Começa enquanto somos crianças: um dos pais dá uma bronca, a criança abre o choro, e lá vem um dos dois bobalhões, que não consegue lidar com o fato de que educar por vezes é frustar expectativas momentâneas visando algo no futuro, sair com o fatídico “engole esse choro”. Já tive vontade, inúmeras vezes, de falar pros pais “engole esse choro, por quê, cara pálida? Por que você não consegue lidar com o fato de que seu filho está desagradado? Você quer criar alguém que não seja capaz de exprimir sentimentos, alguém que pra tornar a vida dos outros confortável finge que é uma pedra? Já ouviu falar em terapia?”. Sério, nunca consegui entender a dificuldade em se dizer pra um filho: “eu sei que você está chateado, puto da vida, com raiva, mas isso não vai fazer eu voltar atrás”. Ponto. Não estou dizendo que é uma tarefa agradável. Mas como eu sempre digo, educar dá trabalho, demanda esforço. Muito esforço. <abre parênteses> deixar o filho chorar é beeeeem diferente de deixar o filho fazer escândalo em público e incomodar quem não se divertiu com o outro genitor quando a criatura foi fabricada. Mas nem assim isso justifica mandar “engolir o choro”; você some com a criança de circulação e ela que vá chorar em algum lugar apropriado pra isso. </fecha parênteses>
Quando a gente é adolescente, a gente é chato por natureza. Chora porque apareceu uma espinha no dia “daquela” festa (eu choro por isso até hoje, diga-se de passagem), chora porque brigou com o namorado, chora porque está (ou se acha) gorda, chora porque a vida é uma droga (alguém aí quer voltar pra adolescência? eu, sinceramente, passo), porque esses são problemas sérios na vida da gente quando se tem uma família razoavelmente estruturada. Adolescência é uma fase de desequilíbrio, de excessos – e nessa hora, os pais devem tentar dar um norte, ou tentar mostrar pro filho o que é realmente importante do que não é e dar soluções práticas para o que tem solução (e sim, estar gorda e não entrar no vestido que você escolheu, quando se tem 15 anos, é tão terrível quanto não conseguir aquela promoção ou bônus almejado – ou, sei lá, ter sido trocada por uma moça 20 anos mais nova quando se tem 50 anos). Trocando em miúdos: dizer “não chora, larga mão de ser boba, no dia em que você tiver problema de verdade vai ver o que é bom” é tão idiota quanto dizer “engole o choro” (Que tal um “você está triste, mas vai passar” ? Um “faz parte da vida, não tem jeito” ? Seu filho vai te xingar e te chamar de insensível, claro, mas é pra isso que pais servem quando se tem 15 anos – pra serem xingados e culpados por todos os males do mundo, não sabiam?
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Quando você cresce, vêm aquelas receitas de “Revista Nova”: você tem que estar bem, você não pode descer do salto!!! A gente sempre tem uma amiga que faz esse discurso cafona, não tem jeito. E eu de novo, tenho sempre vontade de dizer “quem disse isso? Quem disse que além de ter que aguentar minhas tristezas minhas dores, minhas frustrações, eu ainda por cima tenho que ficar por aí fingindo que está tudo bem? Quem é que me contratou pra figurante da festa do mundo sem sequer combinar cachê?” Claro, não estou dizendo que você tenha que andar como um urubu agourento e olheiras por aí; mas me revolto um pouco com essa obrigação de estarmos todos bem sempre, e sobretudo, com o “estarmos-bem-para-que-o-outro-não-perceba-que-você-está-mal-por-causa-dele”… Isso pra mim não é força de vontade: é infantilidade mesmo (além de estúpido, à medida em que você coloca o desejo do outro, ou a expectativa do outro, à frente da sua. Eu hein… Nesse ponto, com raríssimas exceções, sou bem egoísta). <abre parênteses – de novo> importante ressalvar: há que se preservar, preservar os outros, não fazer tipo, não usar tristeza como chantagem sentimental, e sobretudo, há que não ser inconveniente (nunca me esqueço de uma conhecida que, em uma festa, após ter sido por mim perguntada se tava tudo bem, começou com um “não, meu pai morreu e…..” – isso é falta de educação, pois não se fica triste em festa); defendo apenas o direito de não se estar feliz 100% do tempo ou de não se obrigar a fingir felicidade – é bem diferente de ser uma nuvenzinha negra ambulante prestes a cortar os pulsos </fecha parênteses>
Basicamente, estou defendendo aqui o direito de se emocionar com dignidade e de não mascarar essas emoções, o que, hoje em dia, é quase um tabu (e estou quase convencida que as pessoas fazem isso porque não gostam de ver estampadas nooutro a dor que também sentem…). Basta dizer que hoje em dia as pessoas acham estranho quem fique de luto pela morte de alguém querido – é o fim do mundo!
Quanto a mim, sempre fui chorona. Chorei muito na minha adolescência (que, como quase toda adolescência, foi medonha), e hoje continuo chorando por quase qualquer coisa (meu filho fica com vergonha em competições e apresentações de escola, porque eu invariavelmente estou aos prantos – pra não contar o vexame da vez em que ele foi pra Europa sozinho e eu chorava de soluçar vendo o avião dele indo embora no Mc. Donalds do aeroporto, com direito a contar pra todo mundo o que estava acontecendo – inclusive o “ele nasceu de 6 meses, era tão pequenininho” – patético, não?), sempre que me emociono muito.
Não é pra isso que chorar serve? Lavar a dor da alma, enxotar a angústia? Dá uma paz tão grande depois, uma serenidade tão boa… Alivia! Dizem que quando o choro é desespero ele não adianta nada, não acalma. Discordo. Quando o choro é de desespero, você chora tanto que acaba por dormir, aniquilada, e o sono repara. Felizmente, há muitos e muitos anos não choro mais assim, porque parei de não me conformar com as situações que por vezes me afligem (é uma das coisas boas da maturidade: você entende que ficar triste é algo legítimo, mas não se conformar é algo muito adolescente… E na real? Não se conformar não vai mudar nada, mesmo).
Já chorei na rua, sentada na calçada, de madrugada, sem me importar com quem passasse (na época dos meus inconformismos) – e não, ninguém me assaltou, pelo contrário: um rapaz parou pra perguntar se eu precisava de ajuda, e quando eu agradeci, dizendo que estava só triste mas ia passar, disse que ia rezar por mim (Sim, eu acredito em Deus e em rezar – mas aqueles que não acreditam podem entender essa frase como “vou torcer pra você ficar bem” ). Também já fui divina e cavalheirescamente consolada por estar chorando – mas essa (na verdade é mais de uma ) é outra daquelas minhas histórias bonitinhas das quais não costumo falar muito em público…
É por tudo isso aí em cima que eu choro o quanto me der na telha, sem me importar com os “não fica assim”, “isso não te faz bem” – até porque eu sei que quando o choro passar, eu vou sair pra rua em paz, nova em folha, de alma literalmente lavada e porque não dizer, mais forte; por mais paradoxal que possa parecer, chorar me fortalece e impede que eu me torne uma pessoa amargurada e rancorosa. E danem-se aqueles que me acham boba por pensar assim
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P.S. Vai aqui um disclosure: em situações especialíssimas, apesar de muito emocionada, eu me contenho e seguro o choro, em homenagem ao momento. E choro depois, quietinha. E por incrível que pareça, nas poucas vezes em que fiz isso, era um choro de tristeza feliz. Fazia tempo que isso não acontecia comigo. Mas também fazia tempo que um monte de coisas não acontecia comigo…
P.S. II -Sim, eu sei, ando numa fase de posts “virgenzinha assustada do século XVII”; já já passa, prometo






Eu também sou chorona. E defendo o direito de chorar, em qualquer circunstância. Mesmo as inapropriadas. Infelizmente, eu não choro e fico bonita como artista de cinema ( ou como você…): fico toda vermelha, inchada, um horror. Mas como a sensação de desabafo é imensa, super vale a pena.
Marcie Eu fico com raiva, porque às vezes as pessoas com menor sensibilidade sequer percebem que eu me matei de chorar – só dá pra ver pelo olhar, que fica triste…
Só consigo dizer: obrigada!
Lindo, lindo, lindo!
Pelo direito de chorar, de desabafar…. nossa, perfeição de post, Fla…
beijocas cheias de saudades…
Eli
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Concordo! Eu sempre chorei quando tive vontade, aliás sou bem chorona!
hehehe Eu não choro porque homem não chora. kkkkkk
Mentira, já chorei muito. E foi bom. Mas não conta pra ninguém. rsrs
PS- Flávia ainda não consigo ver o post anterior na tela principal, e é meio difícil de achá-lo. 0o Só acontece comigo? rsrs
Tô nessa lista! Sou uma chorona incorrigível, do tipo que quando fala que o filme era lindo, que chorou e tudo, o outro diz: Ah, mas vc não é parâmetro! Chora com tudo!
Tô nem aí. Dá um alívio depois…
Eu, como membro do clube das choronas, digo que a melhor coisa do mundo é chorar ouvindo o cd do paulinho da viola, ou no samba da vela. (Sério, como aquele povo consegue não chorar no samba da vela?)
Poxa, Lady, esse era o post que ainda precisava ser escrito. Lindo, lindo mesmo! E veja como é difícil conviver em sociedade: Você aqui defendendo lindamente o direito de chorar, e ainda assim tendo que “comentar” o fato de que sim, acredita em Deus e de “explicar” sua fase emocional (no P.S. II). Lamentável, ne? Porque todos passam por esses momentos, mas uns escondem, os corajosos, assumem! De qualquer forma, tenhas certeza, nós, os teus leitores, entendem perfeitamente tudo que queres dizer. Enfim, mais uma vez, ótimo texto!!!
Chorar, verbo que pratico desde sempre, é minha marca registrada, chorona, manhosa, só me incomoda quando é dito de forma ofensiva por aqueles que se envorgonham de seus sentimentos, é assim que os vejo. Snif…
Adorei o post.
Lady,
ontem mesmo estava passando uma situação péssima, estava triste e acabei desabando.
Li o seu texto (ainda que com um atraso pequenininho) e me identifiquei com tudo, tudo. Veio na hora certa. E isso faz com que eu me sinta melhor.
Adorei, exprimiu uma boa parte do que eu senti! =)
Flavia,
nao tinha visto esse post ainda…
chegou o momento de contar: eu sou chorona…mas chorona mesmo!!! E fico vermelha…com cara de choro…nao consigo esconder…e fico com cara de criança!
Já dei uns mega vexames…mas como minha memoria é seletiva…já esqueci!!!
Bjos
chorar alivia e eu choro muito!! Mas eu não gostaria de ser assim…não consigo segurar meu choro!!
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Adorei o seu texto !!!!
O choro é a forma mais eficaz de matar tudo aquilo que aperta o peito e que muitas vezes não tem solução, sou canceriana mega chorona e sempre vou em defesa da liberdade das lágrimas…rsrsrs
Adorei o post, como sempre você se superou, viva os olhos vermelhos de vez em quando…
Eu tou sempre chorando , a minha vida e so chorar , quem me dera se as vezes os meus pais me vissem assim eles viriam a dor que sinto .. TenhO muitos problems na vida .. Mas fazer o que ?! EU SOU UMA MERDA DE PESSOA , SEMPRE FUI E SEMPRE SEREI ..
Nossa eu sou assim choro por tudoo mesmoo eu sou uma bosta , eu me odeioo tenhuu tantos problemas e nem posso pedir ajudaa tenhu que desabafar com os meu choros ;(Sintoo raiva odioo dor angostia etc..