Comportamento na internet: quem fala demais dá bom dia a cavalo

Costumo dizer que regras de etiqueta no fundo não passam de regras para o bom convívio em sociedade (sociedade aqui lato sensu, e não aquela coisa “coluna social”). Tanto é assim que é muito comum regras saírem de uso quando não mais se adequam ao ritmo da sociedade que ela visa regular (regras rígidas demais como uso de terno em situações hoje impensáveis, ou mesmo a proibição de mulher usar calças compridas em determinadas ocasiões – regra aliás que eu continuo usando, mas eu sou vintage, vocês sabem 🙂 ).

Não gosto dessa moda do “tudo pode”, do “temos que ser naturais e fazer o que nos dá na telha” simplesmente porque via de regra as pessoas não conseguem entender o mandamento  mais simples e mais básico do bom convívio que é “o seu direito termina onde o começa o do outro”.  Por essas e  por outras tenho pavor de frases do tipo “é o meu jeito” – porque levadas a última instância, não precisaríamos sequer escovar os dentes, afinal, o “natural” é assim, certo?

Por não ser adepta da moda do “tudo pode sempre” condeno algumas manifestações hummmm….mais espontâneas que surgem na internet de vez em quando, justamente porque não é apropriado (sim, essa palavra que muitos julgam hipócrita) se dizer tudo, ainda que tenhamos vontade. Do mesmo modo que Constanza Pascolato diz que “moda é adequação”, o mesmo pode ser dito de nosso comportamento e linguajar.

Por que não podemos dizer tudo? Porque como tudo na vida, falar as coisas em público tem conseqüências. E essas conseqüências são maiores ou menores dependendo do tamanho de sua audiência. Assim, você afirmar algo numa mesa de bar tem um espectro de alcance, ao passo em que dizer algo em uma rede social tem o efeito de se dizer algo em praça pública com um megafone – com o agravante de que as afirmações ficam gravadas, não desaparecem, e podem eventualmente ser usadas contra você. Não são palavras ditas ao vento, por assim dizer, mas declarações mais formais (sendo cafajeste, é como se você tivesse amante e pagasse o motel com cartão de crédito e chegasse em casa com a camisa borrada de batom ou o cabelo molhado, se você for mulher, sacou?)

O problema é que as pessoas não têm essa visão. Convencionou-se dizer que a internet é uma “land of freedom”, quase um cyber woodstock onde tudo é permitido, quando na verdade ela não passa de um espaço de produção e proliferação de ideias ao alcance de (quase) todos, onde a lei a todos alcança.

Essa é a primeira dificuldade: a confusão criada entre público e privado. É difícil para algumas pessoas entender que o ato de estar de pijama no quarto teclando com seus amigos tem conseqüências no público (é compreensível que se você está no seu quarto, conversando com pessoas de seu círculo íntimo há facilidade para toda sorte de inadequações e a pessoa por vezes não tem consciência do quanto de público existe nessa atividade). E é bom ressaltar: quando digo público deve-se  entender um espaço público com toda a sorte de pessoas dele participantes; não estamos falando (pra usar o exemplo sempre utilizado no caso do twitter) de uma mesa de bar, mas de uma praça onde ao mesmo tempo  que seus amigos mais próximos estão sentados ao seu lado em um banco, seus pais estão ali mais adiante, seus filhos, seus chefes, seus clientes, sua namorada e os pais dela. Ou seja, é um ambiente onde seguir regras de conduta beirando a formalidade é necessário e recomendável – a menos que você curta fazer a linha rebelde e não se importe de pagar o preço, bien compris.

Dito isso, queria abordar alguns casos onde, em maior ou menor escala, essa falta de compreensão de que a internet é um ambiente público formal causou transtornos para aqueles que se esqueceram desse “detalhe”:

1. Mayara – quem mora na República do Twitter conhece a história; a moça saiu falando barbaridades contra nordestinos após a eleição de Dilma no último domingo. Fez declarações racistas e preconceituosas, além de declarações que em tese podem vir a configurar incitação ao crime. O resultado? Sofrerá (com justo motivo) processo crime, onde responderá pelas barbaridades que disse, além de ter perdido o emprego.

O fato de estarmos sozinhos enquanto digitamos, a facilidade com que encontramos nossos pares e a falsa idéia de que estamos numa “land of freedom” na internet certamente incentivou o comportamento dessa moça, que provavelmente dirá que “se sentia numa mesa de bar”. É um pouco estranho que uma estudante de direito tenha essa idéia, mas enfim…

Mas o caso da Mayara é fácil de se apontar e dizer “ela cometeu um crime”, porque o crime é muito evidente. Qualquer pessoa que tenha algumas sinapses funcionando consegue ver o erro dessa moça; o problema fica mais complicado quando a linha é mais tênue, ou os crimes em tese são mais difíceis de se enxergar a olho nu (leigos, digamos assim) ou mesmo quando estamos no campo das relações de trabalho.

2.  Outro exemplo é o do jornalista demitido pela Editora Abril logo após ter criticado a Revista Veja. Por estarmos falando de uma revista conhecida pela sua parcialidade política (coloquemos assim), odiada por muitos internautas,  e o jornalista ter criticado uma matéria cujo conteúdo foi desmentido categoricamente pela fonte, a tendência geral foi defender a postura do jornalista dizendo que a Editora Abril praticava censura e que seus funcionários não podiam dizer o que pensavam. Pode até ser que seja isso, mas há um detalhe aí que muitos “esqueceram”: que os termos usados pelo jornalista foram muito grosseiros, acusadores, termos esses tão passíveis de se configurar crime de calúnia, injúria ou difamação quanto o caso da Mayara pode vir a se configurar como crime de racismo e incitação ao crime.

Ninguém gosta que se diga isso, porque, de novo, tem-se a idéia de que a internet é a “land of freedom”, onde a liberdade de expressão é absoluta. Não, não é: estamos submetidos às mesmas leis vigentes no que alguns ainda gostam de chamar de “mundo real”, bem como às regras (por vezes implícitas) do bom convívio social. O contra-argumento é o de que a Editora Abril demitiria o jornalista ainda que ele tivesse feito críticas em linguagem de pessoa adulta em um ambiente formal (e é possível se criticar duramente alguém sem precisar usar linguagem de estivador de cais do porto – advogados fazem isso toda hora, inclusive 😆 ) e pode ser que seja verdade; no entanto, seria um argumento a menos (e cairíamos no item seguinte desse texto). Ou seja: consciência do que é a internet e prudência na escolha das palavras é sempre aconselhável (aliás, esse é um conselho básico, diria eu)

3. O caso de funcionário graduado de uma agência que, ao ver seu time ganhar do São Paulo (time jocosa e preconceituosamente chamado de “bambi” pelos torcedores de outros times), tuitou um “CHUPA BAMBI”, esquecendo-se que sua agência era patrocinadora do São Paulo. Aqui estamos (acredito, não sou especialista em direito penal) enfrentando uma situação onde as tais regras de convívio social implícitas estão presentes ao invés das leis (se bem que em tese, e exagerando bastante, o clube poderia pedir reparação pelo que foi dito, mas estou tentando ser razoável).

Aqueles que defendem a liberdade de expressão dirão que este último caso foi um abuso; o problema é que cliente paga a agência, escolhe qual agência contratar, e talvez ele não ache engraçado pagar o salário de alguém que o insulte. Ele pode até não se importar, mas tem todo o direito de fazê-lo se bem lhe aprouver.

Conversando com o Gilberto Pavoni sobre os casos do jornalista e do publicitário, ele levantou um ponto muito relevante: que hoje em dia se leva trabalho pra casa após o expediente e se enxerga isso como algo normal, mas não se pode ver porn no escritório (o que seria uma conseqüência lógica já que público e privado, horário pessoal e horário de trabalho estão misturados). Ele tem toda razão, e creio que com o tempo haverá regulação do que é esperado ou não dos funcionários, não só através de negociação do próprio contrato de trabalho individual, mas em acordos coletivos de trabalho, além da atuação dos departamentos de recursos humanos (e muitos não estão preparados para esse tipo de atuação). Vai demorar? Talvez. É injusto? Certamente. Mas as condições de trabalho durante a Revolução Industrial também eram duras e chegou-se a um consenso – o mesmo terá que ser feito nessa era em que público e privado se misturam com tanta facilidade. É importante ressaltar também que o alcance das mídias sociais hoje em dia faz com que em algumas profissões cláusula dispondo sobre forma de comportamento, posicionamento, perfil  e mesmo remuneração pela atuação nesses veículos seja aconselhável.

E enquanto esse tipo de regulamentação não ocorre, eu sugiro que se preste muita atenção no que se diz na internet, e que se tenha em mente que não estamos numa mesa de bar, mas em uma praça onde sua família e seu patrão também estão presentes. Ou seja: não rola fazer strip tease, sacaram?

E como dizia meu pai, quem fala demais dá bom dia a cavalo. Pensem nisso 😉

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P.S. Não custa lembrar que os pais são responsáveis pelo comportamento dos filhos na rede, assim como, a depender do perfil e da bio do profissional, a empresa na qual ele trabalha também pode ser responsabilizada pelo que for dito (a depender de uma série de coisas, evidentemente – estou dando pinceladas gerais aqui)

P.S. II Meus parabéns ao pessoal do tumblr de denúncias Xenofobia Não: apesar de julgar o nome do site inadequado, fiquei satisfeitíssima ao ver que estavam sendo expostos aqueles que condenavam os racistas com insultos igualmente inadmissíveis. É só assim que as pessoas sem modos passarão a tê–lo, né?

8 pensamentos em “Comportamento na internet: quem fala demais dá bom dia a cavalo”

  1. Não foi o dr. Freud quem falou que ‘sem repressão (aqui no sentido mais amplo da palavra) não há civilização’? Eu vivo falando isso pros meus alunos – trabalho com ensino de línguas e tecnologia – e, sem considerar o aspecto puramente legal de cada um ser responsável pelo que faz e diz, acho o fim da dinastia a falta de elegância que impera atualmente. A internet, com seu relativo anonimato, leva isso à potência de dez. Como disse a Fernanda Montenegro numa entrevista, quando perguntada sobre o que está faltando neste mundo: o que falta no mundo é DELICADEZA.
    Ótimo post, parabéns pelo blog!

  2. Lady, gostaria de ter enviar um e-mail de agradecimento.
    A sua palestra no Campus Party de 2010 foi essencial para a elaboração do meu TCC.
    Sou aluna do Direito Rio, FGV e fiz um guia jurídico para blogueiros, que pode ser acessado no blog acima. Fiz um artigo também sobre a A Responsabilidade Civil dos Novos Formuladores de Opinião Pública.

    Muito obrigada,

    Nathalia Mota

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