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Crianças são “adestráveis”?

janeiro 12th, 2010 · 11 Comments · Métodos Lady Rasta de Educar Crianças, educação

<abre parênteses> Quando meu filho era bem pequeno e eu tinha que dar bronca ou falar muito sério com ele, eu segurava no queixo dele quando ele desviava o olhar pra tornar a bronca menos dura. Certo dia, nosso cachorro, o Boris, um Schauzer, fez cocô no quarto dele. Eu entro no quarto e vejo meu filho segurando o queixo do cachorro, olhando bem sério pra ele e dizendo : “Bólis, não pode fazer cocô no meu quarto, entendeu bem”? </fecha parênteses>

Fiquei pensando muito nessa história e também na forma como educo meu filho quando me mandaram a polêmica matéria da Época falando sobre a similaridade entre se educar crianças e se adestrar cães.

Claro, quando a gente lê uma coisa dessas, a primeira reação é de repúdio. Como assim aplicar técnicas de adestramento de cães a crianças? A @srtabia mesmo falou que disciplina, respeito e regras não eram o mesmo que adestrar (ou disse algo muito próximo disso), e concordei com ela.

Mas confesso: achei a abordagem um tanto quanto superficial, e num tom irônico desnecessário e ao meu ver, pretensioso.

Vou tentar mostrar minha linha de raciocínio pra vocês:

Logo que li a matéria fiquei pensando:o que é adestrar?

Fui ver lá no Houaiss:

Adestrar

Acepções

verbo transitivo direto e pronominal

volver(-se) destro, tornar(-se) capaz, hábil (em alguma coisa); habilitar(-se), preparar(-se)

Ex.: <a. soldados para a guerra> <os recrutas adestravam-se em campo aberto>

Ué, será que a gente nunca faz isso com nossos filhos?

E vou um pouco mais longe: se o que fazemos com nossas crianças em algumas áreas da educação não é adestrar, então o que é? O que eu fiz, por exemplo, nesse caso aqui?

Contudo, não acho que educação seja sinônimo de adestramento, longe disso; na verdade, acho que a educação de um filho propriamente dita se divide em vários itens, dos quais destacaria:

a) ensino das inúmeras regras de comportamento em sociedade, que vão desde determinação de horário para refeições e lições até saber se comportar em um jantar, passando pelas regras à mesa e pelo controle do intestino e uretra;

b) ensino complementar àquele ministrado na escola – que para mim consiste em habituar a criança a freqüentar exposições, a ouvir música de todos os estilos (sim, de todos os estilos – depois, ela que escolha seus preferidos), a ler livros que os pais julgam relevantes para a formação de um ser humano (obviamente, respeitando capacidade cognitiva e faixa etária da criança), viajar etc;

c) construção da alta estima da criança – que, ao meu ver, está intimamente ligada à relação afetiva entre pais e filhos e principalmente, no respeito dos pais pelas opiniões dos filhos (vale ressaltar: eu disse opiniões, e não vontades e desejos; e também não disse que toda opinião divergente de filho deve ser acatada – mas ela deve ser ouvida e respeitada).

d) monitoramento (até certa idade), apoio e aconselhamento no que tange às relações sócio-afetivas dos filhos, bem como delegação de responsabilidade, na medida do amadurecimento e idade da criança.

Tenho certeza absoluta que técnicas utilizadas no adestramento de cães seriam total e absolutamente inúteis (e mesmo indesejadas) nos itens c e d; no entanto, confesso que acho os itens a e b muitíssimo similares às técnicas de adestramento.

Em inglês, o ato de tirar a fralda da criança e habitua-la a usar o penico é chamado “potty training”, algo cuja tradução seria “treino para penico”. O que é que as mães fazem? Levam a criança em horas determinadas para o penico e elogiam quando a criança faz cocô ou xixi lá. Isso não seria um adestramento?

O mesmo vale para determinar horários para se alimentar, para fazer lição (na minha casa não se ligava TV ou se brincava antes da lição estar feita), para não comer de boca cheia, para não colocar cotovelo na mesa, para segurar talheres corretamente (a esses treinos aliás, me parece que muitas pessoas faltaram…). Também vale para cumprimentar as pessoas, pedir “por favor”, se comportar em um restaurante etc.

Sinceramente? Não consigo, por mais que eu tente, encontrar diferenças nas técnicas que se aplicam para alcançar os resultados acima com crianças das que são aplicadas aos cães, até porque não há muito mistério: os pais devem ser assertivos, devem falar com autoridade (o que é muito diferente de gritar; só grita aliás, quem sabe não ter autoridade), olhando no olho da criança, e impondo sanções positivas (prêmio – que pode ser um sorriso de assentimento ou o “mamãe está muito orgulhosa de você”) ou negativas (castigo), dependendo de a criança ter cumprido ou não o determinado pelos pais (sim, determinado e não pedido – algumas coisas são negociáveis, outras não são, e aqui estamos falando das inegociáveis).

Por causa disso, acho meio inadequado o tom de chacota da Época. A certa altura, lemos no texto, em destaque “para o Encantador de Cães, o essencial é mostrar quem está no comando. Pais perdidos adoram essa ideia”.

Ora, com todo o respeito, se pais perdidos começarem a entender que precisam mostrar que estão no comando, eles talvez deixem de ser perdidos. Qual é o problema aí? Não vejo nenhum.

Também concordo com o psicanalista citado no texto, Aric Sigman, quando ele afirma que os pais estão totalmente sem diretrizes e se apegam a qualquer coisa que julguem funcionar (tanto que temos essa moda de criança fazer o que quer, pois do contrário ficará traumatizada); só não acho que é o fim do mundo você utilizar os parâmetros utilizados no adestramento de cães, desde que evidentemente, isso se dê em estágios específicos da educação e desenvolvimento emocional dos filhos, e muito principalmente, que os pais consigam, paralelamente a isso, atender aos itens “c” e “d”que eu mencionei acima, itens estes onde não há como se aplicar nada parecido com técnicas de adestramento.

O problema está aí: quantos pais conseguem discernir em quais etapas da educação da criança se aplicam métodos de treinamento, com imposição de limites, tarefas com sanções e em quais deve-se prestar atenção aos anseios do seu filho, ou como ele está se sentindo? Mais: quantos pais estão aptos (ou têm a grandeza d’alma e segurança em si próprios) a, paralelamente a esse “adestramento”, ensinar seus filhos a pensar por si próprios na medida de seu desenvolvimento, a permitir enfrentamentos saudáveis sem que isso signifique perda de autoridade, a ouvi-los, voltar atrás e eventualmente pedir desculpas quando erraram? O cerne do problema é esse, e não a forma como se ensinam determinados comportamentos às crianças, ou de onde tais técnicas foram retiradas. No fim, como dizia meu pai, o que interessa é bola na rede, certo? E como disse o @gpavoni no Twitter, tem gente por aí que muito ganharia se tivesse aprendido a fazer xixi no jornal… :lol:

****

P.S. O debate está aberto; por favor, dêem seus pitacos!!

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11 Comments so far ↓

  • Fabio NG

    Flavia, gostei da sua abordagem. Acho que quem sai criticando e só vendo problemas na matéria faz uma leitura superficial e preconceituosa, na linha “como assim dizer que crianças são como cães?”… :-)

    Nos últimos tempos tenho brincado que “Encantador de cães” e “Supernanny” trabalham com as mesmas premissas — só mudam os personagens.

    Mas a impressão que dá vendo alguns destes programas (não acompanho nenhum deles) é que boa parte dos problemas é causado exatamente pela falta de limites.

    Achar que amar significa deixar cada “cria” fazer o que bem entender acaba, no fim, estragando tudo.

  • ladyrasta (Flavia Penido)

    meu post sobre a matéria da Época sobre educar crianças como cães http://ladyrasta.com.br/2010/01/12/criancas-sao-adestraveis/

  • Liliane Ferrari

    eu fui adestrada! agradeço.
    pq educar tem diversos momentos, e há o de se adestrar sim.
    adestro. já tenho bons resultados.
    mas o lance é q as pessoas AMAM animais porém tem HORROR a se igualarem a eles.
    não entendo.
    coisa de ser humano que não quer ser bicho pq usa sapatos.

    lov u

  • Rachel

    Não sou mãe, mas fui professora no jardim de infância por 10 anos. Tenho 3 cães, 2 são adestrados e a mais novinha começará em breve. A educação que a criança precisa receber nos primeiros anos de vida tem tudo a ver com a educação que o cão recebe (cão adestrado é cão educado). As crianças que não são devidamente adestradas no começo da vida, são aquelas que fazem um amigo meu, professor, desejar que os alunos adolescentes dele tivessem a educação que meus cachorros têm.

  • Tweets that mention Crianças são “adestráveis”? | From Lady Rasta -- Topsy.com

    [...] This post was mentioned on Twitter by Flavia Penido, dani ruivo. dani ruivo said: http://ladyrasta.com.br/2010/01/12/criancas-sao-adestraveis/ comentario interessante sobre reportagem da Época [...]

  • denise rangel

    Eu diria que há , sim, um condicionamento causado pela repetição de normas necessárias ao desenvolvimento da criança.Esta associa as ações a determinadas consequências.Uma vez fiquei com minha neta para minha filha sair. À tardinha, dei banho nela e coloquei o pijama.Era cedo ainda, e ela ainda iria jantar. Imediatamente ela me perguntou:”eu vou dormir, vovó?” e tinha apenas 3 anos.
    A rotina e os limites devem ser um treino mesmo, acredito assim.
    beijo, menina

  • Srta. Bia

    Dos comentários já feitos concordo mais com o da Denise. Não gosto da palavra “adestramento”, mesmo vendo seu significado. Não acho que o soldado deva ser adestrado, mas acho que ele deve passar por um treinamento, assim como as criançcas. Adestrar e treinar para mim tem conceitos diferentes. E não é nem o fato de, como a Lili disse, se igualar a animais. Para mim a questão é que a maneira como eu treino um cachorro é diferente da maneira como eu treino a criança por causa da comunicação. O cachorro vai entender seus limites e a criança também, mas a criança também ensino valores, posso tentar fazê-la entender porque precisa dormir cedo, por exemplo. Isso não significa negociar horário de dormir.

    A Super Nanny, por exemplo, tem todo uma parte de treinamento, mas aliado a isso há o bem-estar da criança, o afeto, o tempo dedicado ao lazer com ela e as conversas, não importa a idade.

    O que me preocupa são os pais acharem que seus filhos só precisam aprender a fazer xixi no lugar certo, a rolar e sentar.

  • Ladyrasta

    Fabio NG pois é… é o que tem acontecido muito por aí… mas se prepara, sua prova tá chegando :-)

    Lili dear, vc e suas frases de efeito…adorei!!

    Rachel eu não gostaria de estar na pele do seu amigo…

    Denise Rangel eu não consigo ver de outro modo…

    Srta Bia , mas a questão é que dependendo da idade não tem como mostrar valores pra criança! Com 1, 2 anos eles são meio bichinhos mesmo… Acho treino diferente de adestrar, pq treino vc explica o que deve ser feito – adestramento implica no condicionamento mesmo (o potty training é um dos melhores exemplos).
    E queria chamar a atenção também pro inverso: “A Super Nanny, por exemplo, tem todo uma parte de treinamento, mas aliado a isso há o bem-estar da criança, o afeto, o tempo dedicado ao lazer com ela e as conversas, não importa a idade” – eu acho que um bom adestramento de cães também deve ter tudo isso (tá bom, talvez as conversas caiam fora); e não sou do tipo que trata cachorro que nem gente.
    Quanto ao que vc falou, que tem medo de que os pais achem que é só cumprir essa fase do “adestramento”, concordo com vc – tanto que destaquei os outros itens que ao meu ver são necessários para a educação… Porque se os pais só cumprirem essa 1a etapa, digamos assim, tudo que teremos conseguido é sair do inferno das crianças monstro para encontrarmos o deserto das crianças zumbi…

    Beijos!

  • Gustavo

    Lady, concordo com seu texto, sou pai de um garoto de cinco anos e outro de 4,5 meses. Quando meu filho mais velho era bebê li um livro desses de educação – o excelente “Limites sem trauma” de Tania Zagury – e o que me marcou foi a citação de uma passagem do Pequeno Princípe, onde o personagem raposa agradece por ter sido “civilizado”, ou seja, retirado da selvageria natural.

    Sempre me lembro disso, pois meu filho é um pequeno selvagem que tem que ser domesticado e civilizado.

  • Ladyrasta

    Gustavo é verdade!! mas é sempre importante lembrar que depois vem a parte mais difícil, que é dar instrumentos para fazê-lo pensar por si próprio, e entender que as consequencias de ver esse trabalho bem feito significará confronto de ideias… :-)

    beijos!

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