The lady is always a tramp

Foi inevitável: em meio à ressaca de alguns e à posse da Presidente Dilma Roussef, surge a mulher do Vice-Presidente Michel Temer (a meu ver em outfit equivocadíssimo para a ocasião) em toda sua exuberância e juventude, arrancando tanto suspiros (e um pouquinho mais) dos moços (e meninas que gostam de meninas) quanto críticas de grande parte das mulheres, a grande maioria falando sobre a impossibilidade de existir amor verdadeiro entre pessoas com tamanha diferença de idade.

Uma querida minha no Twitter, jovem e linda (não sei se ela quer que eu a mencione, então não vou falar quem é) verbalizou com todas as letras: ao ver aquela cena de Michel Temer com sua mulher, ela visualizou seu maior pesadelo, o de ser trocada por uma mulher mais nova.

Não vou entrar aqui no mérito dos laços que unem o casal Temer: não os conheço, não conheço sua vida marital, enfim, não tenho quaisquer elementos para afirmar isso ou aquilo; mas quero aproveitar o gancho pra falar um pouco sobre casamento e principalmente sobre casamento entre pessoas com idades diferentes e os motivos pelos quais as pessoas se casam.

Sim, porque de repente todo mundo sai pregando que o amor romântico, aqueles dos filmes e romances, é condição sine qua non para duas pessoas se casarem quando não é bem assim. Amor romântico pode ser um dos motivos mas não é o único; é inclusive um motivo bastante recente em termos históricos.

“Ah, mas isso mudou e a gente pode mudar isso”. Claro que mudou. Acho excelente que hoje em dia as pessoas se casem porque querem constituir família com x ou y e não porque seus pais e os pais de x ou y assim decidiram. O problema para mim está em querer definir que amor romântico é o único motivo que deve fundamentar tal decisão. Porque não é. Aliás talvez até seja – desde que não se restrinja a ideia de amor romântico àquela dos romances de capa e espada de virgenzinhas suspirantes.

E os exemplos estão aí para não me deixar mentir. Cole Porter era gay, e casou-se com Linda Porter, que sabia de suas inclinações sexuais. Ela por sua vez, tinha sofrido abusos de seu ex-marido e não gostava de sexo. Tinha crises de ciúme de Cole, mas viveram sim, uma união muito agradável. Ambos eram riquíssimos, não precisavam estar casados se não quisessem. Está errado? Não era amor?

Jane Austen mesmo defende em seus romances que uma amizade sólida e gostos comuns são melhores para um casamento estável que aquela paixão avassaladora. Tem quem veja assim hoje em dia e seja feliz com isso. Por que não? “Ah, o sexo vai ser um horror”, dirão alguns. Pode ser que sim. E daí? Você lá sabe se essas pessoas gostam de sexo? Você lá sabe se elas se importam que os companheiros tenham sexo com outras pessoas? Quem disse que só um modelo (recente, como já disse) de conduta é o correto, o válido, ou o aplicável? Não é – e que bom que não é.

Normalmente as pessoas conseguem absorver os conceitos acima; a coisa complica quando a mulher jovem se casa com um homem mais velho, pois sempre há a suspeita de interesse financeiro. As suspeitas aumentam ainda mais quando a moça é muito bonita, pois nesse caso somente essa possibilidade justificaria uma união desse tipo.

<abre parênteses> quando o casal é formado por uma mulher mais velha e um rapaz jovem, a mulher é uma vagabunda que só pensa em sexo. Ou seja, como disse no título, the lady is always a tramp. Complicado, né? </fecha parênteses>

Engraçado que o Saramago era muito mais velho que Pilar, Caetano muito mais velho que Paula Lavigne, mas ninguém questionou o amor dessas duas mulheres por esses homens mais velhos. Só porque a Marcela Temer é loira e a “honestidade” dela está sendo colocada em dúvida?

Well, reitero o que a Lubom disse nesse post que eu assino embaixo: para muitas mulheres poder e dinheiro são componentes formadores da atração delas por um homem, a admiração pelo homem surge à medida em que a mulher pode aferir suas conquistas através desses signos de poder. Não há aqui o interesse financeiro: o fato de um homem ser rico mostra sua capacidade, e isso para algumas mulheres é atraente. Fim.

Mas eu admito ainda o puro interesse financeiro como motivo para se casar (aliás, acabei de lembrar de trechos do Orgulho e Preconceito em que as posses dos homens são enaltecidas e especificadas por eles próprios como um dos motivos pelos quais eles seriam bons pretendentes). Por que não? É antigo, mas se dois adultos entendem isso válido, quem sou eu para dizer que não?

É anti-ético, dirão alguns, e não entendo de ética a ponto de sair discorrendo sobre o assunto. Mas a meu ver, nada impede que algumas pessoas coloquem estabilidade financeira à frente de realização afetiva. Não é o meu estilo de vida, mas se a relação está satisfazendo os dois, não vejo porque condená-los.

Mas voltando ao início do texto e à minha amiga, acho que uma outra questão esbofeteia a gente ao vermos uma moça linda e jovem ao lado de um senhor: o medo das mulheres mais velhas de ser abandonadas por seus homens, que as trocariam por moças mais novas.

Acho que esse é um problema (social, eu diria até) complicado, e diria mais: é muito provável que ele tenha surgido com a possibilidade do divórcio, e paradoxalmente, com a ideia de que não há sentido em se manter um casamento quando não se está 100% satisfeito com ele. Sim, porque antigamente a mulher mais velha cumpriria as funções protocolares e o homem que quisesse um pouco mais de, digamos assim, viço, teria uma amante mais jovem. Hoje casamentos acabam (ainda bem), e nessa equação complicada, é pra lá de comum a mulher de 50, 60, vendo o ex-marido desfilar com uma moça que poderia ser neta do casal, tendo dificuldades em refazer sua vida.

É uma realidade dura mesmo. Eu ficaria muito triste. Mas a questão aí não é ser trocada por uma moça mais nova, é ser trocada. Eu acho que me sentiria muito pior se fosse trocada por uma moça mais velha ou da minha idade – ser trocada por uma moça mais nova é duro, doído, nos joga na cara que nos falta o viço de outrora, mas ao menos é mais compreensível (ao menos para mim).

Mas eu pergunto: se isso é inexorável, se é verdade que alguns homens (e não acho que sejam maioria) trocam suas mulheres por moças mais novas, não vai adiantar repreender essa atitude; temos que aprender a conviver com o fato e dar a volta por cima. Não, não estou pedindo para as pessoas se conformarem, bem ao contrário: estou pedindo para elas enxergarem além. Até porque, vamos e venhamos, é infantil desqualificar uma moça só porque ela é bonita (do homem ninguém fala, né? gozado isso).

Se pararmos pra pensar, já temos um esboço de reação: hoje em dia também há muitas mulheres pra cima dos 40, 50 anos, se relacionando com moços mais novo, se permitindo esse tipo de relação e gostando muito. Pode ser um caminho, se permitir a mesma atitude.

Aí o que faz a mulherada? Começa a falar que é ridículo uma “velha andar com um moleque”, que ela só pensa em sexo. Pode ser que sim, pode ser que não, normalmente relações são fundadas em mais do que um ponto forte, mas não, se a mulher tá com um moço mais novo, ela é sem vergonha e ele interesseiro. Esse discurso tem que mudar.

Volto ao mesmo ponto de sempre: o importante não é o que os homens fazem, mas sim o que as mulheres têm condição de fazer. É importante que elas tenham uma profissão e possam se manter caso o marido resolva terminar a relação por causa de uma moça mais nova. É importante que elas entendam que é recomendável ter uma vida além da vida do marido, tenham seus interesses, suas amizades, seu emprego – para o mundo não desabar se o casamento for desfeito.

Além disso, ao invés de se reclamar que as mulheres se casam por interesse econômico, é melhor lutar por oportunidades iguais para que as mulheres possam cada vez mais deter poder econômico e não precisem se casar com homens mais ricos que ela. E porque não dizer, até mesmo se casar com moços que vejam no interesse econômico um motivo para o casamento, ou que vejam no poder que elas detêm um fator de atração. Por que não?

Então moçada, a César o que é de César: Marcela Temer é bonita (apesar de ter errado feio na escolha da roupa da posse), mes compliments, mas não creio que a Dilma quisesse trocar de lugar com ela ou que tenha sido por ela ofuscada. São conceitos diferentes que estão querendo misturar, e desmerecer sua beleza é desmerecer as mulheres também. Cada macaco no seu galho. De minha parte, acho ótimo que no mesmo palanque estejam lá duas mulheres, ambas com qualidades e funções distintas. Os moços dessa vez foram coadjuvantes :-)

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52 comentários sobre “The lady is always a tramp

  1. Glr, tava navegando e entrei aqui por acaso.
    Achei interessante o assunto e fiquei lendo os comentarios.E estou achando incrivel a importancia que estao dando ao assunto.
    É como diria um amigo meu.” Imediatismo mediatico”.
    Poder, beleza, juventude, interesses sociais ou economicos.Ponto 1
    Amor, romantismo, vida em comum, “interesses sentimentais” ou seguranca emocional.ponto 2.
    Ponto 3:A soma sao os dividendos.(deles)
    Ponto 4:Minha vida nao vai mudar se eles ficarem casados ou se separarem( a nao ser que eu ‘consiga” ser ” o proximo’.
    Ponto 5:Cuidar de sua propria vida ja eh cansativo… se vc acha divertido cuidar da vida de pessoas que vc nunca ira conhecer, REavalie TEUS conceitos e aprenda a viver sua propria vida.Novela eh soh na globo.
    Deixa a “MULHER” do vice e vai cuidar de ser uma pessoa melhor pra sua sociedade.

  2. Oi linda. Não tinha visto esse teu post. Fui avisada pelo @aleph111 Bom, a guria que manifestou seu maior pesadelo em ser trocada por uma mulher mais jovem na velhice fui eu (não sei se outras fizeram isso), mas era de mim que falavas podia mencionar meu nome sim. De resto, gostei muito do texto e concordo que desmerecer a beleza de uma mulher é desmerecer as mulheres de forma geral. E tenho certeza que Dilma não gostaria de trocar de lugar com a esposa do vice não! Cada mulher tem sua história, suas dificuldades, suas lutas e preconceitos a serem vencidos. Tanto nossa presidenta, como nossa vice-primeira-dama, quanto eu, você e as demais leitoras desse blog.
    Parabéns pelo texto. Sempre muito lúcida, esclarecedora e bem articulada em suas colocações. Que bom que existem mulheres como você.
    Um beijo enorme de quem te admira pra caramba.
    Ju
    http://twitter.com/JuDacoregio

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