Quando me separei, tive como “tutora” uma amiga querida (que eu, sem vergonha que sou, não vejo há anos – e até filho ela já teve) que tentava me fazer ver muita coisa. Eu era uma moça super hiper ultra ingênua de 31 anos, com um filho de 3, que tinha se casado com o primeiro namorado sério que teve – ou seja, malícia e traquejo zero no que tange às relações homem-mulher.
Por ter esse meu caráter muito franco, por não ter papas na língua – e como dizem alguns amigos, por não ter medo de pular sem para-quedas (o que não é verdade em absoluto e já expliquei por que aqui), por ter um lado romântico muito forte que o meu racional insiste em dominar, sofri o diabo nos primeiros anos. Eu não entendia porque eu não podia fazer ou falar algumas coisas se era aquilo que eu estava sentindo; achava que depois dos 30 anos eu já teria essa liberdade, e os moços com os quais estivesse…hum…interagindo, a rigor também seriam assim.
Feliz ou infelizmente, não é assim que as coisas funcionam. E eu odeio não ter controle sobre uma série de fatos que acontecem na minha vida, mas se tudo fosse como eu quero viver ia ser bem chato, convenhamos, né?
Essa minha amiga (que eu chamava de minha “grila falante” – e sim, também tenho um grilo falante na minha vida) dizia algumas coisas que poderiam ser consideradas extremamente machistas, mas que no fundo eram resultado de um bom conhecimento da alma e do comportamento humanos.
Ela era uma daquelas defensoras do que a grosso modo poderíamos chamar de “do not call him”. Eu achava aquilo um absurdo, achava que aquilo era machismo, que era um retrocesso… Mas depois de algumas várias e várias cabeçadas entendi que aquilo não tinha nada de machista – era antes compreensão da limitação das pessoas.
Só que essa compreensão, essa serenidade para enxergar o limite do outro só se alcança depois de muita cabeçada, muito sofrimento (aquele famoso molejo de amor machucado do qual o Vinicius falava tanto) – e os dela não foram poucos. Aliás, aconteceu tanta coisa com essa minha amiga que fico realmente feliz de ver como a vida dela está boa hoje em dia.
Ela me contava uma história pra ilustrar as atitudes dela: um amor daqueles tórridos, casamento meio marcado, e o moço pulou fora. Pulou fora e por uma questão de trabalho, pediu transferência para… a Bulgária. Não tinha outra. Não casou com outra (ele só se casou depois que ela se casou, aliás). Também não era gay. Simplesmente não quis mais, apesar dela saber que ele gostava dela (e isso sempre é o mais doído; a rejeição de não ser gostada é horrível, mas a sensação de se saber gostada e mesmo assim isso não ser suficiente acaba com qualquer um – porque joga na cara da gente o fato de que a vida nem sempre é a comédia romântica que gostaríamos que fosse).
Poi bem: arrasada, morrendo de saudades, querendo entender, na primeira vez que se pilhou na Europa, sem contar pra ninguém, se armou de coragem e pegou um trem pra Bulgária para encontrá-lo. Ela tinha que fazer isso sabe? Ela tinha que entender… E… cá entre nós? Vai saber quais fantasias não se passavam pela cabeça dela, né? Vai saber se ela não achava que com aquela coragem de heroína o moço desmontava e eles viveriam de novo alguma coisa ótima? Eu tenho certeza que sim (e eu também já pensei que com arroubos parecidos como esse pudesse obter aqueles resultados que vemos em novela – e digo a vocês meninas:eles não acontecem).
Estão curiosos pra saber o que aconteceu? Eles passaram três dias maravilhosos, praticamente sem falar, só se curtindo. E depois ela foi embora, com aquela tristeza serena da compreensão. Digo tristeza serena da compreensão porque apesar de ter tido certeza que eles poderiam muito bem ter uma vida ótima, não era isso o que ele queria. E pra ter uma vida ótima a dois, é necessário ter duas pessoas dispostas a isso né? Não importa os motivos pelos quais ele não queria; ele simplesmente tinha decidido que não. E contra isso, não há nada que se possa fazer. Por causa dessa história que ela sempre me contava quando eu estava triste e sem entender o que estava acontecendo na minha vida, ela dizia:
“ eu tive que ir até a Bulgária pra entender que não vale a pena dar a volta na esquina; tive que ir até a Bulgária pra entender que não adianta insistir; tive que ir até a Bulgária pra entender que enquanto o cara não decide pela cabeça dele, pela vontade dele e não vem com as perninhas dele falar comigo, não adianta eu fazer nada – porque não vai ser bom, e vou ficar aainda mais atrapalhada” - e ela falava isso com uma vozinha de menininha que encobria o quanto de maturidade e compreensão do outro tinha dentro dela.
Ah, quantas e quantas vezes eu não fiquei inconformada com o rumo de algumas situações ou histórias que eu vivi!! E confesso sem vergonha nenhuma: molhei o travesseiro muitas e muitas noites me achando um lixo (é, não sou tão segura quanto alguns de vocês acreditam, juro), me perguntando o que eu poderia ter feito de diferente pras coisas terem tido outro resultado, no que eu tinha errado, no que ainda havia por fazer, até que um dia, depois de uma das histórias mais tristes da minha vida, eu entendi.
Entendi que relações humanas são complicadas. Temos nossas inseguranças, nossos projetos, nossos ideais, nossas histórias antigas que nos deixam com alguns cacoetes… Temos ideias preconcebidas, (alguns têm um check-list pra conferir antes de decidir se o outro é suficiente para ele), enfim, há milhões de variáveis, algumas delas nem sempre passíveis de serem explicadas. Também não sou daquelas que acha que homens “têm medo de mulher assim ou assado” – isso pra mim é uma desculpa semelhante ao “ai, é inveja” e alguns #mimimis, é defesa pra não pensar no óbvio: que as coisas quando têm que acontecer, acontecem no seu tempo e hora, e não adianta nadica de nada tentar apressar ou tentar entender porque elas não aconteceram quando queríamos que acontecesse. Quando um não quer dois não brigam – it’s as simple as that (ao menos não naquela hora, hehehe)
Mas já aviso: também não adianta ficar sentada esperando; afinal, como bem diz um texto lindo da Clarice Lispector, é quando não esperamos que o telefone toca. Há que se confiar no fluxo da vida (eu sei, é difícil, doi – ah como doi ); há que se deixar o outro (ou outra ir) ir esperando que ele volte sem contudo deixar de viver o que a vida nos proporciona. Há que se ter desprendimento e confiar que tudo acontece no seu tempo e hora. Ou não. E quando acontecer (se acontecer), se ainda der tempo, você vive. Se não acontecer… well, é porque não era pra ser, certo? Viver é assim. Doi, mas é bom.
Querem saber? Eu cada vez mais me sinto abençoada por estar conseguindo enxergar isso com clareza (ah, nada como ter 40 anos, acreditem!). Graças à minha amiga, nunca precisei ir pra Bulgária. E recomendo fortemente que vocês façam o mesmo – ao invés de gastar energia com isso, deem uma olhadinha pro lado, sabe? Vocês podem se surpreender… E isso não altera nada no que tiver que acontecer de bom, viu? Ju-ro. Então, querem um conselho? Sejam distraídos e não não vão à Bulgária.
****
P.S. I: E pra quem quiser dar risada, recomendo a leitura de Fragmentos de um Discurso Amoroso do Roland Barthes, só pra vcs verem que a história de vocês não é assim tão diferente da história dos outros (pra não dizer naaaada diferente
)
P.S. II – Isso aqui não é auto-ajuda viu? Cada um tem um jeito de ver as coisas. Eu vivo melhor assim. Talvez minha única diferença seja sempre deixar a porta entreaberta. Vai que o moço bate, né? ![]()















Tweets that mention A Bulgária não vale a pena | From Lady Rasta -- Topsy.com // nov 9, 2009 at 4:15 PM
[...] This post was mentioned on Twitter by Flavia Penido, Eliane Rodrigues. Eliane Rodrigues said: Mais um post imperdivel dessa super mulher, linda, poderosa e multifacetada RT @ladyrasta Post comédia… http://migre.me/b6rv [...]
Me adota? *carinha do gatinho do shreek =)
nada é definitivo…o que tiverde será..acredito nisso. mas tb é necesário uma fina observação de si mesmo, e uma boa sintonia par saber quando parar e quando continuar, foi o que sua amiga teve. e acho que isso só se aprende com o tempo mesmo. maturidade ajuda…
Emocionada aqui com o seu post…
. Infelizmente (ou não), a maioria de nós ou já passou ou ainda está por passar pelo seu momento de ir à Bulgária. Às vezes, só às vezes (!!!), a gente precisa, pra depois jamais ficar pensando no maledeto “E SE…” ; e, pra talvez, apre(e)nder que as histórias da gente, no fundo, não são tão diferentes das dos outros e não cometer mais os mesmos equívocos… eheheh
Seria excelente se a gente pudesse sempre aprender com a experiência dos outros, né?
beijinhos,
Cássia (@popysp)
Ai Lady Rasta, estou indo ali me jogar… Porque realmente ir à Bulgária não vale a pena. E eu já passeei muito por lá…
O pior de tudo é aquela saudade do que não foi. Dói, muito, e depois passa.
Mas, (que bom ter um mas…) ficar esperando uma mudança que está no outro é fria: a vida passa e não se vê tantas coisinhas miúdas legais que podemos fazer acontecer e as graúdas que caem do céu…
ChrisL. Por isso é que eu falo que enquanto o outro muda (ou não) a gente vive o que a vida nos dá. E na verdade, ninguém muda. As situações mudam, a percepção das coisas mudam…É difícil as pessoas mudarem. Mas…acontece viu? E mais não falo
Andrea Então deixa de ir pra Bulgária e vai até a esquina ver se não tem coisa mais divertida pra fazer, boba! A-pos-to que tem!!
Popysp Nesse “viver doi – mas é bom” eu falo o que eu penso dos “e se”. Quanto a aprender com as experiências, eu tenho um amigo querido (meu grilo falante) que diz que eu sou malaca: que enquanto as pessoas fazem 3 ou 4 burradas pra aprender alguma coisa, eu faço no máximo 2, lembro do que me aconselharam e não erro mais. Não é difícil, é só querer…
Iaiá acho que o mais difícil é descobrir até onde se pode ir sem correr o risco de se estragar o que pode estar por vir
Nathalie sabe que tem uma lista Flavia me adota né? vou colocar vc lá tb, hahaha
Ah, Flavia, eu diria que seria bom se eu aprendesse de verdade com a minha experiência mesmo…
Mas quando o coração manda, lá vou eu para a Bulgária…
E o meu dilema hoje é saber até onde ir sem estragar o que está por vir e vice-versa, até onde ficar sem estragar o que já se tem…
(Ah, talvez devêssemos dizer aos menos experientes que pra saber se vale a pena tem que ir até lá pelo menos uma vez na vida… já pensou uma vida sem nunca ter ido à Bulgária?????)
Mas sabe que o seu texto era exatamente o que eu precisava hj???
Valeu!
bjus
A Bulgária não vale mesmo a pena. O que vale a pena é escolher a si mesmo, aí sim, tudo certo. E quem estiver ao seu lado, vem junto com vc e com a sua escolha.
Agora, para chegar a isso, alguns, algumas vezes, precisam ir à Bulgária.
gostei, gostei! beijos
Concordo com tudo que você falou. E já vivi tudo isso também.
Mas mesmo assim, iria até a Bulgária, só pelos três dias a mais….
(aliás, estou quase indo. Um pouco mais perto.)
Flávia, texto ótimo!
, mas faz teeeempo que não vou lá… acho mesmo que, pra lá, não volto!
Eu diria que até já morei na Bulgária
Sim, estou abandonado a Bulgária e trocando pelas esquinas!!!
Ai, Flávia… Como eu precisava ler isso….
Cássia se te serve de consolo, não ir à Bulgária porque a gente sabe que não resolve é ruim também sabe? Aliás, nunca é bom quando as coisas não acontecem como gostaríamos; a diferença é que com o tempo a gente aceita isso. Fica bem aí lindinha…
Beijos