
Adorei a entrevista coletiva do Richard Dawkins – e, levando-se em consideração que eu acredito em Deus (sim, I’m an old fashioned lady, like I always say…) isto é um tanto quanto surpreendente.
Mas o fato é que gostei de verdade. Fiquei encantada ao ouvir daquele que é um dos grandes papas do ateísmo (se me permitem o paradoxo) que é extremamente paternalista afirmar que ateísmo decorre da inteligência, possível apenas para aqueles iluminados; para ele, o ateísmo decorre da educação, da forma como as pessoas são criadas, e não da inteligência.
Ele também fez uma colocação interessante sobre uma nova forma de se denominar o ateísmo (chamando-o de “bright” – brilhante em inglês- ao invés de atheism – ateísmo): para ele, suavizar o termo será uma forma de se diminuir o preconceito incidente sobre os ateus (segundo ele, algumas empresas nos EUA sequer contratam ateus), da mesma forma que os gays suavizaram o termo “homosexual” adotando o termo “gay”(socialmente mais leve e aceitável do que homossexual).
Mas querem saber? Pra mim há alguns “furos” na argumentação dele: quando perguntado, por exemplo, como alguns cientistas podem se auto-denominar religiosos, e como isso se coadunaria com a pesquisa científica, Dawkins afirmou que o conceito de Deus da maioria dos cientistas seria aquele que compreendesse os mistérios profundos daquilo que não conhecemos ou não compreendemos.
Ué, perguntei na hora para os meus botões: mas em uma grande síntese, não é esse o objetivo da maioria das religiões? Tentar aceitar que existe o insondável, fazer com que aceitemos aquilo que não compreendemos? Eu pelo menos não consigo imaginar outra forma de se definir religião; para mim religião é amparo para o que não suportamos ou não compreedemos (tá, podem chamar de muleta se quiserem, eu não me importo).
Para Dawkins, o mundo sem religião será uma grande evolução – ele acredita que muitas pesssoas boas praticam ações ruins acreditando que estão fazendo o bem, em nome de Deus, e com o fim desse tipo de crença, o mundo será um lugar melhor.
Nesse ponto, eu também humildemente discordo. Não acho que o problema seja a crença em Deus, e sim a intolerância e o preconceito para com a crença alheia que fazem com que barbaridades sejam perpretadas; havendo tolerância, inexistindo fanatismo, as diversas religões têm como coexistir sem que crimes sejam cometidos em seu nome.
E vocês, o que acham?
ATUALIZAÇÃO:
Alguns vídeos que gravei na entrevista coletiva:
- o mundo evoluirá quando não houver mais religião
- campanha de ônibus “there’s probably no god”

















ôpa. ele “cita” o movimento “bright” e faz uma análise deste movimento. mas ele não se coloca como “bright”.
Quando ele fala no conceito de deus que einstein tinha, observe atentamente a argumentação para não incorrer em má interpretação de texto. einstein era confessadamente ateu.
Cuidado, leia o livro com menos reservas e a interpretação do texto ficará mais clara.
Olá, gostaria de continuar a discussão que você iniciou.
1) Em relação ao conceito de Deus, acho que a religião não tem como objetivo “tentar aceitar que existe o insondável, fazer com que aceitemos aquilo que não compreendemos”, como você disse. Para citar o exemplo que o Dawkins sempre cita, alguns religiosos acreditam piamente na criação divina dos seres vivos quando hoje em dia já entendemos muito bem que esse processo se deu através da seleção natural. Ou seja, apesar de já não ser mais um mistério a existência da diversidade dos seres vivos, alguns religiosos insistem na explicação divina.
2) Em relação à violência praticada em nome de Deus, gostaria de mencionar uma pesquisa citada pelo Dawkins no livro “Deus, um delírio”. Ele diz que um psicólogo (não me lembro o nome dele mas se você ler o livro, vai achar) fez uma pesquisa com crianças educadas en escolas judias. Ele cita uma passagem bastante violenta da bíblia (velho testamento) em que o “povo escolhido” deveria, por ordem divina, matar todos os moradores de uma cidade, incluindo velhos, crianças e até animais ali presentes. Depois o psicólogo pergunta para as crianças se elas concordam com aquilo. Todas concordaram dando argumentos religiosos para isso. Depois disso, ele conta a mesma história mas trocando os nomes dos personagens e o local para dar a entender que aquilo se passava na China antiga e sem a menção ao Deus judeu. Neste caso, ao perguntar se concordavam com isso, as crianças conderam o assassinato de inocentes. Segundo Dawkins, este é um exemplo de como a religião pode fazer com que pessoas boas façam coisas más. Me parece convincente o argumento dele.
Ricardo, também tenho duas colocações para você
1) Acho que o Dawkins se considera um bright sim. Se você for para o site do movimento, verá o nome dele lá:
http://the-brights.net/people/enthusiastic/index.html
2) Em relação à suposta religiosidade do Einstein, tem essa frase dele próprio:
“It was, of course, a lie what you read about my religious convictions, a lie which is being systematically repeated. I do not believe in a personal God and I have never denied this but have expressed it clearly. If something is in me which can be called religious then it is the unbounded admiration for the structure of the world so far as our science can reveal it.”
- Albert Einstein, letter to an atheist (1954), quoted in Albert Einstein: The Human Side, edited by Helen Dukas & Banesh Hoffman
Por fim, gostaria de perguntar a vocês: é possível ver a coletiva ou o debate pela internet? Eu perdi o “ao vivo” pelo site da FLIP…
Ricardo eu não li o livro dele, apenas relatei o que filmei na coletiva – e não li não por preconceito, mas porque tenho muita coisa “na fila” para ler. Quanto ao conceito de Deus de Eintein, ele disse isso que repeti e não fez ressalva. Mas vou ler o livro sim, e pode deixar que eu não terei preconceitos, prometo!
Luiz
Religião sempre dá discussões boas né? E profícuas se forem feitas em alto nível. Religião pra mim é exatamente isso que eu disse: ” tentar aceitar que existe o insondável, fazer com que aceitemos aquilo que não compreendemos” – mas é um conceito que muda de pessoa para pessoa.
Uma das críticas que eu faria ao Dawkins é que ele fundamenta os argumentos dele levando em consideração o cristianismo, o islamismo e o judaísmo – e, mesmo dentro dessas religiões, evidentemente a grande maioria sabe perfeitamente que não há como refutar a teoria da evolução das espécies.
1. Como eu disse, pra mim são os extremos, é o fanatismo (como este que vc apontou) que faz mal ao mundo, e não o fato de se ter uma religião ou se acreditar em Deus. Mas de novo: é a minha opinião.
2. De novo: é o extremo que faz mal – e de forma alguma acho que lavagem cerebral é benéfica…
Adorei que vc veio aqui discutir o tema – é nessas horas que adoro tem um blog!
beijos!
Luiz eu gravei parte das coletivas, mas tenho que editar pra subir tudo, então vcs vão ter que esperar um pouquinho – mas dá uma passada aqui de vez em quando ou me acompanha pelo twitter (@ladyrasta) que vc vai ficar sabendo quando eu subir os ditos cujos!
Mais uma overdose de bom senso. To ficando fã. Sei que esse post é de um mês atrás, mas o assunto é sempre interessante.
Me baseando em sua citação “para ele, o ateísmo decorre da educação, da forma como as pessoas são criadas, e não da inteligência.” me responda:
E o que a educação desenvolve? Os músculos? Até onde eu sei educação serve para estimular as pessoas a desenvolverem seus conhecimentos, raciocínio, coisas assim, e o resultado natural desse processo seria o desenvolvimento da inteligência, não é? Enfim, me pareceu bem contraditório.
Vejo que muitos ateus se prendem ainda a refutar conceitos primários como céu ou inferno. Bah isso eu já “resolvi” desde os 15 anos. Existindo Deus, é CLARO que foge completamente de conceitos míticos.
Enfim, sempre penso que se você quer saber se existe “algo a mais”, basta olhar-se no espelho e “notar” a maravilha de existir, raciocinar, criar, achar graça e constatar que não, isso tudo que há a nossa volta não é normal. Não preciso de melhores argumentos.
E eu que tanto prezo pelo bom senso, to aqui insistindo num assunto batido. Mas foi bom encontrar seus textos. Abraço!
Ronaud agora tá na moda dizer que os mais inteligentes não precisam de religiosidade…eu acho que fanatismo religioso é realmente um mal, mas não a religião em si, e parece que ele ignora essa nuance ao falar que religião traz miséria e pobreza.
Pode falar à vontade, a casa é sua!
beijos!
Entremundos | Entrelinks 12 - O que ando lendo na blogosfera e recomendo a você // ago 25, 2009 at 9:49 PM
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