Apedrejando a mulher de moral duvidosa

Nessa semana, ao menos grande parte das pessoas que me rodeiam (em sentido figurado, estou falando precipuamente da internet) falavam do sumiço da amante de Bruno, goleiro de futebol, e um escândalo pra lá de provinciano envolvendo um triângulo amoroso entre pessoas casadas na cidade de Sorocaba.

Muitos condenam “a sociedade” ou o próprio Bruno por estar denegrindo a imagem da ex-amante, ao tornar público o fato dela ser garota de programa e participar de “orgias” (nunca vou conseguir ouvir essa palavra sem me lembrar do Asterix, :lol: ). Vi inúmeros protestos alegando machismo, dizendo que era um absurdo falarem da mulher desaparecida dessa forma e… é mesmo, não poderia concordar mais. A moça é (ou era) dona do nariz dela e faz de seu corpo o que bem lhe aprouver.

No entanto, foi com desconforto que vi algumas dessas mesmas pessoas se divertindo, se regozijando (para não dizer gozando) com o que convencionou-se chamar de “barraco de Sorocaba”. Desconforto sabem por quê? Porque é justamente o ato de se achar no direito de jogar pedra na Geni, de se apedrejar em praça pública a mulher adúltera tal qual no Irã (como bem falou meu querido Fabio Rex) que embasa o comportamento do Bruno.

Sim, pois fazendo uma análise rápida de ambas as atitudes (a do Bruno e a daqueles que se deliciam com o “barraco”), percebe-se em comum  a noção de que à sociedade é autorizado achincalhar (quiçá matar ou “dar uns corretivos”) a mulher de moral duvidosa, aquela cuja conduta sexual não é endossada ou autorizada, pelos “homens e mulheres de bem”. De certa forma, é a mesma conduta que em tese autorizaria o Pelé a não ter reconhecido sua filha: afinal, filhos havidos fora do casamento, com mulher que se submeteu a “isso”, não podem ter o mesmo tratamento daqueles tidos com “dona honesta”, não é mesmo?

Dirão alguns: ah, mas a amante do Bruno não era casada, e… [coloque aqui a fundamentação moralista que bem lhe aprouver no que tange ao “barraco de Sorocaba”]. De novo, estamos nos prendendo a conceitos machistas e antigos: a de que não se deve olhar para o homem que deu tanto trabalho para uma mulher “conseguir”… Tenham a mais santa paciência, né?

Não, não vou entrar aqui no mérito da relação de amizade das duas, e também não estou endossando a atitude da “traidora” – só estou dizendo que achincalhá-la (ou rir do achincalhe, dá na mesma) é o tipo de comportamento que embasa (ao menos  na cabeça de quem assim pensa) as atitudes de um Bruno. Moçada, não estamos dentro das relações maritais pertinentes ao caso, não sabemos de detalhes da relação de amizade delas, não sabemos nada, a não ser o fato de que a mulher traída achou-se no direito de jogar pedra na Geni (aka, a traidora) de forma pública, sem pensar nas pessoas envolvidas além da própria Geni, ato esse celebrado, comemorado e mesmo elogiado por muitas pessoas. A moça traída está revoltada, indignada? Não quero proibir sua dor – mas ela não tem não, o direito de apontar o dedo inquisidor de “ela tomou o meu homem”, como uma criança revoltada que esperneia no shopping. Não é à toa que muitos homens estão se divertindo com a situação: afinal, são duas mulheres de boa aparência (embora seus cabeleireiros, a meu ver, devessem ser condenados à prisão perpétua) lutando por um… falo. Super anos 80, não acham? 1780, bien compris.

Vou repetir: o fato de uma pessoa quebrar cláusulas contratuais (quer maritais, quer de amizade) não pode ensejar esse tipo de apedrejamento público, sob pena de darmos respaldo às atitudes machistas do Bruno (e porque não dizer, do próprio Pelé).  É essa síndrome de irmãs Cajazeira que dá força para um cara se achar no direito de sair contando o que sua amante fazia, ou mesmo para seu vizinho dar uns safanões na mulher ao desconfiar de sua infidelidade, ou mesmo um idiota se achar no direito de passar a mão na bunda de uma moça que trabalhava vestida de Coelhinha da Playboy; o cerne do raciocínio é idêntico.

Lembram do enterro do Presidente Miterrand da França? Lá estavam sua mulher, bem como a amante e a filha do Presidente havida fora do casamento. Ninguém estava se estapeando, não havia barraco – se houve um dia, foi interna corporis -; e é assim que deve ser, porque não sabemos nada a respeito daquelas pessoas para dizer o que é certo ou errado. Sinceramente? Acho que deveríamos pensar um pouco no que atos aparentemente pequenos e corriqueiros do dia a dia influenciam o modo de pensar da sociedade e como ela se comportará diante de determinadas situações. Afinal, querendo ou não, fazemos parte dessa sociedade. E ela só vai mudar se nós mudarmos e mudarmos o modo de pensar dos que estão a nossa volta. E às vezes, não dar risada ou não ajudar a espalhar determinadas tragédias pessoais é uma atitude que pode fazer diferença daqui a 150 anos. Ao menos quero acreditar nisso.


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14 comentários sobre “Apedrejando a mulher de moral duvidosa

  1. Nesse lance aí de Sorocaba, o que mais me impressionou foi a forma pela qual a traída tentou “resolver” a questão: expondo-se num vídeo. Para quê ela montou aquela cena e registrou? E pra quê postar no youtube (se é que foi ela quem postou)?

    As pessoas estão perdendo COMPLETAMENTE o senso de privacidade, de intimidade. Aí, sinceramente, viram personagens de ficção, e a todos dou o direito de rirem dela. Quem banalizou o próprio drama e transformou num filmete foi ela.

  2. Concordo plenamente. E o Vinicius falou tudo: a moça banalizando o próprio drama, e tornando sua tragédia pública, perdeu toda e qualquer

  3. Discordo veementemente sobre Sorocaba: ela resolveu tornar público seu drama ao publicar o vídeo online no Orkut. Então tem mais é que espalhar e virar TT. Sem filosofia. Ruim foi a suruba de Ribeirão, que aconteceu ” sem querer”.

  4. Acredito que quem se expõe por vontade própria (como o caso de Sorocaba) tem que aceitar os comentários que podem surgir sobre essa exposição, sejam bons ou ruins. Mas parece que tem gente que é carente e mostra sua intimidade querendo confete, e se não vem confete, fica toda ofendida. Não vejo motivo para defender essa atitude.

    Não acredito que chegará um dia em que a sociedade vai parar de julgar aqueles que seguem uma conduta diferente da “convencional” (esse “convencional” sempre vai existir, ao meu ver, como tentativa de manter a ordem), acredito que se meter na vida dos outros é inerente ao ser humano. Não que eu concorde, pelo contrário, abomino! Cada um sabe da sua vida e pronto, mas se até eu tenho meus deslizes mesmo pensando assim, imagina quem gosta de se divertir às custas da desgraça alheia.

  5. Para mim o texto está perfeito. O único adendo que eu faria é que na minha opinião existe um papel no exposição pública da mazela privada, ou do “barraco”. Não especificamente esse, mas em todos. E explico por que.

    Vivemos em uma sociedade que naturalmente desvaloriza a opinião da mulher e duvida de suas queixas. Colocar essa atividade familiar sob os holofotes da opinião pública é uma forma sim de se proteger.

    Quando vc cita a família do Miterrand, lembrei que na França, da década de 90 tinha uma campanha pública de Se Meta na Vida Allheia, pq os casos de meninas grávidas abusadas sexualmente dentro de casa estavam crescendo de forma alarmante, assim como a violência contra a mulher. E ninguém denunciava, pq no País o culto a vida privada é quase uma religião. Ninguém tem nada a ver com isso…

    Se a Eliza Samudio não tivesse colocado a boca no trombone pela primeira vez, ninguém nem saberia do desaparecimento dela, e o caso estaria emcoberto até agora.

    Lembro também de um site que denunciava o perfil de homens traidores para que outras mulheres não fossem enganadas. Lógico que era algo meio humorístico e que um homem que trai hoje não necessariamente trai amanhã, mas existem sim casos patológicos. Conheço um cara que traiu todas as mulheres com as quais se relacionou, engravidou diversas empregadas, era professor e seduziu e transou com várias alunas. Comportamento patológico. Se uma das mulheres dele não tivesse colocado a boca no trombone, ele teria saído impune de mais uma de suas investidas com uma coleguinha da filha.

    O que o barraco trás, ou deveria trazer, não é uma sensação de justiçamento e sim um limite para que violentos, traidores e agressores de toda ordem tenham ao menos o limite social que os impeçam de agir sem controle.

    Lógico que essa mulher insana de Sorocaba foi, no mínimo, descontrolada emocionalmente. Mas quando a vi justificando que “queria que as pessoas soubessem que era verdade e que ela não era louca” tudo fez sentido. As mulheres traídas são loucas, fizeram alguma coisa para o casamento acabar ou estão fazendo tempestade num copo d”agua, não é? Acho que foi uma tentativa dela de colocar as coisas no lugar certo, pelo menos na cabeça dela. Mas em pleno século 21 não podemos negar o poder amplificador da internet, então, “manter no privado” ganhou outro significado.

    Beijocas

  6. Break a questão aqui não é se ela colocou ou não de moto próprio o vídeo – é o fato de curtir, ou morrer de rir, ou achar aquilo divertido ser uma das bases que do argumento de casos como o do Bruno. No fundo, ambos dizem a mesma coisa, que mulher “da vida” merece ser achincalhada, merece ser zoada, ou mesmo morta. O princípio é o mesmo: mulher que não se “comporta” não merece respeito. E eu acho que não é por aí. Vc mesmo, no seu comentário, falou da moça que gravou o vídeo, e não da “outra”. Ora, essa certamente não desejava essa publicidade, não resolveu tornar seu drama público; há outras pessoas envolvidas, como filhos e o marido da “traidora”. Mais: ninguém questiona pq a moça não tirou satisfação com seu marido e o colocou no orkut. Sabe por quê? Por que marido merece respeito, quem mexe com o marido dos outros é puta, e puta não merece respeito. No fundo, é assim que todo mundo pensa. :-(

    Renata como eu já disse pro Break aí em cima, tem mais de uma pessoa naquele vídeo, parece que vcs estão esquecendo isso – o que já prova meu ponto: a sociedade não respeita quem tem conduta diferente…

    Vinicius Duarte foi pra mostrar pra todo mundo a “vagabunda” que a amiga era (porque o marido, vc sabe, é um santo, certo? além de ser “dela”).

    Marcie eu não gosto dessa coisa de ter ou não ter razão, sequer estou entrando no mérito do caso: só acho que a conduta de apedrejar a “traidora” endossa a ideia de que “mulher que não se comporta não merece respeito”.

    Renata Correa pqp Rê, que comentário bom!!! daqueles que fazem pensar, sabe? não tinha parado pra pensar nisso, e acho que vc tem razão quando fala da voz da mulher e tal. E nem sabia que a Eliza tinha bocado a boca no trombone antes, e acho que aí ela estava certa. Não sou contra as pessoas colocarem a boca no trombone; eu particularmente não me interesso por essas coisas, mas lendo o que vc falou passo ao menos a entender o valor que isso possa ter.
    Mas pensando sob sua prisma, ainda assim no caso de Sorocaba, tem-se uma distorção: a mulher traída foi agredir a outra, a amiga traidora, ao invés de cobrar satisfação de seu marido (com quem, convenhamos, há laços e vínculos mais fortes – casamento e filhos). E por que ela fez isso? Porque o comportamento da “traidora” não é comportamento de “mulher honesta”, e ela está defendendo o que é “dela” – o marido. Ela poderia ter gravado um vídeo com o marido, certo?
    Não sei, mas a impressão que eu tenho é que a cada argumento contrário que me dão (e o seu sem dúvida nenhuma é o mais forte de todos) mais me convenço que existe essa ideia no inconsciente coletivo que “mulher descarada” (como dizem no nordeste) não merece respeito…

    beijos a todos!

  7. A exposição pública virou item de consumo desejado seja para analtecer ou aviltar. Se isso é feito em relação a outros ou a si prório é irrelevante. Os minutos de fama infame valem qualquer atitude de exibicionismo. Não importa mais a privacidade ou intimidade, o que importa é visibilidade na mídia. Talvez acreditem que tudo se esquece com a mesma velocidade…
    Isso já se reflete na conduta social das crianças que se expõem até no ambiente escolar com absoluta falta de adequação ao ambiente, tendo atitudes cada vez mais humiliantes e escatológicas, sem a noção de brio ou auto preservação. Percebe-se que tal comportamento é aprendido dos adultos que a tudo veem, expõem, comentam e com tudo se divertem como se a liberdade de expressão da intimidade seja parte importante do cotidiano de todos e nada de mal cause. Políticos, artistas, esportistas expõem suas vidas privadas (nos 2 sentidos) em detalhes e isso faz a cabeça das crianças… No youtube/twitter/e quetais, na tv ou na escola a tônica é a banalização do indivíduo, a falta de percepção do ser humano em relação a si próprio e a o outro. Não se trata de ser “vitoriano” ou “moderno”, mas de respeito ao indivíduo.

  8. No caso do goleiro Bruno, concordo com o que o colunista Paulo Nogueira escreveu na revista Época. A família de Eliza Samudio tem que ser indenizada. Ela pagou com a vida ao ter seus pedidos de socorro ignorados pela justiça. Apontada como “Maria Chuteira”, foi (e é) considerada menos vítima. De Eva a Eliza, passando pela Geisy, pelas mutiladas para não sentirem prazer sexual, pelas adúlteras apedrejadas, mulheres são julgadas pela “moral e bons costumes” e, por isso, condenadas como “provocadoras” das agressões e mortes que sofrem.
    Que os criminosos e os omissos comecem a pagar pelos crimes e pelo preconceito.

    No caso de Sorocaba, acho que, todos adultos, deveriam resolver a questão de maneira privada. Não sou fiscal da cama de ninguém, e concordo com você que o julgamento da “opinião pública” se volta muito mais a condenar a amiga, e não, o marido. Esse, apareceu dando voltinhas no Fantástico…
    Acho traição um horror. O divórcio está aí pra isso, e filhos não são mais desculpa pra ninguém. Mas, na maneira como o caso foi conduzido, reprovo o comportamento de todos. Amiga, marido e mulher.

    Beijo, parabéns pela lucidez.

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