Há uns dias atrás vi uma reportagem na Época falando sobre como a violência e o medo nas cidades grandes fez com que os pais retardassem a autorização dos filhos para sair de casa sozinhos, e achei um tema interessante pra discutir aqui.
Eu costumo dizer que deixar o filho andar sozinho pelas ruas é algo que se deve fazer paulatina e gradativamente, levando-se em consideração não só a maturidade da criança – que dá sinais de que está pronta para isso, às vezes de uma forma que nos deixa aflitos-, como também a nossa maturidade ou nossa capacidade de lidar com o fato de que nosso bebê (sim, eles sempre serão nossos bebês) estar por aí exposto a perigos insondáveis.
Então, levando-se em consideração que há algumas variáveis aí – maturidade da criança e capacidade da mãe em lidar com o fato de que não estará por perto pra defender o filho, além da criminalidade crescente hoje em dia -, não dá pra estabelecer ou determinar uma idade certa para isso; mas vou contar como as coisas foram acontecendo na minha casa para vocês poderem estabelecer um parâmetro.
Moro no Centro de São Paulo, próximo da Avenida Paulista, e sei que sou um pouco menos encanada que a maioria das pessoas. Não sou irresponsável, mas sou mais cabeça fresca mesmo – o que não significa que eu seja cabeça oca, bien compris.
Comecei deixando meu filho ir comprar figurinhas na banca da esquina, onde ele não precisava atravessar rua nenhuma. E aos poucos fui ensinando ele a andar na rua.
Ensinar a andar na rua? Sim, vocês leram direitinho; ensinar a andar na rua, sim!
São Paulo (bem como as grandes cidades brasileiras) tem assaltos; é importante explicar pras crianças, AINDA ENQUANTO ANDAMOS COM ELES NAS RUAS, que temos que andar tendo visão periférica do que tá rolando. Eu também recomendo que não ande muito grudado das paredes, principalmente perto das esquinas, porque a gente não sabe o que tem do outro lado. Igualmente ensinei meu filho a como tratar ou passar ao lado dos bêbados e dos sem teto – eu costumo dizer que não devemos passar demonstrando medo, mas tampouco piedade (até porque não sei se é pena que devemos ter deles, e já disse isso) – e essa é uma nuance difícil de se explicar, só se aprende vendo fazer.
Eu também falo pra atravessar a rua se achar que alguém está seguindo ele; para entrar numa loja caso tenha medo e por aí afora. E mais importante de tudo: passei anos falando isso pra ele toda santa vez que andávamos na rua.
Na verdade, eu sempre falei que andar na rua era um videogame numa fase perigosa: a gente tinha que prestar atenção em tudo, um errinho podia fazer com que perdêssemos o jogo e que ele tinha que estar muito atento. Eu acho que temos que treinar a criança – conhecendo o que pode acontecer e dando soluções, elas terão mais capacidade para resolver as encrencas que aparecerem.
Depois da fase da banca de revista, meu filho começou aos 11 anos, a ir para o Inglês de ônibus. Ele era colocado por mim ou pela empregada no ônibus, a uma quadra de casa, e descia no ponto ao lado da escola, a meia quadra do ponto (não sendo necessário atravessar rua nenhuma). No começo, iam com eleaté a escola de ônibus, e depois que ele aprendeu o caminho e sentiu relativamente seguro esse sistema de ser deixado no ponto foi instalado.
O meu maior medo na verdade é a travessia de grandes avenidas – e para ir à escola há uma grande avenida a transpor. Tive uma conversa séria com ele, expliquei que eu morria de medo e que para deixar ele começar a andar sozinho ele tinha que me prometer que só atravessaria através da passagem do metrô, porque só assim ficaria sossegada. Ele concordou – e querem saber? Acho que a criança também tem medo – se vc disser que ele estará fazendo isso por você, ele pode se dar ao “luxo” de se resguardar sem se sentir um covarde.
Lembro direitinho do dia em que entendi que meu filho estava pronto para ganhar o mundo (quer dizer, aqui em São Paulo, porque ele sempre foi muito independente): ele já usava o ponto de taxi na frente da escola de inglês (outra coisa que fui fazendo aos poucos – pontos ou motoristas conhecidos) e me ligou do inglês pra dizer que estava saindo de lá, como sempre combinamos (essa é outra dica importante: ele ligar sempre, porque dá pra ver a partir de quando devemos começar a nos preocupar); ele só esqueceu de me dizer que tinha decidido voltar à pé pra casa (uns 15-20 minutos de caminhada) porque “estava sem dinheiro” – desculpa mais esfarrapada do mundo, como vocês podem perceber, mas foi a que ele achou pra me contar. Eu teria ido buscá-lo; mas ele quis fazer isso. Eu tive um pouco de medo, confesso, quando ele contou. Hummmm… pensando bem, na verdade, não sei se senti medo mas sim a constatação de que ele está crescendo, querendo testar a autonomia e a capacidade dele e… ah gente, já falei isso, eu sei que a vida é assim, mas…ele vai ser meu bebê sempre sabem? Ainda que, sei lá, faça parte do médico sem fronteiras…
O que eu acho importante é o seguinte: a gente não pode deixar que o medo da gente impeça a criança de viver: da mesma forma que ele tem que dominar o medo dele, nós temos que aprender a fazer o mesmo, dentro de nossos limites, mas sempre tentando vencê-los. E vocês hein? Como lidam com isso?











Flá, adorei! Muito útil saber como foi a sua experiência. O meu fez 11 anos ontem e ainda não tive a oportunidade de passar por isto. Da última vez que ele me pediu para andar sozinho em volta do condomínio, não deixei. Engraçado, parece contraditório, mas acho que a cidade grande e todo seu movimento dão uma certa segurança, aqui onde eu moro as ruas em volta são meio desertas. Enfim, vou ter me adaptar ao lugar onde vivo não é? (Me lembro que eu tinha 13 anos e estudava em Santo Amaro, morava em Pinheiros, e quando apareceu a aula extra de tarde na escola minha mãe decretou: – Vai de ônibus! Ela nem foi comigo. Me indicou qual era o ônibus e disse que se eu errasse era para ligar para ela e dizer o nome do cruzamento onde eu estava. Claro que da segunda vez eu errei! Liguei do orelhão e esperei. Mas aprendi. Não só a me virar como a não ter medo da situação inesperada). Beijos!
Flávia, que post incrível. Penso exatamente assim com relação à Sabrina.
Beijão,
Dani.
Adorei o post! Realmente é um momento de transição para pais e filhos. Estou começando a viver isso e acho que vc tem toda razão, informação e confiança são fundamentais! E os filhos “revelam” o quanto estão preparados. (a gente fica só se acostumando e torcendo que eles sejam sempre felizes nas suas escolhas, né não?!)
Ótimo conteúdo …BTW! Bjk
Nossa, como você é legal! E eu que não conhecia seu blog até hoje!
Falha minha….
beij0
Tweets that mention Ensinando seu filho sair na rua sozinho | From Lady Rasta -- Topsy.com // nov 4, 2009 at 7:20 PM
[...] This post was mentioned on Twitter by Flavia Penido, Veridiana Serpa and Eliane Rodrigues, Cleber Junior. Cleber Junior said: Tem auto ajuda p td! RT @ladyrasta Pras mães de primeira viagem, sobre qdo e como ensinar filhos andar na rua sozinhos http://migre.me/aFfg [...]
Porque minhas opiniões não cabiam na telinha da TV » Já é hora de ter um cachorro? // nov 4, 2009 at 9:25 PM
[...] eu estava lendo o interessante post de @ladyrasta sobre a hora de deixar seu filho andar sozinho pela rua – dúvida que, apesar [...]
Eu me lembro de meu pai me ensinando ir de Perdizes a Higienópolis sózinha para fazer um curso a tarde : foi seguindo de carro… me avisou sobre pessoas que poderiam me abordar, exigiu que eu atravessasse as ruas no sinal, a ter certeza que tinha dinheiro p/ 1 passagem extra caso tomasse onibus errado, a ligar p/ casa caso desse alguma coisa errada… passei nos primeiros testes e depois ganhei a cidade aos 13 anos. Fiz parecido com meu filho, mas numa cidade menor… agora tenho que começar com a minha filha… mas a cidade é outra, muito maior, e os tempos assustadores…
A urgência nos faz cometer equívocos, mas não mal intencionados. Sabe aquela estória de atirar primeiro pra perguntar depois, foi o que eu fiz.
Sou incomodado com esses livros de auto ajuda que te propõe uma mudança radical que você não tem a menor vontade de fazer e no final você acaba se frustrando, sentindo-se incapaz de fazer mudanças tão fáceis como eles propõe.
Atirei primeiro e twittei, depois li seu texto e percebi que a conotação era outra.
Seu texto é ótimo, revela nossas angústias com o que vai alem do nosso cantinho. Filhos na rua são motivos constantes de preocupação à partir da primeira vez. Nunca mais teremos sossego.
Gostei do que escreveu.
Amei seu post. Depois podemos falar mais disso no twitter.
Cresci numa época que celular não era comum como hj, e as recomendações dos meus pais eram bem essas. E sempre tinha ficha telefônica (pois é!) no bolso, passe de ônibus, enfim. E se percebesse alguma coisa estranha, era pra entrar em algum estabelecimento comercial, em algum prédio.
O post é intessantíssimo para adultos com ou sem filhos e totalmente atemporal. Perfeito!
bjos,
Eli
Meu Google Reader - 09.11.09 | 30 & Alguns // nov 9, 2009 at 5:20 PM
[...] Ensinando seu filho sair na rua sozinho – From Lady Rasta [...]