Dia desses, falando com uma amiga querida, parei pra pensar (mais uma vez) na relação que mães têm com filhos.
Todo mundo diz que a relação que tenho com meu filho é muito bacana, e eu também acho. Tenho a impressão de termos conseguido encontrar um equilíbrio entre companheirismo, lealdade, respeito e obediência (que os filhos devem sim aos pais, na minha concepção de vida, pelo menos até determinada idade, embora tal obediência a meu ver não deva ser cega) e harmonizar tudo isso é algo muito complicado, pois a priori alguns desses conceitos aí em cima poderiam ser excludentes.
Apesar dessa relação bacana, não gosto nada nada quando me dizem que “ah, você e seu filho são muito mais amigos do que mãe e filho”. Não gosto porque à uma, não é verdade, e à duas, não acho isso saudável; mãe é mãe, amigo é amigo. Só porque eu entendo a linguagem dele, passo a impressão de ser “moderninha” (o que eu não sou, mas as pessoas me veem assim), tenho amigos mais novos e nossa relação seja um pouco mais libertária do que algumas relações de mãe e filho, isso não significa que a minha relação seja de “amizade” – os papeis continuam a ser bem definidos e não quero mudá-los.
Claro, há elementos na relação que também estão presentes numa relação de amizade, o que é excelente.
Confiança é um deles. Pelas conversas que tenho com meu filho, tenho a impressão (quase certeza, na verdade) que ele confia em mim. Há uma porta aberta para que, quando ele tenha um problema, peça auxílio a mim ou ao pai (e esperto como ele é, sabe direitinho a quem pedir auxílio dependendo da encrenca em que tenha se metido – e não acho isso nada ruim, se é que vcs querem saber); isso é algo que de que me orgulho.
Respeito existe dos dois lados: tanto da minha parte (e com o início da adolescência isso é muito importante, para que os conflitos existam apenas nas coisas relevantes e não em qualquer divergência que exista entre você e seu filho) quanto da dele (e respeito é diferente de medo – medo se impõe, respeito é conquistado).

esse é o lugar da mala de escola dele - e não, eu não brigo por isso. Pra mim o recado tá bem claro
Hoje há alguns recantos da vida dele que eu só entro se me for permitido (a menos claro, que uma interferência séria seja necessária, mas isso é outra história), e acredito que por um bom tempo eu terei “permissão” (digamos assim) para entrar em muito poucos, pois isso faz parte da adolescência, da busca (saudável) de sua identidade; depois talvez eu seja novamente convidada a entrar nesses recantos. Ou não.
Companheirismo e cumplicidade também. Canso de falar que meu filho é super companheiro de viagens, bom papo, dá amparo quando eu preciso (quando estou gripada, então é um lord, e invertemos a situação momentaneamente: é ele que vem ver se está tudo bem, por exemplo, como eu sempre faço com ele nos dias normais).
Mas companheirismo não é não é intimidade excessiva. Eu não não acho que numa relação de mãe e filho caiba sair contando todas as minhas questões pessoais; não acho que detalhes de determinados aspectos da minha vida (e o sentimental e o sexual certamente são alguns deles) devam ser compartilhados com ele. Isso eu faço com meus… amigos! Também não me sinto no direito (hoje em dia, com um menino de 13 anos, entrando na adolescência) de me imiscuir em determinados aspectos da sua vida; se ele achar que deve compartilhar comigo porque sente necessidade disso, é outra coisa: a mãe sou eu, eu tenho que estar disponível e manter o canal aberto – mas ele certamente não é a pessoa para quem farei determinadas confidências, e acho certo que seja assim. Posso ser careta, mas há coisas que filhos não precisam ver: a mãe paquerando, a mãe contando detalhes da vida íntima, bebendo demais (atire a primeira pedra aquele que nunca passou dos limites um pouquinho, né?). Não é uma questão de querer ser perfeita, mas de manter uma postura, de se colocar de forma mais estável para dar segurança a ele e deixar os papeis bem claros.
Voltando à minha amiga, esta queixava-se que a mãe era daquelas que gostaria de ser “amiga”, que queria sair com ela, beber com ela, virar noites em baladas junto com a filha e seus amigos e esta, com toda razão do mundo, não achava isso legal. Também tenho amigas que gostam de contar as peripécias amorosas na frente dos filhos (aquela coisa de falar baixinho, como se eles não fossem ouvir, sabem?) e francamente, não aprovo. Tive amigas minhas cujas mães “cruzaram a linha vermelha”: paqueraram amigos da filha, se colocaram em situações vexatórias pras minhas amigas – e por muito tempo muitas delas se ressentiram disso. Amigos meus, vendo a mãe fragilizada por esta e aquela razão, sentiram-se na incumbência de zelar e cuidar da mãe quando talvez sequer tivessem condição de cuidar deles próprios (quando a gente não é adulto, precisa de pai e mãe exercendo esses papéis, né? complica inverter a equação). Não acho certo. Cansei de ouvir minha mãe falando de aspectos do casamento dela que não me diziam respeito; cansei de ter que me meter (indevidamente, mas eu não sabia o que estava fazendo – era criança, né?) na vida de meu pai e minha mãe, quando tais assuntos não deveriam (ao meu ver) ser compartilhados comigo. Sinceramente? Tenho pavor dessa história de “nós somos mais amigos que mãe e filho” – até porque ouvi isso bastante estando do outro lado da história e tudo que isso significou pra mim é que alguma coisa na relação mãe e filha não funcionava.
É por essas e por outras que eu implico e emburro cada vez que dizem que “sou mais amiga que mãe do meu filho”. Não sou não. Sou mãe dele e alguns aspectos da relação não são necessariamente recíprocos; ainda que possamos dar muita risadas juntos e que ele seja uma das poucas pessoas capazes de tirar sarro da minha cara a ponto de me tirar do sério :lol , sou eu quem tem que esperá-lo em casa, sou eu quem tem que estar disponível, sou eu quem deve se preocupar com ele e não o inverso (guardadas as devidas proporções, bien compris – é óbvio que ele vai se preocupar se, por exemplo, eu for assaltada). E querem saber? Eu gosto de ser mãe dele. É a única pessoa no mundo com quem tenho essa relação.

E vocês, o que acham?



Pingback: Tweets that mention Mãe é mãe, não é “amiga” | From Lady Rasta -- Topsy.com
Os conceitos de paternidade/maternidade e de amizade tem mesmo vários pontos em comum e outros vários complementares. Se a gente falha em quaisquer desses pontos como pai/mãe isso afetará diretamente a amizade e vice-versa. São coisas complementares, não excludentes e acabam tendo pesos, a meu ver, iguais. Acho que os bons pais são, como você, amigos, sem deixar de cumprir o papel de pais. Beijo!
Nossa, eu gostei TANTO desse texto. Ele resume tudo o que acredito na maternidade. É preciso ter limites claros entre maternidade e amizade. Tento explicar isso até hoje pra minha mãe. Ela realmente acredita que nós, os filhos, somos seus melhores amigos e que ela pode contar tudo. TUDO MESMO. Isso me mata e evito ao máximo repetir essas coisas com a minha filha. Adorei. Vou mandar esse texto pra ela.
=D
Excelente, como sempre!
O que eu acho?
Eu acho LINDO esse texto!
Acho que vc está corretíssima.
Uma pena que nem todas as pessoas tenham o equilíbrio suficiente para assumir a responsablidade de se criar um filho.
É claro que eu tb vacilo de vez em quando, mas tb sinto que tenho o respeito de minhas meninas, sem medo. Agora estou me policiando para não invadir o espaço da minha adolescente. É difícil vc passar de um momento em que vc sabe de tudo que se passa, para outro em que é preciso respeitar os seus “segredinhos”. Mas, é necessário para o crescimento que esse distanciamento aconteça, não é mesmo?!
Esse texto está formidável!
Obrigada!
Bjks
Perfeito!!!gostaria de ter assinado esse texto. Aposto que seu filho vai ser um adulto completo e realizado. parabéns!
Tá tudo aí, né? Concordo em gênero, número e grau. Delimitar papéis e não confundir as estações é importantíssimo, e como bem colocou ao final: é a única pessoa com quem temos essa relação!
Eu tenho amigos, amigas, e filho!
bj
Como sempre adorei Flá! Aprendo muito com você. Um beijo,
Adorei o texto e concordo plenamente…Mãe é mãe,tem que haver esse limite,essa fronteira.
Quero q meus filhos contem comigo como uma pessoa q podem confiar,sempre falo q quando errarem é melhor falar e sofrer as consequências do q mentir e esconder.
Nossa, concordo 100%.
Lady,
compartilhei no Greader e no Face – dá pra ver que gostei? Como vc disse rapidamente, um efeito colateral dessa amizade é que se a gente tem uma amiga, falta mãe, né? E haja terapia pra desatar esses nós, afff…
Parabéns.
concordo plenamente com o que disse,até porque embora alguns desses sentimentos citados aí como:lealdade ,companheirismo etc, presentes na relação amizade, existe um que não condiz conbina com a relação amizade :”Obidiencia”este é um item referente apenas aoi papel mãe e filho…
Pingback: Vamos olhar de novo? : Adriana Torres
Adorei. É isso aí. Minha mãe era minha mãe. Sim, tínhamos momentos de amizade, mas nunca confundi esses papéis. Por que ela definia isso muito bem.
Não resisti e escrevi algo que estava martelando na minha cabeça faz meses e cito seu post como referência , depois olha lá -> http://www.adrianatorres.com.br/viajando-na-maionese/vamos-olhar-de-novo.html
Bjs!
Dri