<parênteses> Essa é a 1a parte (mais leiga e introdutória) de dois posts sobre o mesmo tema – a evolução da internet e a atuação dos advogados nela; </fechaparênteses>
Esta semana, o bas-fond do Twitter foi o fato de um blog ter sido notificado para retirar um post de crítica desfavorável (para usar um eufemismo) a um bar de São Paulo (famoso aliás por sua falta de qualidade, devo dizer – o que em Direito chamamos de “fato que independe de prova por ser público e notório”, hehehe).
Não preciso dizer que o estabelecimento tratou a situação da forma menos diplomática possível; como disse a @juliareis no Twitter, era caso para um bom RP atuar no pedaço, e não colocar o a divisão Panzer, aka advogados, no caso.
Entretanto, queria chamar a atenção de vocês para alguns pontos: estão cada vez mais comuns as ameaças de processo a blogueiros, tendo havido inclusive condenações a respeito. Estou longe, muito longe de entender de mídias sociais e essas coisas todas, mas basta ver a quantidade de atenção que a mídia tradicional vem dando à internet (não só em reportagens como também tentando integrar as diversas camadas de comunicação) para compreender que ela cresceu e que esse crescimento traz mudanças significativas para seus usuários.
Uma das mudanças significativas é a tomada de consciência, por parte dos blogueiros e produtores de conteúdo na rede (ainda que esse conteúdo seja um scrap ou uma foto no Orkut) tem consequências legais, consequências essas cujas chances de ser efetivadas tendem a crescer mais e mais.
E antes que vocês digam que esse crescimento se deve a projetos de Lei como a chamada Lei Azeredo, já vou avisando: na verdade, as leis sempre puderam ser aplicadas à internet – a diferença é que agora o mercado vê necessidade na aplicação dessas leis.
É mais ou menos como ter um terreno no meio do nada, onde só tem areia – ninguém se interessa se tem posseiro, se tem gente por lá, até que descobrem petróleo no lugar. Ninguém se preocupava com o que meia dúzia de nerds espinhudos andava fazendo ou falando na internet, até o momento em que descobriraram quantas pessoas acessam a internet; a partir daí o que é dito a seu respeito (e a respeito da sua empresa) começa a fazer uma senhora diferença.
A entrada das empresas e a evolução dos portais também influenciou essa mudança de postura: a possibilidade de integrar o polo passivo de uma ação de indenização faz com que os departamentos jurídicos dessas empresas tomem mil precauções, o que torna tudo muito mais burocrático aos olhos dos antigos frequentadores da internet.
Bom, vocês devem estar pensando: e por que vc está falando nisso cara pálida? Explico.
Estou tentando dizer que com o crescimento, com a visibilidade, cresce a responsabilidade – exatamente como uma pessoa que nasce, tem a infância, a adolescência e passa à maioridade.
Não significa, de forma alguma, que tenhamos que deixar de ser autênticos, e sim que meçamos as palavras, que pensemos nas consequências do que iremos dizer e ainda mais importante: como podemos dizer o que queremos sem nos estrepar, na forma da lei – até para saber quando o advogado da parte adversária está blefando ou não. É isso. Sinto informar vocês, mas de agora em diante a internet ficou mocinha e tem que aprender a se comportar.
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Atualização – Vale ler também esse post aqui

















Eu até entendo a posição do bar. O problema nem é, na minha opinião, a resenha, digamos, pouco favorável. É que o negócio descambou depois que apareceram comentários supostamente do dono ou gerente do estabelecimento. Apesar de uma busca no Google pelo nome completo do tal Jonas não retornar nada além de posts de blogs sobre o caso, todo mundo — eu incluído, vale ressaltar — assumiu que o sujeito era, sim, quem dizia ser. E parece que não é o caso. O post no blog não se tornou viral por causa do texto do autor, mas, sim, por causa da resposta dos supostos donos.
Longe de mim insinuar que tenham sido os blogueiros que o fizeram, até porque eles não poderiam imaginar o impacto que a “resposta” teria e a reação deles foi e tem sido de surpresa diante de toda a situação, desde o início. Aliás, quem quer que tenha impersonado os representantes do bar não poderia imaginar a proporção que a coisa tomaria tão rápido. Basta ver que o primeiro comentário apareceu quase dois dias depois de a resenha ir ao ar, e a partir daí é que a página de comentários virou quase um chat.
Olhando com atenção para os comentários, bem depois de a confusão começar (algumas horas, mas que, no caso, foi tempo o bastante para a dissensão ser fomentada e fermentada) apareceu alguém que, pela identificação que forneceu, com nome e contatos, parecia ter alguma associação com o bar, no caso uma assessoria de imprensa. Com a avalanche de comentários, passou despercebida. Quase todo mundo que chegava lia a postagem original, os primeiros comentários (os que deram origem à confusão) e passavam os olhos pelo resto, se tanto. Ou seja, àquela altura qualquer pedido de desculpas passaria igualmente despercebido. Com mais de 200 comentários àquela altura, é difícil culpar alguém por não os ler todos.
Mas algumas pessoas liam, e morri de rir ao ver que alguns comentários claramente provocativos e irônicos chegaram a ser tratados como possivelmente verdadeiros pelos veículos de comunicação que deram algum espaço ao caso, como a Época, que escreveu: “O comentário de um suposto fornecedor também foi publicado. Nele, o interlocutor cancelava publicamente os contratos que mantinha com o estabelecimento.” Não era preciso ter sinapses operando sem obstruções para perceber que aquele comentário foi jocoso, tal qual o que dizia que o boteco seria “expulso do Sistema Solar”, assinado por “Júpiter, o síndico do sistema planetário”.
Não duvido que o maior motivo para levar o bar a solicitar a retirada da postagem sejam justamente os comentários, quase todos baseados em uma suposição não-confirmada — de que o(s) dono(s) do estabelecimento teria(m) ameaçado os blogueiros. O problema é que já chegaram chutando o pau da barraca, com a tal ação, o que gerou dois problemas. O primeiro, menor, foi basicamente não resolver o problema, já que a confusão já estava divulgada em tudo quanto é lugar. O segundo, e aí é que reside a grande questão, foi praticamente validar tudo o que os comentaristas já estavam pensando a respeito do bar. Afinal, quem já chega com ação de “censura” (atenção às aspas!) só pode ser o mesmo que ameaçou, ao menos na interpretação de quem não deu muito mais atenção ao caso. Era a prova de que muitos precisavam.
A solução deveria ter sido muito mais simples. Os donos do bar deveriam ter entrado em contato com os blogueiros, sem advogados no meio, para explicar que não foram eles que fizeram as tais ameaças (ao menos é isso que eu espero). De repente, chamá-los para tomar um chope de graça lá e explicar a situação diante dos próprios graçons, que, mesmo que sejam terríveis como se tem divulgado, estariam obviamente preparados para ter o triplo de atenção com a mesa dos blogueiros — se não estivessem avisados, o simples fato de os donos estarem ocupando já serviria para ativar a tecla noção/sem noção. Com uma conversa franca e amistosa, poderiam deixar clara sua posição e ainda solicitar que os comentários mais agressivos fossem retirados, e quem sabe até receber uma “resenha de esclarecimento”, que soaria educada e traria uma atenção positiva à marca do bar.
Mas fizeram tudo errado, deram uma lição de marketing às avessas que só é pior se realmente tiver sido alguém do bar a proferir as ameaças iniciais. Não faço ideia de como andou o movimento do boteco e suas filiais na última semana, mas não descarto que tenha caído, e talvez caído bastante. O dano à imagem foi grande, apesar de o caso (ainda) não ter chegado à grande mídia impressa, já que o público-alvo e os clientes em potencial do bar são justamente quem mais tem acompanhado a pendenga.
Ainda dá tempo de o bar tentar uma solução amistosa. Sair por cima não vai nunca, ainda mais depois de divulgado o vídeo da agressão do gerente da casa, por sinal publicado no YouTube um mês antes da polêmica resenha. Mas sair com a imagem só um pouco arranhada ainda é possível. Basta boa vontade. E bom senso.
Alexandre concordo com vc integralmente – e adorei o comentário, praticamente complementou o post!
Obrigada!
beijos!
Do uso imoderado da palavra “censura” | From Lady Rasta // dez 6, 2009 at 10:15 AM
[...] bem, com um acordo entre as partes (que propiciou a volta do post ao ar) : a internet virou mainstream, e isso (como aliás, tudo na vida) tem seu lado bom e o seu lado ruim. O lado bom, evidentemente, [...]