Meninas: comportem-se

Em uma semana, tivemos dois casos de revenge porn que terminaram com o suicídio de duas moças adolescentes que não suportaram a (suposta) vergonha de terem exercido o direito de realizar uma fantasia e cometido o “pecado mortal” de ter confiado no parceiro.

Em uma semana, ouvimos, novamente, como se estivéramos naquele famoso episódio do Monty Phyton, uma matilha de Donas Perpétuas apontando o dedo para essas meninas como se as culpadas fossem elas.

Em uma semana, continuamos a ler e ouvir a mesma cantilena de sempre: que como os homens não mudam e a sociedade “é assim mesmo”, nós temos que ensinar as meninas a não se deixar filmar; que como “os homens (vocês sabem, esses menininhos grandes inimputáveis que não sabem o que é certo é errado, tadinhos deles) dividem mulher em pra casar e pra zoar, nós temos que ensinar nossas filhas a se comportar” (não sei bem o que é se comportar – pra mim ainda é não roubar o lanche do amiguinho, mas enfim, sou moça antiga).

Tá errado, gente. Não é assim que as coisas vão mudar.

Ninguém está dizendo que não se deve refletir com quem uma foto íntima está sendo compartilhada; não é isso. Claro que devemos ter cuidado e pensar ao tomar essa decisão. Mas dizer “não tire fotos” é o mesmo que dizer “não saia nunca mais na rua e fique preso dentro do seu condomínio”, “não ande mais na calçada e só ande de carro”, quando o mais razoável é dizer “tome cuidado ao andar na rua”, escolha o bairro onde vai morar”.

Vivemos atualmente na sociedade da exposição. Uma sociedade onde tudo é colocado nas redes sociais e onde somos estimulados a nos expor. Mais: uma sociedade onde famílias de classe média alta e rica usam aplicativos em smartphones que RASTREIAM seus filhos e parentes, fazendo com que tudo e todos saibam o que está sendo feito em tempo real (já viram o Family 360? é praticamente uma pulseira de regime semiaberto, usada sob o rótulo da segurança – sempre ela). Uma sociedade em que câmeras existem em todos os lugares de nossas vidas.

Tudo, rigorosamente tudo é filmado e controlado. Tudo é exposto e estimulado a ser exposto. Menos a mulher que faz sexo e tem desejo.

A mulher que tem desejos e fantasias e as realiza, essa é uma Messalina despudorada. Atreve-se a ter vontades, ter tesão, tentar o homem e ó, horror, o horror, chega ao cúmulo de desprezar e não querer mais o homem que ela “tentou”. Um demônio que deve ser punido e apedrejado em praça pública, como em priscas eras.

Não, a mulher tem que lutar contra a exposição, os desejos e as fantasias. A mulher tem que ser precavida, se guardar, ser ciosa do seu “tesouro” (em que século estamos estamos mesmo?), que não deve ser visto a despeito de todas as câmeras existentes no mundo. Ela, ELA deve ser responsável, já que os homens, esses irresponsáveis, não entendem que todas as mulheres são iguais e “eles” decidiram que “tem mulher pra casar e mulher pra zoar”. Já que eles não entendem, NÓS temos que fazer tudo, né?

Sério mesmo que tem quem consiga repetir esse discurso e achar que ele faz sentido? Que à mulher cabe MAIS ESTA incumbência? Sério que é neste mundo que queremos que nossos filhos vivam? Porque eu quero que o meu filho viva num mundo onde as mulheres tenham desejos, fantasias e possam confiar no companheiro que escolheram para aquele momento.

Enquanto pensarmos com essa mentalidade medieval, tratando os homens como seres inimputáveis, nada vai mudar. Enquanto pensarmos que os homens são bebês incapazes de entender que TODAS as mulheres merecem respeito e que sim, é inadmissível dizer “tem mulher pra zoar e mulher pra casar”, meninas vão se matar de vergonha.

Não, não adianta falar “é assim”. Eu sei que é assim. Tanto é assim que meninas vêm morrendo, como antes eram expulsas de casa por não serem mais virgens ou por terem engravidado. E as coisas só vão “deixar de ser assim” quando a postura de pessoas decididas mudar.

Cabe a nós, adultos, mudar essa postura. Cabe a nós, pessoas cientes de nosso lugar na sociedade, questionar cada uma dessas vozes. Cabe a nós, a cada “vagabunda” que é dita em uma situação de porn revenge, defender a vítima e atacar quem violou sua confiança. Essas vozes devem ser questionadas e caladas. Só assim isso vai mudar. Se você é da turma que fala “ah, mas ela também…”, pense duas vezes. Você pode estar endossando a conduta desses caras. Você no fundo, também deve achar que “tem mulher pra casar e mulher pra zoar”. E sabe? Eu não queria dividir uma mesa de bar com você.

~~~~~~~~~~~00000000~~~~~~~~

P.S. Conversem com seus filhos. O termo que eles usam para esse tipo de coisa hoje é “arrastar” (de drag, da internet). Arrastar uma menina é cada vez mais comum. Ele acha que uma menina que é arrastada é uma vadia? Por quê? Por que ele pensa isso da menina e não desanca o pau no cara que arrastou ela? Você recebe o amigo do seu filho que tem o hábito de “arrastar” meninas? Acha que ele é um cara bacana? Isso é discutido na sua casa? É assim que hábitos e costumes são modificados. Arrastar meninas deve ser um hábito socialmente rejeitado e não socialmente aceito. E mães podem muito, vocês sabem. Sim, estou pregando uma caça às bruxas. O que eles fazem é crime. E eu não admito isso.

Quando mudam as perguntas

Minha bio no twitter diz: “tem opinião pra tudo, até para o que não conhece. mas está sempre certa”. Gosto de brincar dizendo que estou sempre certa porque numa discussão, quando por vezes vejo que me enganei, dou o braço a torcer e mudo de lado (não reclamem, isso é estar do lado certo afinal :-p)

Mas aí vem a adolescência do seu filho e você cai do cavalo. E não, não estou falando cair do cavalo em decorrência daquelas coisas que todo mundo espera: brigas, bateção de porta (ao menos elas não começaram ainda), drogas. Para isso eu vinha me preparando há anos (eu diria que vinha me preparando desde que ele nasceu).

Você cai do cavalo porque seu filho de 14 anos resolve ter dois AVCs. É, isso mesmo. AVC. Aquele treco que você acha que só acontece com velho e com balofo, mas não com uma criança saudável e esportista.

um dos dias mais aflitivos da minha vida

<abre parênteses> Não, ele não teve sequela alguma, e está tudo mais ou menos bem, e esse post não é pra fazer mundo cão. Quem me acompanha pelo twitter e facebook sabe o sufoco que foi aquela semana no hospital e as subsequentes, e eu não terei jamais palavras pra agradecer os inúmeros votos de melhoras (por vezes de gente que até então jamais havia falado comigo) durante aqueles dias. Tal como o Inagaki, acredito que a internet por aproxima as pessoas de forma quase mágica. Banana e chorona do jeito que sou – apesar de as pessoas não me enxergarem assim, sei lá porque-, tenho certeza que teria sido muito mais difícil atravessar aquela semana sem o apoio de tanta gente que perguntava, rezava, se preocupava comigo e com o meu filho. Não quero correr o risco de esquecer alguém, por isso vai aqui o meu agradecimento profundo a todos aqueles que nos apoiaram, que se preocuparam conosco. Não vou esquecer aqueles tweets nunca. Quem diz que internet só constrói relações superficiais realmente não entende nada. Tolinhos.  </fecha parênteses>

Mas voltando ao assunto: O problema do mundo sempre é depois  do felizes para sempre né? Pois então, quando os filhos melhoram as mães tombam. E algumas percebem que não são tão boas quanto gostariam. Que não são tão fortes quanto gostariam. Muito menos tão adultas ou racionais quanto se imaginavam. Ou tão sabichonas. E mais do que isso: elas simplesmente não conseguem ser fortes e equilibradas quanto precisariam para dar apoio aos filhos, simplesmente porque não aguentam vê-los ficar tristes. Alguém gosta de se olhar no espelho, ou para dentro de si e não gostar do que vê? Poizé, eu também não. Muito menos eu, a dona sabichona.

A gente *acha* que está preparado para vê-los seguir o caminho deles. A gente *acha* que está preparada para vê-los sofrer na frente da gente. E sabe? Por um tempo, quando as coisas são só privá-los do programa da televisão, do videogame, e a gente consegue dizer não, por vezes conseguimos acreditar que realmente estamos conseguindo ser suficiente duros (ou ao menos realistas) com nossos filhos. A gente até consegue ler esse texto da Eliane Brum, bater no peito e dizer: “eu não, eu sou diferente”.

A verdade? A verdade é que quando a porca torce o rabo, você percebe quão pouco tolerante às frustrações você próprio é, o quão infantil você ainda é e o quanto você não suporta ver seu filho sofrer, ainda que esse sofrimento seja muito relativo. Ver seu filho preocupado porque não sabe o que causou o incidente e ter medo de ter outro é muita coisa? Ficar sem jogar as finais das Olimpíadas da escola pelas quais ele esperava há um ano é muita coisa? Racionalmente não, mas para ele é muito. Para mim também. Eu choro quando não devia, e acho que o mundo não é lá muito justo. Infantil né? Também acho.

ele recebeu a medalha apesar de não ter jogado as finais

A verdade é que quando a porca torce o rabo você faria quase qualquer coisa para que seu filho pudesse viver de forma menos frustrante. Como diz aquela música do Ray Charles que o apdeites tuitou segundos depois de um daqueles telefonemas que têm feito com que eu respire fundo e consiga arrumar coragem sei lá de onde (é, telefonema dado por você mesmo, que tem tido uma paciência de Jó, e que tá quase merecendo ser canonizado, hehehe), “If I could – I’d protect you from the sadness in your eyes”. Mas não podemos né?

Eu sei. Vocês  vão dizer que são os micos de viagem que a tornam divertida, são as pedras na estrada que a tornam diferente de tantas outras, no fim a gente ri, bla bla bla… mas sabe… na hora em que o mocinho tá apanhando do bandido, a menina sempre quer que ele pare de apanhar. Faz qualquer coisa para que isso aconteça. E se a mocinha faz, imagine a mãe do mocinho, né?

Só que não tem jeito. Por mais que a gente não queira, chega uma hora em que os filhos vão ter que passar as provações e os perrengues deles. São os *deles* e não os nossos, e temos que entender isso. Ficar lamentando que eles tenham que passar por eles só vai piorar tudo para os filhos. Só vai fazer com que eles pensem que a vida deles é uma injustiça quando na verdade… Quem disse que o mundo seria justo, não é mesmo?

É por isso que tenho estado tão chateada. Porque treinei tanto pra nada. Porque de tanto treinar passes, tenho batido pênaltis que nem o Elano. Porque tenho discursos prontos para os mais diversos problemas e eles vão direto pro lixo (a menos que eu os venda pra alguém, hehehe).

Como bem diz o ditado, a gente se preocupa tanto em saber as respostas das perguntas, que um dia as tais perguntas mudam. Tem sido um belo exercício de humildade, devo admitir 🙂

Repressão à Marcha da Maconha: matar o mensageiro não adianta

Independente de qual seja minha postura no que tange à liberação do uso da maconha no país (minhas posições estão aqui e aqui), e mesmo tendo me indignado com a forma como a Polícia Limitar reprimiu a manifestação ocorrida, há alguns pontos que devem ser ressaltados para que os fatos lastimáveis que ocorreram ontem não virem apenas mais um capítulo do FlaXFlu político que assola o país.

Sim, o Governo Estadual Paulista agiu com extremo rigor na repressão da marcha a ser realizada ontem. Sim, eu fiquei pasma, assustada com o que ocorreu (e sendo bem egoísta, ainda mais aterrorizada porque meu filho havia saído para ir ao cinema na Avenida Paulista minutos antes das bombas serem deflagradas contra os manifestantes).

No entanto, ainda que eu deteste dizer isso, o argumento da Polícia Civil é de ser levado em conta: eles estavam cumprindo ordem judicial. Sim, eu sei que há várias ordens judiciais que acabam não sendo cumpridas por parte do Governo, mas normalmente elas são de menor visibilidade do que a exarada para reprimir a manifestação de ontem.

Claro, há que se cobrar uma manifestação e justificativa do Governador do Estado, de uma vez que até onde se sabe, havia sido feito um acordo sobre a mudança de objetivos da passeata: de pedido de descriminalização do uso da maconha a passeata seria a favor da liberdade de expressão, em virtude da proibição da 1a pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.

Mas além disso, creio ser fundamental também questionar o Ministério Público, órgão que possui profissionais de qualidade ímpar, funcionários estes que possuem independência funcional (e é preciso que seja assim, sob pena de seus membros sofrerem pressões para tomar esta ou aquela postura – e a despeito de tal prerrogativa da independência, essas pressões por vezes podem existir, acreditem).

Qual a função do Ministério Público? O Promotor do caso a exerceu com maestria? Esse texto responde muito bem:

“ O representante do Ministério Público está comprometido só, tão-somente, com a ordem jurídica, com o regime democrático e com os interesses indisponíveis da sociedade, definidos na Constituição e nas leis. Em momento algum, deve esse membro vergar ao peso das pressões políticas, quer sejam intra ou extra institucionais.”

Deve o representante do Ministério Público portanto, defender a lei e sua aplicação, com independência funcional, de acordo com sua consciência – mas é evidente que sua consciência (ao menos no que tange ao exercício da profissão) está condicionada ao que preconiza a lei e às formas técnicas de sua interpretação e harmonização.

Não li a peça do Promotor Marcelo Luiz Barone para saber se ele abordou de forma clara como se coadunaria o princípio da liberdade de expressão com o crime de “apologia ao crime” e similares; no entanto, a mim parece que o princípio do “onde a lei não distingue, não cabe ao julgador distinguir (ubi lexnon distinguit nec nos distinguere debemus), e a Constituição é bem clara quando menciona a liberdade de expressão:

Art. 5°, IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

Art. 5°, IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

Art. 5°, XIV – é assegurado a todos o acesso à informação e resguardo do sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional;

Art. 220 – A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a. informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.

[…]

§2° – É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.

Ressalte-se que, salvo engano, não há na Constituição Federal artigos mencionando crime de apologia ao crime ou incitação ao uso de drogas (e Deus sabe que essa Constituição pouco faltou para ter até receita de bolo, haja vista a imensa quantidade de artigos, alguns deles a meu ver desnecessários numa Carta Magna), mostrando que os artigos lá inculcados representam valores maiores do que as leis ordinárias, que a eles devem obedecer.

Pergunto eu: terá o Promotor de Justiça realmente defendido a lei, ou teria ele distorcido de molde a embasar, ainda que de forma pífia, suas convicções pessoais? E quanto ao Desembargador Teodomiro Cerilo Mendez Fernandez?  Terá ele exarado despacho digno de um desembargador de Justiça, aplicando a lei corretamente, ou terá colocado suas convicções pessoais à frente dela? Como são os desempenhos médios desses profissionais? Qual a média de revisão de decisões que eles têm nos Tribunais Superiores? São sempre mantidas? São reformadas em grande número? De minha parte devo dizer que fiquei um tanto quanto consternada ao descobrir que, ao que tudo indica (e tais notícias devem ser apuradas com cuidado a fim de não se ferir a honra de outrem) o N. Desembargador Teodomiro Fernandez não seria iniciante na arte de prestar desserviços à sociedade e mesmo de causar violência.

ESSAS a meu ver são as principais perguntas a ser feitas pela sociedade: porque se de um lado todos se lembram do nome do Governador, quase ninguém sabe os nomes dos reais e efetivos causadores daquela repressão medieval ocorrida ontem. Pensem nisso 😉

Licença Creative Commons
Esta obra foi licenciada com uma Licença Creative Commons – Atribuição – Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada.

Higienópolis: “nós”, “eles” e o sofá na sala

O assunto sobre o qual “todos têm que falar” nessa semana é a mudança de itinerário da linha amarela do metrô (previsão de entrega lá pelo começo da Guerra dos Clones, pelo andar da carruagem)retirando a estação Higienópolis.

A Associação do Bairro é contra (como foi quando da inauguração do shopping, e só permitiram sua construção depois que acordou-se em deixar um dos casarões da Avenida intacto e se instalou ônibus para os moradores do bairro se locomoverem até o shopping, soluções que eu reputo excelentes), entrevistaram uma psicóloga (a quem eu teria medo de entregar minhas questões tendo em vista sua nítida incapacidade de articulação) a qual afirmou não querer “gente diferenciada” no bairro, armou-se um auê e daí pra soidisant humoristas começarem com piadas anti-semitas foi um pulo.

Ressalto como textos dotados de bom senso o do Thiago (um dos que mais gostei), do Forastieri, do Guga Chacra e do Hupsel, mas queria chamar a atenção de vocês para um ponto que não vi ninguém mencionando: o fato de ser positiva e mesmo necessária a existência de Associações de Bairro atuantes (ainda que sob pena de ter que se driblar posturas temerárias) e por sua vez a conjunta atuação SENSATA do Poder Público (ausente nesse caso de Higienópolis) visando amadurecer esse intercâmbio.

Calma que eu explico 🙂

Eu sempre falo que estamos entrando na adolescência da conscientização política. Se nossa democracia fosse uma pessoa, com sorte ela estaria hoje no meio de uma faculdade, ou seja, ainda não teria entrado na vida adulta (nossa 1a eleição direta depois da ditadura foi em 89, certo?).

Em parte por isso, nossas discussões políticas são tão juvenis, acaloradas, dogmatizadas: até o espírito de pertencer a uma tribo e estigmatizar a outra (Capulettos e Montecchios, Palmeiras e Corinthians) está presente – espero que ela amadureça e não fique como aquele povo que aos 40 anos ainda mora com os pais né?

Bom, mas o que a Associação do Bairro e aquele pleito sem pé nem cabeça têm a ver com isso? Têm a ver que tudo tem seu lado bom e ruim (como eu sempre digo, o mundo e as pessoas não são novela da Janete Clair, onde o mau é só mau e o bom é só bom – há os dois lados em tudo, normalmente entrelaçados) e se de um lado não há como negar que o pedido deles era um contra-senso, de outro é muito bom que associações de bairro existam, que haja discussões das questões a ele concernentes, e que as preocupações destas associações sejam levadas ao Poder Público e por ele analisadas. Acredito que isso seja parte de exercer a cidadania, o efetivo meio de se cuidar da sua cidade – e ao Poder Público cabe ouvir, discutir, ponderar e decidir de acordo com o interesse público dos munícipes levando em consideração a associação.

E o que isso significaria nesse caso concreto? Bom, tirando a bobagem do “gente diferenciada” (pra mim isso aí é quem ouve Céline Dion, pra vocês verem como mudam os parâmetros a depender de quem fala), há ali um pleito justo: o entorno de uma estação não precisa se tornar um pátio dos milagres só porque há uma estação ali. Vi todo mundo falando “ as mesmas pessoas que não querem metrô em Higienópolis elogiam o metrô de Paris e de Nova York”, mas o fato é que, se de um lado há estações em outros países que são uma quizumba generalizada, de outro não se pode negar que há estações onde isso não ocorre. Eu mesma moro perto de uma estação de metrô na Paulista e ela não é um horror cheio de ambulantes – só precisa haver fiscalização para que isso seja a regra.

<abre parênteses > antes que vocês me xinguem, não há como negar que ambulantes atrapalham o comércio legal, aka “aquele que paga os impostos que servem para construir o metrô” e em sua grande maioria sujam as ruas; ainda que eu entenda que alguns deles o fazem por necessidade, julgo legítimo que um bairro não queira ambulantes. O direito de um acaba onde começa o do próximo e há outras formas de se combater a questão social. Tanto há que a Suécia não precisa de ambulantes para ser socialmente justa, então esse argumento é no mínimo falacioso. </fecha parênteses>

metrô de Paris: vocês estão vendo ambulantes aqui?

 

Ora, pra mim fica evidente que neste caso errou também o Poder Público, que teria o dever de ser mais maduro, “chamar a responsabilidade para si” e dialogar. Caberia ao Poder Público dizer “olha moçada, não fazer o metrô equivale a tirar o sofá da sala para que sua mulher não tenha mais amantes, não é assim que funciona, entendo a preocupação com ambulantes mas faremos, com a ajuda de vocês, uma política ambulante free”.

 

vocês estão vendo ambulantes aqui?

Há que se elogiar o fato de existir uma Associação de Bairro atuante, há que se incentivar o surgimento de outras tantas, bem como há que se exigie do Poder Público diálogo adulto com elas, onde este não ceda quando os pleitos são de criança mimada, mas que solucione as questões efetivamente sérias. De outro lado, cabe à sociedade como um todo servir de termômetro e de crítico construtivo quando os atores passam dos limites (e nesse ponto, se achei que algumas críticas foram exageradas, a propagação do “churrasco de gente diferenciada” serviu como forma divertida de mostrar o ridículo do pleito da Associação).

Dirão alguns: “Ah, mas aquelas pessoas são elitistas, não pensam em ninguém”. Até admito que muitas pensam assim, mas não são todas – e o modo de fazê-las mudar de ideia não é o Poder Público acatar o que elas dizem ou apontar-lhes o dedo, e sim educando-as, fazendo com que vejam que o fato de haver interesse público na questão x ou y não vai fazer com que elas sejam ouvidas.

O modo de unir a sociedade não é criando um fosso entre as classes – e tanto há uma parcela da elite que faz isso quanto há parcela de nossa “intelectualidade” (digamos assim) que insiste em ressaltar esse fosso. Era melhor ajudar a colocar terra nele do que cavar mais fundo, né? Por isso fiquei feliz ao ver que as mesmas pessoas que atacaram os moradores de Higienópolis condenaram Danilo Gentili pelo ataque ignominioso contra o humor e os semitas – sinal de que estamos começando a entender o sentido de igualdade né?

Ainda que muitos entendam que “elite não é povo”, os mais esclarecidos (e sobretudo o Poder Público) não podem ver assim, até porque ao se fazer essa diferença enraiza-se a própria ideia de diferença. Não, não tem diferença. Como eu disse no twitter, morando em Higienópolis ou no Capão Redondo, todos têm um “tiozinho do pavê” nas festas, uma cunhada gostosa, um primo que bate na mulher e outro que é gay no armário. Só muda a trilha sonora e o cardápio. 🙂

E que as Associações de Bairro continuem cada vez mais ativas, até para nós podermos reclamar quando elas falam bobagem: é assim que se constrói uma cidade melhor. Vai demorar? Vai. Mas dá pra fazer.

***

P.S.: Aguardo ansiosamente a Associação de Bairro de Higienópolis exigir do Poder Público multa por morador que não recolher les cacás de son chien. Minhas sandálias de tiras finas agradecem 🙂

P.S. II – a missão: uma vez voltei de uma festa falando pro meu pai que fulano x havia mudado de ideias quanto a determinado político, e que eu tinha falado “nossa fulano, quem diria que você tá falando isso” hein? Tomei a maior bronca. “Minha filha, se você apontar a mudança, ele pode achar que isso é derrota dele e mudar de ideia. Fica quietinha e o elogie, só isso, você vai ver como vai ser mais fácil ele ir na direção que você prefere”. Fica a dica: ao invés de colocar os moradores de Higienópolis no mesmo saco de gatos, chamando-os de intolerantes quando se sabe que apenas uma minoria assinou o tal abaixo assinado, a gente deveria apontar o número de descontentes e de gente bacana que tem lá e trazê-los pro lado bom da força, ao invés de forçá-los a se juntar com o lado negro.

P.S. III. Eu confesso: tenho o mais profundo desprezo por quem assiste CQC.

 

 

 

 

 

 

União Estável: Bibalândia 10, Bolsonaros zero. E agora?

 

““O que a gente não pode mesmo,/ Nunca, de jeito nenhum,/ É amar mais ou menos,/ É sonhar mais ou menos,/ É ser amigo mais ou menos,/ (…) Senão a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos”.” (citação de Chico Xavier em voto do Ministro Ayres Britto na ADPF 132)

 

sessão histórica do STF

Dia bonito de ter estudado ciências jurídicas, e dia bonito para o STF, sempre visto como um vetusto tribunal que acaba livrando políticos de condenações.

Sim, não é sempre que vemos uma decisão histórica ser proferida: a partir de hoje, o STF decidiu de forma inconteste, com efeito vinculante (ou seja, efeitos válidos para todos, devendo os juízes segui-la) que os direitos conferidos à união estável heterossexual são válidos também para a união estável homossexual. Parece óbvio, mas não é, não era – até o julgamento de hoje.

Como eu e a Daniela Fonseca havíamos dito nesse post aqui, é mais um passo enorme em direção à união civil homossexual – o caminho trilhado pelos gays está sendo exatamente igual ao trilhado pela lei do divórcio (os Ministros inclusive fizeram menções a isso em seus votos, usando fundamentações praticamente idênticas).

O voto do Ministro Relator, Ayres Britto (de quem gosto muito) foi brilhante, com inúmeras citações maravilhosas, como Ruy Barbosa e Guimarães Rosa.

“Aqui, o reino é da igualdade pura e simples, pois não se pode alegar que os heteroafetivos perdem se os homoafetivos ganham. E quanto à sociedade como um todo, sua estruturação é de se dar, já o dissemos, com fincas na fraternidade, no pluralismo e na proibição do preconceito, conforme os expressos dizeres do preâmbulo da nossa Constituição”. (voto do Ministro Ayres Britto)

A votação foi acachapante, uma verdadeira goleada, demonstrando que a lei protege os homossexuais, como não poderia deixar de ser. Bonito de se ver. Belíssimos e emocionantes os votos de Ayres Britto, Marco Aurélio Mello e Celso de Mello, abordando não só a questão quanto ao seu conteúdo social, como também de forma técnica, demonstrando de forma cabal que a Constituição não faz quaisquer diferenças entre a hetero e a homoafetividade. Mais uma vez, parabéns aos Ministros do STF, ao Poder Judiciário, e a todos aqueles que deram a cara pra bater nos cartórios e nos fóruns desse país para, incontáveis decisões depois, chegarmos ao dia de hoje. Parabéns a Débora Duprat, que elaborou a petição da ADPF 132 quando à frente da Procuradoria Geral da República. Parabéns a todos os meus amigos queridos que passam por humilhações quase diárias. A vocês todos, o meu mais profundo respeito.

Mas… e agora? Todo mundo tem dúvidas, e a gente queria esclarecer alguns pontos:

1. Essa decisão vale pra todo mundo?

Sim, vale para todos que estiverem em situação de união estável assinada em cartório, pois a decisão, como já dito acima, é vinculante, ou seja os juízes deverão segui-la.

2. Gays vão poder se casar depois dessa decisão?

Não. Como eu já havia dito, não se está falando sobre casamento gay, e sim de equiparação da união estável heterossexual para a união estável estabelecida entre homossexuais

3. O que muda então?

Lembram aqueles direitos todos que seriam negados aos homossexuais? Como eu disse nesse post aqui, muitos deles já haviam sido reconhecidos, seja através de legislação, normas ou decisões judiciais.

As questões mais sérias e mais complicadas quanto à falta de normatização eram as de direitos sucessórios (herança), e agora tudo vai ficar mais fácil. Digamos que vai rolar um efeito dominó nas decisões judiciais.

4. O Legislativo pode alterar a legislação de forma a vedar expressamente equiparação entre união estável hetero ou homossexual?

Poder, até pode. Mas duvidamos que isso ocorra. E se ocorrer, STF declarará a lei inconstitucional, tudo indica isso.

5. Mas se você falou em “decisões judiciais”, isso significa que os homossexuais vão ter que entrar com ação para ter direitos reconhecidos?

Depende. Em alguns casos, como eu já disse, já há normas solucionando o caso. Em outros, havia complicação justamente quando havia necessidade de se entrar com uma ação. Por exemplo: quando dois gays se separavam, seria normal para qualquer pessoa imaginar que uma vara de família decidiria os impasses, só que não era isso que acontecia, pois não havia unanimidade (ou lei) quanto ao fato de um casal gay constituir um núcleo familiar. Por conta disso, casais homossexuais passavam pelo constrangimento de decidir suas diferenças numa vara comum, como se estivessem decidindo uma sociedade comercial. A partir de hoje não: no início da petição, por precaução, os advogados vão falar (em advoguês, bien compris) algo do tipo “aê seu juiz, o processo tem que correr na vara de família porque o STF diz que casal gay é família, valeu?”

O mesmo para vários daqueles direitos, principalmente os numerados nessa lista, de 37 a 75 (os outros, bem ou mal, já possuem regulamentação)

6. Ações para resguardar direitos

Com a palavra, a Daniela Fonseca: ” entendo que da mesma forma que os heterossexuais precisam entrar com algumas ações os casais homoafetivos deverão recorrer a elas. Um exemplo é a Medida Cautelar de Arrolamento de Bens”.

7. Tá tudo resolvido então? O próximo passo é brigar pela união civil gay?

Eu acho que não. Como disse, estou estudando, junto com um grupo, a real situação dos direitos civis dos homossexuais e, se de um lado é bem verdade que há varias normas querendo resolver algumas questões (Súmulas da ANS, decisões da Receita Federal, do INSS etc), de outro, não há ainda, tanto por aqueles que prestam o serviço quanto pelos homossexuais, conscientização e conhecimento quanto às normas.

Dou um exemplo: A ANS tem disposição expressa sobre o companheiro poder ser dependente em um casal homossexual. No entanto, pesquisa do grupo (a ser publicada) mostra que os atendentes da grande maioria dos planos de saúde não sabem disso, muito menos informar. O mesmo para alguns benefícios que até são regulamentados, mas não reivindicados, por medo de preconceito.

Entendo a posição da militância mais radical, mas a meu ver, há uma enorme necessidade de se sedimentar a vitória alcançada hoje, exigindo normatização de questões que podem ser solucionadas através de atos administrativos, independente de lei, a fim de facilitar o dia a dia dos casais homossexuais. Por exemplo: No Rio Grande do Sul há determinação para que casos sobre união estável gay sejam analisados pela Vara de Família. A partir de hoje, valeria uma pressão para que tal norma se replicasse pelo país todo. E assim por diante, sempre que for possível, a fim de se obter equivalência de direitos entre homossexuais e heterossexuais.

Precisamos portanto, tirar essa decisão histórica do STF e trazê-la para as ruas, delegacias, fóruns, bancos, enfim, para a vida – só assim a bibalândia, além de ganhar, vai também levar.

E agora vocês dão licença que vou comemorar com meus amigos que, por tudo que passam, mais do que merecem essa vitória 🙂

****

P.S. Vale ler o artigo com detalhamento das mudanças aqui

 

 

 

 

 

 

Como nossos pais

 

Sim, acordei para o casamento real. Sim, queria ver as roupas e a noiva, e comentar todas aquelas coisas que meninas adoram comentar. Não, não vou entrar na parada de “monarquia é antiquada” bla bla bla. Pode até ser que seja, mas parece que não é a opinião dos britânicos, então acho que o assunto está resolvido.

De minha parte, acho que gosto desses casamentos justamente pelo que muitos detestam: a noção de continuidade e evolução, ainda que lenta.

Evolução? Sim!

 

A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim

Eu tinha 13 anos no casamento de Lady Di e Charles. Lembro bem da comoção que foi saber se ela ainda era virgem ou não (tinha 20 anos, e apesar de ser meio tarde, a maioria das minhas amigas perdeu a virgindade entre 17 e 19 anos, então não era algo totalmente fora dos padrões mais conservadores da época). Diana ainda fez o tal teste de virgindade ao qual as noivas dos futuros reis submetiam-se antigamente, do qual Kate foi dispensada 🙂

A meu ver, estão sendo injustos com a Realeza. Nos anos 30 e 40, quando a Betinha (sou íntima, tão pensando o quê?) se casou, não ser virgem no casamento não era exceção, era regra. Isso já era diferente quando Diana se casou com Charles, mas Kate Middleton já não teve que se submeter a essa bobagem toda. O casal já mora junto há 4 anos (espero que ela tenha dado umas passeadas por aí quando brigou com o Príncipe), é nítido que há cumplicidade e convívio entre ambos, enfim é uma estrutura muito diferente do casamento de Diana e Charles – que só “inovaram” dando beijo em público no casamento.

Isso talvez mostre o quanto a sociedade efetivamente mudou nesse tempo todo, desde o casamento de Elizabeth II até o de hoje, né? Não o que é corriqueiro nos grandes centros, mas o que aquela velhinha lá no fim do mundo acha normal.

Kate é uma moça moderna, que sabe o que quer. Não, não venham com a conversa de que ela queria um conto de fadas machista e conseguiu; como bem disse a Renata Correa, ela foi atrás do que queria. Deu certo, mas podia dar errado. Kate está muito mais próxima de Camilla, que ao encontrar o Príncipe Charles pela primeira vez mandou um “ minha bisavó era amante do seu bisavô, vamoaê” na lata, do que aquela sonsa com cara de sofredora, implorando compaixão, que era a Diana.

 

até o vestido dela mostra o drama, o exagero, o "olhem pra mim"

Ser independente é isso né? Fazer o que acha que deve fazer, sem precisar de anuência de ninguém. Até mesmo casar com um príncipe de véu e grinalda e sair acenando numa carruagem, por que não?

Além da evolução, temos a continuidade, mencionada no começo desse texto. Eu lembro de Charles e Diana naquele balcão, assim como vi as fotos da Betinha e de sua mãe no casamento. A Ana Paula Padrão, em narração me-do-nha do casamento, falou uma certa verdade: que por ser uma marca, a realeza tem que se reinventar para continuar a ser aclamada pelos seus súditos (e pelo mundo também). Mas essa reinvenção não vem da Casa Real propriamente dita, não é inventada em agências de publicidade, mas advém dos reflexos da sociedade que finalmente chegam até ela, conseguem ultrapassar os muros dos castelos, digamos assim.

Acho que é  isso que curto tanto: constatar as diferenças fica mais perceptível, mais nítido. É igual, mas não é. O cenário é o mesmo, alguns personagens também, mas aqui e ali vemos mudanças: a idade dos personagens mais antigos, a vinda dos novos com seus “novos” hábitos (como morar junto antes de casar :lol:).

Longe de achar uma “mesmice”, dá uma sensação de conforto : Lembro da alegria que sinto quando viajo com meus amigos e ficamos deliciados ao ver que nossos filhos são amigos entre si, crescem juntos, e o quanto eles nos mostram coisas diferentes (tanto as que trazem por experiência própria quanto o que fazem com que percebamos em nós mesmos) ao mesmo tempo em que apreendem costumes nossos. Claro que eu quero que meu filho conheça pessoas que eu nunca vi na vida, que ele frequente locais aos quais não terei acesso, que viva tudo o que tem direito, e eu mesma não sou diferente.  Mas ver aquelas cenas de nossos filhos tocar Beatles no violão com 3 gerações juntas (como ocorreu recentemente) sempre vai ser sempre o porto seguro, sempre vai ser uma espécie de referência, pra nós e pra eles.

A mim dá uma sensação boa de continuidade, dá a ideia de que, apesar de um monte de desilusões, de pedras no caminho, de noites chorando no travesseiro (ou bebendo no bar) e de todo cansaço que isso implica, ainda assim há toda uma geração esperançosa, querendo ir em frente, e que tem um pouquinho de nós ali.

É por isso que acho bonito: Mudam os costumes, muda o mundo, nós passamos por fases mais rebeldes querendo se soltar de tudo quanto é amarra mas no fim das contas, quase todos querem ver (ou dar) beijo na boca e ver um casal novo começando a vida.

Que eles sejam felizes enquanto puderem, e que tenham serenidade para enfrentar as desilusões que porventura aparecerem 😉

****

P.S. Ele pensa diferente, mas adorei o texto do @hupsel

O Perrone tá tão errado assim?

É diferente de chamar alguém carinhosamente de “Negão”. Conheço gente que fala “uau, eu curto um negão, viu?”, do mesmo jeito que eu falo que tenho uma queda por morenos e não por loiros. Mas é diferente, né? O tom de voz e o contexto. Quando você quer “mexer”, vc não é “carinhoso”.
Não, você não é obrigado a gostar de alguém só porque ele é gay. Tem muito gay que não vale nada, assim como tem muito hetero que não vale nada e assim por diante, porque há pessoas que não valem nada, em última análise.
Eu fui péssina aluna de Direito Penal, então esses conceitos de calúnia, injúria e difamação são meio confusos (e é pra quase todo mundo, tanto que eles sempre andam em trio: “fulano vai processar beltrano por ‘ calúnia, injúria e difamação’ ).

<abre parênteses explicativo> se você não costuma passear na praça da República do Twitter, saiba que o assunto de hoje foi um post de jornalista da Globo que apesar de técnicas um tanto quanto primárias de argumentação, trouxe à baila um assunto interessante <fecha parênteses explicativo>

Em resumo (e colocando legenda num texto um tanto quanto confuso): há quem ache que a indignação ao ver usado o termo “viado” como insulto não passa de privilégio que gays estariam tentando  alcançar. Uma espécie de “tratamento vip”. Será que é isso mesmo? Descubra lendo a cartilha caminho suave de técnicas argumentativas a seguir 🙂

1. do método quintasserizante de argumentar e encerrar discussões

Cada dia que passa fico mais e mais chocada com a total falta de compreensão, por parte daqueles integrantes da “mídia”, do que seja uma rede social. Mais: que redes sociais, consistem em publicação de conteúdo, na acepção pura do termo, e o teor das publicações tem efeitos jurídicos. Além disso, a total falta de compreensão do que seja se portar em um local público com elegância me deixa estupefata, confesso a vocês.

Repito isso toda santa hora, dizendo que há um código de conduta evidente a ser seguido, mas falo ao vento – volta e meia as pessoas saem por aí dizendo que sofrer consequências pelo que foi dito é “censura” (ah, essa palavra banalizada que logo logo vai perder o seu sentido cruel).

Mas quando a gente não concorda com o outro chiamos né?

Hoje o alvo foi nosso Troféu Marcelino de Carvalho do mês, que além de pérolas da compreensão do comportamento humano como a abaixo,

 

 

(e não, não adianta vir com escumbelerrê dizendo que as frases foram descontextualizadas – é só ler a sequência de tweets, né? seria mais elegante pedir desculpas)

O autor ainda conseguiu utilizar métodos quintasserizantes de encerrar discussão como o seguinte

Então… Não pode. Além de feio, de ser falta de educação, pode ser tipificado como crime (nunca sei se é calúnia, injúria ou difamação, não entendo xongas de Penal, mas acho que é injúria). Como é crime uma série de outros comportamentos socialmente aceitos que um dia deixarão de sê-lo. É crime e comportamento socialmente reprovável da mesma forma que aquele jornalista da National Geographic utilizou sim (me desculpem os que pensam o contrário) elementos chulos e quintasserizantes pra manifestar seu deagrado, o que em tese poderia vir a configurar crime. Idem para a mocinha que xingou nordestinos e para o publicitário que passou dos limites ao torcer para o seu time. Os comportamentos são idênticos, só muda a gradação.

Não pode. Ou melhor, poder pode. Só não pode reclamar que é censurado quando sofrer as consequências do ato. Ou melhor, pode também – mas as consequências continuarão ali, é bom que se saiba 🙂

Regras sociais foram criadas para tornar a convivência suportável – e normalmente, quem não suporta a ideia de ser gentil com os outros rotula regras sociais de “hipocrisia”, podem reparar.

2. breve tratado da evolução do êxtase coletivo, das relações sociais e das ofensas

Sejamos honestos: em alguns pontos,  o texto tão criticado tem razão.

O principal argumento seria o de que tanto “viado” quanto “filho da puta”, dependendo da forma como são proferidos, poderiam em tese configurar crime de calúnia-injúria-difamação e sendo assim, não haveria porque condenar “viado” e não condenar “filho da puta” – isso seria um “privilégio” que gays estariam desejando alcançar.

Outro ponto tocado naquele texto é que “viado” não seria necessariamente “gay”; seria aquele comportamento mais exagerado, que associam normalmente ao gay cliché, estereotipado, discriminado até mesmo por alguns gays: é o comportamento da “passivona”, aquele comportamento xiliquento – que, admito,  muitas pessoas têm independente da orientação sexual, mas que é comumente associado aos gays mais afeminados.

Isso tudo é verdade. É mesmo um costume chamar gente exagerada de “viado”, eu mesmo por vezes me intitulo “veada” porque sou meio exagerada e tal. Mais: é até bem comum entre gays eles se insultarem dessa forma.

O outro argumento é que “antes não era normal xingar assim e agora é”; “sempre foi assim, por que mudar agora?”.

Até aí, zuzu bem. As premissas sobre as quais ele parte estão mesmo corretas. O que tá uma quizumba danada são as conclusões, as quais além de equivocadíssimas e dissociadas das premissas, ainda dão ensejo a um discurso claro de homofóbico tentando ficar no armário com toques de pseudo-sinceridade.

No entanto, a mim parece que escapa ao nosso exemplo-de-elegância-ao-argumentar que o mundo está em evolução. Sim, não adianta reclamar: por mais que nos choquemos com as crueldades ainda hoje perpetradas, ele hoje é melhor (ao menos no meu ponto de vista) do que era há mil anos atrás.

No tempo de Roma havia luta de gladiadores, eles lutavam com feras e o imperador decidia se ele viveria ou não; tivemos a época em que as pessoas iam à praça ver enforcamentos ou queima de bruxas.

 

era assim antes, por que mudou, hein?

Hoje isso melhorou: ao invés de gladiadores, vamos ao estádio e o êxtase coletivo é alcançado xingando o time e a torcida adversária; ao invés de queimar bruxas ou apedrejar adúlteras, assiste-se ao vídeo do Barraco Sorocaba e fala-se que “fulana é uma piranha”. Ao invés de processar um homem porque este manteve relações sexuais com outro homem, alguns só tiram gays à força do armário, porque eles não têm o direito de fazer sexo com outro homem sem emitir certificado de homossexualidade. Tá melhor, vai?

 

Era assim antes, por que será que mudou, hein?

Toda evolução tem certo processo: após este processo, um belo dia mulheres saíram para trabalhar de calças compridas ou passaram a querer votar, assim como passou-se a achar a escravidão desumana.Além disso, os movimentos acima não aconteceram simultaneamente (sequer ao mesmo tempo no mundo), mas sim em consonância com a condição dessas minorias.

Até hoje, mesmo no universo GLS, é normal você ver um gay reclamar do outro falando “mas você tá uma bicha chata hoje, hein?”, do mesmo modo que muitos falam “mas que viadinho que você tá”. No entanto, isso não significa que isso seja aceitável, ou desejável. Significa que eles também têm lá seus problemas de auto-estima e se auto-insultam (a desculpa é se fortalecer pra não sofrer quando a turba os chama assim, mas eu ainda aposto na baixa-auto estima de alguns).  E essa questão de auto-estima,  baixa em boa parte de homossexuais, advém, em boa parte, de comportamentos que agora passam a ser reprimidos, comportamentos como o descrito no texto e nos seus tweets.

Pois bem: chegou portanto a hora de os gays no Brasil começarem a não achar bacana ver um tratamento que os identifica ser sinônimo de insulto. Não tão curtindo mais. Ainda bem, né? Sinal que a própria comunidade gay está mais consciente dos seus valores, dos seus direitos e, porque não dizer, de sua própria identidade.

Ao dizer que acredita que o corpo não foi feito para determinadas práticas sexuais (como se fosse a prática de determinado ato sexual que caracterizasse alguém como gay, e não o desejo sexual por pessoa do mesmo sexo), o sentido dessa frase é : “você não é normal; você é esquisito, e eu vou xingar de esquisito todo mundo, pra provocar; para que a pessoa se sinta mal como você deve se sentir”.

Well, as bees não tão mais curtindo. Estão querendo “chamar a responsabilidade para si” e se apropriar do termo “viado”, dando um novo significado a ele. Simples como isso. Gays não tão mais na pegada de servir de diversão pro Imperador lutando com as feras. Imperador e sua turma vão ter que brincar de outra coisa.

Antes, todos morriam de medo de ser rotulados como “viado”. Ninguém era “viado”. Agora finalmente algumas pessoas pararam pra pensar: opa, mas por que eu tenho que rir quando insultam alguém com um termo que é associado à minha sexualidade?  Por que isso é uma ofensa e eu tenho que fingir que não é porque é “genérico”?

“Viado” era mesmo “uma forma de mexer e só”. É a mais pura verdade. Mas era uma forma de mexer associando a insulto um determinado comportamento, fazendo com que aqueles que têm tal comportamento se sintam inferiorizados. É por isso que fica chato quando você, por um acaso, mexe com alguém que efetivamente tem esse comportamento. É por isso que ficou chato no caso do volei, e ficou chato no caso do Richarlyson. Não fica chato porque “parece ser ofensa”, fica chato porque finalmente se compreende que aquilo está sendo utilizado como uma ofensa. Fica claro que o comportamento daquela pessoa é visto como reprovável (ou anti-natural). Caso contrário, por que mexeria, né mesmo?

 

Então, do mesmo jeito que antes se podia falar “seu criolo nojento” e agora não pode mais, não é mais de bom tom xingar as pessoas de “viado”, ainda que eu compreenda a diferenciação entre “viado” e “gay” feita no texto. Porque na real, como disse o Max, a gente não tem o direito de esculhambar uma pessoa só porque ela é over. Este pode até ser um componente irritante (eu não gosto, pra ser sincera, advenha ele de gays ou de heteros – ah, não sou perfeita, né?), mas a partir do momento em que isso está ligado ao bem estar da pessoa e à auto-estima dela, é de bom tom que pessoas civilizadas, educadas e aptas ao convívio social não utilizem o termo como insulto. Simples assim.

 

Qual o limite disso? Eu não sei. Também me preocupa o limite do politicamente correto, porque sei que uma das formas de se lidar com preconceito é também expô-lo através do humor. Eu pessoalmente não entendo e não curto isso (gosto de muito pouca coisa tida como “humor”) mas sei que existe esse mecanismo. Achar o ponto de equilíbrio sempre é muito difícil, e vamos ter que achá-lo. Mas enquanto não achamos, é de bom tom que sejamos cortezes uns com os outros e que respeitemos modo de ser de cada um.

E novamente tenho que dar razão ao texto: daqui a pouco, algum juiz vai reclamar de ser chamado de “filho de puta”, e não se poderá mais fazer esse tipo de coisa. Politicamente correto demais? Alguns dirão que sim, mas a mãe dos juizes e as prostitutas certamente agradecerão. Desde quando alguém ser filho de prostituta é demérito? Aproveita então, viu? Por que já já não vai rolar 🙂

<abre parênteses> Tem um porém nessa equação toda: como disse essa semana, o ser humano tem violência dentro dele e não é bonzinho. Essa forma de extravazar impulsos, desejos e emoções xingando os outros vai ter que sair por algum outro lugar para não termos problemas sociais complicados. Resta saber qual será. Espero que encontremos um caminho. </fecha parênteses>

Voltando e pra encerrar o assunto: uma vez, perguntei ao meu filho se ele seria amigo de um colega gay que estudasse com ele. Ele respondeu: “depende, Mã. Só seria amigo dele se ele fosse legal”. Respeitar é isso. É ver a pessoa e ver se aquele conjunto específico agrada ou não,  ao invés de decidir se vai gostar dela ou não porque ele faz parte do grupo X ou Y. O que alguns chamam de “tenho que respeitar mas não preciso gostar” não passa de homofobia envergonhada. Lamento, mas não tem respeito nenhum aí. Melhor admitir que não se sente bem entre eles – é normal e humano, ué. Eu também não me sinto bem em alguns grupos  🙂

****

P.S. Folks, posso pedir uma coisa? Por amor ao quesito “originalidade” numa argumentação? Vamos parar de usar clichés? É tããão cansativo tudo ser “reaça”, tudo ser “fascista”… Esses termos estão perdendo força de tanto que são (mal) usados. Bora se esforçar? Plis? Fica feio a gente reclamar de um pessoal por aí e fazer o mesmo. <3

 

 

 

Desarmamento infantil, Laranja Mecânica e Rocas

Por uma infeliz coincidência, a campanha de desarmamento infantil e de adultos está ocorrendo logo após aquele crime horroroso ocorrido no Rio de Janeiro.

(Também – ou ao menos assim espero) por uma coincidência, nesse fim de semana assisti ao filme Laranja Mecânica pela primeira vez na vida, e fiquei impressionada como ele tem (ou poderia ter) relação com esse clima pós crime do Realengo.

<abre parênteses contendo spoiler> pra quem nunca viu o filme, em resumo, trata-se de um cara violento que sai por aí com amigos estuprando, matando e tocando o terror na cidade, até que é preso por um homicídio. Na prisão, submete-se a um “tratamento”  que promete acabar com a violência – ou a capacidade de praticá-la – independente da situação, ainda que seja para se defender. O cara até tem o impulso de reagir, mas não consegue colocá-lo em prática porque sente dores horríveis ao fazê-lo. </fecha parênteses>

Voltando ao desarmamento: com todo respeito aos amigos queridos que pensam o contrário (e há muitos deles) essa campanha não é nada mais nada menos do que um placebo; para mim as pessoas estão querendo se agarrar a qualquer coisa que dê uma (falsa) sensação de que crimes como esse podem não acontecer jamais. Vão, gente, vão acontecer sim. Vão acontecer independente de campanha de desarmamento, porque são situações fora da curva, difíceis de se evitar 100%.  A verdade é que o ser humano tem violência dentro dele e não só algumas pessoas não conseguem controlar isso, como por vezes os sãos não têm condição de antecipar esses espasmos violentos.

A “bondade” e a “inocência” das crianças são mitos difíceis de se contestar: difícil admitir que aquela coisinha lindinha, que faz aqueles barulhinhos fofos possa ter não só vontade como também capacidade de fazer o mal a outra pessoa. Mas elas fazem. E isso se vê tanto entre irmãos (é comum ver irmão mais velho querer bater no irmãozinho que chegou, por exemplo), quanto nas escolas onde as crianças mordem pra expressar algum tipo de descontentamento (ou expressar que algo não vai bem com elas) e, mais velhos, com insetos. Lembro que em determinada idade, adorava colocar formigas num pote e colocar água em cima para vê-las se debater. É eu sei, vou pagar anos de karma e não me orgulho disso; mas eu fazia, tinha plena consciência do que estava fazendo  e conheço várias pessoas com o mesmo comportamento. Isto no entanto não me tornou um serial killer, da mesma forma que videogames não tornam uma pessoa uma serial killer, ou que escrever #forasarney vai derrubar o autor de Marimbondos de Fogo.

Dizem os psicólogos que isso não é incomum, e que lá pelas tantas, se tivemos uma evolução emocional correta, a gente se toca que afogar formigas e outras maldades correlatas não é uma coisa bacana de se fazer. Veja: não é que a gente “fica bonzinho”, é diferente: a gente aprende que isso não é legal. Eu pelo menos, continuo tendo ganas, de vez em quando (tá bom, é mais comum do que vocês imaginam), de socar algumas pessoas na parede 😆 e conheço várias pessoas que sentem a mesma coisa; mas aprendi que isso é moralmente errado – além de me trazer consequências.  Só farei isso (e espero que consiga) numa situação limite.  Obviamente, encontrei formas de lidar com frustração: saio pra andar, escrevo um post malcriado, ouço heavy metal, como um pacote de Amanditas, enfim, arrumo canais para colocar isso pra fora, porque senão essa raiva contida certamente me fará mal. Mas ela está lá, e precisa ser canalizada.

O mesmo quanto às crianças. Ou vocês acham que depois de aprender que morder e matar bichinhos por prazer é errado esse ímpeto de violência não existe mais? Eles viram monges budistas radicais daqueles que não matam nem moscas? Claro que não, né? Claro que o ímpeto tá lá e  AINDA BEM,  porque senão teremos um bando de palermas incapazes de reagir quando necessário – como o cara da Laranja Mecânica, ou o gordinho que finalmente reagiu ao bullying.

[yframe url=’http://www.youtube.com/watch?v=6FGzJg6UMY0&feature=related’]
Essa violência precisa sair, até porque imagino que ela seja também uma forma da criança lidar com os medos dela. Tenho a impressão que ao transformarmos em “mal” tudo aquilo que nos aflige, matar monstros e inimigos imaginários faz com que igualmente tenhamos coragem de enfrentar situações que nos afligem na vida real. Então, é importante (para não dizer crucial), que a criança trave suas lutas imaginárias (e mesmo mais reais com disciplina, como é o caso das lutas marciais). 

Faz diferença que ela saia através de armas de fogo, sabres de luz, armas brancas ou uma luta de judô? Desculpe, mas isso não faz sentido. Poderia concordar com vocês se estivéssemos falando de uma criança (como há muitas por aí infelizmente) que tem em seu cotidiano o uso de armas ou morte como solução de conflitos. Se você cresce num ambiente onde o castigo para fazer sei-lá-o-quê é matar a pessoa, ou cresce vendo seu pai matar uma pessoa por uma série de motivos que não o de legítima defesa,  quero acreditar que o seu conceito de motivação para matar alguém seja mais elástico do que pessoas não expostas a isso.

Mas por que imitar uma luta usando arma de fogo tornará a pessoa uma criminosa e luta com uma espada não? É irracional, vocês me desculpem. Não tem o menor sentido. 

O problema não está em sentir ímpeto violento (isso de certa forma e até determinados níveis é saudável), mas em como você o controla; não é sequer (na maioria dos casos) saber que aquilo é errado (convenhamos, o próprio autor do crime do Realengo sabia que estava fazendo algo errado): o problema maior é como fazer com que se atinja o ponto de equilíbrio onde as pessoas não levem determinados impulsos adiante a não ser em circunstâncias extremas.  Lembrem-se: o mesmo impulso (não a motivação) violento que permitiu a ocorrência do crime do Realengo permitiu também a reação do Sargento Márcio Alexandre Alves (sim, o nome dele eu pronuncio)  que salvou muitas vidas.  Como sempre, o maior problema é encontrar o caminho do meio.

Não gente, proibir armas ou proibir crianças de brincar com armas não vai acabar com crimes violentos no mundo. Concordo que atitudes violentas possam criar ambiente propício para a continuidade da violência, mas são situações distintas. Adultos dizem que crianças não distinguem a realidade da fantasia mas aqui me parece o inverso: adultos querem que o mundo vire o paraíso idílico que eles fantasiam para conseguir viver.

Diria até (me arriscando a tomar uma saraivada de impropérios)  que É IMPORTANTE ver como a criança lida com armas e que tipo de “monstros” ela mata durante o desenvolvimento (e como), para podermos avaliar se alguma coisa está saindo do esquadro. Colocar a cabeça na terra não adianta nada, lamento. 

Claro, a gente pode complicar: pode colocar um controle maior de quem entra ou sai das escolas (mas os assaltos a prédios de luxo com segurança fortíssima estão aí para provar que essa segurança pode ser quebrada), pode restringir, controlar e até mesmo proibir a venda de armas de fogo no país inteiro (eu sou contra soluções radicais, porque elas normalmente são placebos);  inobstante tudo isso, se a pessoa quiser, acreditem, ela vai arrumar uma arma pra cometer uma atrocidade.

 

Lembram da Bela Adormecida? Por causa de uma maldição que implicava na sua filha morrer por causa de um ferimento com roca, proibiu-se todas as rocas no reino. A despeito desses esforços, a Bela Adormecida foi igualmente ferida. Por uma roca. Porque ela não conhecia nem a roca nem a maldição. A Bela Adormecida se feriu não por causa da roca, mas por causa da ignorância, sacaram?

O duro da vida é esse: não tem fórmula mágica. Não bastasse isso, ainda tem um agravante: mesmo que você faça tudo dentro do roteiro, do que preconizam como certo, pode não dar certo, porque não há nada 100% seguro. É complicado? Eu acho. Complicado e assustador.

Mas ainda prefiro tentar explicar pro meu fillho que é bacana usar o sabre de luz como um jedi, quando necessário, e que não é legal ir pro lado negro da força. Pode ser que não dê certo – mas ao menos não vou me enganar achando que meu filho não tem violência dentro dele e que todo mundo só tem amor no coração. Aliás, desconfio muito de quem se diga assim, se é que vocês querem saber… lembremo-nos sempre da mãe do Cisne Negro, 😆