Um belo dia, uma moça, artista plástica francesa, recebe um email do seu namorado. Referido email dizia…bem, dizia que eles não eram mais namorados.
Sim, ele terminou a relação dos dois através de um email – email lindo e emocionante, por sinal, que terminava com um “cuide de você”.
O que ela fez? Bom, ela é artista plástica né? Então, a forma que ela achou para lidar com essa história foi… Montar uma exposição. É, você ouviu certo – ela montou uma exposição; enviou o email para 104 mulheres, pedindo para que elas o analisassem, tirassem suas conclusões, e fizessem o que a inspiração mandasse; o resultado é a exposição “Cuide de Você”, que no Brasil foi inaugurada hoje (10 de julho) em São Paulo, no SESC Pompeia, e vai até 10 de setembro, reinaugurando em Salvador no dia 22 do mesmo mês.
“Recebi uma carta de rompimento.
E não soube respondê-la.
Era como se ela não me fosse destinada.
Ela terminava com as seguintes palavras: “Cuide de você”.
Levei essa recomendação ao pé da letra.
Convidei 107 mulheres, escolhidas de acordo com a profissão,
para interpretar a carta do ponto de vista profissional.
Analisá-la, comentá-la, dançá-la, cantá-la. Esgotá-la.
Entendê-la em meu lugar. Responder por mim.
Era uma maneira de ganhar tempo antes de romper.
Uma maneira de cuidar de mim.”
Sophie Calle
A exposição ( Prenez Soin de Vous, de Sophie Calle) foi o trabalho mais comentado da Bienal de Veneza em 2007; no Ano da França no Brasil, a obra poderá ser vista de 10 de julho a 07 de setembro no SESC Pompéia (SP) e de 22 de setembro a 22 de novembro no MAM em Salvador (BA).
Tendo em vista tratar-se de uma exposição a interativa, interativa ela continuará: as pessoas estão convidadas a enviar suas [experiências, reações, chame como quiser] para o blog destinado a isso ; as melhores postagens poderão fazer parte da pós-exposição que se dará no MAM da Bahiao
Peraí que eu não acabei: fui convidada a ler o email e contar o que senti – o que farei nos próximos dias. Aguardem cenas dos próximos capítulos (e pasmem os senhores, a minha”reação” – digamos assim- está prontinha da silva).
Enquanto isso, leiam o email que a Sophie recebeu. Amanhã ou depois o mais tardar coloco minha “reação”,
Divirtam-se – ou melhor, emocionem-se!
Sophie
Há algum tempo venho querendo lhe escrever e responder ao seu último e-mail. Ao mesmo tempo, me pareceria melhor conversar com você e dizer o que tenho a dizer de viva voz. Mas pelo menos será por escrito.
Como você pôde ver, não tenho estado bem ultimamente. É como se não me reconhecesse na minha própria existência. Uma espécie de angústia terrível, contra a qual não posso fazer grande coisa, senão seguir adiante para tentar superá-la, como sempre fiz. Quando nos conhecemos, você impôs uma condição: não ser a “quarta”. Eu mantive o meu compromisso: há meses deixei de ver as “outras”, não achando obviamente um meio de vê-las, sem fazer de você uma delas.
Achei que isso bastasse; achei que amar você e o seu amor seriam suficientes para que a angústia que me faz sempre querer buscar outros horizontes e me impede de ser tranquilo e, sem dúvida, de ser simplesmente feliz e “generoso”, se aquietasse com o seu contato e na certeza de que o amor que você tem por mim foi o mais benéfico para mim, o mais benéfico que jamais tive, você sabe disso. Achei que a escrita seria um remédio, que meu “desassossego” se dissolveria nela para encontrar você.
Mas não. Estou pior ainda; não tenho condições sequer de lhe explicar o estado em que me encontro. Então, esta semana, comecei a procurar as “outras”. E sei bem o que isso significa para mim e em que tipo de ciclo estou entrando. Jamais menti para você e não é agora que vou começar.
Houve uma outra regra que você impôs no início de nossa história: no dia em que deixássemos de ser amantes, seria inconcebível para você me ver novamente. Você sabe que essa imposição me parece desastrosa, injusta (já que você ainda vê B., R.,…) e compreensível (obviamente…); com isso, jamais poderia me tornar seu amigo.
Mas hoje, você pode avaliar a importância da minha decisão, uma vez que estou disposto a me curvar diante da sua vontade, pois deixar de ver você e de falar com você, de apreender o seu olhar sobre as coisas e os seres e a doçura com a qual você me trata são coisas das quais sentirei uma saudade infinita. Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você da maneira que sempre amei desde que nos conhecemos, e esse amor se estenderá em mim e, tenho certeza, jamais morrerá.
Mas hoje, seria a pior das farsas manter uma situação que você sabe tão bem quanto eu ter se tornado irremediável, mesmo com todo o amor que sentimos um pelo outro. E é justamente esse amor que me obriga a ser honesto com você mais uma vez, como última prova do que houve entre nós e que permanecerá único
Gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente
Cuide de você.
G
















Que pancada. Impossível não reconhecer nossos próprios fracassos nessa carta.
Mas eles eram amantes?
“Houve uma outra regra que você impôs no início de nossa história: no dia em que deixássemos de ser amantes, seria inconcebível para você me ver novamente.”
Ama mas vai embora… vai entender esse povo.
Zé acho que amantes é a forma elegante de dizer quando terminássemos tudo – mas pelo que eu entendi, ele devia sair com outras, e tentou ter uma relação monogâmica…
Ah! E nem sempre duas pessoas que se gostam ficam juntas…por muitas e muitas razões…afortunados os que conseguem (sim, vc é um deles!)
Diego eu já acho que alguém que receba uma carta dessas, apesar da frustração, não pode se sentir fracassada – a menos que você ache que a vida é uma comédia de costumes de Hollywood…mas ela tá mais pro cinema francês né?
beijos!
Minha primeira reação, claro, é a de dizer: que homem covarde. Depois quase, quase ( e enfatizo o quase!) tenho que admirar o cara pela lucidez com a qual reconhece sua própria limitação – coisa rara, reconheçamos. Naturalmente não posso concordar com a maneira que ele escolheu para romper com ela – mas acho coerente com as outras limitações que ele tem. E sempre melhor do que um “post-it” (Sex and the City) certamente foi.
Mas mais importante do que isso: nós mulheres somos mesmo o máximo, não? Isso é o que eu chamo de dar a volta por cima! Que força, que classe!
Marcie A primeira coisa da qual me lembrei quando vi o email foi justamente esse episódio do SATC acredita?
Quanto ao email: a gente não sabe quais as condições em que tudo isso aconteceu né? Mas falo por mim: eu me expresso muito melhor no meio escrito – além disso tem a vantagem do seu raciocínio não ser interrompido.
E não acho covardia, de forma alguma. Uma coisa é o post-it, outra é um email assim, elaborado, com cuidado, onde você percebe que tem sentimento. E o que está escrito é para sempre, não se perde – ao contrário das palavras…Mas eu sou uma romântica inverterada, não tenho jeito….
Independência com Tarsila, Vik e Sophie | A Vida Como A Vida Quer // set 7, 2009 at 12:42 PM
[...] cartaz até novembro (@annylinha, desta vez você não passará vontade das exposições daqui!). Li aqui que a mostra surgiu de uma carta que Sophie recebeu de Grégoire Bouillier terminado a relação do [...]