Semana Aleitamento Materno – Amamentando na UTI

Leozinho e eu por Renata Rea

Pra chegar até o Banco de Leite do Hospital onde meu filho nasceu, era preciso passar na frente do “berçário dos normais” – e eu odiava aquilo, e odiava ter inveja daquelas famílias felizes comemorando o nascimento de suas crianças (não somos somente feitos somente de sentimentos nobres né?).

Não, meu filho não nasceu com qualquer tipo de deficência mental (apesar de, vá lá, ter sofrido uma hemorragia cerebral); ele apenas nasceu prematuro, com 27 semanas (aproximadamente 6 meses e meio), porque tive uma pré-eclâmpsia feia (meu parto foi aquela coisa parto ER, saca?)

Eu tinha feito um zambilhão de planos para quando meu filho nascesse e… Well, como diz o ditado, quando Deus quer se divertir, nos deixa fazer planos… Definitivamente não tinha sido daquele jeito que imaginava aquele nascimento (embora isso tenha sido necessário para que eu desse valor às coisas realmente importantes na vida – eu precisei daquele “se liga” que a moçada lá de cima me deu, acreditem).

Lordrastajr passou 56 dias na UTI do hospital; nos 1ºs  30 dias, ficou entubado, tendo tido várias intercorrências sérias -  e antes que vocês me perguntem, não, ele não mamava no peito, ele só recebia NPP (nutrição parenteral) – não tinha condição sequer de respirar, quanto mais de mamar. Só pôde começar a mamar meu leite depois que foi desentubado.

Leozinho UTI - Semana de Amamentação

Por essas razões,  tive uma experiência completamente diferente no que tange à amamentação; ela não começou como um daqueles comerciais lindos em que a mãe se emociona ao ver o bebê mamando no peito horas depois do parto, e sim numa máquina pra tirar leite no banco de leite, onde me deram também uma apostila para que eu entendesse como ele era produzido pelo meu corpo.

Ah sim, foi um fase terrível, onde eu não podia fazer nada além de rezar e tirar o leite que era congelado para que ele pudesse mamá-lo depois (Eu também comprei uma máquina elétrica pra repetir o processo na  minha casa mais uma ou duas vezes sem precisar me deslocar para o hospital).

<parênteses>  posso ser sincera com vocês? Isso tudo era horrível, mas  passar na frente do “berçário dos normais” acabava comigo, e é uma das poucas cenas daquela época da qual me lembro. Sabem por que eu odiava? Porque eu olhava pra dentro de mim e via sentimentos horríveis, principalmente raiva, revolta e… é, tenho que falar…inveja mesmo. Eu tinha inveja daquelas famílias felizes com o  nascimento dos filhos, comemorando, enquanto eu não podia ouvir o telefone tocar na minha casa porque morria de medo que algo tivesse acontecido com o meu; tinha inveja de ver as mães com os bebês no colo e imaginá-las saindo da maternidade dali a 2, 3 dias, enquanto eu tive que ir pra casa aos prantos, deixando meu filho no hospital. Era medonho ver dentro de mim dois dos sentimentos que julgo vraiment desprezíveis: autopiedade e inveja, aquela inveja corrosiva, de querer ser o outro, de querer estar no lugar do outro – e ter que passar ali todo santo dia era um castigo pra mim, juro. </fecha parênteses>

Eu fazia o que podia, obviamente, mas não podia fazer muito – o estímulo não é igual, o stress pelo qual estava passando era insuportável e isso não ajuda em nada na produção do leite…  E é, obviamente, mais dolorido. Até hoje acho que só consegui passar por aquilo porque era simplesmente a única coisa que eu podia fazer pelo meu filho além de rezar – e eu sabia que amamentar, naquela situação, com um bebê frágil como o meu, era vital.

Vital como é também amamentar em situações de emergência (além de ser muito muito mais prático), tema desse ano da Semana Mundial do Aleitamento Materno que termina hoje (vocês irão encontrar um zambilhão de informações importantes no post da Sam Shiraishi, que como sempre faz a lição de casa como se deve…) – cá entre nós, quando a mãe tem leite, não consigo imaginar forma mais fácil de se alimentar um filho, certo? Seria interessante que esse conceito se arraigasse nas pessoas…

Voltando à minha experiência quanto à amamentação, queria aproveitar esse post para falar sobre alguns mitos  que são absolutamente infundados,  no mais das vezes perpetuados pelos fanáticos de plantão – e vocês sabem o quanto eu não suporto fanatismo, como é perceptível neste texto, naquele, e ainda nesse aqui:

a) “se o bebê começar a mamar na mamadeira não vai querer mamar no peito da mãe”. Mentira daquelas deslavadas. Meu filho começou tomando 1 ml de leite depois de um mês de vida (porque poderia sofrer problemas com a digestão) no conta gotas, depois passou a tomar leite numa mamadeira (nada daquelas mamadeiras ortodônticas, era daquelas com um furo enorme no bico- pois ele não não podia gastar calorias de jeito nenhum, visto ter um quilo e meio se tanto à época).

Leo em casa 96 - Semana Amamentação

b) complemento alimentar (leite em pó)  faz com que o bebê deixe de mamar no peito da mãe porque o gosto do leite da mãe não é tão bom

Em decorrência do stress pelo qual passei  eu não tinha leite suficiente pra amamentá-lo, até porque com bebês preematuros  não há qualquer rigidez de horários – ele mama quando quer, porque a prioridade é ganhar peso; então, era preciso complementar as mamadas no peito com leite em pó, na mamadeira. Nunca tive problema, sério.

Sinceramente, acho que o bebê não é bobo; mamar na mamadeira pode ser mais fácil, mas vc não tem contato com a pele da sua mãe, o contato é menos íntimo; pra mim, o natural é que ele queira mamar no peito e não o inverso.

Finalizando:  amamentar é uma sensação maravilhosa, única e só quem já passou por isso sabe quanto; então, mães permitam-se viver essa experiência; àqueles que não podem fazê-lo, divulguem a importância desse ato – pois é só assim, através da educação (e nós pessoas mais esclarecidas, temos o dever de esclarecer aqueles que estão à nossa volta) que um país ou uma sociedade evolui.

Leo e Flavia - 2009

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[Este post faz parte da Blogagem Coletiva da Semana Mundial da Amamentação]

Se quiser entender melhor a importância dessa questão, baixe o folder de ação da WABA e/ou ótimo manual Alimentação de Lactentes e Crianças Pequenas em Situações de Emergência da IBFAN Brasil (em PDF). Você também pode fazer o download de vários materiais educacionais relacionados ao tema – slides para aulas, vídeos, manuais, cartilhas – no site do programa de promoção da Amamentação do Senac-SP. Veja o vídeo oficial desse ano e como encomendar materiais da SMAM nesse link.

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Site sobre: Locação e venda de extratores de leite materno

Informações sobre UTI NeoNatal e aleitamento materno e também nesse estudo muito bom

Outras informações sobre Aleitamento Materno

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P.S. Aproveitando que domingo é dia dos pais, quero fazer aqui um agradecimento ao pai do meu filho, que dividiu comigo esse período complicado pelo qual passei – afinal, sem ele a coisa mais importante da minha vida não existiria, e também ao meu pai, já falecido, que daquele jeito insano dele, me fez manter a sanidade naquele período, me obrigando a trabalhar meio período – chamei-o de tudo quanto foi nome à época, mas querem saber? Ele estava certo.

P.S. II Foram muitos os amigos que me ajudaram naquela época, de diversas maneiras;  mas tenho que fazer um agradecimento especial à Lisa e ao Sérgio, e aos pais deles, que deram um apoio inesquecível nessa fase (até a chave da casa deles eu tinha!).

P.S. III – Espero que vocês tenham entendido porque falo tanto do meu filho – na verdade, agradeço todos os dias da minha vida a ventura de tê-lo comigo, saudável, inteligente, companheiro. Eu não sabia que merecia tanto da vida, sério.

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Vou colocar aqui quem participou da blogagem coletiva, podem mandar os links tá?

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21 comentários sobre “Semana Aleitamento Materno – Amamentando na UTI

  1. Repetindo o que já disse pelo Twitter: MARAVILHOSO! Emocionante, lindo…
    Não sou mãe ainda e ainda não decidi se o serei. Mas fiquei extremamente comovida, tocada por essa passagem da sua vida, tão sofrida (só posso imaginar), mas ao mesmo tempo, tão bonita. Imagino q vc tenha curtido muito mais, valorizado mto mais, cada momento da vida do seu filhote.
    parabéns pela força, pelo superação, e pelo filho lindo!
    bjos

  2. Nossa!
    Fiquei emocionada. Sério.
    Muito lindo isso tudo. E é como você disse. Tem coisas que a gente precisa passar para aprender a dar mais valor a outras. E aprender que nem sempre podemos ter tudo sob controle.

    Parabéns pela persistência e dedicação. O resultado está aí, lindão na última foto!

  3. Quando a Julie nasceu ( depois de eu já ter perdido 5 bebês – um de 5 meses e meio) foi um parto super estressado emocionalmente, mas felizmente, fisicamente fácil ( induzido e fórceps). Só que a icterícia dela era alérgica ao meu leite – e naquela época não existia Banco de Leite como hoje. Então, para não perder o leite e porque era muito importante pra mim poder amamentar minha filha, eu amamentei 3 crianças no hospital, cujas mães não podiam ou não tinham leite, por 3 dias e 4 noites. Foi uma experiência incrível.
    Depois que ela foi liberada, aumamentei-a durante 10 meses, e só parei porque o pediatra me ameaçou de morte…
    Que bom que o fiz, pois depois disso perdi mais dois bebês e nunca mais consegui ter outro.

  4. Nossa, Flá… Quando eu estava grávida vc falou disso comigo muuuuito por alto, lembra-se? Agora entendo porque foram tão poucas palavras… Eu ia assustar!
    Que BARRA! Quanta força… E imagino turbilhão que estava a sua cabeça… Passou! Ele está aqui: Lindo, inteligente, esperto, enchendo essa mãezona de orgulho.
    O comentário da Marcie tb é tocante.
    Me debulhei aqui!
    Beijooo

  5. Nossa Flavia, linda história mesmo.
    É impressionante como “vejo” você todos os dias e não tinha idéia dessa história.
    Pode continuar falando bastante do filhão que admiramos muito também.
    Beijos

  6. CarlaZ ah, eu não sou de ficar contando muito né? Mas é uma história que me marcou, tanto que até hoje algumas sensações são muito fortes pra mim…

    Ernesto obrigada querido!! P.S. Vc fez falta viu? ;-)

    Luciana Bruscaidar posso ser sincera? não lembro. eu procuro não falar muito disso pra quem está grávida – e não lembro muito da minha gravidez, porque a descobri com 2,5 meses, peguei catapora no 5o e no 6o ele nasceu – ou seja, não dá pra lembrar de muita coisa, a não ser flashes mesmo… Ele é sem dúvida a coisa mais importante da minha vida. :-)

    Marcie E o campeonato continua… :lol: cacete Marcie, que lindo isso de vc amamentar outras crianças… Já parou pra pensar que é por causa de atos como esse, que vc praticou até em interesse próprio, mas que ajudou outras pessoas, que talvez tenha te ajudado a superar outros problemas da sua vida? Eu acredito que exista uma balança de pagamentos sabia? :-)

    Renata Marques eu era uma idiota antes do meu filho, e sei que mereci cada minuto que passei na UTI pra aprender a dar valor pras coisas realmente valiosas da vida; ainda bem que tomei esse “se liga” e entendi – tem gente que não entende nem com esses toques…
    Quanto ao comentário, desabilitei um plugin e acho que agora solucionei o problema… thanks pelo feedback

    Eliane obrigada querida!! Foi difícil, mas o importante é que ele está aí, sem uma sequela, lindo, e eu dou ainda mais valor por tudo isso. Choro em qualquer coisa que ele faça, e ele acha a maior graça…

    Beijos a todos e super obrigada…Foi um post difícil de escrever, acreditem…

  7. Texto emocionante!!! Vivi experiência semelhante com minha filha, hoje com 3 meses, e entendo seus sentimentos. Tudo que você planejou para aquele momento que deveria ser especial, feliz, vai por água abaixo. O que me marcou também foi sentir mais medo e tensão no seu nascimento do que emoção… E estar no quarto, sem a Bia, enquanto os outros quartos eram só alegria, com visitas e chorinho de bebê. O que importa é que tudo passou!
    Seu filho é lindo e deve ser motivo de orgulho, já nasceu um grande vitorioso!!! Parabéns!
    Acho que já comentei por aqui em um texto sobre tipo de parto… Naquela época não imaginava o parto prematuro que o destino me reservava.
    Também participei da blogagem coletiva sobre amamentação. E concordo com você sobre os mitos infudados em que acreditamos. Ainda não “descobri” qual é o malefício de amamentar e complementar com leite artificial. Mãe de prematuro quer que o filho ganhe peso e seja saudável ao mesmo tempo!
    Beijos

  8. Evellyn Vc ainda deve estar atordoada… Se voltar aqui depois, conta com quantas semanas sua filha nasceu. É duro né? Mas no fim dá tudo certo, vc vai ver… Não encana com a questão do leite – a gente faz o que dá, e tenho certeza que vc está fazendo o seu melhor; se vc não tiver leite suficiente, complemente com o leite em pó sem neuras, e sem preciosismo. A prioridade é ele ganhar peso…

    Beijos, boa sorte, e qualquer coisa estou à sua disposição!

  9. Oi Flá, eu vi que a Lisa tinha deixado recado agradecendo a você no Facebook sobre este post… agora li e entendo porque! Filho é uma coisa louca, como mexe com a gente, acho que o mundo se divide a. F e d.F (ante e depois dos Filhos) mesmo…. Amamentar foi para mim uma experiência maravilhosa, nunca nem pensei em não fazê-lo, mas também sofri com mitos, no meu caso: “ah, não existe a mãe não ter leite suficiente, você está fazendo ALGUMA COISA ERRADA… Você bebe bastante água??” E para explicar que estava bebendo 4 litros por dia?? E por aí vai… mas consegui amamentar meus dois filhos por 4 meses :D

  10. Lu o pessoal fala muito né? O importante é a gente fazer o que está dentro das nossas condições e possibilidades. A minha vida certamente é a.F e d.F. E quer saber? Eu precisei passar por aquilo pra me tornar uma pessoa melhor. Ainda bem que eu consegui enxergar.

    Beijos, adorei te ver aqui, volte sempre, a casa é sua!!

  11. eu sou lerda, or isso a demora, mas li os outros posts, ( amei o do negócio do cabelo, rs) mas faz dias que estou querendo comentar este, até mostrei par minha irmã que estava aqui em casa no dia que vc postou. mas não ando muito boa par comentar e esperei então ter tempo e paciência.
    o post mexeu muito comigo, acompanhei agora a luta da minha irmã par amamentar com sonda e e entendo a barra que vc passou, acho muito legal dividir essa emoções porque isso dá força a outras mães que por diversos problemas passam por isso.
    maternidade é ótimo, mas não é feita só de flores, tem também muitos espinhos.
    tenho dois meninos, um de 13 e um de 10, amamentei os dois, tive mais leite no segundo que no primeiro, por fatores variados.
    minha irmã não conseguiu enfim amamentar, ficou com a sonda e complemento por 3 semanas, mas pq quando tinha 15 anos fez redução das mamas, portanto nesses casos é difícil produzir leite mesmo, o que a princípio a deixou frustrada, mas hj o cauã tá ótimo , forte e feliz.
    adorei o post e gosto muito do blog.
    bjs

  12. iaiá acho importante a gente mostrar o outro lado também né? que nem sempre conseguimos fazer o que queremos, ou corresponder às expectativas da sociedade (mais uma né? pois apesar de uma expectativa louvável, não deixa de ser expectativa e gerar frustração). Que bom que seu sobrinho está bem, e obrigada pelos elogios ao blog! Volte sempre!
    Beijos!

  13. Belo post. Até hoje tenho dificuldades para comentar este assunto, e portanto imagino que não foi nada fácil para vc escrever. Obrigado pela lembrança e pelo ‘crédito’.

  14. Coisa linda, Flavinha! Estou super emocionada! Vc é uma guerreira! Aliás, vc e o seu filho, que bravamente, passou por tudo isso e hoje é esse menino tão inteligente que te enche de orgulho!
    Amamentei minhas 2 pequenas e nesse período elas não tiveram nadica de nada, nem um resfriadinho! Além de fortalecer os laços de amor, amamentar proteje muito as crianças!
    Lindo post! Bjo

  15. Parabéns, o teu filho é lindo! É o genro que eu espero ter quando chegar a hora… da minha pequena começar a virar mulher.

    Quando li o teu post quase chorei, tive que me segurar! Tive a indescritível felicidade de amamentar meus dois filhos, com poucas horas de vida.

    bjs

    Simone

  16. Simone Ferreira Mas sabe de uma coisa? Eu precisei passar por aquilo pra amadurecer e dar valor às coisas certas da vida, de verdade… Vc não precisou, que bom né?

    Paula* Obrigada querida! Agora fica mais fácil entender porque sou tão coruja né? Ao menos é uma boa desculpa ;-)

    Co-autor Fiquei embaçando dias pra terminar, foi difícil e acho que está mal escrito – o que só prova que algumas coisas são mesmo difíceis de se superar. Mas ele taí né? Isso é o que importa! :-)

    Ernesto claro que sim! Aguarde notícias!

    Beijos a todos

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