Querido:
Acabei de receber um email (ao fim desse post aqui) que me fez pensar em nós e em todos aqueles que já passaram pelo fim de uma relação de uma forma muito bonita; nele, um escritor, Gregoire, termina a relação com uma artista plástica, Sophie (que esteve recentemente na FLIP, tal como ele).
Sim, ele terminou a relação por email – não por maldade (imagino eu), mas por falta de condição mesmo; afinal, nem sempre temos coragem de dizer olhando nos olhos do outro aquilo que queremos, ou precisamos dizer – e só o tempo e a maturidade nos fazem entender (e aceitar) nossas limitações, né?
Continuando a leitura, pensei com os meus botões: de certa forma ele é meio um modelo, um script dos “fins de romance onde ainda existe bem querer”. Sim!! Pára pra pensar: em maior ou menor escala, todos nós já dissemos ou ouvimos a maioria daquelas frases (eu e você então, não vou nem falar nada…).
Engraçado… Quando amamos, acreditamos que os sentimentos nutridos pelo outro são únicos, especiais – de certa forma, amar faz com que nos sintamos diferentes dos outros, escolhidos… É, mas na verdade, não passamos de um exército de clichês, normalmente com um pezinho no cafona (hum, pensando bem, você, apesar de seu jeito durão de Lobo Bobo que eu sempre adorei, apesar de ser o rei dos eufemismos, honra lhe seja feita: você nunca teve medo de ser hiperbólico, de se emocionar e de colocar o pezinho – às vezes dois – no cafona. Well, não é à toa que eu me sinto a menina da 8ª série apaixonada pelo cara bonito do 3º colegial até hoje né?).
“Houve uma outra regra que você impôs no início de nossa história: no dia em que deixássemos de ser amantes, seria inconcebível para você me ver novamente. Você sabe que essa imposição me parece desastrosa, injusta (já que você ainda vê B., R.,…) e compreensível (obviamente…); com isso, jamais poderia me tornar seu amigo” (tirado do email).
Também comecei a rir, meio emocionada (e, ça va sans dire, me achando uma tonta), quando li que a Sophie também dizia não querer ser amiga dele do Gregoire quando eles terminassem. Hehehe… Sabe o que me intriga? As mulheres vivem dizendo que vocês só querem saber de sexo (e na maioria das vezes é verdade), mas aqui e ali vocês fazem exceções -digamos assim-, e nós as repudiamos (quiçá por orgulho ferido por termos sido preteridas, ou mesmo com medo de não suportarmos vermos vocês como amigos, sei lá). Depois gostamos de dizer que nós somos as românticas, tsk tsk…
Quanto a mim, nunca foi falta de romantismo, e sim pura falta de condição. Não cabia… Complicado olhar pra uma pessoa com a qual outrora conversava deitada no colo, com o seu cabelo ao alcance de um cafuné, e de repente ter aquela distância física que o racional entende, mas o coração não – afinal, desde quando coração entende dessas coisas de timing errado, de impossibilidade de convivência, de gênios e personalidades que se desgastam com o tempo? Não, coração só entende bem querer, bem querer este que o cérebro traduz por sensações de bem estar infinitas - às quais você sempre se referiu como “nossas noites glamourosas no sofá da sala” – onde tudo o que fazíamos era tomar espumante, conversar e ouvir jazz , comigo deitada no seu colo horas a fio).
Pois é, como a Sophie, eu também não quis ser sua amiga. Na verdade, eu não sabia como ia conseguir ficar sem seus emails, sem ouvir tua voz, sem ver você me olhando e rindo de soslaio quando dizia que “eu não tinha jeito” (e adorando que eu fosse assim), ou então toldando os olhos de emoção quando o que eu te dizia era muito grande – por pudor d’alma, por não suportar que eu gostasse tanto de você. É, eu não tinha ideia como iria suportar a falta de ficar sem olhar o homem que fez com que eu visse a mulher que eu era; melhor pensar em você morando em outra galáxia, abduzido por extra-terrestres do que imaginar nós dois sendo amigos. Como eu poderia encontrar você como se nada daquilo nunca tivesse acontecido, ou, pior, fingindo que eu não via você olhando pro meu decote, fingindo que não via você mordendo os lábios pra se controlar, como você fez tantas vezes, disfarçando o quanto podia… Confesso que fiquei muito aliviada ao ouvir da sua boca, já na fase aparando arestas, que você sentia o mesmo estranhamento.
Ah, entendo mesmo quando a Sophie dizia pro Gregoire que jamais seria amiga dele.
Mas como diz aquela música (que alguns reputam cafona- nós não, evidentemente, nós sempre tivemos bom gosto) “sentimento ilhado, morto e amordaçado, volta a incomodar” …. O ser humano deve mesmo ter sido fabricado em série, e veio de fábrica com o chip do clichê ambulante: como a Sophie, eu também passei algum tempo fingindo não me lembrar da sua existência (tá bom, admito: foram anos sem falar com você) para finalmente descobrir que você estava certíssimo quando certa noite disse que jamais conseguiria não falar comigo, não saber no que eu tava pensando (e pensando bem, sabendo o quanto nós dois sempre fomos extremamente carnais, este talvez tenha sido um dos elogios mais lindos que já recebi). Você estava certo o tempo todo, admito; mesmo quando por vezes estava apaixonada ( tá bom, nem foram tantas vezes assim, mas aconteceu) eu me pegava pensando em como você estaria… Até não suportar mais né? E mesmo sabendo que você estava furioso e magoado comigo, mesmo morrendo de medo e tremendo ao escrever (sim, eu estava apavorada e os erros gramaticais infantis cometidos naquele dia são a prova disso, você bem sabe) mandei aquele email com a desculpa mais esfarrapada do mundo (e vá lá, com a cara mais lavada também). Igualzinha à Sophie né? Ah sim, não sei se você sabe, mas ela acabou encontrando o Gregoire na última FLIP – usando igualmente uma desculpa esfarrapada, como só as pessoas que não se importam com mais nada a não ser com as saudades que sentem têm coragem de usar…
Mas pensando bem, é nisso que está a beleza de um afeto sincero e incondicional: você não se importa caso pareça ridículo e infantil, pois tem certeza que a pessoa do outro lado vai entender. Como eu sempre falo, a meu ver, todo amor verdadeiro, pleno (daqueles que não se consegue sentir muitas vezes na vida) passa pela compreensão, pela capacidade de a pessoa conseguir se colocar no lugar da outra e entender os motivos das atitudes dela ( um exemplo? nunca, nunca vou me esquecer de você dizendo que mesmo puto, espumando de raiva por causa dos desaforos- terríveis, admito- que eu tinha te escrito, você pensava que era melhor que eu tivesse raiva de você, para poder tocar minha vida. Mesmo ofendido, se sentindo desonrado, você se colocou no meu lugar – e isso não é pouco, ainda mais quando se trata de você).
Sabe, é sobretudo por essa capacidade de compreender que dá pra entender o “cuide-se” ao final do email; para escrever algo assim, é preciso realmente querer a felicidade do outro – ainda que não seja com você; só aqueles que se querem muito bem sabem o quanto é doído escrever (ou dizer) um “se cuida”, rezando pra pessoa ficar bem, porque não teremos condições de saber quando elas estiverem na pior; só os que se querem muito bem têm condição de apreender o quanto de maturidade (que só o sofrimento traz), abnegação e compreensão um ‘se cuida” contém…
“A conversa foi quente e explícita como a arte de ambos, mas o principal ficou para depois. Os dois não se desgrudaram em Paraty . Em certo momento, andaram a sós pelas ruas escuras do Centro Histórico da cidade. Sumiram na sombra, à luz do luar. Ninguém flagrou um beijo sequer, mas só se falava disso nos bares da cidade”.
Quer saber? Tenho também muito muito orgulho do ponto em que nos encontramos hoje; tenho muito muito orgulho ao ver que depois de tantos desaforos e malcriações ditas, nós conseguimos já há um tempo atrás aparar as arestas restantes (não, nunca vou esquecer aquela conversa em que você reconheceu seus erros de uma maneira indescritivelmente bonita, me fazendo chorar de emoção horas a fio depois que você foi embora).
Não se iluda (é, às vezes você tem essa mania): não somos (e talvez nunca venhamos a ser) amigos na acepção tradicional do termo – pois, convenhamos, nossa compleição física nunca deixaria isso ocorrer. Além disso, você sabe que pra mim, amor não morre; no máximo se transmuta, transcende. Morrer? Não. Disso tenho certeza. E gosto de chamar as coisas pelo que elas são. Digamos então apenas que somos pessoas perfeitamente cientes da importância e do lugar que têm na vida uma da outra, certo? E isso não é pouco (além, evidentemente, da admiração mútua que temos um pelo cérebro do outro).
Afortunados daqueles que podem dizer o mesmo e puderam viver isso ao menos uma vez na vida.
Se cuida tá chéri?
Beijos mil,
Flavia
P.S (sempre né?):

(e agora você balançou a cabeça de um lado pro outro fazendo tsk tsk tsk… curiosidade teu nome é…)
Beijos!
*****
Nota: Este texto é fictício, baseado em emoções nunca vividas. Ou não.
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O outro lado: Achei aqui nessa matéria da Bravo alguns esclarecimentos sobre o fim da relação dos dois; como eu imaginava, ele tinha deixado de sair com outras pessoas mesmo (mas não me parece que tenha feito isso tão convicto dessa decisão); e ele falou o que eu também pensei: que o email era o início de uma conversa e não o fim; ao optar por não responder (por orgulho, a meu ver) ela selou o destino desta história. Espero que tenha valido a pena. Na minha sincera opinião? Ela ainda gosta dele – caso contrário não se importaria tanto com ele (aquela velha história: quando você quer o fim de algo mesmo, não briga por nada, vc faz qualquer coisa pra ir embora).
Mais dois textos interessantes sobre o assunto aqui e ali

















Chorei!
Não preciso dizer o quanto me emocionei, e entendo cada ponto, virgula e hífen deste texto…
Obrigada pelo presente (seus textos são sempre um presente)
Beijos
Giuliana eu bem sei que vc entende cada vírgula direitinho – mas o bacana é ver que de certa forma, todo mundo entende, porque já passou por isso…
beijos
Com um nó na garganta…li e chorei. Vou para a exposição e pensar nela, no seu texto e na minha própria história. Depois te digo mais.
É um belo retrato de um amor.
ps: eu sinto que mesmo que ele tivesse dito tudo isso pessoalmente…não teria sido suficiente.
Flavita foi o que eu disse, no fundo, todos nós temos uma história parecida…
que bom que vc gostou! depois trocamos figurinhas!
beijos!
Ah Flávia, que delícia de post. Também adorei o do método Harry Potter para ensinar inglês, daí fui escorregando até aqui.
Adorei conhecer mais sobre o não-casal sensação da FLIP. E essa carta cheia de cantos e esconderijos, de encontros e desencontros. Tão belo ver um amor assim.
Mas sabe… acho que meus amores morrem, porque eu os mato logo na saída, porque sou dura nesse ponto. Talvez não saiba conviver com o fracasso, é melhor simplesmente jogá-lo no buraco negro do passado. Sei que chega a ser crueldade como alguns já disseram, mas é a forma que encontrei de sobreviver.
E como ia dizendo, procuro não ser amarga em relação ao amor. Tenho meus períodos de não-quero-saber-de-ninguém, mas passam e daqui a pouco estou correspondendo. Porque o que vale mesmo é conhecer as pessoas, estar disposta a viver. Lindo, linda, o amor e tudo mais. Lindo texto, Flá! Abração!
Srta. Bia Não sei se dá pra matar amor na saída não… quando falo em amor imorredouro, não é que a pessoa não viva a vida dela; simplesmente ela se pega pensando em como está a outra, querendo que ela esteja bem…é como se uma essenciazinha daquela relação estivesse guardada. Pelo menos pra mim é assim. Vc não tem raiva, vc não quer que ela não esteja feliz – mas isso tb não significa que vc não esteja…
E vc está certa: o importante da vida é vivê-la né?
Beijosssss!
Clica Aqui » Independência com Tarsila, Vik e Sophie // set 7, 2009 at 5:47 PM
[...] está aberta ao público, quem quiser pode aproveitar e ver o Matisse! E é o último dia de Cuide de Você, da artista francesa Sophie Calle, no SESC Pompéia (rua Clélia, 93, Água Branca, São Paulo, [...]