“Sobre essa época de sua vida, sabe-se pouco. Apenas que estava em um lugar onde crianças de famílias capitalistas eram vistas como inferiores, e não podiam revidar qualquer agressão. Comiam as sobras das refeições feitas pelas crianças chamadas “vermelhas”, doutrinadas pelo maoísmo”.
“Fiquei seis anos e meio vivendo em uma prisão para crianças. E vinham bater na gente todas as noites. Eu dormia no chão, e ouvia os gritos de crianças perto de mim, esperando para saber quando seria minha vez. Memórias como essa voltam à minha cabeça sempre, sempre” (do blog “Época – Festa em Paraty“, vale a pena ler o resto do post).
Pois bem senhores, a mesma pessoa que passou pelas barbaridades acima descritas teve a delicadeza de vir cumprimentar todas as pessoas que estavam presentes à entrevista coletiva, deu seu cartão pessoal e foi de uma gentileza, doçura e educação deliciosas.
Costumo dizer que depois dos 35-40 anos, não importa o número de plásticas que uma mulher tenha feito, o seu rosto, seu modo de falar e de se portar denotarão o quanto de amargura e dureza estão dentro dela; não há plástica que consiga disfarçar amargura. Por outro lado, não canso de me impressionar com aquelas pessoas que, a despeito das vicissitudes pelas quais passaram, não perdem a esperança e, ao fazer isso, ficam mais bonitas, mais moças, mais graciosas. É o caso de Xinran.
Ando interessadíssima pela China desde que li Pequim em Coma do Ma Jian, e Vida de Escritor do Gay Talese, por isso estava ansiosa pela entrevista – aliás ambos foram entrevistados na mesma hora na FLIP.
E o que ela contou? Well, não sei se vocês sabem, mas Xinran escreveu anos atrás um livro sobre “As Boas Mulheres da China” e recentemente, “Testemunhas da China”, no qual entrevista idosos que testemunharam (aha!) a Revolução Cultural.
O que ela contou na entrevista me deixou pasma. Disse que andou pela China e viu crianças de 15 anos nuas porque não tinham roupas (sim, eu sei, aqui no Nordeste isso também ocorre – mas nunca vi adolescentes nus, e olha que eu já rodei esse Brasil viu?); de uma forma geral, parece que a China fora dos grandes centros comerciais continua paupérrima e violenta.
Também fiquei tocada ao ouvi-la contar sobre uma mulher que desconhecia o conceito de democracia, respondendo a uma pergunta do repórter da BBC:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=x5KWlL0qLEE]
Quanto ao machismo tão conhecido do Orientetambém não pude deixar de me surpreend ao ouvir Xinran dizer que muitas vezes os entrevistados respondiam para o motorista dela, pois não iriam jamais dirigir-se a uma mulher. Quem disse que é preciso burcas para tratar as mulheres de forma inferior né?
O que eu mais gostei? A perpspicácia dela. Não sei se vocês sabem, mas na China as pessoas morrem de medo de falar com estranhos, e partem do princípio que todos aqueles que fazem perguntas são policiais disfarçados (e não preciso dizer o pânico que eles têm da polícia, certo?). Pois bem, ela tem uma tática que eu chamo de “girlie way of behavioring”: tem uma unha só pintada de vermelho, ou passa blush nos locais errados da bochecha, para desta forma as pessoas terem um motivo para falar com ela e iniciar a conversa, fazendo com que Xinran não despertasse suspeitas. Vejam só:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=g1dmWYR32hQ]
A Sam Shiraishi se encantou com os sapatos dela, e tivemos mais um daqueles girlie moments antes da entrevista.
Em resumo: virei fã de carteirinha. Xinran é uma daquelas mulheres com quem eu gostaria de tomar chá, junto com Elizabeth Bennet e Rosalinda (quem falou em seu livro Genius que gostaria de ver Rosalinda e Elizabeth Bennet tomando chá foi o Harold Bloom, btw).
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Queria deixar um protestozinho lavrado aqui: é simplesmente o fim do mundo que numa entrevista coletiva com dois escritores importantes e conhecidos, no ano em que o Massacre da Paz Celestial fez 20 anos, só houvesse meia dúzia de gatos pingados na entrevista coletiva. O que mostra que não é só “o povo”, “eles”, que só se interessam pelas celebridades; falam de quem só foi à FLIP por causa do Chico Buarque, mas para muitos veículos só Gay Talese e Richard Dawkins eram relevantes (a sala estava lotada). Nessas horas tenho um pouco de vergonha do Brasil sim, confesso.
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No meu qik há ainda outros trechos da entrevista de Xinran, podem conferir caso queiram – mas já aviso que não está lá essas coisas…
















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