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Crime organizado tem solução?

outubro 19th, 2009 · 10 Comments · Assunto Sério, Comportamento, São Paulo

Desde que vi o filme “Salve Geral”, há umas semanas atrás, fiquei com várias questões na minha cabeça. Não vou fazer resenha do filme, porque tanto o  Mauricio Stycer quanto o Nick Ellis já falaram o que precisava ser dito. Basta dizer que eu  gostei do filme, apesar de achar que a desculpa pra colocar um cara de classe média preso um pouco forçada. Pra quem não viu, segue trailler:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=pr2TEdGG1X8]

Por conta do filme,  li dois livros nessas últimas semanas, falando sobre o assunto: “A irmandade do crime” e  ” O Sindicato do Crime – PCC e outros grupos ” (este último inclusive me pareceu  ter sido usado como guideline do roteiro do filme, tal a similitude entre o enredo de Salve Geral e a parcela de fatos verídicos lá narrados).

Feliz ou infelizmente, terminei os livros nesse último fim de semana, no qual rolou uma outra onda de violência no Rio de Janeiro; aproveitando o mote, queria então, (tentar) começar a discutir aqui quais são os motivos que levam uma organização criminosa a crescer tanto, a ter tanto poder, a ponto de ter parado uma cidade como São Paulo há 3 anos atrás, e onde está o nó (que eu acredito, a essa altura do campeonato, tratar-se de um verdadeiro nó górdio) para desatar essa questão.

Passo então às minhas considerações (e espero que vocês se animem a fazer as suas também, :lol: ).

Quando você o filme,  passa a ter  a ideia de um PCC com razões humanitárias, com o senso de justiça, uma coisa “Robin Hood dos trópicos”; no entanto, quando nos inteiramos dos detalhes dos atos praticados pela organização, nos damos conta (ou ao menos eu me dei conta, pode ser que a minha percepção não seja a mesma de vocês) que os presos somente saíram de um sistema de violência e abusos caóticos para um sistema de violência e abusos estatutários.

Tenho pra mim que toda organização, partido ou filosofia totalitária tem quase sempre em seu alicerce uma questão humanitária ou social (para poder arregimentar a massa de desesperançados que em algumas situações, é maior do que o habitual) , e com o PCC não foi diferente: inicialmente, a ideia era organizar os presos e proibir terminantemente dentro dos presídios uso de crack (que mata o consumidor e portanto é prejudicial ao tráfico), estupros e espancamentos. No entanto, ao ser ungido desse poder paralelo, o PCC passou também a praticar violência – como, pensando bem, não poderia deixar de ocorrer.

No livro que analisa o surgimento e evolução do CV no Rio de Janeiro, Carlos Amorim nos fala que na 1ª geração dos líderes daquela organização havia realmente uma (maior)  preocupação com a comunidade, que inicialmente acobertava os bandidos sem (muita) coação. Hoje na sua 3ª geração, os líderes do CV não possuem quaisquer preocupações com a comunidade (inclusive para assumir o poder das associações de bairro, muitos líderes comunitários anti-tráfico foram executados), que está aterrorizada nos morros e na periferia (e faço uma elucubração aqui – e talvez esse distanciamento seja a causa de o Governo estar conseguindo entrar em alguns territórios anteriormente em poder do tráfico).

Tanto os livros mencionados quanto o filme Salve Geral mostram de forma clara as negociações do Governo do Estado de São Paulo (cujo comportamento naquele episódio foi de uma falta de firmeza lamentáveis) com os membros do PCC para que cessasse o terror na cidade (bem como negociações similares entre o Governo carioca e membros do Comando Vermelho); mostram com clareza a evolução daquela organização (evolução essa negada veemente pelo Governo do Estado de São Paulo por quase uma década)  e sua primeira demonstração de força, que foi a rebelião concomitante de vários presídios. Mostram também o envolvimento da classe média com o PCC, na forma de advogados e outros profissionais trabalhando a soldo do crime organizado.  O filme não mostra no entanto, as atrocidades cometidas, a forma como a violência e os assassinatos são perpetrados, muito bem descritos nos livros; não mostra como o PCC vem subsidiando jovens através do pagamento de suas faculdades, em troca, obviamente, da prestação de serviços futuros (e não preciso dizer que há tentativas de se eleger parlamentares, certo? ;-) )

Ao ler tudo isso pensava: o que está errado? como consertar? E ainda, aquela pergunta ainda mais temível: dá pra consertar?

Sabemos algumas coisas: sabemos que a superlotação nos presídios aliada ao encontro dos miltantes de esquerda presos durante o regime militar foram alguns  dos fatores que propiciaram  o nascimento de organizações criminosas como o PCC e CV; que a proliferação dos telefones celulares nas cadeias (que entram graças à corrupção dos agentes penitenciários) é crucial para referidas organizações, de uma vez que permite a comunicação entre os líderes presos e seus comandados; que o sistema penal brasileiro é um lixo (desculpem-me, mas não há outra forma de defini-lo) e por fim a desigualdade social.

Eu realmente não acredito que todos os criminosos sejam produto da desigualdade social ; mas é inegável que uma boa parcela (os mais pé-de-chinelo, os que estão no fim da hierarquia do crime provavelmente ) teria chances de não estar lá caso tivéssemos educação adequada para as crianças – e por educação adequada eu chamo algo absolutamente utópico, como escolas onde as crianças permanecessem uma boa parte do dia, e não apenas meio período.

Mas só isso não basta né? Há que se reformar o sistema penal, que não só não recupera como também termina por desencaminhar os que poderiam se recuperar (sabiam que há verdadeiros “cursos de criminalidade” lá dentro, do tipo “Teoria Geral do Sequestro I”?); há que se coibir a corrupção (e isso só é possível com muita educação e um sistema penal eficaz), há que se dar condições para o preso que queira se reabilitar tenha condições para tal (lembrando sempre que muitos não terão essa vontade ou capacidade – e com esses, eu realmente não saberia dizer o que fazer).

E quando eu vejo tudo o que eu escrevi no último parágrafo,  e penso no que tais mudanças – conhecidas por todos, e de certa forma um consenso entre aqueles que não estão no extremo de “bandido tem que morrer” e no outro extremo de “bandido é vítima da sociedade”-, exigem de esforço, vontade política e coragem… Eu desanimo sabia?

Espero que eu esteja errada e que esse problema tenha solução um dia. De verdade.

****

P.S. Salve Geral foi lançado  dia 02.10.09, numa data emblemática: o julgamento do Marcola, tido como um dos chefes maiores do PCC. Quem acompanhou as notícias sabe perfeitamente bem que através de uma manobra jurídica, não houve julgamento.

P.S. Achei um post bacana sobre violência e criminalidade enquanto procurava uma boa definição de nó górdio, vale a pena dar uma lida.

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10 Comments so far ↓

  • Natalie

    Flá,
    Acredito que esse seja um tema díficil de ser comentado. Ainda mais por mim. Não consigo ter uma opnião parcial ou ao menos racional.

    Já fui vítima duas vezes, em menos de três anos, dessa louca violência que ronda o nosso país.

    A primeira vez fui refém de um grave assalto a casa de um amigo meu. (Estava lá fazendo trabalho para a faculdade, acredita nisso?).

    E a segunda vez fui agredida e levaram meu carro para sequestrar uma outra garota (Eu trabalhava em uma das regiões mais nobre de Campinas).

    Esses dois eventos mudaram minha vida, minhas opniões, a forma como encaro a nossa sociedade…

    Educação e reforma ao nosso sistema penal reamente são mudanças importantes e urgentes. Mas me sinto descrente quando a essas reformas. :/ É uma pena ver a que ponto nossa sociedade chegou e que hoje muitos vivem reféns do seu próprio medo.

  • iaiá

    não tenho muito a dizer além do que vc disse. mas gostei muito da flat de preconceitos pré julgamentos do post, da abordagem pé no chão e tb humanisat da questão, que não tem resposta rápida, nem simples.

  • Tweets that mention Crime organizado tem solução? | From Lady Rasta -- Topsy.com

    [...] This post was mentioned on Twitter by Flavia Penido and Marcia Bianco, bette davis. bette davis said: muito bom e oportuno o post da @ladyrasta – Crime organizado tem solução? http://bit.ly/G1W6R [...]

  • Ricardo

    Vejo luz no fim do túnel carioca. E ela se chama Olimpíadas. Uma ótima oportunidade para que as coisas se resolvam ou pelo menos melhorem, por um motivo singular: A Olímpiada tem prazo, tem data certa e não pode ser prorrogada. Não há como empurrar o problema da criminalidade com a barriga como tem sido feito por todos esses anos.

  • Aline

    Quando se trata de discutir a criminalidade se sabe que não há a famigerada “solução”, nem resposta total, absoluta que apazigue os ânimos de todas as gentes amedrontadas.

    Não tem resposta, não tem causa, não tem a tão sonhada e buscada erradicação plena do crime.

    Tem ponto de vista, abordagem e prática criminológica. Aliás, a criminologia contemporânea ensina a lidarmos com a contingência, a especificidade e a territorialidade de cada fenômeno delituoso.

    Assim não há resposta total, há formulação de novas e mais complexas questões. Há parcialidade e principalmente partidarismo. Há de se eleger qual ponto de vista se pretende privilegiar. Disso não se escapa.

    Sobre o PCC, vale pesquisar Ana Lúcia Sabadell. Uma criminóloga e pesquisadora que há anos investiga a “organização”, tendo inclusive publicado trabalho para aquele instituto alemão, Max Planck…

  • Ladyrasta

    Aline Quanto ao ponto de vista a ser privilegiado…será que não tem um meio termo? Enquanto lia o livro do Carlos Amorim, fiquei passada com um capítulo onde os presos do CV pediam pra sair de Bangu 1 porque ela seria inconstitucional – na verdade, é meio difícil fugir de lá. Eu sou contra deixar as pessoas horas a fio trancadas na solitária, sou contra porrada, mas não sou contra colocar pessoas de alta periculosidade em celas individuais ou em prisões intransponíveis onde eles não possam se comunicar. Tratamento decente sem dúvida, mas rigoroso.
    Valeu pela dica da Ana Lúcia Sabadell!!

    Ricardo Eu achei bacana ter Olímpiadas no Rio, mas sinceramente acredito mais num pacto entre Governo e tráfico do que resolver a questão na raiz. Espero de coração que eu esteja errada e vc certo :-)

    Iaiá super obrigada!! Foi o que disse, li dois livros antes de escrever isso e pensei bastante – e terminei com um gosto amargo na boca pq é um problema que demorará gerações para se controlar, se é que o conseguiremos. Mas valeu pela força viu?

    Nathalie acho que vc pode sim falar. E que fique claro: eu não sou contra controle rígido; só não acho que tenhamos que tratar presos como bichos, e acho que ainda que demore gerações, como falei aí em cima, acho que é só com educação que a gente diminui a massa carcerária, que é o que dá base pro poder do tráfico. Na hora em que não for mais tão fácil repor os “soldados” que “caem”, o tráfico começa a perder força. Ou ao menos assim espero…

    Beijos!

  • Dragus

    O crime organizado no Brasil só dá certo porque a Lei Brasileira é centralizada demais na Constituição.

    Ela tira poderes dos estados de organizarem suas leis penais e seus códigos, impedindo dessa forma uma resposta rápida a criminalidade local, sempre tendo que passar pelo crivo de Brasília, o que sempre demora mais do que os atos criminosos em si.

    O fato de considerar como iguais o ladrão de galinhas no Chuí e um genocida como o Beira Mar apenas acentua mais ainda a coisa, favorecendo essas comunidades.

    Não dá para continuar querendo combater o crime com uma CF como a nossa, flexível apenas com quem comete erros.

  • Fernanda

    Fla, n… Saiba maisão assisti o filme ainda, mas presto um serviço voluntário com jovens onde mtos fazem parte do C.O., eles tem leis mto severas, que são cumpridas ( diferente das nossas que não são cumpridas), mas uma vez estando dentro só sai morto. Há benefícios para quem faz parte dos “partidos”, mas os tais “partidos” fazem o que com a sociedade ? Eis a questão? Quantos políticos se beneficiam do crime organizado? Eu particularmente não vejo solução, onde uma população ignorante é melhor para as autoridades. O crime organizado da muito lucro e por aí vai….

  • Ladyrasta

    Dragus acho que é um pouco mais complicado que isso : tem as leis que como vc colocou colocam ambos os criminosos no mesmo balaio, tem o sistema penitenciário que junta o Beira Mar com os caras mais pé de chinelo, tem o horror da cadeia onde só se safa quem se une, tem a falta de educação de bom nível que faz com que hajam sempre soldados e mais soldados que morrem sem parar cedo… é muita coisa. Sinceramente não sei onde isso vai parar…

    beijos

  • Ladyrasta

    se vc trabalha com esse pessoal recomendo fortemente a leitura desses livros, vai te interessar. E concordo com vc.
    Beijos!

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