O machismo progressista

Semanas atrás me indignei com esse tweet aí em cima, de uma vez que alguém teoricamente esclarecido, “de esquerda”, contra o “mal”, salvo melhor juízo, não deveria falar uma barbaridade dessas. Como sempre, ouvi um retumbante silêncio – afinal, se você se diz “de esquerda” você pode quase tudo né?

Corta.

Todo mundo que dá festa boa, daquelas que serão comentadas por anos,  sabe que existe uma fórmula pra isso: misturar pessoas.  Festa boa tem que ter a piriguéti cantando o cara casado, a bolacha cantando a mulher do cara casado que tá sendo cantado pela piriguéti, o gay enrustido que bebe um pouco e é visto atrás da cortina aos beijos com um garçom e por aí vai.  Fofoca vai rolar solta, mas todos sempre falarão “que festa!!!”.

Sabe porque festa boa é assim? Porque tem diversidade. Porque há encontro de pessoas diferentes, que pensam e vivem de forma  diferente e esse choque torna tudo muito mais interessante.

Costumo dizer (e durante minhas inúmeras discussões sobre política no twitter isso quase virou um bordão meu) que é na diferença que se evolui, que é na diferença que se cresce. Na real? Pra ouvir gente falar o que eu mesma penso fico em casa lendo um livro.

Por isso reclamei hoje quando soube do encontro do Lula com os blogueiros. Depois de um tempo descobri que não eram de “blogueiros” e sim de “blogueiros progressistas”, cujas ideias eu tenho muita dificuldade em assimilar, por uma série de fatores (para quem não me conhece bem, meus posicionamentos políticos estão aqui).

Até aí, tudo bem. Não vejo problema algum em um grupo de blogs da base do governo Lula entrevistá-lo; continuo achando a iniciativa excelente, e os blogs de oposição poderiam ter tido a mesma iniciativa (e quero acreditar que Lula igualmente os recebesse; de todo modo, não fizeram, e não se pode culpar os blogueiros progressistas por isso).

No entanto, acho complicado dizer que é um “grupo de blogueiros” ao invés de “grupo de blogueiros que apoiou o Lula”, porque falta clareza e transparência. “Grupo de blogueiros” pra mim implicaria em uma diversidade de posicionamentos políticos que o grupo de blogueiros progressistas não possui (e nem poderia, de uma vez que têm em comum o fato de apoiar Lula).

Mas eu imaginava que dentro dos “blogueiros progressistas” tivesse sido feita uma escolha mais heterogênea, mais representativa da blogosfera que apoia Lula. Porque salvo engano, dentro da base que apoia Lula na blogosfera, deve haver negros, gays, mulheres… Ou não?

Aí você menciona isso no twitter e é obrigada a ouvir coisas como “você está com inveja” ou ” não tem que convocar mulher e gay só porque é mulher e gay”, quando todo o discurso que ouvi durante essa eleição foi sobre a necessidade da mulher ocupar locais de poder (tomei um monte de pito por causa disso, inclusive).

Ouvi também que há poucas mulheres dentro dos blogs de política e que feminismo é uma vertente política mas não é política propriamente dita. Não entendi nada. Achava que política era algo muito mais amplo do que falar “voto Dilma” ou “voto Serra”.

Discordo pra valer de várias feministas com tradição na blogosfera, mas não é por isso que vou deixar de observar que houve machismo por parte da organização. Não é por isso que vou deixar de dizer que pessoas que eu respeito e que efetivamente são base de Lula na blogosfera não terem sido indicadas para ir ao encontro. É um desrespeito.

O fato é que existe muito machismo entre aqueles que se dizem progressistas e é fácil para eles escapar dessa pecha porque afinal de contas, “são de esquerda”.

Votei Marina no 1° turno, não votei no 2°, mas nem por isso pude deixar de notar que não foi apenas um lado da campanha que desrespeitou as mulheres. E não me venham com “ah, mas o Serra desrespeitou mais” – era só o que faltava ter desrespeitado menos, não acham?

Estou me batendo nessa tecla porque tenho percebido um comportamento que julgo indesejável por parte de alguns homens: o fato de se dizer “progressista”, o fato de se dizer “de esquerda” parece conferir a alguns uma pele de cordeiro por baixo do lobo que alguns são, como o jornalista que escreveu o tweet do início do texto.

E creio que devemos estar atentas: o machista assumido é muito fácil de se identificar, ele é quase caricato; já o machista disfarçado é insidioso, perspicaz e muitas vezes logo descobre que é muito conveniente ter uma imagem progressista, um vernizinho craquelé de modernidade, uma pele de cordeiro por cima de suas convicções mais íntimas.


Pra mim, o que interessa não é o discurso, são os atos. E o que vejo no tweet aí de cima a foto do encontro de blogueiros no Planalto diz muito mais que qualquer discurso. ;-)

****

P.S. Chapeau pra Semiramis e pra Lola, de quem discordo quase sempre (com respeito, mas discordo) mas que hoje brilharam. Repito: achei o máximo um Presidente ter recebido  blogueiros para uma coletiva, mas isso não me impede de ver as falhas do encontro e apontá-las. Tampouco discordar sempre das pessoas fará com que eu deixe de apoiá-las quando concorde com o ponto de vista delas. Como eu disse, acredito que é na diferença que se cresce.  E praquelas que se calaram…política não é só colocar logotipo do partido de preferência, viu? ;-)

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22 comentários sobre “O machismo progressista

  1. Flavia, belo post. Não só por ser bem escrito mas por levantar a ponta do tapete para onde se varre todo o machismo… as pessoas fingem que ele não mais existe, mesmo quando vêem as mulheres em propagandas de sabão em pó e na cozinha, enquanto os homens dominam as de cerveja… a foto postada por vc é quase que uma caricatura…
    Congrats.
    Bjs

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