Higienópolis: “nós”, “eles” e o sofá na sala

O assunto sobre o qual “todos têm que falar” nessa semana é a mudança de itinerário da linha amarela do metrô (previsão de entrega lá pelo começo da Guerra dos Clones, pelo andar da carruagem)retirando a estação Higienópolis.

A Associação do Bairro é contra (como foi quando da inauguração do shopping, e só permitiram sua construção depois que acordou-se em deixar um dos casarões da Avenida intacto e se instalou ônibus para os moradores do bairro se locomoverem até o shopping, soluções que eu reputo excelentes), entrevistaram uma psicóloga (a quem eu teria medo de entregar minhas questões tendo em vista sua nítida incapacidade de articulação) a qual afirmou não querer “gente diferenciada” no bairro, armou-se um auê e daí pra soidisant humoristas começarem com piadas anti-semitas foi um pulo.

Ressalto como textos dotados de bom senso o do Thiago (um dos que mais gostei), do Forastieri, do Guga Chacra e do Hupsel, mas queria chamar a atenção de vocês para um ponto que não vi ninguém mencionando: o fato de ser positiva e mesmo necessária a existência de Associações de Bairro atuantes (ainda que sob pena de ter que se driblar posturas temerárias) e por sua vez a conjunta atuação SENSATA do Poder Público (ausente nesse caso de Higienópolis) visando amadurecer esse intercâmbio.

Calma que eu explico :-)

Eu sempre falo que estamos entrando na adolescência da conscientização política. Se nossa democracia fosse uma pessoa, com sorte ela estaria hoje no meio de uma faculdade, ou seja, ainda não teria entrado na vida adulta (nossa 1a eleição direta depois da ditadura foi em 89, certo?).

Em parte por isso, nossas discussões políticas são tão juvenis, acaloradas, dogmatizadas: até o espírito de pertencer a uma tribo e estigmatizar a outra (Capulettos e Montecchios, Palmeiras e Corinthians) está presente – espero que ela amadureça e não fique como aquele povo que aos 40 anos ainda mora com os pais né?

Bom, mas o que a Associação do Bairro e aquele pleito sem pé nem cabeça têm a ver com isso? Têm a ver que tudo tem seu lado bom e ruim (como eu sempre digo, o mundo e as pessoas não são novela da Janete Clair, onde o mau é só mau e o bom é só bom – há os dois lados em tudo, normalmente entrelaçados) e se de um lado não há como negar que o pedido deles era um contra-senso, de outro é muito bom que associações de bairro existam, que haja discussões das questões a ele concernentes, e que as preocupações destas associações sejam levadas ao Poder Público e por ele analisadas. Acredito que isso seja parte de exercer a cidadania, o efetivo meio de se cuidar da sua cidade – e ao Poder Público cabe ouvir, discutir, ponderar e decidir de acordo com o interesse público dos munícipes levando em consideração a associação.

E o que isso significaria nesse caso concreto? Bom, tirando a bobagem do “gente diferenciada” (pra mim isso aí é quem ouve Céline Dion, pra vocês verem como mudam os parâmetros a depender de quem fala), há ali um pleito justo: o entorno de uma estação não precisa se tornar um pátio dos milagres só porque há uma estação ali. Vi todo mundo falando “ as mesmas pessoas que não querem metrô em Higienópolis elogiam o metrô de Paris e de Nova York”, mas o fato é que, se de um lado há estações em outros países que são uma quizumba generalizada, de outro não se pode negar que há estações onde isso não ocorre. Eu mesma moro perto de uma estação de metrô na Paulista e ela não é um horror cheio de ambulantes – só precisa haver fiscalização para que isso seja a regra.

<abre parênteses > antes que vocês me xinguem, não há como negar que ambulantes atrapalham o comércio legal, aka “aquele que paga os impostos que servem para construir o metrô” e em sua grande maioria sujam as ruas; ainda que eu entenda que alguns deles o fazem por necessidade, julgo legítimo que um bairro não queira ambulantes. O direito de um acaba onde começa o do próximo e há outras formas de se combater a questão social. Tanto há que a Suécia não precisa de ambulantes para ser socialmente justa, então esse argumento é no mínimo falacioso. </fecha parênteses>

metrô de Paris: vocês estão vendo ambulantes aqui?

 

Ora, pra mim fica evidente que neste caso errou também o Poder Público, que teria o dever de ser mais maduro, “chamar a responsabilidade para si” e dialogar. Caberia ao Poder Público dizer “olha moçada, não fazer o metrô equivale a tirar o sofá da sala para que sua mulher não tenha mais amantes, não é assim que funciona, entendo a preocupação com ambulantes mas faremos, com a ajuda de vocês, uma política ambulante free”.

 

vocês estão vendo ambulantes aqui?

Há que se elogiar o fato de existir uma Associação de Bairro atuante, há que se incentivar o surgimento de outras tantas, bem como há que se exigie do Poder Público diálogo adulto com elas, onde este não ceda quando os pleitos são de criança mimada, mas que solucione as questões efetivamente sérias. De outro lado, cabe à sociedade como um todo servir de termômetro e de crítico construtivo quando os atores passam dos limites (e nesse ponto, se achei que algumas críticas foram exageradas, a propagação do “churrasco de gente diferenciada” serviu como forma divertida de mostrar o ridículo do pleito da Associação).

Dirão alguns: “Ah, mas aquelas pessoas são elitistas, não pensam em ninguém”. Até admito que muitas pensam assim, mas não são todas – e o modo de fazê-las mudar de ideia não é o Poder Público acatar o que elas dizem ou apontar-lhes o dedo, e sim educando-as, fazendo com que vejam que o fato de haver interesse público na questão x ou y não vai fazer com que elas sejam ouvidas.

O modo de unir a sociedade não é criando um fosso entre as classes – e tanto há uma parcela da elite que faz isso quanto há parcela de nossa “intelectualidade” (digamos assim) que insiste em ressaltar esse fosso. Era melhor ajudar a colocar terra nele do que cavar mais fundo, né? Por isso fiquei feliz ao ver que as mesmas pessoas que atacaram os moradores de Higienópolis condenaram Danilo Gentili pelo ataque ignominioso contra o humor e os semitas – sinal de que estamos começando a entender o sentido de igualdade né?

Ainda que muitos entendam que “elite não é povo”, os mais esclarecidos (e sobretudo o Poder Público) não podem ver assim, até porque ao se fazer essa diferença enraiza-se a própria ideia de diferença. Não, não tem diferença. Como eu disse no twitter, morando em Higienópolis ou no Capão Redondo, todos têm um “tiozinho do pavê” nas festas, uma cunhada gostosa, um primo que bate na mulher e outro que é gay no armário. Só muda a trilha sonora e o cardápio. :-)

E que as Associações de Bairro continuem cada vez mais ativas, até para nós podermos reclamar quando elas falam bobagem: é assim que se constrói uma cidade melhor. Vai demorar? Vai. Mas dá pra fazer.

***

P.S.: Aguardo ansiosamente a Associação de Bairro de Higienópolis exigir do Poder Público multa por morador que não recolher les cacás de son chien. Minhas sandálias de tiras finas agradecem :-)

P.S. II – a missão: uma vez voltei de uma festa falando pro meu pai que fulano x havia mudado de ideias quanto a determinado político, e que eu tinha falado “nossa fulano, quem diria que você tá falando isso” hein? Tomei a maior bronca. “Minha filha, se você apontar a mudança, ele pode achar que isso é derrota dele e mudar de ideia. Fica quietinha e o elogie, só isso, você vai ver como vai ser mais fácil ele ir na direção que você prefere”. Fica a dica: ao invés de colocar os moradores de Higienópolis no mesmo saco de gatos, chamando-os de intolerantes quando se sabe que apenas uma minoria assinou o tal abaixo assinado, a gente deveria apontar o número de descontentes e de gente bacana que tem lá e trazê-los pro lado bom da força, ao invés de forçá-los a se juntar com o lado negro.

P.S. III. Eu confesso: tenho o mais profundo desprezo por quem assiste CQC.

 

 

 

 

 

 

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9 comentários sobre “Higienópolis: “nós”, “eles” e o sofá na sala

  1. Nunca tinha ouvido falar numa associação de moradores ativa em Higienópolis antes desse rolo. Meu amigo Mark Felt diria “follow the money”, procurem os interesses financeiros contrariados. Especialmente o que terá de fechar as portas para a estação ser construída. Os folclóricos dificilmente teriam tanta força, por mais prestígio social que tenham. Os que doam pra campanhas eleitorais, por outro lado…

  2. O tal churrasco só mostra como esquerdistas, progressistas e mudernos têm mais preconceitos contra pobres do que a tal da “burguesia”. Como esses revolucionários de buteco mal devem ter visto um pobre de perto acham que eles se resumem a “cerveja, churrasco de gato ,papagaio” etc…

    Prefiro essas opiniões sobre o assunto : http://www.implicante.org/artigos/metro-de-higienopolis-a-revolucao-francesa-paulistana/

    http://www.implicante.org/artigos/mais-higienopolis-e-burrice-mas-ha-metodo/

    http://www.implicante.org/blog/so-vai-dar-gente-diferenciada/

  3. Natalia então, eu não gosto desse tipo de opinião tão visceral assim. Muita paixão nos torna meio cegos para ver razoabilidade do outro lado. Mas se vc preferiu, perfeito, direito seu. Volte sempre que quiser, a casa é sua

  4. Bob Woodward Na verdade ela é ativa sim, quando houve a criação do Shopping Center eles botaram a boca no trombone, fizeram um carnaval, e conseguiram para os moradores uma coisa bacana: microônibus que passavam pelo bairro e levavam e traziam os moradores da região para o shopping. Achei perfeito. Quando escrevi o post fui fuçar e descobri que depois do Kassak esses microônibus foram proibidos, o que achei um contra-senso.
    Mas eu disse isso no twitter: 3.500 assinaturas me parece pesar menos do que a influência de quem tem várias lojas no estado, com empregos e tal. Mas ninguém pareceu se impressionar, era mais bacana brigar com a psicóloga do que procurar mais dados :-)

  5. LadyRasta( posso te chamar assim?), então você escolheu aquele lado em que que qualifica o outro de irracional-Sim!, você me chamou de irracional, embora de forma lírica e poética usando a palavra víscera. Eu não tenho certeza se respeito isso, afinal qualificar a priori alguém de irracional é excluir totalmente esse indivíduo do debate. Ou melhor explicando: Isento é aquele que pensa como eu, quem pensa diferente é visceral.Por essas e outras não consigo de forma alguma entender a mente de vocês progressistas ( desculpe te chamar assim, mas não sei qual a melhor forma de dar nome a pessoas que argumentam da forma como você faz, eu por exemplo sou chamada de reaça…vida que segue…).Você com suas luzes conseguiu ser mais excludente ( já me considerou de cara inelegível para algum debate) do que eu com minhas vísceras e paixão.

    Abraços cariocas,

    Natalia

  6. Natália com todo o respeito, creio que vc não entendeu o que eu disse. Vamos lá?
    a) Vc disse que preferia os posts que elencou no seu comentário, e eu disse que *aqueles* posts para mim tinham opiniões viscerais, muita paixão, e eu passo ao largo disso quando analiso algo. Então, a menos que tenha sido vc que os escreveu, eu não disse que você era visceral.
    b) visceral, salvo engano, não significa irracional. Significa sanguinolento, profundo, intenso. Exatamente o que eu disse. Mas pra ser muito sincera com vc, eu fui elegante em respeito a você, porque acho os termos utilizados naqueles posts grosseiros, petulantes, e eu não gosto disso, não gosto de textos malcriados sapateantes, desculpa. É o tipo de texto que faz questão de aprofundar o tal fosso que eu menciono no meu post. É post pra claque, pra quem pensa igual a eles darem risada, da mesma forma que muitos blogs progressistas por aí, os quais eu critico pelo mesmíssimo motivo. A questão do metrô não é se os moradores querem ou não, ou se Ermelino Matarazzo precisam. Claro que precisam, mas a malha viária precisa melhorar aqui no centro, pra outras regiões, para que os carros não sejam tão utilizados e desafogue-se os ônibus. O assunto não é Paulo Henrique Amorim, Nassif, playboys e gente que nunca viu pobre (e nisso te dou alguma razão): é sobre os interesses da cidade.
    d) agora, me chamar de progressista, desculpa, vc me ofendeu. Eu não sou progressista – aliás, tento saber o que é isso de há muito, é só perguntar por aí. Há quem me chame de reaça inclusive :-D Era melhor você se informar um pouco antes de vir me atacar, será que não?
    Beijos
    c) quanto a me respeitar ou não, eu não tenho como falar o que quer que seja, a não ser que seja educada aqui na minha “casa”; de minha parte só posso dizer que não desqualifiquei você ou seu discurso.

  7. Lady Rasta, perdoe-me, a intenção não era atacar (há pessoas que ficariam felizes em serem chamadas de progressistas, eu , assim como você, ficaria ofendida). Tanto o meu progressista quanto o seu visceral foram mal interpretados.
    Eu não vejo essa visceralidade nos textos que citei.
    Como carioca eu sinto inveja enorme do sistema do metrô paulistano…(se tiver curiosidade procure saber como funciona aqui).

    Veja se essas respostas do autor dos textos te parecem muito viscerais : http://www.implicante.org/artigos/metro-de-higienopolis-a-revolucao-francesa-paulistana/#comment-1090

    http://www.implicante.org/artigos/metro-de-higienopolis-a-revolucao-francesa-paulistana/#comment-1097

    Há alguns pontos interessantes que pude apreender do que é dito: 1° O termo “gente diferenciada” parece ter sido criado pelo jornalista da Folha , 2° O abaixo assinado é de 2010 e quem estabeleceu o nexo causal abaixo-assinado X mudança do metrô foi o jornal.

    Esses 2 pontos já me bastariam pra desconfiar de que a celeuma toda não foi mais um artifício pra vender mais jornal. Não dá pra fazer leitura crítica seletiva, ou seja, há os que dizem Jornal “X” mente, mas só repete o bordão quando a notícia vai de encontro ao seu pensamento. Quando Jornal “X” diz algo que vai ao encontro de suas ideologias, aí nem param pra pensar se realmente a coisa é daquela forma como foi divulgada.

    No mais eu gosto de seu blog. Posso não concordar com uns 60% do que você diz, mas acho legal a forma como defende o que pensa. E encerro por aqui os comentários (nesse tópico), continuarei visitando o blog como sempre faço.

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