Essa lista inicialmente iria chamar-se 10 músicas de moças freteiras; mas enquanto procurava, pensei em várias músicas que não necessariamente envolvessem a prática de atividade aeróbia de cunho heterodoxo mediante paga (ah, advogados, essa raça que transforma até mesmo sexo em algo enfadonho,
) mas, sim que falasse também de sexo fácil, não romantizado, ou ainda que falassem sobre a prostituição de forma geral.Elas estão (à exceção da última) em ordem de composição, ou data em que a versão mais famosa surgiu – até porque, tendo colocado estilos tão diferentes lado a lado, eu simplesmente não saberia estabelecer prioridades aqui. Os estilos estão misturadíssimos, e sim, tem algumas músicas que serão esnobadas por aqueles chatos que só ouvem o que é considerado cult, cool, sem querer se misturar com a plebe ignara. Mas como vocês sabem, eu não ligo pra isso certo?
1. Just a Gigolo – Irving Cesar, 1929
Confesso pra vocês: eu tinha certeza que essa música era bem mais nova, conhecia a dita cuja na versão do Louis Prima (de 1956), e pesquisando para fazer o post descobri que ela é bem mais antiga. Achei até uma versão num desenho da Betty Boop (que eu amo, e até imito quando estou empolgada na medida certa, hehehe).
A letra fala sobre um heroi de guerra em Paris que se prostitui pra viver. Triste, como (quase) todas as músicas sobre esse tema são…
2. Love for sale- Cole Porter, 1931
Costumo dizer (e tem gente que briga comigo) que o Cole Porter tem uma acidez, um cinismo para analisar algumas situações como poucos, ao mesmo tempo em que coloca essa análise com uma elegância deliciosa. E é o que acontece na letra dessa música:
Who would like to sample my supply?
Who’s prepared to pay the price,
For a trip to paradise? Love for sale
Let the poets pipe of love in their childish way,
I know every type of love
Better far than they.
If you want the thrill of love,
I’ve been through the mill of love;
Essa é uma daquelas músicas que faz um par perfeito com aquela famosa frase de Nelson Rodrigues: Dinheiro compra tudo – até mesmo amor sincero…
E eu gosto de ouvir com Ella:
3. Lorelei – George and Ira Gerswhin, 1933
Lorelei na verdade é uma personagem de uma lenda alemã, habitante de um penhasco do mesmo nome, uma espécie de sereia (como foi me dito por um amigo- eu diria náiade) do Reno e a pessoa que canta a música quer ser como ela. A música foi composta pelos irmãos Gershwin para um musical chamado Pardon My English – e eu amo a versão da Ella in Berlin. Eu acho a letra dessa música…safada, dengosa, molinha, insinuante (e tais características ficam ainda mais exacerbadas no tom langoroso que a Ella dá à música) Não tem nada a ver com as tradicionais letras de músicas sobre prostitutas, que basicamente falam de um cara querendo tirar ela dali ou então sobre a vida dura que elas levam.
Lorelei não. Lorelei, mesmo acostumada com os marinheiros rudes do cais do porto, continua a ter sede de colocar suas inciais no pescoço de um marinheiro (parte da letra que mais gosto, junto com…xapralá, não vou contar tudo né?); faz isso com gosto. Eu tenho a nítida impressão de que a Lorelei (se for mesmo puta, não tenho certeza) é daquela linhagem das putas Nelson Rodrigues – é puta porque gosta, e tem muito orgulho!
Ouçam (preferencialmente com champagne, porque a Lorelei pode ser do cais do porto, mas eu gosto de ouvir Ella com champagne. Well, serve um Manhattan também).
4. A dama do Cabaré – Noel Rosa, 1934
Mais uma das muitas músicas que Noel fez para a Ceci, uma prostituta por quem era apaixonado, pra quem escreveu uma das músicas mais bonitas dele (e uma das minhas preferidas, junto com Três Apitos): Último Desejo.
Interessantes ver a diferença de estilos: enquanto Cole Porter na América é muito cínico com relação à prostituição, Noel Rosa é todo apaixonado ao descrever os modos da moça no Cabaré – vc consegue ver a cena acontecendo na sua frente.
Achei uma versão bem retrô, com Orlando Silva e outra mais moderninha:
5.Quem há de dizer – Lupicínio Rodrigues, 1948
Pra todos que andam na rua
Não vai viver só pra mim
6. Honky Tonky Women, Rolling Stones, 1969
Sabiam que essa música foi escrita depois que os Stones vieram ao Brasil? Pois é… E a letra é bem explícita ao falar que o cara “met a gin soaked bar-room queen in Memphis” que “tried to take me upstairs for a ride”. Eu particularmente acho a letra da música fraquinha, mas gosto da música, tem uma ginga gostosa…
7. Maggie May – 1970, Beatles
Não confundir com Maggie May do Rod Stewart, realmente uma canção sobre um romance entre ele e uma mulher mais velha, que não era prostituta. Maggie na verdade é uma forma como as prostitutas são chamadas em alguns pontos da Inglaterra e Irlanda, e essa música em questão refere-se a uma folk song de Liverpool, bastante antiga, contando a história de uma dessas moças freteiras que roubou um marinheiro. Os Beatles a gravaram em 1970
8.Walk on the wild side – Lou Reed, 1972
Outra música que adoooro. Tanto a ginga dela quanto a letra. A música não fala propriamente de um garoto de programa; na verdade a letra conta a história de como algumas pessoas (ligadas todas a Andy Warhol) foram parar em em N. York Sugar é uma dessas pessoas: a ” he that became a she”, depois de raspar sua perna com gilete pra ela ficar lisinha. Gosto muito da letra – particularmente do trocadilho baixo (e chulo, por que não dizer, né?) do “she never lost her head even tough she was giving head” E o mais doido é essa letra pesada ter aquele corinho meigo ” and the colored girl say do do ddodoodododo”.
9. Bad Girls – Donna Summer, 1979
Outra cuja letra é bastante explícita: ” Friday night and the strip is hot, the sun goes down and they’re about to trot”. Acho que essa ficaria na minha categoria “músicas job description”, por não terem tanta poesia, se aterem à crueza e à dureza do trabalho mesmo (não, o duplo sentido não foi intencional, juro, mas é tarde e não vou pensar em outra coisa pra escrever)
10. O mundo é um moinho – Cartola, 1976
Diz a lenda que Cartola fez essa música para a filha, quando ela estava saindo de casa e ele descobriu que ela iria literalmente, “cair na vida”. Well, imagino que poucas coisas sejam mais difíceis de ser enfrentadas por um pai do que descobrir que a filha é prostituta. Qualquer outro encheria a filha de porrada, mas como ele era o Cartola, escreveu “O Mundo é um Moinho“.
De cada amor tu herdarás só o cinismo,
Quando notares, estás à beira do abismo,
Abismo que cavaste com seus pés.
Essa é mais uma música que eu coloco na categoria das músicas descrevendo o sentimento de desesperança. Apesar de ter procurado e achado essa história em diversos sites, não achei nenhuma fonte pela qual eu pudesse colocar a mão no fogo; a querida Constance Escobar, cujo pai vem a ser o célebre Guinga, ficou de apurar a história com ele pra ver procede – mas, como diz o ditado, se no é vero, é benne trovato. E é uma canção maravilhosa. Vou colocar as versões do Cartola e do Cazuza pra vocês:
11. 53 and 3rd – Ramones, 1976
No mesmo ano em que Cartola ficava arrasado com a filha que ido ganhar a vida de forma heterodoxa, Dee Dee Ramone caía na viração. Segundo este site aqui, Dee Dee Ramone nos anos 70 costumava fazer ponto na esquina dessas ruas, (conhecidas pela farta oferta de prostituição masculina, digamos assim) para financiar seu vício em heroína. A letra da música fala sobre isso (embora não mencione a heroína). Super junkie, como não poderia deixar de ser vindo dele, certo? Ah sim! Adoro a frase final, “I proved that I’m no sissy” :lol;
12. Eu vou tirar você desse lugar – Odair José
Nem venham dizer que essa música é cafona. Cafona pra mim é não entender que essa música é o máximo. Mais uma daquelas músicas onde um homem se apaixona por uma puta e acredita que vai conseguir tirar ela de lá, pra ela “sair daquela vida”. Triste… Triste como só os amores doídos e impossíveis conseguem ser; triste como só a realidade te obrigando a deixar um sonho de lado consegue ser…
13. Folhetim, Chico Buarque, 1977-1978
Essa música faz parte da “Ópera do Malandro”, e certamente estaria nas minhas top 10 do Chico Buarque (aliás, amo de paixão, porque acho safada e dengosa na menina “Se eu fosse o teu patrão”, do mesmo disco – e “O meu amor“, também da Ópera do Mallandro, me arranca suspiros do fundo d’alma…)
A letra é linda, também mostra aquela coisa de uma mulher super doce, submissa, subserviente, que diz tudo o que ele quer dizer…mas só naquela hora.
Gosto especialmente do trecho em que ela fala “e eu te farei vaidoso, supor…que és o maior, e que me possuis” – dizem que o Chico entende como poucos da alma feminina, mas acho que aqui ele mostrou que entende bastante da alma masculina também,
(e remeto vocês para o meu post do Johnny Bravo, que costuma irritar os meninos…).
14. Roxanne – The Police, 1978
Quase não pus essa música na listagem, de tanto que a ouvi nos anos 80. Mas depois pensei bem e…ouvi tanto, durante aqueles anos todos, gostei tanto dela… Que não dava pra não colocar né? E foi a 1ª música que ouvi e entendi perfeitamente que o assunto era prostituição – também, a letra é super explícita né?
Roxanne, you don’t have to put on the red light
Those days are over
You don’t have to sell your body to the night
Roxanne, you don’t have to wear that dress tonight
Walk the streets for money
You don’t care if it’s wrong or if it’s right
E só pra homenagear a Satine, coloco aqui a versão em tango de Roxanne
15. Geni e o Zeppelin – Chico Buarque, 1978
De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Co’os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
A puta é aquela coisa amada e odiada, né? Eu costumo dizer que, não fossem elas, o mundo sofreria uma convulsão social. Sim, claro!! Quem é que iria suprir, satisfazer todos aqueles desejos inconfessáveis? Como seria um mundo onde os desejos mais secretos (e vá lá, os mais comezinhos também) não pudessem ser satisfeitos? Mas uma vez satisfeitos, alguns têm tanto pavor do que desejam que culpam a Geni, que passa a ser bode expiatório. É tão mais fácil tacar pedra na Geni do que olhar pro espelho não? E sabe o que é o pior? Esse é o tipo de sentimento que eu acho que não vai acabar nunca.
Música doída, com letra idem, que também faz parte da Ópera do Malandro.
16. Call me – Blondie, 1980
Tá, eu confesso minha ignorância: não sabia que essa música faz parte da trilha sonora de American Gigolo (os que me conhecem bem decerto já ouviram minha teoria sobre cinema ser um “cerceamento ao meu direito de imaginação”, que no fundo nada mais é do que tucanizar o bom e velho “não consigo prestar atenção depois de muito tempo”); sabendo disso, fica mais fácil sacar que essa música fala de programas e não de uma doida desesperada pra ver o bofe, certo? Ah sim! Antes que eu me esqueça: eu adoro a música!
17. Rocket Queen – Guns and Roses, 1987
O Axl Rose levou pro estúdio uma vez uma moça que queria formar uma banda chamada “Rocket Queen”, fez sexo com ela no estúdio e colocou um pedacinho do barulho da, hum… atividade na música. A letra inteira está aqui.
I can turn on any one
Just like I turned on you
I’ve got a tongue like a razor
A sweet switchblade knife
And I can do you favors
But then you’ll do whatever I like
18. Rent – Pet Sho Boys, 1987
http://www.youtube.com/watch?v=07Fx0LcyTsM
19. Cilada – Katinguelê, 2000
Antes que vocês me matem: não, esse não é mais um dos (não tão) famosos #duelonalaje que eu e o @ibere de vez em quando fazemos no Twitter; mas a verdade é que a letra dessa música é sim, muito bonita: daquelas dor de corno bravas. Também sei que o Katinguelê está longe de ser um baluarte do samba, mas nem tudo na vida é champagne e cachaça de boa cêpa, certo? Tá, eu reconheço, é um pagode bem rampeiro, mas ela tem valor sentimental, digamos assim. E como ela estava numa coletânea de samba quando eu ainda fingia que não gostava muito daquilo e a Praça Roosevelt não fazia parte da minha vida, tem sim, que fazer parte da lista – até porque a letra é muito sincera, à medida em que fala de um cara que tirou uma puta das ruas pra depois ser belamente corneado. Nelson Rodrigues acharia graça, cer-te-za
20. La Habanera em Carmen de Bizet, por Maria Callas
Não, não é uma música sobre prostituição – mas Carmen, a protagonista da ópera de Bizet, era uma cigana um tanto quanto dada, digamos assim. Eu acho que ela era um puta, mas talvez não fosse; vai ver ela apenas se valia de seus poderes de sedução para conseguir hummm… facilidades. Mas quero terminar com esse trecho da Habanera, lindo cantado pela Maria Callas (uma pessoa que sofreu muito por amor, diga-se de passagem):
L’amour est un oiseau rebelle que nul ne peut apprivoiser,
et c’est bien en vain qu’on l’appelle,s’il lui convient de refuser.
Por que ele é né? E no fundo, todos querem encontrá-lo, ainda que façam de conta que não ligam isso e cinicamente digam que é só sexo que importa.

















Well, digamos que ver Katinguele me surpreendou um pouco
Mas as outras…. fenomenais. Delicia de post, ja to dando RT!
Mari Campos well darling, meu nick não seria ladyrasta se eu não surpreendesse de vez em quando né?
E a música tem mais valor sentimental, digamos assim, que qualidade (e aposto que quem gostar dela vai dizer que pra dizer isso do Katinguelê eu teria que ter dito o mesmo dos Ramones, hahahaha)
Eu sempre achei que Carmen era uma ópera, no fundo, meio machista. Apesar da introdução de uma personagem feminina tão forte, fico com a impressão de que a morte foi a expurgação de uma vida tão hedonista.
Btw, bela seleção! Virei fã!
Geni é um travesti!!!
Daniel Nunca tinha pensado nisso não, mas faz sentido… E que bom que vc gostou, volte sempre, a casa é sua!
Mateus sim, é um travesti. Um travesti que se prostitui
Sweet Painted Lady de Elton John, um tanto brega mas não faz rodeios:
…
So she lays down beside me again
My sweet painted lady, the one with no name
Many have used her and many still do
There’s a place in the world for a woman like you
Oh sweet painted lady
Seems it’s always been the same
Getting paid for being laid
Guess that’s the name of the game
ChrisL sabe que tinha colocado ela na lista e depois tirei?
Como uruguaya no puedo dejar de hacer referencia a Alfredo Zitarrosa y su Stephanie