de Moraes – Sei Lá A Vida Tem Sempre Razão – Antonio Carlos Jobim
P.S.II Ah sim! Não custa dizer que eu entendo perfeitamente aqueles que são diferentes de mim – eu é que não consigo ser como eles sem sofrer terrivelmente. Mas de novo, o que seria do azul se todos gostasse do amarelo não?
P.S.III – Não posso dedicar o post à essa minha amiga – afinal o mundo é pequeno, e vai que um dia um dos moçso cai aqui e lê né? Mas eu sei que ela passa por aqui de vez em quando, e vai rir do resultado ![]()
















Eu sempre digo que “Viver não é para principiantes”. Então, penso que o que nos leva a uma convivência melhor neste mundo são as experiências, boas ou ruins pelas quais passamos. Quanto mais nos escondemos, menos preparados estamos.
Beijos!
Somos parecidas em parte…eu meto a cara, faço o que tenho e acho que preciso fazer. Realmente viver no ‘e se’ é pouco pra tanto dinamismo.
Mas o fato é que também consigo ser bem romântica, escrevo poemas, até escrevi uma música uma vez.
E por falar em música, ainda preciso fazer o desafio das 5 músicas de dor de cutuvelo…rsrsrs
Ps: Sou apenas eu que não consigo abrir seu blog logo de primeira?
JaqueAh! mas eu também sou super romântica! Daquelas que escreve, mima – e morre de chorar dias, por vezes meses a fio quando tudo acaba. Eu até tenho consciência de que vai passar – mas dói né? E tenho meus medinhos sim, claro – e se vejo que vou entrar numa história parecida com outra que já me fez sofrer muito, não fico mais muito tempo no que é ruim, corto logo. E quer saber? Tem sido bom. Perdi muito tempo na minha vida achando que as coisas iam melhorar, ou iam ser diferentes, ou sei lá o que.
Não sabia dessa história do blog não abrir de primeira não! É sempre ou só hoje? Bom saber disso, esse tipo de feed back é importante!
AndreaNossa, é verdade! É uma bela forma de ver as coisas. Quem não consegue ir em frente ainda está engatinhando emocionalmente? Pode ser mesmo. Tenho um amigo querido que fala muito uma coisa: “às vezes não é falta de vontade de ir em frente, é falta de condição mesmo”. E é triste, mas algumas pessoas simplesmente não têm condição de viver determinadas coisas. Fazer o quê né? Não tem certo ou errado – acho.
beijos meninas!!!
Essa coisa de viver td muito eh fogo mesmo ne… Doi muito, mas se nao for assim, acho que fica a sensaçao de que ficou pela metade. Assim vamos vivendo, aprendendo que uma relaçao nunca eh igual a outra, que a dor tb nao, que um fim nunca eh igual ao anterior, mas que todos sao fim… Isso de qualquer jeito doi. Aceitando ou nao. Doi um tempo… mais ou menos, mas depois passa.
Adorei te ver hj.
Beijos.
Dede.
De Não é uma questão de viver “muito”, mas simplesmente de optar por viver ao invés de deixar de viver pra não sofrer. Eu acho isso triste. Mais triste que a tristeza de um fim sabe?
Também adorei te ver!
beijos!
Olá Lady!!! De novo fiquei tempo sem te visitar, mas hj passei por aqui e me deparei com esse ótimo texto! Abração!
Rodrigo a casa é sua, venha quando quiser!!! Mas eu adoro saber que vc passou por aqui viu? E que gostou do texto também!
Beijos!!
bhayashi (Bianca Hayashi) // abr 22, 2009 at 4:54 AM
A @ladyrasta disse tudo o que eu penso sobre relacionamentos e a vida neste post sensacional – http://is.gd/njnK
Flávia,
Sim: viver é bom!!! e dói!!!! às vezes, dói demais…
Mulher (no sentido mais pleno da palavra, com letra maiúscula!!!), você arrebenta a boca do balão!! (é elogio rasgado mesmo!) Tinha de ser, depois de um post destes… Guardadas as particularidades das histórias, no FIM (sim, ele existe), elas se parecem tanto…
Engraçado, um dia eu escrevia um e-mail falando como eu detesto o ” e se”…
Agora, me peguei nessa tua frase: ‘O pior dos “nãos” pra mim é melhor do que qualquer “e se”’.
Eu concordo.
Outra que me mata é o “quase”….
Para mim tem de ser SIM ou NÃO. Não dá para ficar em cima do muro, não indefinidamente.
Não sei se conhece o texto abaixo, imagino que sim, senão, espero que goste…
“Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.
[...]
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.
Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu. (Autoria atribuída a Luís Fernando Veríssimo, mas que ele mesmo diz ser de Sarah Westphal Batista da Silva)”
Popysp (Popysp) // abr 22, 2009 at 11:14 AM
Porque ‘Viver dói, mas é bom’ como diz a #@ladyrasta – E vale!!! http://tinyurl.com/d2bavf
Popysp obrigada! bom saber que tem mais gente que pensa como eu…É o que eu digo, não é a coragem que me move, mas a total incapacidade de ficar sem saber o que poderia ter acontecido…a vantagem é que (com uma rara exceção) eu não olho pra trás, pq tenho certeza que fiz tudo o que podia, e a vida tem que seguir em frente – mas é mais fácil seguir em frente quando se tem certezas né?
Acho que vc vai gostar de um texto meu que chama “Os diversos tipos de saudade”; quando tiver um tempo leia!
beijos!
bhayashi (Bianca Hayashi) // abr 22, 2009 at 7:31 PM
A @ladyrasta disse tudo o que eu penso sobre relacionamentos e a vida neste post sensacional – http://is.gd/njnK (ret da madrugada)
Existem situações que não pulo de cabeça.
Mas aprendi a atirar pra todos os lados e depois colher os prêmios, ainda mais quando quero algo.
Dou um boi para não mudar, mas se tiver que fazer vou até as últimas conseqüências,
Eu concordo. Não é fácil, mas é simples.
Uma amiga fala q eu sou bruta, eu falo q não sou bruta, só não fico sofrendo de besteira ou achando q o mundo vai acabar. Vou logo pra página seguinte.
Tem gente q gosta mesmo de sofrer.
A Bulgária não vale a pena | From Lady Rasta // nov 9, 2009 at 4:05 PM
[...] não ter medo de pular sem para-quedas (o que não é verdade em absoluto e já expliquei por que aqui), por ter um lado romântico muito forte que o meu racional insiste em dominar, sofri o diabo nos [...]
Dragus Não é que eu pulo de cabeça – as pessoas acham que eu faço isso, mas não é assim. Eu simplesmente vou porque não sei não ir
Regiane mas eu sofro! e choro, e me doo…mas levanto e vou em frente. e não tenho medo de cair de novo e nem me amarguro com o que não deu certo. O segredo é esse: não ficar amarga
Beijos
Eu sempre digo que viver não é para principiantes…
<> Andrea ou ao menos não é para principiantes covardes né?