Youkali e os tons de cinza

Passeando com um dos meus amigos mais queridos da vida (falo dele no último trecho deste post) sábado na feira orgânica da Barra Funda, comentava sobre  um dos últimos textos do Contardo Calligaris, que eu adorei e que muita gente viu como um soco no estômago.

Segundo o Contardo Calligaris, depressão acontece quando as pessoas não conseguem mais ver o encanto do cotidiano, aquilo que eu chamo de ver ritual onde as pessoas vêem rotina aborrecida, ver cor no dia a dia, nas pequenas coisas, porque é disso afinal, que a vida é feita: de pequenos momentos aqui e ali, e não dos momentos grandiosos, dos acontecimentos retumbantes. Estes têm sua força, nos nutrem por certo, mas é nas cores do dia a dia, é na conversa de todo santo  jantar, naquele telefone de boa noite ou pra dizer “não tive um dia bom e precisava falar com você” que as relações se constroem e a vida acontece.

Aí ele responde: ” o problema está justamente aí: não é que você não vê cor; às vezes você até vê cor, mas as únicas cores que você vê são vários tons de cinza”.

Tive que concordar. Quem nunca esteve lá no fundo do poço que atire a primeira pedra.

Inconscientemente ou não (ele sempre teve o dom de saber o que acontece comigo sem que nem mesmo eu saiba, aquela peste), depois do almoço ele me mostrou um vídeo lindo, da soprano Teresa Stratas (que eu, felizmente eterna ignorante, não conhecia), um Tango Habanera tristíssimo chamado Youkali, de Kurt Weill (o mesmo que escreveu a deliciosa Speak Low), cuja música sem a letra originariamente fazia parte de uma peça chamada Marie Galante e que merece ser visto:

 

A

A letra é linda:

C’est presqu’au bout du monde
Ma barque vagabonde
Errant au gré de l’onde
M’y conduisit un jour
L’île est toute petite
Mais la fée qui l’habite
Gentiment nous invite
À en faire le tour

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Youkali
C’est la terre où l’on quitte tous les soucis
C’est, dans notre nuit, comme une éclaircie
L’étoile qu’on suit
C’est Youkali

Youkali
C’est le respect de tous les voeux échangés
Youkali
C’est le pays des beaux amours partagés
C’est l’espérance
Qui est au coeur de tous les humains
La délivrance
Que nous attendons tous pour demain

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

Et la vie nous entraîne
Lassante, quotidienne
Mais la pauvre âme humaine
Cherchant partout l’oubli
À, pour quitter la terre
Se trouver le mystère
Où nos rêves se terrent
En quelque Youkali

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Youkali
C’est la terre où l’on quitte tous les soucis
C’est, dans notre nuit, comme une éclaircie
L’étoile qu’on suit
C’est Youkali

Youkali
C’est le respect de tous les voeux échangés
Youkali
C’est le pays des beaux amours partagés
C’est l’espérance
Qui est au coeur de tous les humains
La délivrance
Que nous attendons tous pour demain

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

(a versão em inglês, pra quem não entende francês, está aqui)

Chorei de borrar o rímel vendo o vídeo. Tá tudo misturado ali: tem mulher velha com moço moço, mulher com mulher, velhinhos, gente gorda, gente magra, todo mundo dançando feliz… Tem esperança. Tem serenidade. Tudo flui.

Mas como a letra bem diz,  isso não existe, né? Principalmente nos dias intolerantes de hoje. Youkali é só um sonho, uma loucura, não existe, nos conta a letra.

O problema é quando a gente não consegue sequer sonhar com ele. Como eu sempre digo, a pior coisa que pode acontecer a alguém é sentir desesperança, ter a plena convicção de que vai ver tudo cinza pra sempre e o pior: se conformar com isso, sequer ter forças de se revoltar com essa cinzidão toda. Ter forças somente para respirar fundo e olhar para o outro lado, colocando um sorriso no rosto quando vê que vai chorar se parar pra pensar em determinados aspectos da vida, porque se parar para pensar, vai chorar dias a fio e entrar num buraco de dar medo aos mais corajosos. Só quem já esteve (ou está) lá sabe como é isso. Não quero isso para o meu pior inimigo. Vou contar pra vocês: sorte daqueles que ainda conseguem sonhar com Youkali.

 

 

9 pensamentos em “Youkali e os tons de cinza”

  1. Flavia, gostei muito da música. Linda mesmo =)
    Sobre depressão, concordo que é enxergar tudo cinza. Aprendi que, dependendo do caso, não adianta mostrar pro depressivo que a vida vale a pena. Pois às vezes ele SABE disso, mas não SENTE isso. E acaba se sentindo culpado por ter uma vida bacana e mesmo assim se sentir mal.
    Sentir de novo o colorido da vida exige treino, paciência e esperança. Resolver pendências e problemas antigos ajuda na renovação do ânimo. Também as pequenas alegrias são fundamentais, como você disse. No meu caso, como quando pude ir a um show de tango aí em SP, ou quando eu voltar aí pra próxima ópera do municipal. Ou simplesmente vendo um vídeo que une dois mundos que eu gosto: o do tango e o do canto lírico. Life is good 😉
    bjs

  2. A modernidade ou a pós-modernidade esticou as coisas: telefones andam nos bolsos, luzes se acendem ao tom da voz, compra-se Nova Iorque enfiado no meio do mato em Teutônia, a Sandy virou “Devassa”, mas.

    Mas não se esticou a lucidez ou a serenidade de orbitar em meio a tantas bugigangas e informações sem pirar ou afundar – a menos que se carregue Youkali por dentro , de algum jeito, e se lance essa âncora do bem quando o mar se torna borrascoso e o navio ameaça soçobrar.

    Linda reflexão. Que haja Youkalis. Que chovam também sobre quem não presta, inimigos e caretas. E que haja doçura neles, como a da música.

  3. Amei tanto quando vc me mostrou esse vídeo, lembra?
    Pois é, hoje tava espumando de ódio do ex-proprietário da minha casa quando lembrei das últimas palavras dele antes de sair. Depois de todo arroubo maluco ele se foi contando: eu tô muito triste. Muito triste mesmo. E você via a dor do cara. Mesmo antes dele se acalmar. Mesmo quando ele tava pirando e perdendo a razão, você via o tamanho do sofrimento. Todo o vocabulário dele só tinha palavras-cinzas (como no melancolia do lars von trier – mesmo a melhor comida tem gosto de cinzas); ele falava em destruição, dor, sofrimento, onde eu e o Gabriel só vimos alegria, esperança, risada. O mesmo lugar e duas perspectivas completamente diferentes. Foi foda.
    (Mas já troquei a chave, viu? Que não sou boba. rs)

  4. Olá! Tudo bem?

    Adorei o blog!

    Gostaria de entrar em contato para fazer uma proposta interessante para o blog.

    Aguardo seu retorno.

    Grata,
    Anabela.

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