From Lady Rasta

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Uma boa hora

abril 9th, 2009 · 18 Comments · Uncategorized

Não sei se todos vocês sabem disso, mas em tempos d’antanho era assim que as pessoas desejavam um parto auspicioso para a gestante – até porque naqueles tempos de “tragam-me água quente e toalhas” (que nós sempre vemos naqueles filmes), um pouco de sorte era imprescindível para que tudo desse certo e mãe e filho sobrevivessem.

Bom, mas por que estou falando nisso? Porque ontem  estive no lançamento da linha Mamie Bella, do Boticário, realizada no Spa Kyron no Shopping Iguatemi, onde, dentre outras coisas, em uma discussão sobre parto, gestação e assuntos correlatos à maternidade, falou-se sobre a velha polêmica parto natural X cesariana – e só pra variar um pouco, a minha opinião diverge de todo mundo…

Eu entendo a postura daquelas que querem ter um parto natural, em casa, sem aquela carga de impessoalidade  que um hospital possui (sou inclusive uma daquelas que, se puder escolher, quer  morrer em casa, na minha cama);  mas me incomoda um pouco esse movimento “volta à natureza” como se, somente pelo fato de sofrer mais durante o parto, a mãe fosse mais mãe.

Eu sei, eu sei, há inúmeros estudos falando das benesses do parto normal para a mãe, e para o relacionamento entre mãe e filho; mas também não dá pra negar que o mundo evoluiu, que hoje em dia nós temos uma tolerância à dor muito menor do que há anos atrás, e que o progresso científico  e a evolução da humanidade trouxeram  alterações no nosso modo de vida, inclusive quanto à nossa tolerância às frustrações, e isso tem consequências na forma como desejamos dar à luz.

Sim! Eu até entendo a postura romântica de quem deseja ter um filho na sua casa, como os “antigos”, ou como ainda ocorrem em algumas regiões isoladas do país (a esse respeito, btw, vale lembrar a excelente reportagem sobre as parteiras da Amazônia feita por Eliane Brum , que me comoveu profundamente). Mas eu pergunto: a mãe que opta pelo parto domiciliar está preparada para um mau desenrolar dos fatos? Está preparada para não ter socorro a tempo no caso de ocorrer uma emergência? Tem consciência de que a sua  imposição de ter um filho dentro de  casa pode implicar na morte deste  caso o parto não corra a contento? Sabe em quais complicações o médico responsável pode se meter caso ocorra algo grave? E agora vou ser muito muito polêmica: em que uma mãe que “bate o pé” para ter o filho em casa, expondo-o a esses inúmeros riscos difere daquela mãe que “bate o pé” para ter o filho numa data “x”, para que este seja deste ou daquele signo, ou para que os feriados não sejam prejudicados? Eu sinto em dizer que são as duas faces da mesma moeda – ambas estão colocando os seus desejos pessoais na frente do bem estar de seu filho.

O mesmo para todos as outras espécies de parto existentes no “cardápio” hoje em dia. Parto de cócoras é fantástico mesmo – para aqueles que passaram a vida de cócoras, com os seus músculos devidamente enrijecidos, com histórico cultural e familiares afeitos à técnica por perto; não serve para nós, seres urbanóides que ficamos sentados a maior parte do dia, e por aí afora. O mundo mudou, as relações sociais mudaram e não podemos (ou ao menos não deveríamos), ainda que seja sob a justificativa de estreitar laços com nossos filhos, tentar viver como em tempos d’antanho; quer queiramos quer não, não somos pessoas daquela época, e nossos anseios e expectativas são diversos – basta dizer que há 100 anos atrás era rara a família que não tinha um filho morto aos 5 ou 6 anos de idade, as famílias eram numerosas, e um óbito para uma mãe com 8 filhos não era tão traumático como é hoje em dia; simplesmente, a vida era daquela forma. Nós não conseguimos ver as coisas sob esse prisma, simplesmente porque temos mais recursos à nossa disposição; aliás temos tantos recursos que nos damos ao luxo escolher quais queremos e quais não queremos para nós.

Quero deixar claro: não estou de forma alguma criticando  parto normal ou o natural, ou defendendo a cesárea; estou defendendo a segurança e o bem estar da criança acima de tudo, inclusive acima dos desejos da mãe. São inúmeros os casos de complicações decorrentes de parto advindas na demora em se optar por uma cesárea, demora essa causada muitas vezes por veleidades da mãe em dizer que teve o filho de parto normal, e é para esse tipo de atitude que peço uma reflexão a respeito: parto é meio, não é fim; parto é a forma através da qual nosso projeto mais precioso, longo e  complexo terá início, e mais nada. Caso ele possa ser feito de uma forma menos invasiva, evidentemente a escolha deve ser essa – mas isso deve se dar de forma natural, e não forçada, não a qualquer custo – e muito menos deve arriscar a segurança de mãe e filho.  O importante é que a criança e a mãe estejam saudáveis e seguras para  vida que terão. O resto, vocês me desculpem, mas é detalhe.

mãe e filho, maternidade

****

P.S. De minha parte, tendo tido um parto onde corri risco de vida sério, tendo tido um filho prematuro de 27 semanas, só posso agradecer à Medicina ter proporcionado a sobrevivência daquele que, segundo um moço muito querido, “era o mais importante de meus projetos”. Indeed he is…

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18 Comments so far ↓

  • Renata

    Cada mãe escolhe o parto que acha que vai aguentar, mas não pode nunca descuidar da segurança. Teimar em ser “natural” e arriscar sua vida e do bebê é absurdo. Estou grávida e participando muito de um fórum de grávidas e mães, e lá muita gente alega que o corpo é preparado pro parto, então não tem essa de “não conseguiu ter natural, então fez cesárea”. Parece que essas mulheres esquecem que há 100, 200 anos atrás, também existiam mulheres que não desenvolviam um parto normal, e o destino delas (e muitas vezes do bebê tbm) era a morte, coisa que hoje é facilmente evitada.

    Sou a favor de tentar o mais natural possível, mas se dá pra fazer parto normal sem dor, eu quero; se houver dificuldades e a cesárea for indicada, eu quero. E quero o suporte de um bom hospital quando chegar a hora – e se meu bebê precisar ir pra UTI depois de nascer, por exemplo? Arriscar tudo isso em casa, sem suporte adequado, ao meu ver é negligência.

    E eu não conheço NINGUÉM que seja mais ou menos mãe, ou que seja mais ou menos filho, porque teve um parto ou outro, porque amamentou ou não. O vínculo vem do relacionamento, vai muito além de um tipo ou outro de parto.

    (ah, e aproveitando, adoro seus posts sobre educação. sempre passo pro meu marido ler pq vc tem conceitos ótimos a esse respeito!)

  • Ladyrasta

    Renata eu tenho um amigo querido que destituiu o médico no meio do parto porque ele resolveu que o parto deveria ser cesárea e não normal; a mulher dele ficou quase 2 meses sem poder se sentar direito – será que precisava? Tenho conhecidos cujos filhos tiveram problemas para o resto da vida porque demoraram muito para fazer o parto e a criança estava em sofrimento. Obviamente, se tudo estiver bem, é muito melhor que o parto seja normal – mas sem essa cobrança toda né? E muito principalmente, pensando sempre no bem estar da criança e da mãe acima de qualquer coisa.

    E muito obrigada pelo elogio! Vc não sabe como fico feliz ao saber que os meus textos fazem diferença para as pessoas…Vc me deu um presentão de Páscoa!

    beijos!

  • Giuliana

    Embora não seja Mãe, sou a favor do melhor á criança, e se possível, com toda a tecnologia possível para que caso ocorra algum imprevisto, os médicos tenham ao menos, a chance de tentar salvá-lo (a).

    Belo texto (como sempre)

    Beijos

  • Popysp©

    Flávia,
    Gostei muito das suas colocações!
    Não sou mãe, mas acredito piamente que quem resolve abraçar a maternidade deve sempre ter como principal meta o bem-estar maior de seus rebentos, de seus mais importantes projetos de vida!
    Porque a maternidade/paternidade, uma vez escolhida, deve ser exatamente o que você disse: o mais importante projeto de vida de uma pessoa!
    FELIZ PÁSCOA!!!!
    te adicionei no twitter… risos… :)
    Cássia

  • Ladyrasta

    Giuliana thanks!!! :-)

    Popysp obrigada! Sabe que ser mãe mudou minha vida né? Sou uma pessoa melhor por causa do meu filho…

    Obrigada, pra vc também! E já vi que me adicionou, já até nos falamos por lá!!!

    Beijos!

  • Ernesto

    Parabens pelo texto, muito sensato.

  • Evellyn

    Concordo com você. Sou a favor do parto normal, mas com a estrutura e os recursos disponíveis em um hospital. Não sei se teria coragem para ter um filho em casa. Sim, é preciso muita coragem e fé de que tudo dará certo, tanto para a mãe quanto para o bebê, ao se optar por não ir para um hospital nesse momento.
    Estou grávida e esse é um assunto que tem tirado meu sono, rs… Quero muito ter um parto normal, mas sem neuras, caso eu precise recorrer a cesárea. Sou contra esses extremismos de mulheres que se acham superiores por ter tido um tipo de parto ou ter amamentado x meses, assim como aquelas que determinam a data de nascimento do filho por conveniência ou mero carpicho.
    Beijos

  • Ladyrasta

    Ernesto obrigada!!!

    Evellyn posso falar uma coisa? não perca seu sono, deixe o barco correr e acredite que tudo vai ocorrer da melhor forma pra vc. vou te contar uma coisa: eu era daquelas que programava minha vida toda. Meu filho acabou tendo um parto prematuro e não pude fazer nada do que estava programado – e por razões que não cabem explicar agora, a melhor coisa que me aconteceu na vida foi ter passado por aquilo, apesar de tudo. Então, tenha certeza que tudo vai dar certo, seja parto normal ou cesárea: vc será mãe de qualquer forma, e é isso que importa no fim das contas! Uma boa hora pra vc querida!!

    beijos!

  • Renata

    Oi Flavia, li seu post por indicação da Sam.
    Gostei muito embora discorde de alguns pontos, porque sou favorável ao parto natural, mas sobretudo sou a favor desse debate.
    Discordo de que a humanidade só evoluiu, por exemplo. Acho que a humanidade em muitos aspectos não evoluiu nada. Acho que a medicina, por ex., evoluiu do ponto de vista tecnológico, mas não do ponto de vista humano. A intervenção médica é maravilhosa se há problema, o problema é que ter problema não é a regra e vivemos uma cultura de medo. Não deveríamos pensar que pode dar errado, mas apenas ser cuidadosos para, caso hajam sinais de problemas, recorrer aos recursos que a medicina proporciona! Aliás as boas parteiras e mesmo os médicos humanizados que não praticam intervenções, são capazes de identificar sinais de problema com bastante antecedência.
    Sou a favor da escolha consciente, bem informada, e o grande problema é que as mulheres não tem acesso à informação. Só quem resolve questionar o sistema, que corre atrás ou mesmo que tem a sorte de ter essa informação de bandeja a tempo. Escolha consciente e com liberdade. Muitas mulheres não tem sequer opção: o médico recorre a um terrorismo básico e sutil pra indicar uma cesárea conveniente para ele próprio. E isso é verdade pq minha melhor amiga é obstetra e diz que no Rio ela conhece só dois médicos que vão fazer parto normal se for possível, nos demais que ela conhece, e ela conhece muita gente, ela não confia. Essa minha amiga deixou de fazer parto pra trabalhar só com ultrassom há algum tempo pq depois que teve filhos não teria condições nem disponiblidade para atender partos, a não ser que só fizesse cesáreas agendadas.
    Muitas das mulheres, mesmo tendo consciência, não consegue fazer uma opção livre, por medo, por conta da cultura do medo mesmo. Acho isso uma pena.
    Discordo de que todas as mulheres que desejam o parto natural tem uma postura romântica; tb discordo de que todas colocam o filho em risco em prol de seus intereses. Algumas talvez, mas não todas. Existem estudos comprovando as benesses do nascimento sem intervenções para saúde física e emocional do bebê. E não são poucas.
    Discordo de que o risco existe da forma como vc colocou – um parto domiciliar não implica em risco sempre, como um parto em hospital não é isento de risco, especialmente uma cesárea, que é uma cirurgia. Só que crescemos acreeditando nisso, quebrar esse paradigma é muito difícil. Concordo que não temos condições de fazer como os índios ou mulheres de tribos africanas que se afastam da tribo por meia hora pra parir e depois voltam com o filho pendurado nela, como se nada tivesse acontecido. Mas acho que o resgate do nosso poder, do que nos foi tirado por conta de uma construção cultural num mundo onde o masculino predomina, é algo possível, desde que nos informemos e nos preparemos. A melhor posição pra uma mulher parir, não tenho dúvida disso, é a que ela considere mais confortável na hora. a idéia de ter um parto de cócoras ou na água a qulquer custo aprisiona da mesma forma que a obrigação de parir deitada, imposta a mulher que vai parir com médicos não humanizados e em hospital.
    A mulher é em varios aspectos da vida desempoderada, aqui não poderia ser diferente. Entregamos as redeas do parto ao medico, o que não está certo. O médico está aí pra nos ajudar se precisarmos, o parto não é doença. Se algo está indo mal, se há sinais de problemas, o médico é bem vindo!
    Nós somos capazes de parir, mas a forma como somos criadas, a cultura na qual estamos inseridas fazem com que não nos sintamos capazes, e acaba que muitas mulheres acabam mesmo não sendo capazes mesmo. Aí está o perigo em fazer a opção pelo parto natural ou em casa. Nem todo mundo é capaz e talvez hajam profissionais que não tenham condições de atuar com segurança, é muito complicado mesmo. Mas tb há muitos médicos incompetentes.
    Acho esse debate muito construtivo, outro dia mesmo postei no meu blog um email que recebi de um medico humanizado falando sobre o xiitismo dos dois lados: dos ativistas do aprto natural (acredito que há muitas mulheres que se empolguem mesmo com o fato de terem tido um parto natural e passam a impressão de se sentirem superiores, mas há outras que não, que querem ajudar outras mulheres, que querem levar a informação porque o que vieram foi bacana) e dos anti-parto natural (há muitas mulheres que rechaçam a informação, por uma série de razões que devemos respeitar e não julgar, mas em alguns casos rola uma postura defensiva que resulta manifestos anti-parto natural – não é o seu caso na minha opinião, que isso fique claro).
    Sou muito a favor de debater o tema, pq considero importante. Sou contra os radicalismos, mas sou a favor da escolha informada. Acredito que o parto em casa é possível e não é arriscado como a maioria das pessoas imagina, conheço inclusive várias mulheres que pariram em casa, mas desde que estejamos preparadas e acompanhadas por profissionais competentes.
    Por outro lado, acho que quem teve filho via cesárea, consentida ou não, tendo acesso a informações ou não, não é menos mãe. ALiás eu sou uma dessas, apesar de ter desejado muito o parto normal, concordei com uma série de intervenções. tudo por ignorância mesmo. Não sei se essas intervenções foram a causa da cesárea, talvez não, nem penso mais nisso. Acho que não dá pra ignorar esse tipo de experiência, precisei me trabalhar muito nesse sentido, mas não dá também pra viver na frustração eterna por conta de uma cesárea. Algumas mulheres que se enfurecem contra as ativistas do parto natural ,a credito eu, tem algo mal resolvido. Embora eu tenha entrado em trabalho de parto e chegado a dilatação maxima, minha filha não encaixou e partimos pra cesariana. Na hora chorei, mas depois que ouvi o choro da minha filha e a tive nos meus braços esqueci de tudo. Foi o melhor que pude fazer naquele momento da minha vida, não tenho culpa nem orgulho, mas posso garantir que sou muito mãe!!!
    Beijo
    Renata

  • Renata

    Perdões mil pelo mega comentário, depois que submeti que vi o tamanho(!) dele, mas amo o tema especialmente quando a argumentação é rica, e gostei muito do seu post, apesar de pensar diferente de vc em vários aspectos.
    Beijo
    Renata

  • Ladyrasta

    Renata acho que toda discussão de bom nível é válida e importante, e fico contente que vc tenha vindo aqui debater – não se preocupe com o tamanho do comentário, a casa é sua! Vamos lá…
    a) eu acho que não tem como dizer que a humanidade não evoluiu – concordo com vc quanto à desumanização da medicina (digamos assim), tanto que o clínico geral, que era o “médico da família” desapareceu. Mas é inegável que estamos acostumados com um padrão muuuito diferente do século passado. As pessoas morriam de gripe, de varíola, de pólio…tenho a nítida impressão que a morte e as mazelas afins eram muito mais próximas das pessoas, e não circunscritas apenas às classes mais baixas – tanto é que a nossa sociedade hoje em dia lida muito mal com a morte, pois ela foi afastada aos poucos – então, quando digo que nós evoluímos, é sobretudo nessa questão de afastar a mortalidade infantil ou no parto por intercorrências bobas, sem levar em consideração o fator humano (que, vc me desculpe, não compensa os ganhos que tivemos; infelizmente, ganha-se de um lado e perde-se de outro).
    b) nós não devemos ser pessimistas, mas de novo insisto: nós somos diferentes das pessoas que tinham bebês no século passado; nós não levantamos da cadeira sequer para mudar o canal de televisão; nosso condicionamento físico é pior (salvo aqueles que fazem exercício) – e principalmente, nós não temos filhos aos 20 anos, mas sim dos 30, 35 em diante, o que sempre acarreta em mais riscos. Então, apesar de não sermos pessimistas, não dá pra esquecer que os riscos existem – e às vezes não é possível saná-lo a tempo; e acho besteira correr riscos, ainda que mínimos, se podemos evitá-los. Mas de novo: se a pessoa não se importa em corrê-los, e está disposta a assumir as consequências que possam advir daí, tudo bem…
    c) “Acho que não dá pra ignorar esse tipo de experiência, precisei me trabalhar muito nesse sentido, mas não dá também pra viver na frustração eterna por conta de uma cesárea. Algumas mulheres que se enfurecem contra as ativistas do parto natural ,a credito eu, tem algo mal resolvido”. Acho que essa sua frase resume o cerne da questão e a causa da nossa divergência: parto pra mim é meio, e não fim. Vc me parece incomodada até hoje com o fato de ter tido o seu filha de cesárea, pois apesar de dizer que trabalhou isso, dá pra perceber uma ponta de ressentimento; parece que vc teve que se convencer de que isso não foi tão ruim assim (eu acho que as coisas acontecem exatemente do jeito que têm que acontecer, por isso sou mais acomodada que vc…). Eu, ao contrário, venho de uma família onde o parto normal é praticamente uma fábula: minha bisavó precisou de fórceps para dar à luz, minha vó idem, minha mãe fez uma cesárea pois mesmo após a 40ª semana eu não nascia, minha irmã não teve meia contração e eu não pude sequer pensar no assunto porque tive um filho de 27 semanas (e graças a Deus não tive contração). Quanto á mim, eu sabia que teria cesárea, não só pela questão da genética familiar, mas tb porque nunca fiz a menor questão de ter parto normal. Talvez por isso vc queira tanto disseminar a informação: porque não quer que algumas mães se sintam como vc se sentiu (tanto que teve que trabalhar tudo isso); eu já não sinto essa necessidade, pois já considero um milagre que meu filho tenha sobrevivido e que eu possa exercer a maternidade. Não estou dizendo que sou melhor que vc, veja bem: só estou dizendo que, como corri de forma muito séria o risco de perder o meu filho, a forma como ele veio ao mundo não é tão importante entendeu? Eu amamentei meu filho no peito com muito esforço DEPOIS que ele mamou na mamadeira. Não foi fácil, mas foi assim que a vida deu o meu filho pra mim. Por isso digo que o importante é que a relação entre mãe e filho possa se estabelecer, não importa a forma como ela se dê. E já vi muita mãe bater o pé para ter filho de parto normal e a criança sofrer sequelas que vão durar a vida toda. Eu pergunto: será que valeu a pena? Eu acho que não. Não nego que a cesárea seja um procedimento invasivo e uma cirurgia – mas é uma cirurgia simples, e a recuperação não é tão complicada assim…eu prefiro passar pela recuperação do que colocar meu filho em risco. Mas praquelas privilegiadas que não têm qualquer problema, não vejo motivo para fazer cesárea.
    d) concordo com vc no entanto, quanto à falta de esclarecimento: acho que, quando for possível o parto normal e a mãe assim o desejar, ele deve ser feito, e a cesárea não deve ser forçada. Mas de novo, ressalto: nossa sociedade não está mais tão acostumada à dor como antes, e acho que as mulheres, do mesmo jeito que podem optar por ter o parto natural, também podem optar por não ter dor alguma. Acho o debate importante para esclarecer a mulher na escolha; mas sou frontalmente contra posições radicais…e acho que os costumes estão mudando e quer queiramos quer não, a tendência é que as pessoas não queiram mais ter filhos através de parto normal. É ruim isso? Não sei, talvez seja – e cabe a cada mulher avaliar isso. O que prego é sobretudo a liberdade de escolha da mulher, sem patrulhas de quaisquer dos lados .
    e) last but not least: não sei se vc teve a oportunidade de ler o livro da Eliane Brum que mencionei; recomendo fortemente essa matéria sobre as parteiras da Amazônia, que me emocionou profundamente, uma das coisas mais lindas que já li sobre o assunto!
    Mais uma vez, obrigada por ter vindo aqui e ter se dado ao trabalho de mostrar seu ponto!! Desejo muitas felicidades pra vc e sua filha!
    beijos!

  • Emília

    Flavia, com essa foto você encerra qualquer discussão: maravilhosa.

  • Ladyrasta

    Emília :lol: a ideia era mais ou menos essa! Sabe que uma vez falaram que essa foto era uma espécie de Madonna dos tempos modernos? Ah sim! Ela foi tirada na Ponta do Mel, anos atrás (2004 se não me engano)

  • Paula Bicudo

    Flavia, eu sou contra radicalismos de qualquer espécie e tenho visto muito radicalismo nas campanhas e discussões pró parto normal. Talvez seja por isso que elas não emplaquem quando deveriam. Eu gostaria de ter tido essa experiência e aconselho como mãe e como médica, todas que puderem, a optar por essa modalidade de parto, mas quando existem contra-indicações ou risco, o médico deve ter a palavra final, considerando-se a segurança mãe-bebê. Um beijo e excelente post.

  • Ladyrasta

    Paula obrigada!!! é o que eu falo: praquelas que têm facilidade, acho ótimo; mas daí a querer dizer que a mãe de cesárea é menos mãe do que a mãe de parto normal a distância é grande né? É cada uma que é duas…

    beijos!

  • Raquel

    Seus pré-conceitos com relação ao parto domiciliar é seus riscos são comuns em quem nunca dedicou algumas pouquissimas horas e pesquisar o assunto, seus riscos ou não com embasamento científico e estatístico, sem achismos.
    Não me ofendo com seus pré-conceitos pois são baseados no senso comum, de quem nada conhece efetivamente nos processos do parto e de como tudo isso ocorre.
    Se tiver um tempo e curiosidade sobre o assunto, procure algum especialista para conversar, livros para ler. Você vai gostar e mudar de opinião. Ainda que chegue a conclusão que isso não é o que você quer para si.

    bjs carinhosos,
    Raquel

  • Ladyrasta

    Raquel, ledo engano, não são pré-conceitos e eu pesquisei sim – caso contrário não teria escrito um texto tão longo né? E com todo o respeito, acho um pouco leviano vc dizer que os meus argumentos são “baseados no senso comum, de quem nada conhece efetivamente nos processos do parto e de como tudo isso ocorre” – será que vc não fala isso só porque eu não tenho o mesmo ponto de vista que vc? Pensa nisso.
    Eu não disse que era contra parto normal. Quanto ao parto domiciliar, até entendo essa visão romântica da coisa, mas quis ver as implicações que poderiam advir para o médico que recomendou o parto domiciliar no caso de haver algum problema.
    Meu problema com essa questão, como deixei claro, é que algumas pessoas decidem que o parto será natural sem ter condições para isso, ou forçam essa situação achando que serão mais mães do que aquelas que tiveram filhos de cesárea, o que não é verdade em absoluto. Acho que bater o pé para ter parto normal mesmo podendo haver complicações é tão leviano quanto a mãe que bate o pé pra ter cesárea e ter o filho no dia x ou y, me desculpe.
    No entanto, em condições normais de temperatura e pressão, não havendo problemas e se for vontade da mãe (que deve ser respeitada – parto normal não deve ser imposto), acho que o parto pode perfeitamente ser normal.
    Meu ponto é: o que é importante é que a criança nasça sem correr riscos, o meio como isso ocorre não é tão importante assim.

    Beijos pra vc também, e obrigada pela visita, volte sempre!

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