Amizade em 3 atos

“Bem que existe no mundo, aqui e ali, uma espécie de continuação do amor, na qual a cobiçosa ânsia que duas pessoas têm uma pela outra deu lugar a um novo desejo e cobiça, a uma elevada sede conjunta de um ideal acima delas: mas quem conhece tal amor? Quem o experimentou? Seu verdadeiro nome é amizade” (Nietzsche in Gaia Ciência, Livro I, 14 – As coisas que chamamos de amor)

Como falei ontem no Twitter à exaustão, clichés só são clichés porque são uma realidade recorrente – e obviamente dia do amigo é todo dia, bla bla bla, mas  não custa aproveitar essas datas americanizadas para pensar um pouco no que temos. Afinal, o que faz uma data cliché ou comercial é o uso que fazemos dela, e não a data em si, certo?

Então, apesar de soar piegas, cliché e coloque-aqui-o-adjetivo-desejadoi, queria agradecer  àqueles e àquelas que ao longo desses anos todos, estiveram  do meu lado em algum pedaço do que gosto de chamar de “o filme da minha vida”; alguns estão do meu lado (mais perto ou menos perto a depender da fase de vida de cada um) há mais de 20 anos; outros, passaram por mim, cumpriram seu papel, me marcaram para todo sempre e foram embora (e está certo que seja assim, como disse no post que mencionei).

Queria agradecer também aos amigos que fiz (ou melhor, que consegui trazer do mundo virtual para o real) ao longo desse último ano, seja em função do blog quanto do Twitter; não os mencionarei nominalmente, pois tenho medo de esquecer alguém importante, mas tenho certeza que cada um de vocês sabe o lugar que tem na ordem das minhas coisas certo?

A vocês inclusive, devo um agradecimento especial: estes últimos tempos ( o último ano e meio eu diria) têm sido complicados pra mim, por uma série de  questionamentos pelos quais tenho passado (aguardem post, hehehe). No entanto, devo dizer que se estou hoje me sentindo mais feliz, mais útil, mais inserida no mundo, é por causa de vocês, de verdade. E não vou começar a falar mais nada sob o risco de parecer (ainda mais) piegas.

Tudo o que eu posso falar de coração é muito, muito obrigada por existirem.

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279 – Éramos amigos e agora somos estranhos um ao outro. Mas não importa que assim o seja: não procuremos escondê-lo ou calá-lo como se isso no s desse razão para nos envergonhar. Somos dois navios cada um dos quais como o seu objetivo e sua rota particular; podemos cruzar-nos, talvez, e celebrar juntos uma festa, como já o fizemos – e esses corajosos barcos estavam lá tão tranqüilos, debaixo do mesmo sol, no mesmo porto, que se teria acreditado que tinham alcançado o objetivo, o mesmo destino. Mas a onipotência das nossas tarefas separou-nos em seguida, empurrados para mares diferentes, debaixo de outros sóis – e talvez nunca mais nos voltemos a ver: mares diferentes, sóis diferentes nos mudaram!
Era preciso que nos tornassemos estranhos um ao outro: era a lei que pesava entre nós; é exatamente por isso que nos devemos mais respeito. Para que a idéia da nossa antiga amizade torne-se mais sagrada!
Há provavelmente uma formidável trajetória, uma pista invisível, uma órbita estelar, sobre a qual os nossos caminhos e os nossos objetivos diferentes estão inscritos como pequenas etapas; elevemo-nos até este pensamento.
Porém, a nossa vida é demasiado curta e a nossa vista demasiado fraca para que possamos ser mais que amigos, no sentido em que o permite esta sublime possibilidade…Acreditemos, então, na nossa amizade estelar, mesmo se tivermos de ser inimigos na teorém, a nossa vida é demasiado curta e a nossa vista demasiado fraca para que possamos ser mais que amigos, no sentido em que o permite esta sublime possibilidade…Acreditemos, então, na nossa amizade estelar, mesmo se tivermos de ser inimigos na terra (
Nietzsche in Gaia Ciência, 279).

Essa é a minha homenagem àquelas amizades de curta duração, àquelas pessoas que tiveram uma passagem meteórica na minha vida, mas que igualmente foram importantes; afinal, se tempo fosse medida de importância das coisas…ah, deixa pra lá…

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“Sorriu compreensivamente – muito mais do que compreensivamente. Era um desses sorrisos raros que têm em si algo de segurança eterna, um desses sorrisos com que a gente talvez depare quatro ou cinco vezes na vida. Um sorriso que, por um momento, encarava – ou parecia encarar – todo o mundo eterno, e que depois se concentrava na gente com irresistível expressão de parcialidade a nosso favor. Um sorriso que compreendia a gente até o ponto em que a gente gostaria de acreditar, assegurando-nos que tinha da gente exatamente a impressão que a gente, na melhor das hipóteses, esperava causar”. (Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby, págs. 44-45)

Em inglês (acho esse trecho tão lindo que merece ser lido no original):

“It was one of those rare smiles with a quality of eternal reassurance in it, that you may come across four of five times in my life. It faced – or seemed to face – the whole eternal world for an instant, and then concentrated on you with an irresistible prejudice in your favour. It understood you just as far as you wanted to be understood, believed in you as you would like to believe in yourself, and assured you that it had precisely the impression of you that, at your best, you hoped to convey”.

Sorrisos com o qual nos deparamos 4 ou 5 vezes na vida… Sim, eu posso dizer que tenho a felicidade de ter visto esses sorrisos ao longo da minha vida. E também tenho certeza que os detentores de tais sorrisos sabem perfeitamente bem quem eles são – afinal, nunca fui moça de esconder sentimentos, quanto mais quando é de amizade que estamos falando, certo?

Mas não é por isso que gosto tanto destre trecho; gosto dele por descrever com a maior perfeição o exato momento em que um dos meus amigos mais queridos (com o qual brigo e desbrigo há mais de 20 anos)  sentou-se ao  meu lado num corredor de faculdade e começou a puxar assunto, como se me conhecesse desde que nascemos. Eu tinha 18 anos, ele tinha 21. Já disse pra ele que quando lembro das fases de nossas vidas pelas quais passamos, tenho a impressão de ver um daqueles filmes gracinha em que as relações são analisadas através de décadas, onde mudamos muito mas a essência permanece a mesma – essência esta que reconhecemos de relance, há mais de 20 anos atrás.

Mudamos muito ao longo desses 20 e poucos anos, ficamos sem nos falar algum tempo por motivos que não vêm ao caso agora, e voltamos a nos falar ao primeiro aperto de um dos dois – porque sabíamos, (como só amigos verdadeiros sabem), que na hora do aperto questões menores são deixadas de lado. Devo ao filho dele ter descoberto que comprei falsamente o mito de não saber lidar com crianças, assim como devo a ele inúmeros conselhos ao longo desses anos (não muito heterodoxos, devo dizer – ele sempre me apoiou onde ninguém me daria aquele apoio – porque me conhecia e por vezes soube quem eu era antes mesmo de eu o saber). Sim, sempre foi exatamente como na descrição acima: “Um sorriso que compreendia a gente até o ponto em que a gente gostaria de acreditar”. Estamos atualmente numa fase “de férias” um do outro, apesar de não termos discutido, e quando houve aquele acidente da Air France mês passado, prometi a mim mesma que iria parar com frescura e falar com ele (sim, de certa forma era nele que eu estava pensando quando escrevi o post do dia do acidente ). Prometi e não cumpri, porque sou uma boba, porque às vezes temos um orgulho absolutamente idiota. Mas estou com saudades e curiosamente, hoje, justo hoje, precisava muito falar com você, porque estou perdida. Saudades de você meu querido. E como eu sei que vc nunca entra aqui, pode deixar que eu vou te procurar, viu? Tô com saudades da rede, do brigadeiro, e do colo que vc sempre me dá quando preciso.

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Pra quem ainda não cansou, esse post aqui é longo, mas define bem o que eu penso sobre amizades em geral.

11 pensamentos em “Amizade em 3 atos”

  1. A gente precisa “apanhar” muito para poder concluir com tranquilidade alguns ciclos de relacionamentos. Isso não precisa ser traumático, necessariamente. Durante muitos anos eu simplesmente “matava” as pessoas que, eu achava, não me interessavam mais. Sem olhar pra trás. Só mantendo na minha vida aquelas que eu considerava as “verdadeiras” amizades. Hoje posso dizer que aprendi que muitos dos motivos que me levaram a fazer isso estão baseados na percepção que aquele momento de vida me dava delas. Eu finalmente aprendi que não posso esperar das pessoas aquilo que (1) elas não têm pra dar e (2) que elas me dêem aquilo que eu dou pra elas. E que isso não significa que elas não tem nada pra me dar. Ou eu pra elas.
    Feliz dia, amiga!

  2. Marcie Eu fazia a mesma coisa, hehehe…agora tenho uma outra percepção das coisas – mas não tenho vontade de ver as pessoas. Quem passou na vida da gente, passou. Se não tivesse que ter passado, estava aqui, certo? 😉
    Pra vc também!

  3. Amei o post..

    Super momento “me chicoteie”..

    Estou passando por essa fase de descobertas e vivências no momento..

    Tentando descobrir quem são meus verdadeiros amigos..

    Quando sai do Brasil me decepcionei com certas pessoas que eu achava que eram meus fiéis amigos.. e olha que nunca me achei ingênua para acreditar em todos como em “papai noel”..

    Sofri e aprendi.. hoje em dia, mesmo a distância, tento valorizar ao màximo meus super amigos ai no Brasil..

    Jà aqui que està o drama agora.. longe da familia e de todos, não consigo mais me jogar de cabeça numa amizade.. estou sempre com os dois pés super atràs..

    Tem dias que eu ando triste, desanimada, querendo bater aquele papo gostoso de horas e não tenho ninguém.. bem, até teria, mas não consigo desabafar com os mesmos..

    =((

    Quanto à você e seu amigo, se sente falta dele, và atràs enquanto é tempo.. amanhã pode ser tarde demais..

    Super beijo e bom fim de semana..

    =)

  4. Martinha acredita que no próprio dia 20 ele deixou um recado no meu facebook? Sem ler o que eu tinha escrito no post? Amizades verdadeiras são assim…

    Eu não posso te dar muitos conselhos, porque não sou do tipo que confia em muitas pessoas pra contar minhas coisas…Mas quero sempre acreditar que tem muita gente bacana no mundo – e acho que vc devia tentar fazer o mesmo… ah, e se vc não leu o “quem é quem no seu filme” sugiro que o faça, acho que vc vai curtir!

    Beijos!!!

  5. shame on me……..
    como nao comentei ainda esse post!
    linda amiga querida virtual bem real!
    “A amizade nutre-se de comunicação ” escreveu
    Montaigne, e a gente sabe bem disso né!
    bjsssssss

  6. Agora eu achei seu blogue.
    Entendo muito o seu amigo do sorriso bonito. 🙂

    Um beijo, querida.

  7. Espero que o comentário não seja intempestivo, afinal, o post foi de meses atrás, mas só tive a oportunidade de ler e absorver agora.
    E posso dizer q me emocionei, me arrepiei. Porque, realmente, amigo é. Não dá pra forçar, pra combinar de sermos amigos, cúmplices. Não, amizade nasce naturalmente. E não é o tempo ou a distância física que faz esse sentimento tão bonito desaparecer. E tenho experiências pessoais que felizmente comprovam isso.
    Obrigada pela dica do texto, Flávia!
    bjocas,
    Eli

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