Eu sou uma daquelas que detesta aqueles clichês de que “gay é sempre alegre, está sempre pra cima, bla bla bla”, porque pra mim eles remetem a estereótipos eivados de preconceitos (a história do “amigo gay” que eu falo sempre, como se amigo gay fosse um item do closet que toda deslumbrada deveria ter). Gay é gente, e como tal, tem momentos tristes, alegres, atitudes boas e más como todos nós temos, e não um “amiguinho de coleção” ou de estimação que procuramos quando precisamos “ser colocadas pra cima” (gente provinciana assim deveria pagar adicional de imposto de renda, juro).
Mas tenho que admitir aqui um cliché por força das circunsâncias: a Parada Gay é iluminada e abençoada pelos céus. Não me lembro de um dia em que ela tenha ocorrido aqui em São Paulo num dia nublado ou chuvoso; é sempre um céu divino, azul de brigadeiro (o oficial, não o doce, bien compris
). Hoje não foi diferente: depois de dias frios e chuvosos nesse feriado de Corpus Christi, eis que o dia amanhece divino e ensolarado, como sói acontecer em todos os dias da Parada.
Uma pessoa querida outro dia disse ter ficado muito triste ao ver, na memorabilia de um parente já falecido, fotos de companheiros dele que ela não conheceu, não chegou a partilhar da intimidade, das alegrias e das tristezas, em razão do preconceito que nunca permitiu uma saída total do armário por parte daquele parente na família. Triste, né? Não gostaria que um filho meu passasse por isso. Espero que vocês também não.

Então, por causa das situações como a que descrevi acima (muito mais comuns do que vocês imaginam) vai aqui meu salve e o meu respeito pra todos aqueles e aquelas que um dia tiveram que guardar em caixas dentro do armário suas fotos com namorados ou namoradas; praqueles que em churrascos de família têm que ouvir, por estarem sozinhos, mais uma vez “e as namoradas?” e se calam para não ter que lidar com a reação que adviria de um “eu gosto de meninos”; praqueles que têm que disfarçar no trabalho suas preferências sexuais por medo de não conseguir aquela promoção; praqueles assumidos que namoraram pessoas no armário anos, e sofriam por isso mas entendiam em razão do sentimento que nutriam pelo parceiro; praqueles que precisam beber quase até cair para conseguir admitir pra si próprios que o seu objeto de desejo é do mesmo sexo que eles; pras travas que os caras casados procuram voltando do trabalho e que por vezes são maltratadas justamente por consistirem no objeto de desejo desses caras. Espero de coração que um dia a vida dessas pessoas possa ser ensolarada e às claras em todos esses aspectos e não só no dia da Parada Gay.
E pra você que não admite esse direito aos gays, ponha a mão na consciência e ouça as palavras mais bonitas que já ouvi sobre o assunto, ditas em cadeia nacional por Ketih Olbermann, âncora da MSNBC, quando a Proposition 8 foi aprovada:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=W4xfMisqab8]
Se você não fala inglês, leia a tradução aqui.
E que todos nós paremos pra pensar que enquanto for necessário um dia específico pra lembrar à sociedade que determinadas minorias são pessoas e têm os mesmos direitos que nós, ainda há muito a ser feito.
Um bom domingo ensolarado com arco íris no céu a todos.















Tweets that mention Nunca chove na terra do arco-iris | From Lady Rasta -- Topsy.com // jun 6, 2010 at 1:12 PM
[...] This post was mentioned on Twitter by Diego Maia, Flavia Penido. Flavia Penido said: Ainda vou acrescentar ao post uma foto de hoje, mas segue meu texto sobre o dia do arco íris http://migre.me/Mcrd [...]
All we need is love, pô!
Lady, por mais adolescente que essa expressão tenha se tornado: você é foda.
Seus textos são belíssimos, sem se preocupar com aquela coisa politicamente correta que, olha, enche meu saco. Você coloca mesmo o dedo na feriada da maneira mais educada e verdadeira que eu já vi por aí. Sério, parabéns. Seu blog, com certeza, é um dos melhores que eu conheço, e seus textos me fazem ter vontade de escrever cada vez mais – e melhor. Obrigada por isso!
Quanto aos gays, nada me irrita mais do que a coisa do “todo gay é feliz, todo gay é legal”. Nada é mais preconceituoso que isso. No saudoso (!) BBB quando descobriram que o Dicésar era chato, meu deus, quase o holocausto. Ele é gente, gay é gente, exatamente como todos nós. E em pleno 2010, as pessoas ainda não entendem isso.
Adorei seu texto!
É isso aí, incansáveis sempre até que todos tenham direitos iguais – porque somos todos diferentes.
A propósito do vídeo muito bem escolhido que ilustra seu texto, lembro de outro, muito bem humorado, que diz mais ou menos a mesma coisa, e que ilustra esse post aqui, de outro blog que adoro “se você não acredita em casamento gay, então não se case com alguém do mesmo sexo”:
http://robertomarinhoguimaraes.blogspot.com/2010/05/igreja-x-homossexualismo.html
Bjo
cecoia (Fernando Rabello) // jun 6, 2010 at 6:42 PM
RT @virosalem: “Nunca chove na terra do arco-íris” Texto bonito de @ladyrasta: http://bit.ly/bDBJfT
A parada gay, a pesquisa sobre adoção e a polêmica chata de sempre! | No Ghetto // jun 6, 2010 at 8:36 PM
[...] @LadyRasta (no texto “Nunca chove na terra do arco-íris“, muito inspirado, diga-se de passagem), faz a seguinte [...]
(in)confidência mineira » Blog Archive » com a família na parada gay // jun 7, 2010 at 12:12 AM
[...] – Nunca chove na terra do arco-iris [...]
Gostei do seu post! Vou copiar e enviar para parentes, que ao verem um querido primo nosso chorar pela mãe ao lado do companheiro no velório, comentaram: “Que faz aquele cara ali, se não é nada da família?” Ah! se a falecida ouvisse isso!, pois seu coração generoso nunca decepcionou ninguém! Lembrando dela eu respondi a esse parente naquela hora: ” É o companheiro de TODAS as horas… e você sabe, precisa ser muito macho, como vc gosta de dizer, para viver assim com tudo às claras e de bem com a vida!”
Adorei! Que bom seria se vc não precisasse escrever esse texto, que todos já o soubessem de cor, como 2 + 2 = 4.
Enquanto esse dia não chega, eu engrosso o seu coro! Vou “linkar” e mandar esse belíssimo texto para outras pessoas! Bjks
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