Quando mudam as perguntas

Minha bio no twitter diz: “tem opinião pra tudo, até para o que não conhece. mas está sempre certa”. Gosto de brincar dizendo que estou sempre certa porque numa discussão, quando por vezes vejo que me enganei, dou o braço a torcer e mudo de lado (não reclamem, isso é estar do lado certo afinal :-p)

Mas aí vem a adolescência do seu filho e você cai do cavalo. E não, não estou falando cair do cavalo em decorrência daquelas coisas que todo mundo espera: brigas, bateção de porta (ao menos elas não começaram ainda), drogas. Para isso eu vinha me preparando há anos (eu diria que vinha me preparando desde que ele nasceu).

Você cai do cavalo porque seu filho de 14 anos resolve ter dois AVCs. É, isso mesmo. AVC. Aquele treco que você acha que só acontece com velho e com balofo, mas não com uma criança saudável e esportista.

um dos dias mais aflitivos da minha vida

<abre parênteses> Não, ele não teve sequela alguma, e está tudo mais ou menos bem, e esse post não é pra fazer mundo cão. Quem me acompanha pelo twitter e facebook sabe o sufoco que foi aquela semana no hospital e as subsequentes, e eu não terei jamais palavras pra agradecer os inúmeros votos de melhoras (por vezes de gente que até então jamais havia falado comigo) durante aqueles dias. Tal como o Inagaki, acredito que a internet por aproxima as pessoas de forma quase mágica. Banana e chorona do jeito que sou – apesar de as pessoas não me enxergarem assim, sei lá porque-, tenho certeza que teria sido muito mais difícil atravessar aquela semana sem o apoio de tanta gente que perguntava, rezava, se preocupava comigo e com o meu filho. Não quero correr o risco de esquecer alguém, por isso vai aqui o meu agradecimento profundo a todos aqueles que nos apoiaram, que se preocuparam conosco. Não vou esquecer aqueles tweets nunca. Quem diz que internet só constrói relações superficiais realmente não entende nada. Tolinhos.  </fecha parênteses>

Mas voltando ao assunto: O problema do mundo sempre é depois  do felizes para sempre né? Pois então, quando os filhos melhoram as mães tombam. E algumas percebem que não são tão boas quanto gostariam. Que não são tão fortes quanto gostariam. Muito menos tão adultas ou racionais quanto se imaginavam. Ou tão sabichonas. E mais do que isso: elas simplesmente não conseguem ser fortes e equilibradas quanto precisariam para dar apoio aos filhos, simplesmente porque não aguentam vê-los ficar tristes. Alguém gosta de se olhar no espelho, ou para dentro de si e não gostar do que vê? Poizé, eu também não. Muito menos eu, a dona sabichona.

A gente *acha* que está preparado para vê-los seguir o caminho deles. A gente *acha* que está preparada para vê-los sofrer na frente da gente. E sabe? Por um tempo, quando as coisas são só privá-los do programa da televisão, do videogame, e a gente consegue dizer não, por vezes conseguimos acreditar que realmente estamos conseguindo ser suficiente duros (ou ao menos realistas) com nossos filhos. A gente até consegue ler esse texto da Eliane Brum, bater no peito e dizer: “eu não, eu sou diferente”.

A verdade? A verdade é que quando a porca torce o rabo, você percebe quão pouco tolerante às frustrações você próprio é, o quão infantil você ainda é e o quanto você não suporta ver seu filho sofrer, ainda que esse sofrimento seja muito relativo. Ver seu filho preocupado porque não sabe o que causou o incidente e ter medo de ter outro é muita coisa? Ficar sem jogar as finais das Olimpíadas da escola pelas quais ele esperava há um ano é muita coisa? Racionalmente não, mas para ele é muito. Para mim também. Eu choro quando não devia, e acho que o mundo não é lá muito justo. Infantil né? Também acho.

ele recebeu a medalha apesar de não ter jogado as finais

A verdade é que quando a porca torce o rabo você faria quase qualquer coisa para que seu filho pudesse viver de forma menos frustrante. Como diz aquela música do Ray Charles que o apdeites tuitou segundos depois de um daqueles telefonemas que têm feito com que eu respire fundo e consiga arrumar coragem sei lá de onde (é, telefonema dado por você mesmo, que tem tido uma paciência de Jó, e que tá quase merecendo ser canonizado, hehehe), “If I could – I’d protect you from the sadness in your eyes”. Mas não podemos né?

Eu sei. Vocês  vão dizer que são os micos de viagem que a tornam divertida, são as pedras na estrada que a tornam diferente de tantas outras, no fim a gente ri, bla bla bla… mas sabe… na hora em que o mocinho tá apanhando do bandido, a menina sempre quer que ele pare de apanhar. Faz qualquer coisa para que isso aconteça. E se a mocinha faz, imagine a mãe do mocinho, né?

Só que não tem jeito. Por mais que a gente não queira, chega uma hora em que os filhos vão ter que passar as provações e os perrengues deles. São os *deles* e não os nossos, e temos que entender isso. Ficar lamentando que eles tenham que passar por eles só vai piorar tudo para os filhos. Só vai fazer com que eles pensem que a vida deles é uma injustiça quando na verdade… Quem disse que o mundo seria justo, não é mesmo?

É por isso que tenho estado tão chateada. Porque treinei tanto pra nada. Porque de tanto treinar passes, tenho batido pênaltis que nem o Elano. Porque tenho discursos prontos para os mais diversos problemas e eles vão direto pro lixo (a menos que eu os venda pra alguém, hehehe).

Como bem diz o ditado, a gente se preocupa tanto em saber as respostas das perguntas, que um dia as tais perguntas mudam. Tem sido um belo exercício de humildade, devo admitir 🙂

13 pensamentos em “Quando mudam as perguntas”

  1. Eu pensei em tanta coisa enquanto estava lendo o texto que acho que não vou conseguir transformar em palavras. Eu já tinha me pegado pensando nesse tipo de coisa antes, ficando com dúvidas se estava preparado, para as coisas simples e as coisas complicadas da paternidade. Minha resposta — que vale para mim e provavelmente não vale para qualquer um — é que não adianta: eu nunca estarei preparado para tudo, nem mesmo para todas as coisas extremamente simples. Então o que vale é tentar fazer o meu melhor. Isso acho que estou fazendo. Pode ser que mais para a frente eu descubra que essa não teria sido a melhor opção, mas para o momento é. A felicidade que o meu filho demonstra a cada dia e até a manha que ele faz quando é contrariado parecem mostrar que o caminho certo está sendo trilhado. Sempre lembro do seu conselho de deixar livros por perto, para ele ir se acostumando. Ele ainda não tem três anos e já os adora. Hoje mesmo chorou no carro porque percebeu que tinha esquecido o livro João e o Pé de Feijão. Não creio que seja sempre que eu sei lidar com as atitudes dele, mas acho que a gente vai, mesmo sem perceber, se adequando às perguntas que mudam. Se você parar para pensar, vai ver que as perguntas não mudaram agora; elas vieram mudando ao longo dos anos, meses e até dias ou horas. Mas as mudanças eram sutis. Quando vem uma mudança grande parece novidade. Não é. O tempo da mudança é que é. A adaptação acaba chegando. Pode só demorar um pouco mais. Sei lá. Eu disse que não saberia colocar meus pensamentos em forma de palavras aqui… 🙂 (Ah, sim, e adorei a camisa dos Steelers que ele está usando na segunda foto!)

  2. É, eu chorei sim, e daí? Eu tenho desculpa pra chorar por tudo (pq eu sou canceriana, né!?) e você que é sargitariana fodona????

    E, fora isso, eu não vou dizer nada, porque, né, falar o que?

    Amo (eu também posso falar isso pq sou canceriana!) vcs 2!

  3. Lorde Rasta Jr é muito maior e mais bonito do que eu pensava 😉

    Eu também chorei – e olha que eu sou sagitariana fodona hahahah! Mas eu tenho mais que uma desculpa boa pra chorar: eu tenho uma mãe que passou pelas mesmas coisas. E ler estando do outro lado é… emocionante, no mínimo.

    Do lado de cá, nós também ficamos preocupados – e muito – com vocês. Eu e ele podemos ter quase 10 anos de diferença mas aposto que esse sentimento não muda de filho pra filho.

    Fiquem bem, mães. A gente vai sair dessa 🙂

  4. Emocionante o texto, me identifiquei 100% porque tenho os mesmos sentimentos.
    O dito popular está certo: mãe é tudo igual, só muda o RG 🙂
    Força, poderosa! Boas energias e bons fluidos ao clã Rasta!

  5. Oi linda Lady,

    cá estou, berrando de chorar como a mocinha canceriana aí de cima. Só que eu sou virginiana – e como não entendo nada de signo não sei dizer se faz ou não parte da minha personalidade…

    Eu me vi lembrando o contrário. Do quanto foi difícil ver minha mãe passar por tudo que passou. E, ao final, assistir ela ir embora sem conseguir dar uma de super mulher e mudar todo o curso da história.

    Sim, eu, a espírita tão bem doutrinada, que desde os onze anos estuda mais o plano espiritual que esse planeta de aprendizado e pedras nos caminhos, queria que tudo parasse e voltasse atrás, para que ela pudesse continuar sendo minha mãe brava e linda, puxando minha orelha dia sim, outro também. Aqui. Juntinho de mim.

    Lembrei, ao ler seu texto, de como nunca consegui sentir dentro de mim o sofrimento que ela teve quando perdeu sua filha, com apenas sete anos de idade. E de como ficou neurótica com qualquer doença nossa, sem ao mesmo tempo conseguir entrar em um hospital conosco sem passar mal…

    Lembrei enfim, de como ela se preocupava com o destino dessa caçula irritante, enjoada, romântica e questionadora, achando que meu fim seria no mínimo trágico e, no fim das contas, não virei a alcoólatra que ela temia, nem a solteirona resmungona e fanática que ela não suportaria (ok, resmungona eu sou).

    Vocês, mães, são tudo de bom. Não tem fórmula mágica pra serem isso, pois vocês são e ponto. E vocês não precisam se tornar essa fortaleza toda, sabe? Filho gosta de ver que, no fim das contas, mãe é manteiga derretida igual a gente.

    E falando em manteiga derretida, continuo chorando aqui.

    Beijos pra você e seu campeão.

    @Adriana_Torres

  6. Ai, ai, ai. Vendo LordRasta Jr. ontem quase dá pra esquecer o perrengue que você passou. Lindo, falante, inteligente; aí a gente lembra que de todas as injustiças, a mais injusta do mundo (e que teimamos em não compreender e aceitar) é que coisas ruins também acontecem com pessoas boas. Ser “bom” é o caminho, não um treinamento para no fim ganhar um prêmio.

    Muito bom ver esse texto, muito bom ver você e ele fortes e felizes como estavam ontem. Pois é exatamente o lugar onde vocês merecem estar. 🙂

  7. Ainda bem que não foi nada de grave, e sobretudo, não houve sequelas. Saude e força para ele!

  8. vc e leozinho são mtooo incriveis!!
    nossos filhos são a oportunidade q tivemos e o seu já é!! a prova de q é possivel fazer diferente, q é possivel se relacionar com eles com qualidade, respeito e amor de verdade.

  9. OI, espero q seu filho esteja 100%, q lindo ele é!
    Que barra, meu filhote tem 14 meses e ja passou por uma cirurgia(de rins) e parece q nnunca estamos preparadas p esses eventos..

    Queria aproveitar e te convidar a conhecer o Clube das mães e pais blogueiros (http://maesepaisblogueiros.com). O Clube é uma rede social voltada para genitores que estão presentes na Internet e seu objetivo principal é dar voz aos blogs maternos, fazendo-os crescer e se destacar.
    Um abraço!

    Daniela

  10. Caracoles! Belo texto, me emocionou de vdd.

    Damm, se todos os pais tivessem a sua humildade, que maravilha seria viver!

  11. Olá Flávia, tudo bem?

    Fazia um tempinho que gostaria de ler esse texto e hoje (embora esteja estudando…), consegui!
    Estou chorando até agora e não sei se conseguirei expressar o que estou sentindo.
    Agora mesmo, meu filho de 09 anos estava chorando porque queria ver TV e já são 23hs! Ou seja, escola amanhã cedo! E eu na sala de casa estudando e ouvindo o choro lá longe e sem poder dizer para ele, vem pra cá, ficar com a mamãe e assistir um pouquinho de TV.
    Quando paro para pensar no que será quando ele tiver 14 anos como o seu, que espero que esteja bem! Fico com medo de imaginar o que farei na primeira vez que ele quizer sair de casa sozinho sem mim…
    Sou uma mãe babona, chorona… Minha família fala que sou daquelas mães italianas que quer o filho bem embaixo das asas, que não pode imaginar um almoço de domingo sem toda a família reunida, pois sou assim! E sei que vou sofrer ao deixar meu filho fofíssimo sair de casa!
    Espero que consiga ter esse equilíbio e confiar na educação que dei à ele e continuo dando, que ele consiga como nós mães, ver além do que os olhos podem ver, mas, como sabemos (nós mães), só o tempo vai dizer e mostrar!
    Muito obrigada pelo texto lindo e sensível!
    Bjs
    Alessandra

  12. Realmente espetacular.Em vários momentos parece que fala de nós mesmas.
    “Filhos…Melhor não tê-los,mas se não tê-los, como sabê-los.”
    Boa sorte e tudo de bom para vc e seu filho.Espero que ele tenha noção da mãe maravilhosa ele tem.
    Sabichonas?Todas nós mães achamos que somos.E vai ver somos mesmo.

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