Direito e Internet – Algumas Reflexões

Semana passada estive presente ao I CiberJur – Congresso Nacional de Direito e Tecnologia. Tenho achado muito bacana ver direito e internet discutidos com maior frequência (foi tema também do Social Media Week São Paulo), algumas palestras (como a do Alexandre Atheniense) foram instrutivas para mim, mas em outros campos, senti falta de um aprofundamento maior da matéria, abordando temas além de exposição de da pessoa, de imagem, direitos autorais e segurança.

O Congresso realmente procurou abarcar inúmeros temas (adorei uma discussão sobre direito autoral sobre comentários em blogs, por exemplo) e justamente por isso seria impossível termos profundidade.

Mas senti falta de uma maior intimidade com a internet por parte dos advogados lá presentes, sabem? A verdade é que a comunidade jurídica ainda é pouco familiarizada com ela. Seria de se esperar que em um Congresso de Direito e Tecnologia, o tema estivesse sendo ventilado pesadamente nas mídias sociais, como o Twitter por exemplo. Foi com muita decepção que constatei que uns 10 advogados, se tanto, estavam tuitando o evento. E aí fica a pergunta: será que dá pra ser especializado na área se você não vive o seu cotidiano?

A seguir um resumo do que vi e discuti e do que não vi e queria ter visto. Como disse, acho que há muito assunto além de propriedade intelectual, exposição na internet e comportamento. Faz-se mister avançar, porque a internet é rápida e não vai esperar a comunidade jurídica, sinto informar. Já estamos demorando bastante

Internet e direito do trabalho

Infelizmente, perdi uma palestra interessantíssima sobre internet e direito do trabalho. No entanto, o José Vitor esteve presente a ela e apesar de ter perguntado uma de minhas dúvidas principais, não obteve nenhuma resposta conclusiva. Tenho estado um tanto quanto preocupada (e agora receberei uma chuva de reclamações, mas aqui quem está escrevendo é a advogada e não a blogueira, desculpem) com os perfis que descrevem o cargo e a empresa da pessoa e a possibilidade de cobrança de horas extras no futuro. Eu sei que Twitter apaga o conteúdo três meses para trás, eu sei que a prova é meio complicada, mas eu também sei que a Justiça do Trabalho em algumas situações é bem favorável ao empregado, e a depender da forma como o perfil esteja descrito e do conteúdo deste, não acho difícil uma equiparação à jurisprudência do telefone celular e aos antigos bips (basta dizer que há julgados dizendo que basta a “o constante estado de alerta e disposição do empregado em relação ao empregador” . Quanto aos perfis que têm o nome da empresa em suas “arrobas” (por exemplo, @jose_jornaldascouves, eu diria quase que com 100% de chance de acertar que as empresas deveriam se preocupar com a Justiça do Trabalho – e gostaria muitíssimo de ver temas como esse mais discutidos.

Sem dúvida, discutir comportamento na internet, relacionamento empregado-clientes, empregado-patrão, comportamento de uma forma geral, critérios de demissão, danos à imagem da empresa em razão de política de demissões baseado em comportamento na internet é sem dúvida importante, não discuto isso. Mas com todo o respeito, são temas sem maiores dificuldades acadêmicas e daqui por diante aos advogados caberá antes um trabalho de evangelização ( o termo é bem esse) de seus clientes do que propriamente de estudo aprofundado do tema, de uma vez que estamos tratando de regras comezinhas de direito – enquanto isso, tem muito assunto bacana dando sopa por aí, né?

Agências Publicitárias e Advogados

Outro tema que tem me interessado muito é a mudança do perfil do advogado com o advento das mídias sociais.

Participei de uma discussão calorosa sobre qual seria a solução em casos de gerenciamento de crise, e devo dizer que nesse aspecto sou (para variar) totalmente contra a corrente majoritária.

Isto porque enquanto alguns entendem que um dos trabalhos principais do advogado hoje em dia é retirada de conteúdo desabonador, eu estou firmemente convicta que nos casos envolvendo ações publicitárias desastradas ou naquelas onde surjam problemas, ou ainda naqueles casos envolvendo direito do consumidor, medidas jurídicas visando a retirada de conteúdo (apesar de tecnicamente corretas, ressalto), têm um efeito nefasto nas redes sociais, causando um dano à imagem da marca ainda maior do que aquele que se visava evitar inicialmente.

Cliente contrariado sempre atrai a simpatia do público, que em última instância não deixa de ser cliente. Advogado não é publicitário, não tem que dar pitaco,  dirão alguns, e é bem verdade. Mas de nada adianta tomar uma medida jurídica tecnicamente correta visando sanar um problema da empresa se você vai criar outro, e acredito que a função de um bom advogado seja olhar para todos os aspectos do caso. Não aprovo portanto tais medidas nos casos que envolvam direitos do consumidor e campanhas publicitárias.

No calor da discussão, perguntaram o que eu acho correto fazer. Em primeiro lugar, acho que está na hora de publicitários e advogados deporem armas e trabalharem em conjunto, ao menos quando estamos falando de internet, porque é uma área sensível onde não basta só conhecer a legislação; há que também conhecer a reação da internet (falo dela como algo vivo, porque a vejo assim).

A meu ver, a partir do momento em que o cliente aprovou uma ação a ser veiculada na internet, o advogado precisa participar de tudo: desenvolvimento de aplicativos, adequação de regulamentos, revisão de contratos de parceiros, tudo isso adequado ao ambiente eletrônico, que é muito diferente dos outros em função da sua rapidez e abrangência – além de estarmos num meio híbrido, que passa a ideia de informalidade mas é escrito, publicado.Cumpre lembrar ainda que em termos de custo a advocacia preventiva é sempre muito menos custosa que a litigiosa – além de evitar danos à imagem da empresa.

Há casos por certo, em que mesmo com todos os cuidados tomados, o conflito instaurar-se-á. Nesse caso, devemos tomar o caminho da retirada de conteúdo? Eu ainda acho que essa é uma medida extrema que só deve ser tomada depois de muita reflexão. Acredito na solução de conflitos via acordo, em um tripé entre departamento de marketing, departamento jurídico e relações públicas das empresas. Aos advogados cumpre agir em consonância com os demais, o legal caminhando com a boa imagem da empresa. Estamos falando de consumidores, de público, e não podemos vê-los como inimigos, como “outra parte”; é por isso que esse tipo de advocacia deve ser menos truculenta na forma de agir – o que não significa de forma alguma, que não seja menos efetiva. É para se pensar, certo?

Direito ao silêncio do chip

Outra palestra que perdi que me pareceu muito interessante: hoje em dia, os passaportes americanos (e se entendi corretamente por esse texto aqui, os brasileiros também) têm um chip que o identificam. O problema é que eles não fazem só isso: identificam, por exemplo, quem é americano para outras pessoas. Um americano, dentro de pouco tempo, não terá o direito de circular pelo mundo sem as pessoas saberem que ele é americano e provavelmente as pessoas de outra cidadania também.

Isso deve ser complicado para um americano circulando pelo Afeganistão, mas igualmente complicado para um iraniano no meio oeste americano, imagino.

Só que a coisa não para por aí. Dentro em pouco tempo, não é só o Google que vai saber tudo o que nós pesquisamos na internet: empresas vão saber tudo o que nós compramos e possuímos dentro de casa graças aos chips que os produtos possuirão. É isso que deve e precisa ser estudado e regulamentado – a menos que ninguém se preocupe com qualquer tipo de privacidade (há quem acredite que se ninguém tiver privacidade isso não vai ser mais importante, é um ponto a se pensar também).

Como vocês percebem, há muito mais coisa a ser estudada na internet além de segurança, exposição e direitos autorais. Que venham mais debates e mais fóruns 🙂

 

 

 

Se pode marcha da maconha, pode marcha do nazismo e pró-homofobia, né?

Ontem houve julgamento da ação mencionada nesse post, proposta pela minha ídola Débora Duprat, onde a marcha pedindo a liberação de drogas proibidas, conhecida como “ marcha da maconha”, foi liberada, mandando de volta para os bancos da academia o Desembargador paulistano Teodomiro Fernandez e o membro do Ministério Público Marcelo Luiz Barone (o qual, ao invés de defender a liberdade de expressão, entendeu ser seu dever coibí-la).

 

Procuradora Geral da República, Débora Duprat, por Fellipe Sampaio

Destaco trecho da matéria do Conjur:

“Ministro Celso de Mello deixou claro que a defesa pública da legalização é lícita, embora não implique em uma permissão do uso de psicoativos durante esse tipo de ato. Pelo contrário, somente na via pública os cidadãos poderão “propor soluções, expressar o seu pensamento, exercer o direito de petição e, mediante atos de proselitismo, conquistar novos adeptos e seguidores para a causa que defendem”. Essa possibilidade de reunião, acredita o decano, é tanto uma liberdade, quanto uma obrigação que deve ser garantida pelo Estado. “

Foi uma grande vitória para as liberdades civis, mais uma, e o STF mais uma vez cumpriu seu papel de forma magnífica, com voto brilhante do Ministro relator Celso Mello. Os votos foram inclusive bem humoradíssimos, com a Ministra Carmem Lúcia destacando a criatividade dos manifestantes criando a alternativa “marcha da pamonha”, e o Ministro Aurélio afirmando que o voto do Ministro Celso de Mello tinha sido muito bem “baseado” (gíria que é sinônimo do cigarro de maconha).

No entanto, durante o julgamento, algumas vozes no twitter me assustaram um pouco, pois ouvia-se, aqui e ali, argumentos no sentido de que, se era possível sair às ruas para pedir a descriminalização de um produto proibido, tendo em vista que isso não seria apologia ao crime, poder-se-ia também sair às ruas apregoando o nazismo.

A mim tal argumento soa absurdo; me parece claro que sair às ruas pedindo para que você possa fazer algo sem coagir alguém é bastante distinto de sair às ruas pleiteando para discriminar outrem, não?

Não esquecendo nunca daquela máxima que o seu direito termina quando começa o do próximo. Mas vivemos mesmo em tempos estranhos.

Tanto vivemos que até mesmo jornalistas trabalhando em empresas conceituadas têm ideias equivocadas quanto à liberdade de expressão no país

 

Para esclarecer esses equívocos, é importante que se ressaltem as palavras do Ministro Marco Aurélio, que  em voto curto mas esclarecedor, nos ensina:

“O que extraio da Convenção? De início, o direito à liberdade de expressão é irrestringível na via legislativa. Cabe ao Estado somente tomar as providências para responsabilizar ulteriormente os excessos – artigo 13 (1) e (3). E por que estou recorrendo à Convenção? Porque o artigo 13 (5) prevê claramente as hipóteses em que é admissível a restrição à liberdade de expressão. Observem: 5. A lei deve proibir toda propaganda a favor da guerra, bem como toda apologia ao ódio nacional, racial ou religioso que constitua incitamento à discriminação, à hostilidade, ao crime ou à violência. Parece-me, portanto, ser legítimo afirmar ter havido derrogação do artigo 287 do Código Penal com o advento do Pacto de São José da Costa Rica. A conjugação dos preceitos 13 (1) e 13 (5) conduz à conclusão de que somente são legítimos os crimes de opinião quando relacionados ao ódio nacional, racial ou religioso bem como a toda propaganda em favor da guerra. Fora disso, o reconhecimento de que a emissão de opinião pode configurar crime deve ser considerado proscrito pelo referido Tratado.”

Creio que esteja bem claro, não? Ou preciso chamar o Conselheiro Acácio pra explicar? 🙂

****

P.S. Obrigada ao Fernando por ter dado a pauta pra esse post. É que pra mim é tão óbvio…

P.S. Minha total decepção com Dora Kramer, que eu julgava ser uma jornalista ao menos ponderada. O twitter destrói reputações, fazer o quê…

 

 

 

Marcha da Maconha pode ser autorizada pelo STF

Falei semana passada sobre a proibição da Marcha da Maconha, e do quanto eu achava importante ficar atento ao que o Poder Judiciário, mormente o Ministério Público e os Tribunais (no caso, Paulistas) andavam aprontando.

Ontem, apesar de ter sido proibida,  houve uma manifestação pacífica linda (infelizmente não pude ir, apesar de ter acompanhado bem de perto), mas ainda não é possível, ao menos no Estado de São Paulo, a realização de uma passeata reivindicando o fim da criminalização do uso da maconha.

Pois bem: dando uma passeada pela internet, descobri que a Débora Duprat, enquanto esteve à frente da Procuradoria Geral da República, preocupada com tais proibições, propôs duas ações sobre o tema: uma Ação por Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 187), e outra Direta de Inconstitucionalidade, as quais, segundo matéria do Conjur, pedem “liminar para suspender, até o julgamento final das ações, qualquer entendimento judicial no sentido de que o artigo 33, parágrafo segundo, da Lei 11.343/2006 (ADI 4.274) e o artigo 287 do Código Penal (ADPF 187), possa ensejar a criminalização da defesa da legalização das drogas, inclusive por manifestações e eventos públicos. E, no mérito, a confirmação da liminar”. Separei uns trechinhos da petição inicial para vocês (não está em advoguês, é non-lawyers friendly 😀 ):

 

 

 

 

Fui ao site do STF ver em que pé estavam as ações. Uma está nas mãos do Ministro Relator, Celso de Mello, para análise, desde maio desse ano e… uhuuuuu!! O Ministro determinou que ela seja colocada em pauta (ou seja, que ela seja enviada a julgamento):

A outra ação (Direta de Inconstitucionalidade 4287) está  no Gabinete do Ministro Relator, Ayres Britto, desde 2009.

Não sei qual é a previsão de julgamento para estes processos, mas certamente é interessante que as organizações da sociedade civil fiquem atentas a ele e na medida do possível, tentem agendar audiências com os Ministros explicando a urgência desse julgamento, ante às cenas terríveis que vimos na semana passada. O que vocês acham?

E vai aqui, mais uma vez, todo meu respeito e admiração pela Débora Duprat, que em pouquíssimo tempo na Procuradoria Geral da República tratou de colocar em discussão itens delicados e fundamentais para a evolução da sociedade brasileira.

Débora, sua linda, um salve pra você!

Repressão à Marcha da Maconha: matar o mensageiro não adianta

Independente de qual seja minha postura no que tange à liberação do uso da maconha no país (minhas posições estão aqui e aqui), e mesmo tendo me indignado com a forma como a Polícia Limitar reprimiu a manifestação ocorrida, há alguns pontos que devem ser ressaltados para que os fatos lastimáveis que ocorreram ontem não virem apenas mais um capítulo do FlaXFlu político que assola o país.

Sim, o Governo Estadual Paulista agiu com extremo rigor na repressão da marcha a ser realizada ontem. Sim, eu fiquei pasma, assustada com o que ocorreu (e sendo bem egoísta, ainda mais aterrorizada porque meu filho havia saído para ir ao cinema na Avenida Paulista minutos antes das bombas serem deflagradas contra os manifestantes).

No entanto, ainda que eu deteste dizer isso, o argumento da Polícia Civil é de ser levado em conta: eles estavam cumprindo ordem judicial. Sim, eu sei que há várias ordens judiciais que acabam não sendo cumpridas por parte do Governo, mas normalmente elas são de menor visibilidade do que a exarada para reprimir a manifestação de ontem.

Claro, há que se cobrar uma manifestação e justificativa do Governador do Estado, de uma vez que até onde se sabe, havia sido feito um acordo sobre a mudança de objetivos da passeata: de pedido de descriminalização do uso da maconha a passeata seria a favor da liberdade de expressão, em virtude da proibição da 1a pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.

Mas além disso, creio ser fundamental também questionar o Ministério Público, órgão que possui profissionais de qualidade ímpar, funcionários estes que possuem independência funcional (e é preciso que seja assim, sob pena de seus membros sofrerem pressões para tomar esta ou aquela postura – e a despeito de tal prerrogativa da independência, essas pressões por vezes podem existir, acreditem).

Qual a função do Ministério Público? O Promotor do caso a exerceu com maestria? Esse texto responde muito bem:

“ O representante do Ministério Público está comprometido só, tão-somente, com a ordem jurídica, com o regime democrático e com os interesses indisponíveis da sociedade, definidos na Constituição e nas leis. Em momento algum, deve esse membro vergar ao peso das pressões políticas, quer sejam intra ou extra institucionais.”

Deve o representante do Ministério Público portanto, defender a lei e sua aplicação, com independência funcional, de acordo com sua consciência – mas é evidente que sua consciência (ao menos no que tange ao exercício da profissão) está condicionada ao que preconiza a lei e às formas técnicas de sua interpretação e harmonização.

Não li a peça do Promotor Marcelo Luiz Barone para saber se ele abordou de forma clara como se coadunaria o princípio da liberdade de expressão com o crime de “apologia ao crime” e similares; no entanto, a mim parece que o princípio do “onde a lei não distingue, não cabe ao julgador distinguir (ubi lexnon distinguit nec nos distinguere debemus), e a Constituição é bem clara quando menciona a liberdade de expressão:

Art. 5°, IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

Art. 5°, IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

Art. 5°, XIV – é assegurado a todos o acesso à informação e resguardo do sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional;

Art. 220 – A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a. informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.

[…]

§2° – É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.

Ressalte-se que, salvo engano, não há na Constituição Federal artigos mencionando crime de apologia ao crime ou incitação ao uso de drogas (e Deus sabe que essa Constituição pouco faltou para ter até receita de bolo, haja vista a imensa quantidade de artigos, alguns deles a meu ver desnecessários numa Carta Magna), mostrando que os artigos lá inculcados representam valores maiores do que as leis ordinárias, que a eles devem obedecer.

Pergunto eu: terá o Promotor de Justiça realmente defendido a lei, ou teria ele distorcido de molde a embasar, ainda que de forma pífia, suas convicções pessoais? E quanto ao Desembargador Teodomiro Cerilo Mendez Fernandez?  Terá ele exarado despacho digno de um desembargador de Justiça, aplicando a lei corretamente, ou terá colocado suas convicções pessoais à frente dela? Como são os desempenhos médios desses profissionais? Qual a média de revisão de decisões que eles têm nos Tribunais Superiores? São sempre mantidas? São reformadas em grande número? De minha parte devo dizer que fiquei um tanto quanto consternada ao descobrir que, ao que tudo indica (e tais notícias devem ser apuradas com cuidado a fim de não se ferir a honra de outrem) o N. Desembargador Teodomiro Fernandez não seria iniciante na arte de prestar desserviços à sociedade e mesmo de causar violência.

ESSAS a meu ver são as principais perguntas a ser feitas pela sociedade: porque se de um lado todos se lembram do nome do Governador, quase ninguém sabe os nomes dos reais e efetivos causadores daquela repressão medieval ocorrida ontem. Pensem nisso 😉

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Frechadas merecidas e imerecidas no “Livro do MEC”

Confesso que eu mesma fiquei contra o livro, o MEC e quem mais se dispusesse a defendê-los no início da polêmica, tendo em vista que estes estariam preconizando não haver mais “certo ou errado na Língua Portuguesa, e que doravante iria rolar um liberou geral”. No entanto, conversando (obrigada ao Doni e à Mahayana), pesquisando e pensando um pouco, refiz meu juízo de valor, o qual basicamente hoje consiste no seguinte:

O jeca forma os seus plurais com a mesma inteligência e economia do inglês; diz, por exemplo, “as casa”, “os home”, “as muíé”, em vez de dizer redudantemente como o português, “as casas”, “os homens”, ” as mulheres”. O inglês diz “the men”, “the women”, “the houses” – a mesma coisa que o jeca, só que invertido. Se pondo apenas o artigo no plural a frase fica perfeitamente clara, para que botar no plural também o substantivo? pensa com muita razão o jeca e o inglês faz o mesmo raciocínio quando pluraliza o substantivo e não mexe no artigo.” (Monteiro Lobato, tirado do post do Sergio Leo que merece leitura integral)

1. Livro NÃO diz que é certo escrever errado

Na verdade, o que o livro (tenta) dizer é que há diversas formas de se falar ou escrever algo, como se existissem (como de fato existem) diversos dialetos dentro da Língua Portuguesa (o que escrevemos na internet e no sms, com várias abreviações, ou e-mails informais, onde “vc” é algo corriqueiro, assim com “fds”). Guimarães Rosa também sempre escreveu dando um toque de regionalismo a seus textos, e o paulistês das músicas de Adoniran Barbosa é famoso. Aquela forma de falar tem toda uma lógica, como bem ressaltou Sírio Possenti em artigo pra lá de didático.

Ficaram muito bravos comigo quando relacionei a questão “os livro” e “os livros” com o sinal conhecido para finalizar as refeições, mas continuo achando ele bom: a forma de se sinalizar o final de uma refeição é deixando os talheres sobre o prato; no entanto, pessoas “educadas” sabem que jamais, nunca, em nenhuma hipótese, você coloca os talheres em “x”; eles “devem” ser colocados em paralelo (há uma divergência se eles podem ser colocados de forma parela ou formado ângulo de 90o com a mesa, mas isso é preciosismo   :-p)

A maioria de vocês dirá: ah Flavia, isso é uma idiotice, o importante é mostrar que se está satisfeito e encerrou a refeição! Poizé, o mesmo dirão aqueles que escrevem “os livro”: dá pra entender perfeitamente que aquilo é um plural, pra que tanta bagunça com o assunto? Eu hein?

O princípio é o mesmo. Quem diz que “ah, mas português não é o mesmo que etiqueta” não está se colocando no lugar de alguém que sempre falou ‘ os livro’ e foi entendido. Como você vai explicar que tudo o que ele fez até então estava errado? Não dá. Porque ele não vai entender, da mesma forma que vocês não vão entender se eu tiver uma síncope nervosa se empilharem pratos ao tirá-los da mesa. Simples assim. E por que isso? Porque é convenção. A língua é viva, mas salvo engano, o que se convenciona chamar de correto é, (acacianamente definindo), con-ven-ção.

Em resumo: o que o livro diz (ou tenta dizer, de forma um tanto desazada, confesso) é que você até pode falar “os livro”, mas essa não é a forma adotada pela gramática “oficial”, e ao não falar ou aprender a forma “oficial”, você será considerado burrão pela maioria das pessoas e sofrerá preconceito por isso. Não tem nenhuma mentira aí: a gente enxerga mesmo como mal educado (ou melhor, instruído) aqueles que não escrevem ou falam corretamente; o que talvez seja mais difícil enxergar é que somente uma convenção definiu o que é certo ou errado (a ABNT também tem uma convenção chatérima para citações de obras, o processo é similar).

 

<abre parênteses> A Mahayana vai chiar um pouquinho aqui, dizendo que o ideal seria que não houvesse restrições ou reprimendas pelo falar diferente, mas aí fico o Marcelo Soares que, ao compartilhar texto sobre o tema disse:

“A propósito, estou lendo o excelente livro “The Information”, do James Gleick. Exatamente no capítulo em que eu estou lendo, ele conta como a língua inglesa se padronizou lentamente a partir do século 16, por conta de necessidades comerciais (os documentos precisavam ser unívocos). Até então, “keep”, “keepe” e talvez até “kyp” eram grafias aceitáveis para o verbo “manter”. Diz Gleick que Newton escreveu em latim principalmente para garantir univocidade. Ou seja: se for olhar pela própria história da gramática, fica claro que ela não é “certa” ou “errada”, e sim convencionada para os fins a serem atingidos” </fecha parênteses>

É importante ressaltar que “nós”, os instruídos, também fazemos isso o tempo todo. Eu DUVI -DE-O-DÓ que alguém aí fale no dia a dia utilizando a forma preconizada pela gramática normativa (brincando no Twitter disse que deveria ser muito engraçado fazer sexo falando como os gramáticos o exigem. Já pensaram? Poizé) 😉

De tanto leva “frechada” do teu olhar
Meu peito até parece sabe o quê?
“Táubua” de tiro ao Álvaro
Não tem mais onde furá

(Tiro ao Alvaro, de Adoniran Barbosa)

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=ACg4OxVDr_w/youtube]

 

 

 

 

 

 

2. E o tal preconceito linguístico?

Uma das formas de se identificar a origem e educação de uma pessoa é observar a forma como ela fala ou escreve; aparência, modos à mesa, obediência de regras sociais de convivência e vestuário adequado às ocasiões são outros (Sim, quase todo mundo faz isso. Sim, o mundo é horrível, vai lá no S.A.C divino reclamar). Claro que isso é preconceito. Pode até te levar a conclusões erradas, mas eu mesma o tenho, confesso. Se é verdade que não me privo de ouvir os ensinamentos de alguém que fale errado, de outro não posso negar que me seria incômodo ouvir uma pessoa falando errado ao meu lado. Eu sei que não é bonito dizer isso, mas me incomodo. Teria dificuldades em ter uma relação íntima com quem fala errado, não tenho esse desprendimento todo. Admiro quem tenha. Eu não tenho.

No entanto, tenho consciência que essa minha percepção advém de eu relacionar português normatizado com “certo”, e a forma como pessoas educadas falam. Não sei se todo mundo tem essa consciência, principalmente aqueles que não falam de acordo com a gramática normatizada – e é importante que elas o saibam, para não se sentirem diminuídas.

Aí é que a história do preconceito linguístico “pega” um pouco pra mim: dizer que a pessoa é “vítima de preconceito linguístico” pode levar as pessoas a acreditar que todos têm a obrigação de tolerar que se fale errado, fazendo uma analogia com os direitos das minorias (sou negro, mulher, homossexual e mereço tratamento igual ao das pessoas que não pertencem a essa minoria) quando na verdade o que se está dizendo é “você fala de um jeito diferente porque foi educado assim, no seu meio é assim que as frases são formadas; em alguns lugares você pode falar assim e não será censurado, mas  a depender do local em que você falar desse jeito, você será discriminado, então vale a pena entender a gramática normatizada”.

Claro, há autores que defendem aquela ideologia toda de luta de classes na gramática, numa vaibe “bora dizer que nóis escreve como queremo e ‘ces têm que aceitar porque somo do proletariado”, com a qual eu particularmente não concordo, mas entendo o ponto. MAS TENHO QUE RESSALTAR DE NOVO: NÃO É ISSO QUE O LIVRO DIZ.

O que o livro diz ( e diz mal, como explicarei mais adiante) é que a linguagem normatizada é a oficial e a tida como culta, correta, a que te dá status de “pessoa educada”. Pessoas que não falam daquela forma são tidas como mal educadas, ignorantes e que portanto você precisa aprender a “oficial”.

I loves you, Porgy,
Don’t let him take me
Don’t let him handle me
And drive me mad
If you can keep me
I wanna stay here with you forever
I’ve got my man

 

[ I loves you Porgy, uma das músicas mais lindas que conheço, da ópera Porgy and Bess]

3. Os livros não são destinados para crianças

Eles fazem parte de um projeto bacana (ao menos até onde vi) chamado EJA,  voltado para jovens e adultos com pouca escolaridade.

Todo mundo que já teve filho pequeno e tem bom senso sabe: quando ele começa a falar, a maioria dos especialistas diz que o melhor para o desenvolvimento da fala de uma criança é não ficar corrigindo todos os erros dele; há que se repetir assim que possível o termo na forma correta para que aos poucos o conceito seja internalizado. E por quê isso? Porque se o corrigirmos toda hora, ele pode se retrair, pode desistir de tentar falar só pra não correr o risco de errar. Quando se fala de adultos então, deve-se ter tão ou mais cuidado na apresentação do material e do juízo de valor (inclusive de si mesma), que a pessoa fará.

Pensa bem: se você não estudou durante o tempo em que isso seria obrigatório, obviamente isso se deu porque a sua vida não é lá muito fácil. Aí você decide que precisa aprender a ler e escrever melhor e talz, e descobre que você não sabe quase nada. Daí pra largar o curso é um pulo. Isso também deve ser levado em consideração, não acham? Dirão alguns: “é paternalismo”, e eu admito que da forma como autora colocou, soa mesmo como paternalismo. Mas se a forma de exposição do conceito está (a meu ver) inadequada, o conceito em si é correto.

Sob o ponto de vista da psicologia (importantíssimo em questões educacionais, vocês hão de convir) não repudiar a fala daquele que está aprendendo também é muito importante. Nas palavras do Marcos Donizetti:

“ a inserção no mundo da linguagem é a inserção do indivíduo no mundo da cultura e, digo mais, a possibilidade que esse sujeito tem de participar de um mundo subjetivo que, em última instância, o constitui. Quando chamamos norma culta de “correta” e norma coloquial de “incorreta”, não estamos falando do idioma, mas sim de lugares, de posições referenciais do sujeito falante diante de seu mundo. Essas posições são socialmente determinadas. O que ocorre é a apropriação de um saber (o idioma) como ferramenta de diferenciação social. Eu mesmo, nascido de uma família “simples”, que pouco uso faz “dos plural” poderia muito bem internalizar a idéia de que o falar das pessoas que constituem o meu mundo é “incorreto”, daí facilmente pode haver o “salto” que me leva a pensar que meu lugar no mundo é incorreto, ou não tão correto quanto poderia ser se eu fosse de outra classe social. Isso é o tal preconceito, e acho SENSACIONAL que esse mecanismo seja abordado em livros didáticos. Dizer ao sujeito, ainda na fase de aprendizado, que existem maneiras diferentes de se dizer algo, e que cada forma é aplicável a determinado contexto é LINDO. Agora, isso deve ser feito com bastante cuidado. O trecho que eu li do tal livro que causou a polêmica era ruim, citava o preconceito lingüístico en passant e como motivo “único” para o aluno aprender a norma culta. SE (não vi o livro todo) essa for a pegada do livro, temos um problema. Assim como a questão do preconceito deve sim ficar clara para o estudante, os motivos de saber também a norma culta devem ser cristalinos (já que, falando em termos sociais, existe nesse saber questões de inserção, e em termos de comunicação, de poder se comunicar com mais pessoas, entender mais textos etc etc etc). O lance é que a gritaria da imprensa e a histeria dos blogueiros da Veja, que só pude ver hoje, é a mais pura manifestação do tal preconceito”

Acho que está claro né?

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver…

(Preciso me encontrar, de Cartola e Candeia)

 

4. Trecho do livro está mal apresentado

A se levar em conta a velha teoria de que quando muitos alunos repetem a culpa pode ser do professor, talvez tenhamos no próprio texto um exemplo claro de que a autora não cumpriu a missão de levar a mensagem a Garcia e não logrou êxito.

Isso porque, a meu ver, apesar de não ter nenhuma mentira ou erro conceitual ou mesmo novidade, está mal escrito. Eu mesma só consegui compreender os conceitos que a autora expôs depois de extensa explicação de minha amiga linguista Mahayana (sou chique, tão pensando o quê?) e eu me considero uma pessoa razoavelmente instruída. A autora talvez tenha tentado ser sucinta e não foi nada feliz; o assunto pode ser claro naqueles termos que ela colocou para os especialistas, para aqueles que sempre lidaram com a questão, mas para leigos é bem difícil de compreender o que se está sendo dito, a menos que o intuito ideológico.

Pecou também o MEC ao colocar o Ministro para explicar o livro ao invés de um especialista que entendesse não só do que estava falando mas também que soubesse se comunicar com as massas de forma adequada. Não dá pra negar: O Ministro Haddad tentando justificar o livro deixou a emenda muito pior que o soneto.

Mina,
Seus cabelo é “da hora”,
Seu corpão violão,
Meu docinho de coco,
Tá me deixando louco.

(Mamonas Assassinas, sucesso dos anos 90)

 

5. Como esse texto vai ser ensinado na escola?

Essa é a minha maior preocupação. Na verdade, estamos falando só de um capítulo, e não acho sequer que isso será muito aprofundado. O problema que vejo é: se a autora não está conseguindo passar sua mensagem para quem tem instrução e boa vontade (eu e várias pessoas que conheço), como será essa transmissão em um ambiente com várias pessoas de escolaridade mais baixa? Mais: isso será transmitido de forma “pura” ou carregado de “ideologia”? Já há questionamentos sobre a utilização de regra nenhuma no ENEN, o que ao meu ver é um absurdo. Esses os pontos que ao meu ver deveriam ser discutidos e enfrentados, ao invés de se discutir o que todo mundo já sabe: assim como moda é adequação, linguagem também é. Varia, quer queiram quer não 🙂

 

There ain’t no mountain high enough
Ain’t no valley low enough
Ain’t no river wide enough
To keep me from getting to you

(Ain’t no mountain high enough, de Marvin Gaye)

 

Higienópolis: “nós”, “eles” e o sofá na sala

O assunto sobre o qual “todos têm que falar” nessa semana é a mudança de itinerário da linha amarela do metrô (previsão de entrega lá pelo começo da Guerra dos Clones, pelo andar da carruagem)retirando a estação Higienópolis.

A Associação do Bairro é contra (como foi quando da inauguração do shopping, e só permitiram sua construção depois que acordou-se em deixar um dos casarões da Avenida intacto e se instalou ônibus para os moradores do bairro se locomoverem até o shopping, soluções que eu reputo excelentes), entrevistaram uma psicóloga (a quem eu teria medo de entregar minhas questões tendo em vista sua nítida incapacidade de articulação) a qual afirmou não querer “gente diferenciada” no bairro, armou-se um auê e daí pra soidisant humoristas começarem com piadas anti-semitas foi um pulo.

Ressalto como textos dotados de bom senso o do Thiago (um dos que mais gostei), do Forastieri, do Guga Chacra e do Hupsel, mas queria chamar a atenção de vocês para um ponto que não vi ninguém mencionando: o fato de ser positiva e mesmo necessária a existência de Associações de Bairro atuantes (ainda que sob pena de ter que se driblar posturas temerárias) e por sua vez a conjunta atuação SENSATA do Poder Público (ausente nesse caso de Higienópolis) visando amadurecer esse intercâmbio.

Calma que eu explico 🙂

Eu sempre falo que estamos entrando na adolescência da conscientização política. Se nossa democracia fosse uma pessoa, com sorte ela estaria hoje no meio de uma faculdade, ou seja, ainda não teria entrado na vida adulta (nossa 1a eleição direta depois da ditadura foi em 89, certo?).

Em parte por isso, nossas discussões políticas são tão juvenis, acaloradas, dogmatizadas: até o espírito de pertencer a uma tribo e estigmatizar a outra (Capulettos e Montecchios, Palmeiras e Corinthians) está presente – espero que ela amadureça e não fique como aquele povo que aos 40 anos ainda mora com os pais né?

Bom, mas o que a Associação do Bairro e aquele pleito sem pé nem cabeça têm a ver com isso? Têm a ver que tudo tem seu lado bom e ruim (como eu sempre digo, o mundo e as pessoas não são novela da Janete Clair, onde o mau é só mau e o bom é só bom – há os dois lados em tudo, normalmente entrelaçados) e se de um lado não há como negar que o pedido deles era um contra-senso, de outro é muito bom que associações de bairro existam, que haja discussões das questões a ele concernentes, e que as preocupações destas associações sejam levadas ao Poder Público e por ele analisadas. Acredito que isso seja parte de exercer a cidadania, o efetivo meio de se cuidar da sua cidade – e ao Poder Público cabe ouvir, discutir, ponderar e decidir de acordo com o interesse público dos munícipes levando em consideração a associação.

E o que isso significaria nesse caso concreto? Bom, tirando a bobagem do “gente diferenciada” (pra mim isso aí é quem ouve Céline Dion, pra vocês verem como mudam os parâmetros a depender de quem fala), há ali um pleito justo: o entorno de uma estação não precisa se tornar um pátio dos milagres só porque há uma estação ali. Vi todo mundo falando “ as mesmas pessoas que não querem metrô em Higienópolis elogiam o metrô de Paris e de Nova York”, mas o fato é que, se de um lado há estações em outros países que são uma quizumba generalizada, de outro não se pode negar que há estações onde isso não ocorre. Eu mesma moro perto de uma estação de metrô na Paulista e ela não é um horror cheio de ambulantes – só precisa haver fiscalização para que isso seja a regra.

<abre parênteses > antes que vocês me xinguem, não há como negar que ambulantes atrapalham o comércio legal, aka “aquele que paga os impostos que servem para construir o metrô” e em sua grande maioria sujam as ruas; ainda que eu entenda que alguns deles o fazem por necessidade, julgo legítimo que um bairro não queira ambulantes. O direito de um acaba onde começa o do próximo e há outras formas de se combater a questão social. Tanto há que a Suécia não precisa de ambulantes para ser socialmente justa, então esse argumento é no mínimo falacioso. </fecha parênteses>

metrô de Paris: vocês estão vendo ambulantes aqui?

 

Ora, pra mim fica evidente que neste caso errou também o Poder Público, que teria o dever de ser mais maduro, “chamar a responsabilidade para si” e dialogar. Caberia ao Poder Público dizer “olha moçada, não fazer o metrô equivale a tirar o sofá da sala para que sua mulher não tenha mais amantes, não é assim que funciona, entendo a preocupação com ambulantes mas faremos, com a ajuda de vocês, uma política ambulante free”.

 

vocês estão vendo ambulantes aqui?

Há que se elogiar o fato de existir uma Associação de Bairro atuante, há que se incentivar o surgimento de outras tantas, bem como há que se exigie do Poder Público diálogo adulto com elas, onde este não ceda quando os pleitos são de criança mimada, mas que solucione as questões efetivamente sérias. De outro lado, cabe à sociedade como um todo servir de termômetro e de crítico construtivo quando os atores passam dos limites (e nesse ponto, se achei que algumas críticas foram exageradas, a propagação do “churrasco de gente diferenciada” serviu como forma divertida de mostrar o ridículo do pleito da Associação).

Dirão alguns: “Ah, mas aquelas pessoas são elitistas, não pensam em ninguém”. Até admito que muitas pensam assim, mas não são todas – e o modo de fazê-las mudar de ideia não é o Poder Público acatar o que elas dizem ou apontar-lhes o dedo, e sim educando-as, fazendo com que vejam que o fato de haver interesse público na questão x ou y não vai fazer com que elas sejam ouvidas.

O modo de unir a sociedade não é criando um fosso entre as classes – e tanto há uma parcela da elite que faz isso quanto há parcela de nossa “intelectualidade” (digamos assim) que insiste em ressaltar esse fosso. Era melhor ajudar a colocar terra nele do que cavar mais fundo, né? Por isso fiquei feliz ao ver que as mesmas pessoas que atacaram os moradores de Higienópolis condenaram Danilo Gentili pelo ataque ignominioso contra o humor e os semitas – sinal de que estamos começando a entender o sentido de igualdade né?

Ainda que muitos entendam que “elite não é povo”, os mais esclarecidos (e sobretudo o Poder Público) não podem ver assim, até porque ao se fazer essa diferença enraiza-se a própria ideia de diferença. Não, não tem diferença. Como eu disse no twitter, morando em Higienópolis ou no Capão Redondo, todos têm um “tiozinho do pavê” nas festas, uma cunhada gostosa, um primo que bate na mulher e outro que é gay no armário. Só muda a trilha sonora e o cardápio. 🙂

E que as Associações de Bairro continuem cada vez mais ativas, até para nós podermos reclamar quando elas falam bobagem: é assim que se constrói uma cidade melhor. Vai demorar? Vai. Mas dá pra fazer.

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P.S.: Aguardo ansiosamente a Associação de Bairro de Higienópolis exigir do Poder Público multa por morador que não recolher les cacás de son chien. Minhas sandálias de tiras finas agradecem 🙂

P.S. II – a missão: uma vez voltei de uma festa falando pro meu pai que fulano x havia mudado de ideias quanto a determinado político, e que eu tinha falado “nossa fulano, quem diria que você tá falando isso” hein? Tomei a maior bronca. “Minha filha, se você apontar a mudança, ele pode achar que isso é derrota dele e mudar de ideia. Fica quietinha e o elogie, só isso, você vai ver como vai ser mais fácil ele ir na direção que você prefere”. Fica a dica: ao invés de colocar os moradores de Higienópolis no mesmo saco de gatos, chamando-os de intolerantes quando se sabe que apenas uma minoria assinou o tal abaixo assinado, a gente deveria apontar o número de descontentes e de gente bacana que tem lá e trazê-los pro lado bom da força, ao invés de forçá-los a se juntar com o lado negro.

P.S. III. Eu confesso: tenho o mais profundo desprezo por quem assiste CQC.

 

 

 

 

 

 

União Estável: Bibalândia 10, Bolsonaros zero. E agora?

 

““O que a gente não pode mesmo,/ Nunca, de jeito nenhum,/ É amar mais ou menos,/ É sonhar mais ou menos,/ É ser amigo mais ou menos,/ (…) Senão a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos”.” (citação de Chico Xavier em voto do Ministro Ayres Britto na ADPF 132)

 

sessão histórica do STF

Dia bonito de ter estudado ciências jurídicas, e dia bonito para o STF, sempre visto como um vetusto tribunal que acaba livrando políticos de condenações.

Sim, não é sempre que vemos uma decisão histórica ser proferida: a partir de hoje, o STF decidiu de forma inconteste, com efeito vinculante (ou seja, efeitos válidos para todos, devendo os juízes segui-la) que os direitos conferidos à união estável heterossexual são válidos também para a união estável homossexual. Parece óbvio, mas não é, não era – até o julgamento de hoje.

Como eu e a Daniela Fonseca havíamos dito nesse post aqui, é mais um passo enorme em direção à união civil homossexual – o caminho trilhado pelos gays está sendo exatamente igual ao trilhado pela lei do divórcio (os Ministros inclusive fizeram menções a isso em seus votos, usando fundamentações praticamente idênticas).

O voto do Ministro Relator, Ayres Britto (de quem gosto muito) foi brilhante, com inúmeras citações maravilhosas, como Ruy Barbosa e Guimarães Rosa.

“Aqui, o reino é da igualdade pura e simples, pois não se pode alegar que os heteroafetivos perdem se os homoafetivos ganham. E quanto à sociedade como um todo, sua estruturação é de se dar, já o dissemos, com fincas na fraternidade, no pluralismo e na proibição do preconceito, conforme os expressos dizeres do preâmbulo da nossa Constituição”. (voto do Ministro Ayres Britto)

A votação foi acachapante, uma verdadeira goleada, demonstrando que a lei protege os homossexuais, como não poderia deixar de ser. Bonito de se ver. Belíssimos e emocionantes os votos de Ayres Britto, Marco Aurélio Mello e Celso de Mello, abordando não só a questão quanto ao seu conteúdo social, como também de forma técnica, demonstrando de forma cabal que a Constituição não faz quaisquer diferenças entre a hetero e a homoafetividade. Mais uma vez, parabéns aos Ministros do STF, ao Poder Judiciário, e a todos aqueles que deram a cara pra bater nos cartórios e nos fóruns desse país para, incontáveis decisões depois, chegarmos ao dia de hoje. Parabéns a Débora Duprat, que elaborou a petição da ADPF 132 quando à frente da Procuradoria Geral da República. Parabéns a todos os meus amigos queridos que passam por humilhações quase diárias. A vocês todos, o meu mais profundo respeito.

Mas… e agora? Todo mundo tem dúvidas, e a gente queria esclarecer alguns pontos:

1. Essa decisão vale pra todo mundo?

Sim, vale para todos que estiverem em situação de união estável assinada em cartório, pois a decisão, como já dito acima, é vinculante, ou seja os juízes deverão segui-la.

2. Gays vão poder se casar depois dessa decisão?

Não. Como eu já havia dito, não se está falando sobre casamento gay, e sim de equiparação da união estável heterossexual para a união estável estabelecida entre homossexuais

3. O que muda então?

Lembram aqueles direitos todos que seriam negados aos homossexuais? Como eu disse nesse post aqui, muitos deles já haviam sido reconhecidos, seja através de legislação, normas ou decisões judiciais.

As questões mais sérias e mais complicadas quanto à falta de normatização eram as de direitos sucessórios (herança), e agora tudo vai ficar mais fácil. Digamos que vai rolar um efeito dominó nas decisões judiciais.

4. O Legislativo pode alterar a legislação de forma a vedar expressamente equiparação entre união estável hetero ou homossexual?

Poder, até pode. Mas duvidamos que isso ocorra. E se ocorrer, STF declarará a lei inconstitucional, tudo indica isso.

5. Mas se você falou em “decisões judiciais”, isso significa que os homossexuais vão ter que entrar com ação para ter direitos reconhecidos?

Depende. Em alguns casos, como eu já disse, já há normas solucionando o caso. Em outros, havia complicação justamente quando havia necessidade de se entrar com uma ação. Por exemplo: quando dois gays se separavam, seria normal para qualquer pessoa imaginar que uma vara de família decidiria os impasses, só que não era isso que acontecia, pois não havia unanimidade (ou lei) quanto ao fato de um casal gay constituir um núcleo familiar. Por conta disso, casais homossexuais passavam pelo constrangimento de decidir suas diferenças numa vara comum, como se estivessem decidindo uma sociedade comercial. A partir de hoje não: no início da petição, por precaução, os advogados vão falar (em advoguês, bien compris) algo do tipo “aê seu juiz, o processo tem que correr na vara de família porque o STF diz que casal gay é família, valeu?”

O mesmo para vários daqueles direitos, principalmente os numerados nessa lista, de 37 a 75 (os outros, bem ou mal, já possuem regulamentação)

6. Ações para resguardar direitos

Com a palavra, a Daniela Fonseca: ” entendo que da mesma forma que os heterossexuais precisam entrar com algumas ações os casais homoafetivos deverão recorrer a elas. Um exemplo é a Medida Cautelar de Arrolamento de Bens”.

7. Tá tudo resolvido então? O próximo passo é brigar pela união civil gay?

Eu acho que não. Como disse, estou estudando, junto com um grupo, a real situação dos direitos civis dos homossexuais e, se de um lado é bem verdade que há varias normas querendo resolver algumas questões (Súmulas da ANS, decisões da Receita Federal, do INSS etc), de outro, não há ainda, tanto por aqueles que prestam o serviço quanto pelos homossexuais, conscientização e conhecimento quanto às normas.

Dou um exemplo: A ANS tem disposição expressa sobre o companheiro poder ser dependente em um casal homossexual. No entanto, pesquisa do grupo (a ser publicada) mostra que os atendentes da grande maioria dos planos de saúde não sabem disso, muito menos informar. O mesmo para alguns benefícios que até são regulamentados, mas não reivindicados, por medo de preconceito.

Entendo a posição da militância mais radical, mas a meu ver, há uma enorme necessidade de se sedimentar a vitória alcançada hoje, exigindo normatização de questões que podem ser solucionadas através de atos administrativos, independente de lei, a fim de facilitar o dia a dia dos casais homossexuais. Por exemplo: No Rio Grande do Sul há determinação para que casos sobre união estável gay sejam analisados pela Vara de Família. A partir de hoje, valeria uma pressão para que tal norma se replicasse pelo país todo. E assim por diante, sempre que for possível, a fim de se obter equivalência de direitos entre homossexuais e heterossexuais.

Precisamos portanto, tirar essa decisão histórica do STF e trazê-la para as ruas, delegacias, fóruns, bancos, enfim, para a vida – só assim a bibalândia, além de ganhar, vai também levar.

E agora vocês dão licença que vou comemorar com meus amigos que, por tudo que passam, mais do que merecem essa vitória 🙂

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P.S. Vale ler o artigo com detalhamento das mudanças aqui

 

 

 

 

 

 

Como nossos pais

 

Sim, acordei para o casamento real. Sim, queria ver as roupas e a noiva, e comentar todas aquelas coisas que meninas adoram comentar. Não, não vou entrar na parada de “monarquia é antiquada” bla bla bla. Pode até ser que seja, mas parece que não é a opinião dos britânicos, então acho que o assunto está resolvido.

De minha parte, acho que gosto desses casamentos justamente pelo que muitos detestam: a noção de continuidade e evolução, ainda que lenta.

Evolução? Sim!

 

A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim

Eu tinha 13 anos no casamento de Lady Di e Charles. Lembro bem da comoção que foi saber se ela ainda era virgem ou não (tinha 20 anos, e apesar de ser meio tarde, a maioria das minhas amigas perdeu a virgindade entre 17 e 19 anos, então não era algo totalmente fora dos padrões mais conservadores da época). Diana ainda fez o tal teste de virgindade ao qual as noivas dos futuros reis submetiam-se antigamente, do qual Kate foi dispensada 🙂

A meu ver, estão sendo injustos com a Realeza. Nos anos 30 e 40, quando a Betinha (sou íntima, tão pensando o quê?) se casou, não ser virgem no casamento não era exceção, era regra. Isso já era diferente quando Diana se casou com Charles, mas Kate Middleton já não teve que se submeter a essa bobagem toda. O casal já mora junto há 4 anos (espero que ela tenha dado umas passeadas por aí quando brigou com o Príncipe), é nítido que há cumplicidade e convívio entre ambos, enfim é uma estrutura muito diferente do casamento de Diana e Charles – que só “inovaram” dando beijo em público no casamento.

Isso talvez mostre o quanto a sociedade efetivamente mudou nesse tempo todo, desde o casamento de Elizabeth II até o de hoje, né? Não o que é corriqueiro nos grandes centros, mas o que aquela velhinha lá no fim do mundo acha normal.

Kate é uma moça moderna, que sabe o que quer. Não, não venham com a conversa de que ela queria um conto de fadas machista e conseguiu; como bem disse a Renata Correa, ela foi atrás do que queria. Deu certo, mas podia dar errado. Kate está muito mais próxima de Camilla, que ao encontrar o Príncipe Charles pela primeira vez mandou um “ minha bisavó era amante do seu bisavô, vamoaê” na lata, do que aquela sonsa com cara de sofredora, implorando compaixão, que era a Diana.

 

até o vestido dela mostra o drama, o exagero, o "olhem pra mim"

Ser independente é isso né? Fazer o que acha que deve fazer, sem precisar de anuência de ninguém. Até mesmo casar com um príncipe de véu e grinalda e sair acenando numa carruagem, por que não?

Além da evolução, temos a continuidade, mencionada no começo desse texto. Eu lembro de Charles e Diana naquele balcão, assim como vi as fotos da Betinha e de sua mãe no casamento. A Ana Paula Padrão, em narração me-do-nha do casamento, falou uma certa verdade: que por ser uma marca, a realeza tem que se reinventar para continuar a ser aclamada pelos seus súditos (e pelo mundo também). Mas essa reinvenção não vem da Casa Real propriamente dita, não é inventada em agências de publicidade, mas advém dos reflexos da sociedade que finalmente chegam até ela, conseguem ultrapassar os muros dos castelos, digamos assim.

Acho que é  isso que curto tanto: constatar as diferenças fica mais perceptível, mais nítido. É igual, mas não é. O cenário é o mesmo, alguns personagens também, mas aqui e ali vemos mudanças: a idade dos personagens mais antigos, a vinda dos novos com seus “novos” hábitos (como morar junto antes de casar :lol:).

Longe de achar uma “mesmice”, dá uma sensação de conforto : Lembro da alegria que sinto quando viajo com meus amigos e ficamos deliciados ao ver que nossos filhos são amigos entre si, crescem juntos, e o quanto eles nos mostram coisas diferentes (tanto as que trazem por experiência própria quanto o que fazem com que percebamos em nós mesmos) ao mesmo tempo em que apreendem costumes nossos. Claro que eu quero que meu filho conheça pessoas que eu nunca vi na vida, que ele frequente locais aos quais não terei acesso, que viva tudo o que tem direito, e eu mesma não sou diferente.  Mas ver aquelas cenas de nossos filhos tocar Beatles no violão com 3 gerações juntas (como ocorreu recentemente) sempre vai ser sempre o porto seguro, sempre vai ser uma espécie de referência, pra nós e pra eles.

A mim dá uma sensação boa de continuidade, dá a ideia de que, apesar de um monte de desilusões, de pedras no caminho, de noites chorando no travesseiro (ou bebendo no bar) e de todo cansaço que isso implica, ainda assim há toda uma geração esperançosa, querendo ir em frente, e que tem um pouquinho de nós ali.

É por isso que acho bonito: Mudam os costumes, muda o mundo, nós passamos por fases mais rebeldes querendo se soltar de tudo quanto é amarra mas no fim das contas, quase todos querem ver (ou dar) beijo na boca e ver um casal novo começando a vida.

Que eles sejam felizes enquanto puderem, e que tenham serenidade para enfrentar as desilusões que porventura aparecerem 😉

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P.S. Ele pensa diferente, mas adorei o texto do @hupsel