Slash, drogas e filhos

Quando eu tinha uns 14 anos (acho que era isso, porque estava na 8a série) a moda era ler “Eu, Cristiane F., drogada prostituída”. Pra ser sincera, não sei se cheguei a pedir para ler o livro, pois tinha certeza absoluta que meus pais não deixariam. O que eu fiz? Li escondida na escola, durante as aulas (eu nunca prestei atenção nas aulas mesmo, e como era boa aluna o professor não podia fazer nada).

Então vocês imaginem como eu fiquei quando meu filho disse que queria comprar a biografia do Slash “com o dinheiro dele”.

Confesso que até imaginava que numa biografia de um roqueiro (o Slash, pra quem não sabe, é o ex-guitarrista do Guns and Roses) rolasse descrição sobre uso de drogas e tal, mas caramba, quando dei um’olhada (antes de entregar o livro pra ele) fiquei passada e engomada, sabem? Aí veio aquele dilema: dou o livro pra ele ler ou proíbo dizendo que ele ainda não tem idade para isso?

slash

Pensei bastante e, principalmente pelo fato de ter lido “Eu, Cristiane F., drogada, prostituída” escondida dos meus pais, achei melhor liberar conversando com ele sobre o assunto.

E o meu “conversar sobre o assunto” talvez não seja o “conversar sobre o assunto” que vocês estejam imaginando, até porque tenho uma visão um pouco mais realista (para não dizer pessimista) sobre o tema.

Sob o meu  ponto de vista, hoje em dia essa história  tem que ser trazida à baila muito mais cedo do que se imagina, pois as crianças têm muito mais acesso à informação do que nós tínhamos; além disso,  é inegável que o consumo de drogas, além de ser introduzido mais cedo entre os adolescentes, também  aumentou (basta sair à noite em São Paulo para perceber que a “função banheiro” tem aumentado horrores, que “bala” – ecstasy- é consumida de forma habitual, e por aí vai);  em decorrência do segundo fator, é praticamente impossível que seu filho não tenha contato com alguém que use drogas ilícitas quando tiver com uns 14, 15 anos (daí pra frente não vou nem falar mais nada – espero que vocês não sejam ingênuos certo?).


Tem uma coisa que eu gostaria de deixar esclarecido aqui que talvez deixe vocês espantados:  até por conviver com gente muito mais moça do que eu, e conhecer pessoas que, mesmo com 40 e tantos anos, família e profissão estáveis, de vez em quando fumam um baseado (sim gente, isso existe – aliás, esse texto aqui fala disso muitíssimo bem falado), acho praticamente impossível que meu filho (ou o de vocês, bien compris) não vá experimentar alguma droga ilícita durante a adolescência;  o acesso a elas é cada vez mais fácil, e seu uso está cada vez mais disseminado – ou seja:  não há tanto estigma quando elas são utilizadas. Mas confesso que isso não me apavora tanto assim; podem me crucificar, mas eu consigo conviver com o fato de imaginar meu filho experimentando maconha; mas daí pra cocaína,  heroína e crack são outros 500 certo? Vale ressaltar:  não é o uso da maconha que está crescendo a níveis exorbitantes, é o uso da cocaína e do crack ( e espero que vocês saibam que o ecstasy está virando carne de vaca em tudo quanto é lugar – sinto muito, mas não dá pra tapar o sol com a peneira).

Então, penso eu, levando em consideração tudo o que falei aí em cima, e uma vez que o acesso às drogas está mais fácil, acredito que  o acesso à informação também deva existir na mesma proporção para evitar que meu filho caia em roubadas que podem ser danosas para ele.

Pensando nisso, e tomando o livro do Slash como ponto de partida, expliquei algumas coisas: não menti que as drogas têm um efeito bom quando utilizadas (esse para mim é o maior erro das campanhas anti-drogas: não falar sobre as sensações benfazejas da droga – ainda que tais sensações sejam efêmeras), mas que as consequências podem ser desastrosas, e principalmente,  o quão absurdamente viciantes algumas delas podem ser. Ou seja: não adianta mentir que elas não têm nada de agradável, mas que o preço que se paga por tais sensações é alto demais para obtê-las.

cocaina

Acho também  importante explicar para a criança (a partir de uma certa idade – meu filho tem 12 anos e um bom desenvolvimento emocional) que o perigo das drogas é justamente não saber qual delas terá o poder ou a condição de te viciar; todos temos um canal, maior ou menor de compensações, a verdade é essa. Eu por exemplo, fumo esporadicamente há anos (um cigarro numa festa, outro meses depois e assim por diante)  e nunca tive problemas; em compensação, sou dependente química de açúcar (daquelas de procurar leite condensado na cozinha como alcoolatra procura bebida em filmes B – e nem venham dizer que isso não é sério, porque açúcar e obesidade matam – em igual ou maior proporção que as drogas ilícitas). O pai do meu filho,  por sua vez, fuma um maço de cigarro por dia, apesar de já ter conseguido ficar anos sem fumar. Ou seja: basta um cigarro na hora errada ou na fase errada da vida e o vício volta, porque a dependência é muito forte. Em compensação, alcool não é um problema, ele (tanto quanto eu) bebe socialmente (aliás, sobre a bebida e adolescentes, vale ler o post bárbaro da Rosely Sayão sobre o assunto).  E a verdade é que, se algumas drogas criam dependência absurda logo nas primeiras utilizações, existem outras, consideradas mais leves, cujo efeito no organismo varia de indivíduo para indivíduo – simplesmente não dá pra prever o que vai rolar. Acho que apontar esses exemplos, que meu filho pode comprovar, ajudam no convencimento. Porque a questão é essa: não adianta os pais “proibirem”; a criança tem que estar convencida de que aquilo não será bom para ela e que ela deve se afastar da roda que tem esse comportamento a pressão na adolescência para entrar nesse tipo de coisa é forte, e só ajudando a formar a convicção da criança é que há chances dela não fazer (muita) besteira na adolescência.

heroina

Há também a questão social: estamos vivendo uma época pós anos 60 e 70 – o mundo não é mais dividido entre pais caretas e jovens revolucionários; seu filho (e o meu) inevitavelmente terá contato com amigos que, na volta de uma festa, ou numa dessas conversas à noite durante uma viagem, dirá que os pais fumam maconha e que ele sabe. Ainda que seu filho não frequente a casa desse amigo, ainda que o amigo tenha a cabeça no lugar, esse é o tipo de informação que, ao chegar num adolescente, pode confundir – então há que se ressaltar a questão da impossibilidade de se prever qual droga dará a sensação de prazer que ele pode querer procurar em situações limite, bem como ser muito claro quantos aos efeitos de cada uma das drogas (lícitas e ilícitas), ainda que isso dê um medão dos diabos.

Vou falar de novo, mesmo correndo o risco de ser repetitiva:  não vou achar nem um pouco engraçado se um dia eu descobrir que meu filho andou fumando maconha – só estou dizendo que acho difícil, nos dias de hoje, que ele não faça isso, e aí está a maior dificuldade em direcioná-lo: eu não sou tão ingênua.

E por não ser ingênua, na minha política de damage control (porque acho  muito difícil que uma hora ou outra a pessoa não sucumba à curiosidade, e gosto de trabalhar com o pior cenário) quero que tal fato, em ocorrendo, que ocorra o mais tarde possível, quando meu filho, se tudo der certo, estará muito mais estruturado emocionalmente e com a sua formação completa.

Voltando à biografia do Slash, queria ressaltar outro ponto: a questão de um cara  admirado pelo meu filho  usar (ou ter usado)  heroína, e que alega criar  melhor quando estava sob o seu efeito, bem como afirma ter jamais deixado de cumprir com suas obrigações (shows, etc) quando era viciado  (Keith Richards, dos Rolling Stones, ao contrário, sempre disse que só fazia porcaria quando estava drogado – li recentemente  no livro de entrevistas da Rolling Stone). Aliás se pararmos pra pensar, o House do seriado é outro cuja dependência de drogas (ainda que lícitas) deve ser apontada – não é bom que crianças admirem uma personagem incondicionalmente sem se dar conta de seus defeitos e fiz questão de apontá-los (well, adolescência serve pra ver que nossos ídolos não são perfeitos, certo?)

A parte boa do livro (e que me deu um certo alívio) é que ele fala mais à frente que aquilo acabou com ele, que ele está “limpo” há alguns anos; já  um outro integrante da banda se deu tão tão tão mal por causa de heroína que no fim das contas, tirando o fato de ser um ídolo que usou drogas, o livro acaba  funcionando bem para mostrar os danos que elas causam.

Um outro aspecto que não devemos ignorar é o da confiança em nossos filhos. Quando comecei a conversar com meu filho, sobre o conteúdo do livro,  ele falou: ” Mã, eu sei que ele usava heroína; por isso perguntei se podia comprar o livro, porque não sabia se você iria deixar eu ler” – ou seja, além de já ter conhecimento que o cara usava heroína (ou seja, ter proibido a leitura do livro não teria adiantado nada) ele está bem ciente que aquilo é errado e danoso; então acredito ser meu dever confiar  no discernimento que ele está começando, como bem disse a Rosely Sayão no link anterior.  É fácil? Não, não é; é  angustiante, é aflitivo, é atormentador –  porque no fim das contas não dá pra saber se tudo aquilo que você inculcou no seu filho anos a fio vai surtir efeito lá na frente; mas eu não acho que trancá-lo numa redoma de vidro vá resolver o problema então… eu tento fazer o melhor possível e rezo para estar certa… O tempo dirá né? Ou não.

****

Quero deixar bem claro: não estou fazendo apologia de droga, nem defendendo o uso de quaisquer drogas; só estou tentando mostrar para vocês como o mundo não é mais tão preto no branco como algumas pessoas (e as campanhas anti-drogas) querem nos fazer crer. Igualmente, esse texto não tem qualquer embasamento técnico ou científico; é baseado nas minhas percepções como mãe e como pessoa que transita entre diversos círculos sociais, e também em minhas convicções pessoais. Não tenho a menor pretensão de ser dona da verdade; apenas estou tendo coragem de falar como encaro esse assunto. Espero que sirva para reflexão.

30 pensamentos em “Slash, drogas e filhos”

  1. Amei! Concordo 100% acho q é isso mesmo educar pra as drogas e não para ser um babaca medroso cuzão q qdo experimenta qquer coisa saca q estavam SO MENTINDO PRA ELE!!!!
    Algumas coisas q se classificam hj como droga eram lícitas em outras épocas…
    Qtos morrem nas estradas bêbados? A droga mais lícita de todas e ninguem ta nem ae pra mandar proibir ne…? engraçado….
    O q é pessimo nessa história é o tráfico…mas ae é outro post né dra?
    bjo bjo

  2. Querida,
    amei de te ver de novo por aqui no Rio… não tô dando conta nem do VnV que dirá dos blogs. Mas o dia que eu venho, vc sabe que eu corro atrás da lição de casa perdida… rsrs

    Excelente o ponto de vista – quero ser uma mãe assim como vc – não dá para tapar o sol com a peneira para drogas, AIDS, gravidez na adolescência.

    beijao,
    Cris
    ps: andar na Lagoa é ótimo 😉

  3. Ernestosabe que os maiores elogios que tenho recebido aqui no blog são dos meus posts sobre “educação”? tenho ficado feliz! jura que vc achou legal assim é? obrigada!!! quem sabe um dia não faço isso mesmo né? 🙂

    beijos!

  4. Lili é o que eu acho: assim que ele experimentar a primeira parada e descobrir que é mentira que “não dá nada” , pode achar que todo o resto (dependência, etc) também é mentira. E a gente tem que ensinar os filhos a se controlar no que tange às drogas lícitas também…quanto ao tráfico…sim, é outro post…

    beijos

  5. A visão de uma mãe moderna me parece um tema bem interessante, ainda mais falando abertamente sobre temas polemicos.

  6. Oi Flávia! Espetacular o seu texto! Sabe que meu filho tem apenas 1,7 anos e essa questão das drogas, sua disseminaçao e seu acesso já me aterrorizam. Mas nossa parte é bem o que vc fala: Dar base, esclarecer, conversar… E rezar!
    Beijo, saudade de vc!

  7. Lu saudades também querida! Sabe que esse ano Leozinho foi ver Daniela no Farol dia 1o comigo e com o Mau? Sim, The Next Generation is coming!!! Eu fico aflita também, mas quer saber? Tenho certeza que faremos um bom trabalho. E com a ajuda do Senhor do Bonfim (hehehe), quem sabe temos sucesso né?

    Beijos!

  8. Ernesto confesso que quando vou apertar o botãozinho “publicar” de textos como esse aí de cima, me dá um medinho sabe? Mas todo mundo elogia tanto que já me convenci que preciso meter as caras mesmo! Obrigada!

  9. uns dos maiores fantasma do mundo moderno pode esta escondido dentro de nossa propria casa afendo direta ou inderetamente a vida de muita pessoa .hoje a drogas sao as ferida da sociedade precisamos preveni ante que ela se espalhe

  10. Oi õ/
    Eu estava pesquisando sobre o Slash para fazer um cosplay, e acabei aqui pela capa do livro.

    No natal passado eu ganhei esse livro da minha mãe. (Tenho 13 anos, eu tinha 12 na época)

    Eu ainda não terminei o livro porque não tenho interesse nenhum em biografias, e ele está com um amigo.

    Mas o livro do Slash pode parecer excessivo com a questão de sexo -as vezes um pouco explícito, devo dizer- e drogas -ele teve um uso excessivo de drogas que é bem detalhado no livro- .

    Mas ele relata também as consequências, não deixa de ser uma boa leitura tanto para conhecer melhor o Slash quanto para conscientização.

    õ/

  11. Sensacional…
    Acredite se quiser: Ontem estava com o pessoal do trabalho falando EXATAMENTE sobre esse assunto. Vc sabe, tenho um sobrinho da mesma idade que LordRastaJr, e os medos e inseguranças são beeem parecidos.
    Ótimo texto (pra variar).

    Beijos
    Saudades imensas das nossas tardes de sábado.

    ps. Ainda estou no trabalho

  12. Eu concordo quase 100%, o texto foi muito bem escrito e suas idéias, principalmente pelo fato de ser mãe, é bastante cabível e natural, porém, parto do pressuposto que as pessoas chegam onde querem chegar, independente de censura ou tais educativos. Lógico que , a educação, é um fator determinante na caminhada de nossos filhos e ou quem quer que seja e sempre deve-se ponderar a respeito dela. Contudo, nem sempre adianta, e como você mesma citou acima, rezar e esperar. Parabéns, é um ótimo texto!

  13. Acorda pra vida filha, ler é uma coisa e praticar o que leu é outra bem diferente, sempre fui fan do slash e nunca usei drogas.
    Se teu filho tem uma cabecinha fraca não é um livro que vai fazer ele virar um drogado e sim a qualidade da educação que tu destes a ele ao longo da vida.
    Me admira muito alguem que viveu na decada de oitenta estar esculachando o slash, devia curtir o Wando, kkkkkkkk
    Vai falar mau dos rappers .i.

  14. -Oi lady! Gostei muito do post, vc esta de parabéns, falou 100% de verdades.
    Só tira uma duvida, Você usa ou ja fez uso de maconha, pois sabe muito sobre..rs

  15. Concordo plenamente. A heroína era usada no início de 1900 como remédio para dormir. A questão do tráfico se resolve de uma forma: legalização. Acaba a violência eo governo ainda arrecada impostos. Nos EUA na época da grande depressão que começou em 1929 com a quebra da bolsa. a bebida foi proibida e considerada ilegal. E foi justamente isso que fez crescer e aumentar o poder dos mafiosos italianos, pois a demanda, continuou a mesma. Ou seja, não é porque é ilegal que se deixa de consumir.

  16. Oi!!! Parabéns! Adorei a matéria. 100% verdade. Precisamos de pessoas com a sua visão dos fatos. Tenho 3 filhos e a mais velha é adolescente. Estou sempre procurando me informar sobre o assunto. Eu compro seu livro. Escreva! Um abraço!

  17. Só fico meio assim com o comentário do Alexandre…bem se vê que ele não entendeu nada do que leu…ou parou a leitura no meio, porque nunca vi um comentário tão sem sentido na minha vida.

    No mais, texto muito bem escrito e que certamente reflete várias preocupações. Não sou mãe mas tenho irmãos adolescentes, e entendo que é ingenuidade pensar neles sem experimentar drogas nos dias de hoje. Então, como você mesma disse, o ideal é minimizar danos. Evitar o vício.

  18. experimentei maconha com 14 anos e isso só aconteceu pq meus pais faliram e meu círculo social mudou. pior que n fui influenciado, eu enchia o saco do meu amigo pra comprar pq ele sabia onde vendia e eu tava curioso. o círculo de antes, o rico, nem bebia batida de pêssego… :/
    foi na época do icq…

  19. Eu apesar de ser um adolescente, concordo 100%, com o que você diz no texto, converso com minha mãe sobre o livro, mas ela só me corta, e essa, é exatamente o tipo de visão que eu acho que uma pessoa, inteligente, deve ter.

  20. Pode me dizer onde você comprou o livro para o seu filho porque eu também queria comprar um também sou grande fã do slash. Me respondam se faz favor.

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