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A USP não é gramado para Palmeiras e Corinthians

junho 11th, 2009 · 1 Comment · Comportamento, Política, São Paulo

Ninguém discorda que o episódio ocorrido na USP foi algo deplorável, lamentável, uma decisão canhestra tanto por parte da Reitoria quanto por parte do Governo do Estado.

No entanto, confesso que estou perplexa com as atitudes e palavras de uma série de pessoas, algumas inclusive cuja opinião respeito muito: a invasão da USP ganhou contornos de um clássico de futebol, colocando simpatizantes do PT contra simpatizantes do PSDB de uma forma tão inflamada e imatura que me pergunto se não é por esta razão que o Brasil continua sendo o país do futuro para sempre.

Eu entendo que há interesses políticos, que a um partido interessa que o partido adversário seja associado a determinadas atitudes infelizes – mas sobretudo entendo que aqueles que se dizem parte integrante de uma elite intelectual, da parcela esclarecida da população, têm o dever de colocar suas emoções e paixões de lado para refletir, discutir o cerne da questão, apontar saídas e sobretudo informar aqueles que não têm o privilégio (ou sorte, ou condição, como queiram) de enxergar os fatos com clareza e profundidade.

Não se trata aqui de apontar os culpados pelos fatos (ou ao menos, fazer isso e espernear como criança malcriada em shopping): trata-se de pensar qual é a solução para o problema dentro do quadro que temos hoje; d encontrar qual a solução possível e plausível para o problema, ao invés de dizer que a solução é votar em outro partido. Pode até ser que seja, mas não dá pra fazer isso agora. O lance é torcer pra situação ficar assim até o fim do mandato? É essa a noção de patriotismo e ética (ah a ética, tão mencionada, tão exaltada e tão maltratada…) que nós possuímos?

Eu não sei quanto a vocês, mas quanto a mim, diante de uma situação triste como essa, penso que (além de criticar e condenar os excessos, evidentemente) devíamos debater e refletir sobre as seguintes questões: nas condições atuais de temperatura e pressão, dentro do quadro que temos hoje, como solucionar o impasse existente na USP? Há como solucioná-los? Quais são as pessoas aptas para tal? De que forma a sociedade (sociedade somos nós, viu gente? não é universalidade presente em livro de sociologia) pode participar? O quanto estamos dispostos a nos envolver?

E vamos parar de brincar de filme de mocinho e bandido, né? Este  post do Breviário (divulgado pelo Inagaki no Twitter) mostra os fatos de uma forma cristalina e ponderada: evidentemente colocar a polícia dentro do Campus não é solução; por outro lado, também há claros sinais de que o movimento grevista não está apenas interessado no bem dos estudantes e dos seus funcionários. Como, então, chegar  chegar a um consenso nessa história toda? Como resolver esse problema crônico que é a administração e a gestão da USP? Não seríamos nós, teoricamente mais esclarecidos, os mais educados, os mais instruídos, aqueles que deveriam pleitear e exigir esse tipo de postura das autoridades? Em qualquer país civilizado a Reitora (bem como o Governador) já teriam que ter se explicado. Nós não fazemos isso: preferimos brincar de brigar na hora do recreio.

Querem saber o que eu penso? Que fazemos isso porque no fundo, achamos que o problema não é nosso, que o problema é do “governo” – o que não ocorre nos outros países.

Quando o avião da Air France caiu semana passada e vi o presidente da França diringindo-se ao Charles de Gaulle, comentei  no Twitter com a Marcie que este era um comportamento louvável, e que os políticos brasileiros não tinham o hábito de comparecer ao local das grandes crises nacionais como os políticos de outros países, achando isto uma terrível falha.

Fiz críticas ao Presidente Lula à época (acho que era caso de voltar de viagem sim, senhor), e faço as mesmas críticas à Reitora da USP e ao Governador José Serra por ocasião do episódio lamentável ocorrido na última 3a feira na USP. Acho um absurdo e um desrespeito com os cidadãos e os estudantes a Reitora estar viajando numa situação de crise interna dentro do Campus pelo qual ela responde, assim como acho um desrespeito o Governador ter ido inaugurar hospital de transsexuais com uma crise dessas ocorrendo dentro da maior faculdade do país (não que o hospital não seja importante, bien compris; mas certamente inaugurar hospital não é prioridade, enquanto solucionar um impasse daqueles seria).

Fico me perguntando: por que os políticos do alto escalão, nessas crises, se arvoram em integrantes da Casa Real Espanhola (lembram do caso em que um castelo espanhol pegou fogo porque o responsável por apagá-lo não estava? Então…) e não vão para a frente de batalha? Por que eles ficam no alto de suas torres, simplesmente dando ordens ou fazendo ouvidos moucos, como se o assunto não fosse com eles?Por que com mil demônios não exigimos de nossos políticos uma presença maior, um comportamento de chefes de estado em situações de crise?

Eu acho que sei o porquê. Porque, como eu disse, é assim que nós todos fazemos – o problema é sempre os outros; é o partido adversário que governa, é o vizinho, o papa (e nós, curiosamente, nunca somos “os outros”).

O mais engraçado é que o brasileiro não parece se incomodar com isso – não vejo muita gente reclamando. E sabem por quê? Porque dentro de suas atividades, ele também não faz aquilo que talvez seja “trabalho dos outros” (normalmente julgado inferior). É o comportamento do patrão que não vai pegar o cafezinho da máquina e pede pra secretária fazer isso; é o comportamento daquele que, tendo galgado alguns cargos ou postos na vida, acha demérito exercer funções menores e assim por diante.

Por ocasião das enchentes (tanto as do sul quanto a do nordeste), ouvi gente dizendo que não ia doar nada porque isso era “função do governo”. Hein? Cuma? Até é também, mas isso não significa que devamos ficar inertes.  Acho que da mesma forma que achamos que isso não é nosso problema, achamos que “não adianta nada” o Presidente voltar do exterior ao saber de uma tragédia, ou o Governador do Estado se abalar até o Campus Unversitário para resolver a situação – afinal, ele pode fazer isso do Palácio, e não é “função dele”, fazer isso. A função de um governante pra mim, é governar: não importa a atividade que ele tenha que exercer para fazê-lo (assim como a função de um governante é distinguir quando uma situação é crítica e necessita de intervenção imediata, de outra menos importante).

Mas estou tergiversando – essa é a minha opinião, e também não trouxe nenhuma luz para os fatos;  importa apenas deixar explícito o tamanho da tolice que é transformar o episódio lamentável e vergonhoso ocorrido em uma questão partidária PT X PSDB.  Fazer desse episódio (apenas) uma questão partidária, transformar isso num Palmeiras X Corinthians não vai solucionar o caso – e é de soluções que precisamos.

Tenho pra mim que quando nós nos deparamos com uma questão séria como essa, ao invés de jogar pedras, temos que fazer uma reflexão: com o que nós contribuímos para que o fato acontecesse? Por que agimos dessa forma? Quais são os mecanismos ou as origens desse nosso comportamento? Eles são passíveis de mudança? Nada – repito – nada muda de fora pra dentro (nem botox  muda, gente; no máximo, maquia, disfarça – não é a mesma coisa); é somente a partir da reflexão que conseguimos entender nossos atos e conseguimos mudá-los se o quisermos.

Até quando vamos transformar toda e qualquer crise ou situação deplorável numa briga de gangue de rua, onde uns xingam os outros ao invés de nos unirmos para pensar em como a questão poderia ser solucionada? Gostaria muito que parássemos de agir como adolescentes irascíveis e começássemos a pensar em soluções e transformações.

A USP (onde estudei, apesar de afastada do Campus, tendo em vista a Faculdade de Direito ficar no Centro da cidade) reúne algumas das principais e mais renomadas faculdades do país; será que merece virar gramado para que torcedores violentos se enfrentem? Eu acho que não. E você?

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