Há 3 anos tivemos toque de recolher

…e não foi o governo que o decretou. Dizem que a vida é daquele jeito na periferia de São Paulo, e eu não tinha ideia de como era viver dessa forma, (pimenta no olho dos outros não arde né? no máximo podemos imaginar a dor)  e confesso:poucas coisas devem ser mais terríveis   do que  viver em estado de alerta como vivemos naqueles dias. A classe média paulista sentiu na carne o que é passar na frente de um posto policial com medo de lhe acontecer alguma coisa; sentiu na carne o que é encontrar um PM armado e ter medo do que ele pudesse fazer, ou então de que algum ataque acontecesse à sua frente. Era assustador passar na frente de qualquer comando naqueles dias.

São Paulo literalmente parou naquela semana, e sobretudo uma coisa me chamou muito a atenção: a sensação de não saber o que fazer, não saber onde procurar respostas. Até hoje acho que o governo foi fraco não no controle da situação, mas na disseminação das informações, na firmeza (melhor dizendo, na ausência de) do governador em apaziguar os cidadãos, convencê-los de que o Estado estava no controle (ainda que não estivesse – pois cabe a um líder acalmar, apaziguar ânimos, para manter a ordem) .

Lembro direitinho que quando começou aquela boataria (emails e telefonemas incessantes afirmando que haveria um ataque relâmpago às 18:00hs daquela segunda feira), eu simplesmente não sabia no que acreditar ou o que fazer. Sou meio rebelde e tendo a nunca achar as coisas tão ruins quanto parecem, mas naquela semana vi o quanto a tensão pode minar o otimismo das pessoas. A cidade literalmente parou.

20060515-ataques pcc são paulo maio 2006 - Folha de São Paulo

Naquele dia, passei a segunda feira sem saber se mandava ou não meu filho pra escola; acabei indo buscá-lo mais cedo, e fiquei em casa quietinha. Tenho um amigo que é ainda mais rebelde que eu, e que se recusava a admitir que uma facção criminosa tivesse conseguido disseminar o caos e, na prática, manter as pessoas presas dentro de casa. Na segunda feira a noite (ele me contou depois), saiu andando pelas ruas de Higienópolis (onde mora), gritando contra o PCC e conclamando as pessoas a descer para as ruas (obviamente estava tendo uma crise  nervosa, e cada um reage de um jeito né?).

avenida-paulista-maio-2006-pcc - Folha de São Paulo

Confesso que durante a semana, num desses dias em que a situação iria recrudescer, fiquei apavorada quando ele me ligou e disse: ” falei com uma pessoa importante nos quadros da Polícia Militar, a coisa vai ficar mais feia. Tô indo pegar meu filho na escola agora, vai pegar o seu e fique em casa”. Eu gelei;  afinal de contas, quando a pessoa que você  julga mais avessa aos boatos e aos diz-que-diz, a pessoa que até há pouco se recusava a curvar-se  à ordem dos bandidos (pois foi isso o que fizemos – e não tínhamos alternativa) resolve tomar suas precauções, você tem ainda mais medo – a cautela dos inconsequentes para mim é algo apavorante.

Moro a uma quadra da Avenida Paulista, corredor de hospitais e caminho para o IML (o episódio da bomba que explodiu, ocorreu no meu quarteirão);  pode parecer exagero da minha parte, ou sketch de teoria conspiratória,  mas a verdade é que, pelo movimento naquela semana, pelas sirenes incessantes que tocavam a noite inteira e pelo barulho dos helicópteros que sobrevoavam a região, tenho minhas dúvidas de que só tenham morrido as  pessoas declaradas mortas no episódio. Lá por 4a, 5a feira eu estava completamente zonza com aquele barulho infernal nos meus ouvidos durante toda a madrugada, e fico imaginando como deve ser passar a vida assim (o clima nas favelas do Rio ou aqui na periferia de São Paulo não deve ser muito diferente do que o descrito aqui).

Disse há alguns parágrafos atrás: o pior de tudo era a sensação de insegurança. Acho que a maioria das pessoas sensatas consegue ter auto-controle, desde que seja informada dos riscos que corre e que se sinta minimante segura. Nós sempre precisamos de uma opinião antes de decidir o que fazer nessas circunstâncias (todo ser humano tem alguma dose de insegurança ao decidir),  por isso líderes dignos desse nome são tão raros- e normalmente solitários: porque comandar (e inspirar segurança ao comandar) é uma atividade solitária. Quando esse tipo de liderança não existe (e eu acho que não existiu nessa ocasião) e as pessoas não sabem o que fazer e têm que decidir por conta própria com as informações que dispõem o caos se instala.  Eu tenho o privilégio de obter informações mais ou menos ponderadas e emitir juízo de valor, e estou acostumada a tomar decisões, até pela profissão que exerço;  mas e o resto da população?

20060515-ataques2

A irmã da minha empregada à época ligou desesperada pra casa, aos prantos,  falando que os ônibus na periferia  estavam sendo incendiados, que havia tumulto e ela não sabia o que fazer. E confesso: o duro não era só ela não saber o que fazer;  era ela querer que eu desse alguma luz, era ter pessoas olhando para mim pedindo uma opinião!  Como se eu soubesse!!! Nessas horas você vê como as pessoas te veem, o quanto você serve de referência:  eu, que estava ali aturdida, sem saber o que fazer, perdida, pensando em mim e na segurança de meu filho, era instada a dar soluções, a apontar o que fazer – havia então, pessoas ainda mais perdidas e confusas do que eu, que igualmente não se sentiam amparadas pelo Estado (e fazendo uma comparação perversa aqui, se isso aconteceu comigo, imagino como para os moradores da periferia é muito mais fácil confiar na proteção do bandido do que na da polícia).

Sabem o que é pior? Na pior linha romance de capa e espada, sessão da tarde filmes B, respondi:

- Procurem uma igreja, ou um templo, e fiquem lá até tudo passar.

Até hoje não acredito que falei aquilo. Pra vocês verem do que somos capazes de dizer quando estamos em pânico, sem saída, e não podemos mostrar isso pra todo mundo…

Para terminar: Acho que esse episódio serviu para termos consciência de algumas coisas fundamentais:

a) que a ausência de liderança pode levar uma população ao caos muito facilmente;

b) que não podemos fechar os olhos para a violência que ocorre na periferia e nas favelas, achando que estamos a salvo – em primeiro lugar porque não estamos; em segundo lugar porque é desumano. Na verdade,  só quando começarmos a nos importar com o que acontece com aqueles que achamos tão diferentes de nós é que teremos condições de começar a construir um país melhor onde nossos filhos possam viver. E acho que é nisso que devemos pensar.

****

P.S. Vale dar um’olhada na tag “há 3 anos” do Twitter para ver as declarações das pessoas sobre o episódio.

P.S. II: tentei fazer esse post sem procurar me embasar nos textos e reportagens da época, de forma que eu contasse o que eu retive após esse tempo todo ( porque queria dar um tom real  ao  meu  “há 3 anos”). E  agora um momento confissão: de tudo aquilo que foi dito à época sobre os ataques, sabe do que eu realmente lembrava? Das crônicas do Zé Simão, como essa aqui por exemplo. Juro. Para vocês verem que humor tem sim uma capacidade crítica imensa, que consegue se fixar nas pessoas muito tempo após sua divulgação, desde que bem feito.

*****

Este post faz parte de uma blogagem coletiva convocada pelo Alexandre Inagaki. Vale a pena conferir os posts dos outros convidados (vou colocando aqui à medida em que eles forem sendo apontados no post-matriz do Inagaki “Há 3 anos”) :

- Idelber Avelar – Três anos de uma matança e a falência de uma política de segurança
- Marcelo Soares – Três anos dos ataques do PCC: dois dias de caos, 170 mortes insolúveis e R$ 722 mil
- Danillo Ferreira – Ataques do PCC em São Paulo: 3 anos
- Orlando Tosetto Júnior – Eles não são uma espécie de solução
- Roger Franchini – 3 anos dos ataques do PCC
- Gabriela Franco – Toda forma de poder
- Luiz Biajoni – Há 3 anos, o terrível ataque do PCC e a mais terrível ainda postura do PFL
- Gabi Bianco – Há três anos…
- Rafael Pereira – “Há três anos”, o movimento pela memória de uma tragédia
- André – O dia em que São Paulo parou

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4 comentários sobre “Há 3 anos tivemos toque de recolher

  1. Lady querida, o espanto está em assistir os fatos a partir das nossas confortáveis e seguras janelas, achando que elas já não são assim tão seguras, já que os fatos chegam tão pertinho.
    O Rio de Janeiro tem uma peculiaridade socio-geográfica: TODO bairro tem uma comunidade (muito) carente bem pertinho, e vez por outra explode um conflito desses na nossa esquina. Apesar de acontecer todos os dias, a gente sempre se assusta, achando que não pode ser “com a gente”, mas é. Os conflitos estão na nossa sala de estar, e a gente insiste em achar que só acontece laaaaaá longe, no subúrbio. Mas o pior mesmo, é se acostumar com essa situação. Beijins espantados

  2. Meilin saudades de vc! peninha de não ter te visto no Rio, mas foi por uma boa causa né? É sempre com a gente. E não fazemos nada-nessa hora eu tenho inveja dos americanos sabe? Eles têm mais atitude que nós, há que se reconhecer isso.
    Beijos!

  3. Mesmo ,com toda essa insegurança, foi justamente na sua casa que eu me senti mais segura. Não sei se você se lembra, mas meu filho tinha 4 anos, eu o deixei na escola e fui direto para sua casa, para ficar na janela ” vigiando” a escola dele, até que eu recebi um telefonema, fui buscá-lo mais cedo e corri pra casa.

    Obrigada, de novo, por esses momentos de guarida.

    Beijos.

  4. Ana sabe que eu não escrevi (estou tentando aprender a não ser muito prolixa) mas lembrei direitinho da gente com a TV ligada, preocupadíssimas, e pensando em quanto era difícil decidir alguma coisa…também lembro da gente monitorando a frequência às aulas de um colega nosso hoje em um importante cargo, autor do famoso livro “Este Processo já foi meu” (tá rindo né? #insidejoke). Hummm…ou o autor do livro era o outro amigo dele? xiiii…
    E não, eu é que tenho que te agradecer por estar pertinho sempre, durante todos esses anos…
    Beijos!!!

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