Noite de insônia

“Ai ardido peito
quem irá entender o seu segredo
quem irá pousar em teu destino
e depois morrer de teu amor
ai mas quem virá
me pergunto a toda hora
e a resposta é o silêncio
que atravessa a madrugada
vem meu novo amor
vou deixar a casa aberta
já escuto os teus passos
procurando o meu abrigo
vem que o sol raiou
os jardins estão florindo
tudo faz pressentimento
que este é o tempo ansiado
de se ter felicidade…”

(Pressentimento

(Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho)

Ontem a noite depois de semanas, fui pra varanda da minha casa e vi que todas as minhas damas da noite (que eu adoro e que tinha replantado há pouco tempo) morreram. E como sempre comparo meu jardim com o meu estado de espírito, lembrei da música aí de cima.

Ah, quem dera fosse fácil assim, e que a casa estivesse aberta e os jardins floridos tão logo a casa estivesse vazia, né? Aliás, ultimamente, no mundo em que tudo é acelerado e preencher formulários de redes sociais é algo corriqueiro, há quem acredite que é só dizer que a casa tá vazia  e pronto – mas pensando bem, talvez seja isso mesmo e a errada seja eu. Ou talvez eu só seja mais romântica e mais lenta. Mas prefiro assim.

“Casa vazia” pra mim é algo mais complexo. Fim de algo significa casa vazia? Acho que não, porque fim é uma coisa, abrir espaço interno pra esvaziar a casa é outra. Às vezes demora tempo pra termos coragem de deixá-la vazia (da última vez foram vários anos; não um ou dois, mas vários – não digo que acho isso certo ou desejável, mas aconteceu e foi o suficiente pra entender que não é uma experiência a se repetir).

Sempre precisei ir até o inferno beijar o diabo pra depois voltar – inteira e refeita, mas não é um caminho que eu goste de fazer, acreditem. É que na verdade, a mim parece incongruente que a maturidade faça com que abandonemos emoções vividas, obriguemo-las a ficar num local espremidinho no coração da gente rápido; sempre achei que isso seria uma espécie de traição para com o que foi vivido, sabem? Sabe quando você está triste, com saudades e tem uma noite divertida? Eu já cheguei a ficar indignada com o fato de estar me divertindo, acreditem. Sempre me senti meio mal com a ideia de que, para seguir em frente, eu tivesse que deixar de lado ou abandonar sensações que foram importantes e bonitas de se viver. Hoje eu sei que estou errada – mas não consigo abandonar fácil essa sensação de que estou “traindo” o que foi vivido. Talvez porque quando algo é muito especial, você tenha dúvidas de que possa viver algo semelhante novamente. Falta de fé, né? Porque dá, juro. Mas eu só descobri isso há pouco tempo, então vocês têm que dar um desconto…

Muito tempo se passou até que eu entendesse que dar espaço a emoções que, por uma razão ou outra, não têm mais espaço na nossa vida, é antes de tudo, não se dar a chance de viver isso de novo; demorou pra entender que temos que cuidar do peito para que ele pare de arder, para que possamos tornar a casa aberta com jardins floridos (mas de verdade, não da boca pra fora – porque sair falando que tá pronto pra outra é uma coisa, outra beeeeem diferente é estar internamente pronto). Não digo que tenha aprendido a fazer isso de forma indolor e rápida – mas ao menos entendi que é preciso fazer isso. É um começo, certo? É só ter paciência (aquela coisa que eu só conheço porque a definição está no dicionário…).

Não acho que tenha sido coincidência que todas as minhas damas da noite tenham morrido nas últimas semanas; é a casa gritando que você tem que fazer mudanças, né?

Torçam pra minha casa ficar limpa e pros meus jardins florirem logo, porque eu não sei viver sem o coração batendo forte de alegria – mas por enquanto ele tá ardendo que só…


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9 comentários sobre “Noite de insônia

  1. Ah, te entendo, e como te entendo. Saudade que sinto dos meus momentos de serendipity…

    Eu ando justamente matutando sobre um post que tem a ver com isso. Sobre como eu me prendo aos momentos que “nunca me aconteceram antes”. Preciso aprender com minha filha que, na verdade, tudo é novo e encantador….

    Ó, tô torcendoooo de montão aqui pra você!

    beijo

  2. Flávia,

    Não conhecia a música. E adorei tudo do início ao fim. Senti tudo do início ao fim. Uma coisa é certa, o amor volta, as flores desabrocharão outra vez. Axé e amém!

    beijos no coração!

  3. Tirei tudo de bom da casa que achei que seria a definitiva, trouxe comigo queridos filhos, cachorro e objetos com história para encher outro cantinho onde recomeçamos. Deixamos as arvores, as flores para os passarinhos. Mesmo assim não me sai dos ouvidos o som dos ultimos passos ecoando nas paredes duras, dizendo: vai!
    Se mais alguém vai chegar não sei.

  4. É. Às vezes esperamos tempo demais para esvaziar a casa, para limpar tudo, para florir novamente. Cada qual tem um tempo, o seu tempo, que conhece tão bem.

    Mais do que sentir a dor pulsando, prendemo-nos à ela como que desejando que o que foi bom não termine, como se a dor, quão maior seja, reflita a imensidão do amor que sentimos.

    Bobagem.

    Não é a dor, mas a alegria das memórias consolidadas na calma da certeza de que vivemos um amor, que nos lança fortes e plenas para a vida que todos merecemos ter: de alegrias, de realizações, de encontros.

    Quando desejamos que não passe, estamos nos prendendo a histórias que nos deixaram felizes, esquecendo que o que é bom vive para sempre.

    Soltar a dor, permitir que ela vá se esvaindo através dos nossos dias, respirar o ar do novo, dos sorrisos distraídos, das risadas descuidadas, coisas que chegam quando nos esquecemos que resolvemos sofrer…

    Porque a vida nos traz e nos leva amores, amigos, prazeres, todos os dias. Deixemos a casa sempre vazia, ou com espaço suficiente, para que todas essas coisas possam ser recebidas!

    Beijo grande e obrigada por tudo!

    ;o)

  5. Fla.
    Depois de muito tempo… to aqui lendo algumas coisas suas… sempre tão bem escritas e posso dizer que eu entendo isso de corpo, alma e coração. Cabeça não, porque cabeça não nos faz entender quase nada… rs. O sentir sim… traz o entendimento.
    Um beijo com saudades.
    Dé.

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