Youkali e os tons de cinza

Passeando com um dos meus amigos mais queridos da vida (falo dele no último trecho deste post) sábado na feira orgânica da Barra Funda, comentava sobre  um dos últimos textos do Contardo Calligaris, que eu adorei e que muita gente viu como um soco no estômago.

Segundo o Contardo Calligaris, depressão acontece quando as pessoas não conseguem mais ver o encanto do cotidiano, aquilo que eu chamo de ver ritual onde as pessoas vêem rotina aborrecida, ver cor no dia a dia, nas pequenas coisas, porque é disso afinal, que a vida é feita: de pequenos momentos aqui e ali, e não dos momentos grandiosos, dos acontecimentos retumbantes. Estes têm sua força, nos nutrem por certo, mas é nas cores do dia a dia, é na conversa de todo santo  jantar, naquele telefone de boa noite ou pra dizer “não tive um dia bom e precisava falar com você” que as relações se constroem e a vida acontece.

Aí ele responde: ” o problema está justamente aí: não é que você não vê cor; às vezes você até vê cor, mas as únicas cores que você vê são vários tons de cinza”.

Tive que concordar. Quem nunca esteve lá no fundo do poço que atire a primeira pedra.

Inconscientemente ou não (ele sempre teve o dom de saber o que acontece comigo sem que nem mesmo eu saiba, aquela peste), depois do almoço ele me mostrou um vídeo lindo, da soprano Teresa Stratas (que eu, felizmente eterna ignorante, não conhecia), um Tango Habanera tristíssimo chamado Youkali, de Kurt Weill (o mesmo que escreveu a deliciosa Speak Low), cuja música sem a letra originariamente fazia parte de uma peça chamada Marie Galante e que merece ser visto:

 

A

A letra é linda:

C’est presqu’au bout du monde
Ma barque vagabonde
Errant au gré de l’onde
M’y conduisit un jour
L’île est toute petite
Mais la fée qui l’habite
Gentiment nous invite
À en faire le tour

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Youkali
C’est la terre où l’on quitte tous les soucis
C’est, dans notre nuit, comme une éclaircie
L’étoile qu’on suit
C’est Youkali

Youkali
C’est le respect de tous les voeux échangés
Youkali
C’est le pays des beaux amours partagés
C’est l’espérance
Qui est au coeur de tous les humains
La délivrance
Que nous attendons tous pour demain

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

Et la vie nous entraîne
Lassante, quotidienne
Mais la pauvre âme humaine
Cherchant partout l’oubli
À, pour quitter la terre
Se trouver le mystère
Où nos rêves se terrent
En quelque Youkali

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Youkali
C’est la terre où l’on quitte tous les soucis
C’est, dans notre nuit, comme une éclaircie
L’étoile qu’on suit
C’est Youkali

Youkali
C’est le respect de tous les voeux échangés
Youkali
C’est le pays des beaux amours partagés
C’est l’espérance
Qui est au coeur de tous les humains
La délivrance
Que nous attendons tous pour demain

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

(a versão em inglês, pra quem não entende francês, está aqui)

Chorei de borrar o rímel vendo o vídeo. Tá tudo misturado ali: tem mulher velha com moço moço, mulher com mulher, velhinhos, gente gorda, gente magra, todo mundo dançando feliz… Tem esperança. Tem serenidade. Tudo flui.

Mas como a letra bem diz,  isso não existe, né? Principalmente nos dias intolerantes de hoje. Youkali é só um sonho, uma loucura, não existe, nos conta a letra.

O problema é quando a gente não consegue sequer sonhar com ele. Como eu sempre digo, a pior coisa que pode acontecer a alguém é sentir desesperança, ter a plena convicção de que vai ver tudo cinza pra sempre e o pior: se conformar com isso, sequer ter forças de se revoltar com essa cinzidão toda. Ter forças somente para respirar fundo e olhar para o outro lado, colocando um sorriso no rosto quando vê que vai chorar se parar pra pensar em determinados aspectos da vida, porque se parar para pensar, vai chorar dias a fio e entrar num buraco de dar medo aos mais corajosos. Só quem já esteve (ou está) lá sabe como é isso. Não quero isso para o meu pior inimigo. Vou contar pra vocês: sorte daqueles que ainda conseguem sonhar com Youkali.

 

 

De Nova York: Oscar Wilde na Broadway

Continuando a saga “Andrea em Nova York“, conforme prometido ela agora nos conta sobre a peça de teatro que escolheu para assistir em sua semana por lá. Divirtam-se!!

Indo à Broadway: “The Importance of Being Earnest”

meu ingresso para a peça

Antes mesmo de comprar a passagem para Nova York, eu comprei o ingresso para ir ao teatro. Sim, porque, assim que deitei olhos sobre a programação da Broadway e descobri que estava em cartaz uma peça de um dos meus autores favoritos da literatura inglesa, eu não pensei duas vezes. Foi praticamente o motivo principal que me levou à Big Apple desta vez! 🙂

 

"Playbill", o livreto informativo distribuído ao público antes da peça

“The Importance of Being Earnest”, de Oscar Wilde, foi escrita em 1895, na época Vitoriana, e trata-se de uma comédia farsesca sobre a trivialidade dos costumes e regras sociais de então. O personagem principal, John Worthing (interpretado por David Furr), inventa um novo nome e personagem para si, enquanto no interior inglês, para fugir de certas obrigações. Da mesma forma, seu amigo Algernon Moncrieff (Santino Fontana) inventou um amigo muito doente, coisa que também o livra de certas chatices em momentos cruciais. A partir da mentirinha de John, Algernon – que achava ser o único que cometia “Bunberryism” – acaba criando uma situação hilária e quase desastrosa.  Certamente muitos de vocês leram essa saborosa peça, mas não quero contar mais sobre o plot para não incorrer em “spoiler”- inclusive, nem vou explicar o que é “Bunberryism”! 🙂

 

Apesar de não ser a personagem principal, Lady Bracknell, interpretada pelo próprio diretor da peça, o genial Brian Bedford, torna-se o centro indiscutível das atenções. Lady Bracknell é a mãe de Gwendolen Fairfax (Jessie Austrian) e faz um completo e hilário escrutínio das qualidades e origem familiar de John para aprová-lo como noivo da filha, dentre outros diálogos saborosos. A cada frase dita por Bedford na pele de Lady Bracknell o teatro explode em gargalhadas. Ele é já é sensacional simplesmente movimentando-se pelo palco com vestimentas femininas vitorianas. Imaginem então interpretando um texto cheio de verve como  o de Oscar Wilde.

David Furr e Jessie Austrian como John Worthing e Gwendolen Fairfax

Outro ator cuja interpretação achei ótima foi a de David Furr como John Worthing. Encarna deliciosamente bem um cara-de-pau de carteirinha que não perde a pose, mas que, por amor, assume todos os riscos que sua pequena fraude trouxe à tona. Interpretação muito divertida que também merece menção é a de Jayne Hoydyshell, no papel de Miss Prism, personagem relativamente secundária, mas composta com perfeição.  O elenco é ótimo e todos fazem um trabalho de alto nível.

E, para não perder o costume de mencionar um tema #Brioches, a maquiagem da produção é feita pela MAC Cosmetics. <ladyrasta entra na sala>: aliás, a Andrea está fazendo resenha de vários produtos de maquiagem trazidos da viagem no blog, vai lá! <ladyrasta sai da sala>

Se você ficou interessado/a, a peça fica em cartaz até o dia 03 de Julho, no teatro American Airlines, em Nova York. No mês de Junho, mais precisamente no dia 02 (e algumas outras datas ainda não definidas até o dia 28/06), haverá apresentações em alta definição em salas selecionadas de cinema através dos Estados Unidos.

 

Você pode comprar seu ingresso antecipadamente no site oficial da peça. Há uma pequena taxa de serviço de US$ 2 adicionais ao preço do ingresso. Os assentos do teatro podem ser escolhidos online através do mapa do local.  Onde me sentei, o assento B107, é a terceira fila a partir do palco, e exatamente no centro. Lugar excepcional.

A peça é dividida em 3 atos, com dois intervalos de 15 e 10 minutos. O teatro dispõe de bombonière bacaninha e é bastante confortável. Recomenda-se chegar com 30 a 15 minutos de antecedência para a troca de seu bilhete web pelo bilhete oficial, e para a acomodação do público em seu lugares sem gerar atrasos.

Alexander Mc Queen no Metropolitan: Andrea conta o que achou

Quem conhece a comunidade #brioches no Facebook (tem porta de entrada direta aí nas páginas do blog) sabe muito bem que a @andrea_tedeschi sabe tudo o que você possa imaginar e mais um pouco sobre cosméticos, maquiagem, produtos para o cabelo, tratamentos de pele e o que mais se referir ao assunto. Não bastasse isso, ela ainda é culta como poucas pessoas que eu conheço (e com aquele je ne sais quoi chic minimalista Calvin Klein- Ralph Lauren que eu adoraria ser mas minha personalidade barroca não permite). Junte-se a isso uma ida a Nova York e a ventura que vocês caros leitores (sim, vocês, eu sou só o instrumento, hahaha) têm de eu conhecê-la, e temos aqui uma série de textos sobre Nova York e os mimos que ela comprou (ou viu por lá).

Agora vou ficar quietinha e deixar ela contar como está a exposição do Alexander Mc Queen no Met. Divirtam-se 🙂

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Este será o primeiro de uma série de posts sobre minha viagem a Nova York em Maio deste ano. Desta vez fui pra lá cheia de boas intenções. Pela ordem:

1. Assistir à montagem da peça The Importance of Being Earnest, de Oscar Wilde, dirigida por Brian Bedford (que também faz o papel de Lady Bracknell);

2. Ver a exposição Savage Beauty, em homenagem a Alexander McQueen, no Metropolitan;

3. Visitar o Jardim Botânico do Brooklyn;

4.  Fazer comprinhas de beleza

Desobedecendo a ordem da lista, vou começar falando da exposição no Metropolitan. Primeiramente, estava lotadíssima. A exposição foi inaugurada no baile do Met no dia 02 de Maio, e eu fui no dia 14 – que, como era um sábado, estava mais lotado ainda.

De qualquer forma, a gigantesca fila, que serpenteava por várias outras salas e exposições do museu, estava organizada e andava com agradável regularidade. Os funcionários anunciavam ao público espera de 15 minutos, e assim foi até que eu pudesse entrar na sala da exposição.

 

Foto da montagem da exposição

 

A ambientação criada pelos idealizadores foi primorosa. Trilha sonora, iluminação e painéis estavam fiéis ao estilo de McQueen. Misterioso, denso, algo lúgubre. Muitos modelos escolhidos pertencem às coleções góticas e românticas-naturalistas e primitivistas, No entanto, havia também criações da coleção em tartan (xadrez escocês).

Apontar o esmero e perfeição na confecção de tais indumentárias é quase desnecessário e óbvio. Mas impressionam e encantam de tal forma, que fica impossível não mencionar esse aspecto. Os bordados, brocados, costuras em couro e moulage irrepreensível merecem todo respeito e admiração pela arte, sensibilidade e talento de McQueen.

Acessórios são destacados à parte e o devido crédito lhes é dado nos painéis indicativos da exposição. Muitos chapéus e outros adornos de cabeça foram feitos por Philip Treacy para McQueen.

Dentre muitas informações e declarações relevantes de McQueen para a compreensão de suas criações por parte do público, as que mais me chamaram minha atenção foram aquelas em que ele diz que mulher e romantismo andam juntos, e por isso suas coleções são sempre permeadas de temas românticos; mas ele não consegue ver romantismo entrelaçado com ingenuidade ou fragilidade feminina – daí suas criações mostrarem uma combinação equilibrada de diáfano e obscuro, leve e pesado, delicado e poderoso.

É uma exposição que interessará não apenas a estudantes de moda, fashionistas ou mulheres, mas todos que queiram ter uma compreensão maior do universo de um artista singular e que, dentre vários outros estilistas, reforçou em nossa cultura o conceito de que moda é, também, uma forma de arte (aqui você encontra mais fotos incríveis)

Na lojinha do Met tem vários souvenirs da exposição, desde livros até cartões postais, mas os preços são salgadinhos, em comparação com souvenirs normais.

Eu diria que é imperdível para quem gosta de moda e de observar a cultura através dela: aquilo é litralmente uma aula de McQueen, cultura de moda e cultura geral.

A exposição estará aberta até dia 31 de Julho.

Para saber mais sobre a exposição Savage Beauty clique aqui

Dica: compre com antecedência sua entrada no Met Museum

*** ladyrasta entra na sala***

Folks, pra quem gosta de moda, eu sempre recomendo ler o Fashion Babylon. Explico por quê aqui.

Aguardem cenas dos próximos capítulos, nas “As Aventuras de Andrea nas terras Estadunidenses” (!) 🙂

 

 

Frechadas merecidas e imerecidas no “Livro do MEC”

Confesso que eu mesma fiquei contra o livro, o MEC e quem mais se dispusesse a defendê-los no início da polêmica, tendo em vista que estes estariam preconizando não haver mais “certo ou errado na Língua Portuguesa, e que doravante iria rolar um liberou geral”. No entanto, conversando (obrigada ao Doni e à Mahayana), pesquisando e pensando um pouco, refiz meu juízo de valor, o qual basicamente hoje consiste no seguinte:

O jeca forma os seus plurais com a mesma inteligência e economia do inglês; diz, por exemplo, “as casa”, “os home”, “as muíé”, em vez de dizer redudantemente como o português, “as casas”, “os homens”, ” as mulheres”. O inglês diz “the men”, “the women”, “the houses” – a mesma coisa que o jeca, só que invertido. Se pondo apenas o artigo no plural a frase fica perfeitamente clara, para que botar no plural também o substantivo? pensa com muita razão o jeca e o inglês faz o mesmo raciocínio quando pluraliza o substantivo e não mexe no artigo.” (Monteiro Lobato, tirado do post do Sergio Leo que merece leitura integral)

1. Livro NÃO diz que é certo escrever errado

Na verdade, o que o livro (tenta) dizer é que há diversas formas de se falar ou escrever algo, como se existissem (como de fato existem) diversos dialetos dentro da Língua Portuguesa (o que escrevemos na internet e no sms, com várias abreviações, ou e-mails informais, onde “vc” é algo corriqueiro, assim com “fds”). Guimarães Rosa também sempre escreveu dando um toque de regionalismo a seus textos, e o paulistês das músicas de Adoniran Barbosa é famoso. Aquela forma de falar tem toda uma lógica, como bem ressaltou Sírio Possenti em artigo pra lá de didático.

Ficaram muito bravos comigo quando relacionei a questão “os livro” e “os livros” com o sinal conhecido para finalizar as refeições, mas continuo achando ele bom: a forma de se sinalizar o final de uma refeição é deixando os talheres sobre o prato; no entanto, pessoas “educadas” sabem que jamais, nunca, em nenhuma hipótese, você coloca os talheres em “x”; eles “devem” ser colocados em paralelo (há uma divergência se eles podem ser colocados de forma parela ou formado ângulo de 90o com a mesa, mas isso é preciosismo   :-p)

A maioria de vocês dirá: ah Flavia, isso é uma idiotice, o importante é mostrar que se está satisfeito e encerrou a refeição! Poizé, o mesmo dirão aqueles que escrevem “os livro”: dá pra entender perfeitamente que aquilo é um plural, pra que tanta bagunça com o assunto? Eu hein?

O princípio é o mesmo. Quem diz que “ah, mas português não é o mesmo que etiqueta” não está se colocando no lugar de alguém que sempre falou ‘ os livro’ e foi entendido. Como você vai explicar que tudo o que ele fez até então estava errado? Não dá. Porque ele não vai entender, da mesma forma que vocês não vão entender se eu tiver uma síncope nervosa se empilharem pratos ao tirá-los da mesa. Simples assim. E por que isso? Porque é convenção. A língua é viva, mas salvo engano, o que se convenciona chamar de correto é, (acacianamente definindo), con-ven-ção.

Em resumo: o que o livro diz (ou tenta dizer, de forma um tanto desazada, confesso) é que você até pode falar “os livro”, mas essa não é a forma adotada pela gramática “oficial”, e ao não falar ou aprender a forma “oficial”, você será considerado burrão pela maioria das pessoas e sofrerá preconceito por isso. Não tem nenhuma mentira aí: a gente enxerga mesmo como mal educado (ou melhor, instruído) aqueles que não escrevem ou falam corretamente; o que talvez seja mais difícil enxergar é que somente uma convenção definiu o que é certo ou errado (a ABNT também tem uma convenção chatérima para citações de obras, o processo é similar).

 

<abre parênteses> A Mahayana vai chiar um pouquinho aqui, dizendo que o ideal seria que não houvesse restrições ou reprimendas pelo falar diferente, mas aí fico o Marcelo Soares que, ao compartilhar texto sobre o tema disse:

“A propósito, estou lendo o excelente livro “The Information”, do James Gleick. Exatamente no capítulo em que eu estou lendo, ele conta como a língua inglesa se padronizou lentamente a partir do século 16, por conta de necessidades comerciais (os documentos precisavam ser unívocos). Até então, “keep”, “keepe” e talvez até “kyp” eram grafias aceitáveis para o verbo “manter”. Diz Gleick que Newton escreveu em latim principalmente para garantir univocidade. Ou seja: se for olhar pela própria história da gramática, fica claro que ela não é “certa” ou “errada”, e sim convencionada para os fins a serem atingidos” </fecha parênteses>

É importante ressaltar que “nós”, os instruídos, também fazemos isso o tempo todo. Eu DUVI -DE-O-DÓ que alguém aí fale no dia a dia utilizando a forma preconizada pela gramática normativa (brincando no Twitter disse que deveria ser muito engraçado fazer sexo falando como os gramáticos o exigem. Já pensaram? Poizé) 😉

De tanto leva “frechada” do teu olhar
Meu peito até parece sabe o quê?
“Táubua” de tiro ao Álvaro
Não tem mais onde furá

(Tiro ao Alvaro, de Adoniran Barbosa)

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=ACg4OxVDr_w/youtube]

 

 

 

 

 

 

2. E o tal preconceito linguístico?

Uma das formas de se identificar a origem e educação de uma pessoa é observar a forma como ela fala ou escreve; aparência, modos à mesa, obediência de regras sociais de convivência e vestuário adequado às ocasiões são outros (Sim, quase todo mundo faz isso. Sim, o mundo é horrível, vai lá no S.A.C divino reclamar). Claro que isso é preconceito. Pode até te levar a conclusões erradas, mas eu mesma o tenho, confesso. Se é verdade que não me privo de ouvir os ensinamentos de alguém que fale errado, de outro não posso negar que me seria incômodo ouvir uma pessoa falando errado ao meu lado. Eu sei que não é bonito dizer isso, mas me incomodo. Teria dificuldades em ter uma relação íntima com quem fala errado, não tenho esse desprendimento todo. Admiro quem tenha. Eu não tenho.

No entanto, tenho consciência que essa minha percepção advém de eu relacionar português normatizado com “certo”, e a forma como pessoas educadas falam. Não sei se todo mundo tem essa consciência, principalmente aqueles que não falam de acordo com a gramática normatizada – e é importante que elas o saibam, para não se sentirem diminuídas.

Aí é que a história do preconceito linguístico “pega” um pouco pra mim: dizer que a pessoa é “vítima de preconceito linguístico” pode levar as pessoas a acreditar que todos têm a obrigação de tolerar que se fale errado, fazendo uma analogia com os direitos das minorias (sou negro, mulher, homossexual e mereço tratamento igual ao das pessoas que não pertencem a essa minoria) quando na verdade o que se está dizendo é “você fala de um jeito diferente porque foi educado assim, no seu meio é assim que as frases são formadas; em alguns lugares você pode falar assim e não será censurado, mas  a depender do local em que você falar desse jeito, você será discriminado, então vale a pena entender a gramática normatizada”.

Claro, há autores que defendem aquela ideologia toda de luta de classes na gramática, numa vaibe “bora dizer que nóis escreve como queremo e ‘ces têm que aceitar porque somo do proletariado”, com a qual eu particularmente não concordo, mas entendo o ponto. MAS TENHO QUE RESSALTAR DE NOVO: NÃO É ISSO QUE O LIVRO DIZ.

O que o livro diz ( e diz mal, como explicarei mais adiante) é que a linguagem normatizada é a oficial e a tida como culta, correta, a que te dá status de “pessoa educada”. Pessoas que não falam daquela forma são tidas como mal educadas, ignorantes e que portanto você precisa aprender a “oficial”.

I loves you, Porgy,
Don’t let him take me
Don’t let him handle me
And drive me mad
If you can keep me
I wanna stay here with you forever
I’ve got my man

 

[ I loves you Porgy, uma das músicas mais lindas que conheço, da ópera Porgy and Bess]

3. Os livros não são destinados para crianças

Eles fazem parte de um projeto bacana (ao menos até onde vi) chamado EJA,  voltado para jovens e adultos com pouca escolaridade.

Todo mundo que já teve filho pequeno e tem bom senso sabe: quando ele começa a falar, a maioria dos especialistas diz que o melhor para o desenvolvimento da fala de uma criança é não ficar corrigindo todos os erros dele; há que se repetir assim que possível o termo na forma correta para que aos poucos o conceito seja internalizado. E por quê isso? Porque se o corrigirmos toda hora, ele pode se retrair, pode desistir de tentar falar só pra não correr o risco de errar. Quando se fala de adultos então, deve-se ter tão ou mais cuidado na apresentação do material e do juízo de valor (inclusive de si mesma), que a pessoa fará.

Pensa bem: se você não estudou durante o tempo em que isso seria obrigatório, obviamente isso se deu porque a sua vida não é lá muito fácil. Aí você decide que precisa aprender a ler e escrever melhor e talz, e descobre que você não sabe quase nada. Daí pra largar o curso é um pulo. Isso também deve ser levado em consideração, não acham? Dirão alguns: “é paternalismo”, e eu admito que da forma como autora colocou, soa mesmo como paternalismo. Mas se a forma de exposição do conceito está (a meu ver) inadequada, o conceito em si é correto.

Sob o ponto de vista da psicologia (importantíssimo em questões educacionais, vocês hão de convir) não repudiar a fala daquele que está aprendendo também é muito importante. Nas palavras do Marcos Donizetti:

“ a inserção no mundo da linguagem é a inserção do indivíduo no mundo da cultura e, digo mais, a possibilidade que esse sujeito tem de participar de um mundo subjetivo que, em última instância, o constitui. Quando chamamos norma culta de “correta” e norma coloquial de “incorreta”, não estamos falando do idioma, mas sim de lugares, de posições referenciais do sujeito falante diante de seu mundo. Essas posições são socialmente determinadas. O que ocorre é a apropriação de um saber (o idioma) como ferramenta de diferenciação social. Eu mesmo, nascido de uma família “simples”, que pouco uso faz “dos plural” poderia muito bem internalizar a idéia de que o falar das pessoas que constituem o meu mundo é “incorreto”, daí facilmente pode haver o “salto” que me leva a pensar que meu lugar no mundo é incorreto, ou não tão correto quanto poderia ser se eu fosse de outra classe social. Isso é o tal preconceito, e acho SENSACIONAL que esse mecanismo seja abordado em livros didáticos. Dizer ao sujeito, ainda na fase de aprendizado, que existem maneiras diferentes de se dizer algo, e que cada forma é aplicável a determinado contexto é LINDO. Agora, isso deve ser feito com bastante cuidado. O trecho que eu li do tal livro que causou a polêmica era ruim, citava o preconceito lingüístico en passant e como motivo “único” para o aluno aprender a norma culta. SE (não vi o livro todo) essa for a pegada do livro, temos um problema. Assim como a questão do preconceito deve sim ficar clara para o estudante, os motivos de saber também a norma culta devem ser cristalinos (já que, falando em termos sociais, existe nesse saber questões de inserção, e em termos de comunicação, de poder se comunicar com mais pessoas, entender mais textos etc etc etc). O lance é que a gritaria da imprensa e a histeria dos blogueiros da Veja, que só pude ver hoje, é a mais pura manifestação do tal preconceito”

Acho que está claro né?

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver…

(Preciso me encontrar, de Cartola e Candeia)

 

4. Trecho do livro está mal apresentado

A se levar em conta a velha teoria de que quando muitos alunos repetem a culpa pode ser do professor, talvez tenhamos no próprio texto um exemplo claro de que a autora não cumpriu a missão de levar a mensagem a Garcia e não logrou êxito.

Isso porque, a meu ver, apesar de não ter nenhuma mentira ou erro conceitual ou mesmo novidade, está mal escrito. Eu mesma só consegui compreender os conceitos que a autora expôs depois de extensa explicação de minha amiga linguista Mahayana (sou chique, tão pensando o quê?) e eu me considero uma pessoa razoavelmente instruída. A autora talvez tenha tentado ser sucinta e não foi nada feliz; o assunto pode ser claro naqueles termos que ela colocou para os especialistas, para aqueles que sempre lidaram com a questão, mas para leigos é bem difícil de compreender o que se está sendo dito, a menos que o intuito ideológico.

Pecou também o MEC ao colocar o Ministro para explicar o livro ao invés de um especialista que entendesse não só do que estava falando mas também que soubesse se comunicar com as massas de forma adequada. Não dá pra negar: O Ministro Haddad tentando justificar o livro deixou a emenda muito pior que o soneto.

Mina,
Seus cabelo é “da hora”,
Seu corpão violão,
Meu docinho de coco,
Tá me deixando louco.

(Mamonas Assassinas, sucesso dos anos 90)

 

5. Como esse texto vai ser ensinado na escola?

Essa é a minha maior preocupação. Na verdade, estamos falando só de um capítulo, e não acho sequer que isso será muito aprofundado. O problema que vejo é: se a autora não está conseguindo passar sua mensagem para quem tem instrução e boa vontade (eu e várias pessoas que conheço), como será essa transmissão em um ambiente com várias pessoas de escolaridade mais baixa? Mais: isso será transmitido de forma “pura” ou carregado de “ideologia”? Já há questionamentos sobre a utilização de regra nenhuma no ENEN, o que ao meu ver é um absurdo. Esses os pontos que ao meu ver deveriam ser discutidos e enfrentados, ao invés de se discutir o que todo mundo já sabe: assim como moda é adequação, linguagem também é. Varia, quer queiram quer não 🙂

 

There ain’t no mountain high enough
Ain’t no valley low enough
Ain’t no river wide enough
To keep me from getting to you

(Ain’t no mountain high enough, de Marvin Gaye)

 

Blog da Bethania: tuitar é fácil, cobrar o Estado nem tanto

Pra variar, a notícia da autorização para que a empresa da Maria Bethania captasse recursos financeiros via incentivo fiscal com o objetivo de criar um blog de poesia virou uma algaravia, onde as críticas mais absurdas e sem sentido foram feitas: desde ofender Maria Bethania (impressionante como falta às pessoas um mínimo de decoro e postura para discutir o que quer que seja ultimamente), até dizer que isso só aconteceu por causa da gestão da atual Ministra da Cultura, patinho feio entre alguns ativistas da internet.

Não vou chover no molhado, repetir o que todo mundo já disse e escreveu com maior ou menor propriedade, e NÃO VOU vou falar aqui sobre o valor captado pela Bethania. A mim parece alto, mas eu não entendo nada desse tipo de indústria e não vou falar do que não entendo: vi muita gente em quem confio dizer que não é um valor tão absurdo assim, e como este vários projetos da mesma ordem de grandeza foram aprovados (e pra quem se interessar, vale ler a justificativa de Hermano Vianna, um dos integrantes do projeto.). Por outro lado, também li que o valor é alto, que há irregularidades, e que tem muita coisa errada nele. Talvez tenha sido um exagero, mas aí de novo: o problema é da lei, não da Maria Bethania.

Minha ideia aqui não é falar sobre o que todos já falaram: é aproveitar o gancho do bethaniagate pra falar sobre financiamento da Cultura no País, aproveitando para também chamar a atenção de vocês quanto a irregularidades que vêm sido perpetradas e que ninguém se dá ao trabalho de apurar, ou mesmo de pressionar as autoridades competentes para que tais atitudes não se repitam. A elas, então 🙂

1. Renúncia Fiscal, Orçamento do Ministério da Cultura e Tribunal de Contas: alguns esclarecimentos

Sem entrar em detalhes quanto às alíquotas dedutíveis na Lei Rouanet e na Lei do Audiovisual – até porque este texto se pretende “non-lawyers friendly”-, creio ser necessário fazer alguns esclarecimentos muito importantes antes de entrarmos no assunto propriamente dito.

Tanto a Lei Rouanet quanto a Lei do Audiovisual são renúncias fiscais do Governo Federal. Algo como conceder alíquota zero de IPI para determinados produtos, ou conceder isenção de impostos para determinado setor econômico. Indiretamente, é sim dinheiro que o governo deixa de receber, mas é uma verba que NÃO ESTÁ ALOCADA NO ORÇAMENTO DO MINISTÉRIO DA CULTURA, ou seja o Ministério da Cultura não perde ou ganha nada com isso. “Ah, mas com isso poderiam ser construídas não sei quantas casas populares”- well, poderia. Mas também há dotação orçamentária para isso, então não acho que seja o caso (como explicarei mais adiante).

O valor da renúncia fiscal é muito alto; de acordo com esse relatório do Tribunal de Contas da União, ele é bem maior do que o orçamento do Ministério da Cultura. Além disso, descobri um dado um tanto quanto nefasto: grande parte do orçamento do MinC é utilizado para fiscalizar (mal, como vermos adiante) o andamento e o cumprimento dessas renúncias fiscais! Pode isso, Arnaldo?

Não fiquei feliz com a descoberta e acredito que essa distorção deveria ser equacionada – de sopetão, penso numa espécie de pagamento de valor de administração ou algo que o valha pelo beneficiário – mas a ideia não é discutir projeto de lei aqui, apenas apontar falhas e direções, certo?

Tem mais: não se tem a menor ideia de qual impacto tais renúncias trazem à sociedade:

Pera, que o melhor vem agora: a lei pode não ser perfeita, evidentemente contém distorções, pode e deve ser melhorada, mas não bastasse isso, ela não vem sendo cumprida à risca de há muito, sabiam? Saibam os senhores que lendo o relatório do TCU, descobri que este vem puxando a orelha do Ministério da Cultura em decorrência de aprovações de projetos não permitidos por lei. É, isso mesmo que vocês leram: O Ministério da Cultura vem interpretando (esse relatório é de 2008) a lei conforme lhe dá na telha, e com isso projetos que não poderiam a rigor ser aprovados o são. Uma gracinha, vocês não acham?

Sei lá, mas tenho a impressão que melhor fariam aqueles que bradam contra a Lei Rouanet chamando-a de “ herança maldita do neoliberalismo” se antes de mais nada cobrassem fiscalização da lei. E posso estar enganada, mas não vi ninguém até agora reclamar sobre isso. Até entendo: é mais fácil usar o gerador automático de arremesso de pedras na Geni do que ler relatório do TCU, n’ est ce pas? 🙂

Repito o que falei quando tivemos as enchentes: o que fizemos a respeito disso? Foram tomadas quaisquer medidas? Então… É isso que eu falo: enquanto essa postura não mudar, sinto informá-los que podemos ter as leis mais suecas do mundo, mas continuaremos a ter um Estado que é a casa da mãe Joana. E me incluo nesse mea culpa, antes que vocês briguem comigo 🙂

2. Qual o tipo de espetáculo ou obra de arte a ser incentivado pelo Governo Federal? Ele deve financiar (através da renúncia fiscal) espetáculos de grande porte, onde artistas e produtores a rigor lucrariam muito e cobrariam ingressos caríssimos, como foi o caso do Cirque do Soleil, o Rock in Rio e afins?

Até hoje alguns advogados mais antigos se recusam a admitir que a advocacia é uma empresa, um negócio, onde os advogados visam ter lucro em suas empreitadas. Para alguns, ainda persiste a imagem daquele advogado solitário às voltas com causas fantásticas e ideais, praticamente um cavaleiro andante no mundo jurídico, e não pessoas que se enfurnam freneticamente horas a fio dentro de um escritório de advocacia preocupadas com a concorrência e quanto ele conseguiu debitar em horas no fim do mês. Ficou menos ético? Para aqueles que são corretos, não: o tamanho de um negócio não interfere na idoneidade de alguém. Há ainda aqueles advogados idealizados? Sim, e os que são bons cobram caro por terem esse perfil, para poder ter menos clientes. Tem lugar pra todo mundo.

Com a cultura ocorre a mesma coisa. Como cultura é algo “nobre”, ela não pode ser comercializada, isso seria “vilipendiá-la”. Toda vez que cultura visa obter lucro, os bedeis elitistas chamam isso de “visão classe média do que seja cultura”. Na visão de alguns cultura TEM QUE ser algo marginal, algo que não dê dinheiro, algo que deixe aqueles atores ligados à manifestação cultural sempre na penúria – se não for assim, deixa-se de ser artista e passa-se a ser outra coisa (não sei direito o que, pra ser sincera).

Até admito e imagino que seja mais difícil manter uma veia artística, manter o genial, quando se está preocupado com salários e pagamento da manutenção da sua casa em Malibu, quando se indaga se aquela manifestação cultural será lucrativa. Eu particularmente não sou da turma que curte o mainstream – mas isso não significa que ele não deva existir, e que ele não tenha INCLUSIVE uma função social, como a geração de empregos. É fácil falar que não gosta dos filmes mainstream de Hollywood, que adora os filmes com produções alternativas ou de outros países (e ainda bem que há opções, né?) , mas não há como negar que aqueles filmes (ainda que vários sejam ruins, previsíveis, bla bla bla) geram empregos, fazem a economia circular. E vamos e venhamos: a própria indústria de Hollywood mostra que da quantidade sai qualidade. Não gosto da ideia de definir o que pode e o que não pode ser produzido.

Eu não gosto de Tchakabum. Mas tem quem goste. Eles também se beneficiaram de renúncia fiscal, não é só Bethania e Cirque do Soleil

Então, quando falamos de cultura e artes, não podemos esquecer que existe também (embora os elitistas detestem a ideia) a indústria do entretenimento. É de massa? Sim. Dá lucro? Bien sur. É a coisa mais legal do mundo? Tem gente que acha que sim, tem gente que acha que não (os elitistas dizem que é um absurdo inclusive, como já disse nesse post e aqui também). O Governo deve incentivar? Eu acho que sim, e que é preconceito dizer que não deve. É indústria. Gera empregos, aquece a economia e o Governo dá incentivo a outros setores também. “Ah, mas dá lucro!”, dirão alguns. Que bom, né? Assim, com sorte, há pagamento de impostos. 🙂

Acho que existe um preconceito, aquela coisa que artista pra ser bom precisa ser maldito, fracassado, duro, senão não é bom. Tá na hora de rever isso, não acham? É uma visão elitista do que seja um artista, com todo o respeito de quem pensa o contrário. É romantizar uma profissão, assim como romantizam o professor, o médico, o advogado.

Claro, há uma faceta da cultura que poderíamos chamar de mais “marginal”, onde o artista não se adequa a uma série de imposições sociais, e ainda aquelas manifestações culturais que por não chamar a atenção do grande público correm o risco de morrer, e é sim função do Estado, na medida de sua condição e atendendo determinados critérios, não só zelar pela existência de tais manifestações culturais como também incentivá-las. Isso não está em discussão. O que estou tentando mostrar aqui é que são duas faces da mesma moeda: a indústria do entretenimento e as manifestações culturais que dificilmente seriam lucrativas, mas que nem por isso são menos importantes.

3. Alguém como Maria Bethania precisa se utilizar de incentivos fiscais para captar dinheiro na praça?

Ora, o governo subsidia e financia diversos outros setores da economia. Por que não deveria financiar também a indústria do entretenimento? Se há financiamento dos demais ramos da indústria e comércio (seja através de juros mais baixos e parcelamentos a perder de vista para aquisição de maquinário, seja através de alíquotas diversas de impostos em alguns casos) por que não poderia fazer isso com a indústria do entretenimento, tão rica de talentos (gostemos ou não deles, é inegável a capacidade de produção econômica de alguns artistas) aqui no país? Por que determinar que esse ramo da economia tem que se virar sozinho enquanto os outros, de uma forma ou de outra, têm algum tipo de subsídio? No que uma colheitadeira, um jornal (que tem imunidade tributária) é menos importante que uma peça teatral ou mesmo que a banda Calypso? Desculpem, isso é ser elitista. É ter uma visão estreita do que seja cultura e manifestação cultural. É só ver beleza no que é humilde, ou pobre, ou querer que todos ouçam Stravinsky na marra ao invés de ouvir proibidão. Proibir artista “famoso” de se beneficiar de incentivo fiscal é punir sucesso, coisa aliás muito habitual aqui no Brasil. E nem mencionei quão difícil seria  definir “sucesso” e “fama” – conceitos muito fluidos e subjetivos que permitiriam milhares de manobras quando da análise dos projetos.

Cumpre ressaltar: não estou defendendo os valores do projeto da Maria Betânia, pois como eu disse, não vou falar sobre o que não entendo. A mim parece que os valores são altos, mas não tenho elementos pra falar sobre o assunto. Minha questão é outra: é defender que possa haver incentivos fiscais para projetos grandes, garantida uma diferenciação para aquelas manifestações culturais advindas de pessoas menos conhecidas e mesmo aquelas que não chamem tanto a atenção do grande público.

Nesse ponto, tenho que concordar com as críticas feitas à Maria Bethania: esse subsídio deve ser diferente daquele praticado junto aos artistas desconhecidos. Não acho que tenha que acabar, pelas razões colocadas acima, mas deve ser diferente, sim. Mas como?

4. Como lidar com as incongruências e falhas da Lei Rouanet, que em tese aprova qualquer projeto bem elaborado, mas na prática inviabiliza projetos de artistas desconhecidos porque estes não conseguem acesso às empresas que podem patrociná-las?

Tratamento desigual para os desiguais: à primeira vista, tal conceito pode parecer incompatível com o princípio constiticional da igualdade, mas na verdade ele vem em seu auxílio, pois só conseguimos igualdade quando as partes estão no mesmo “ patamar”, digamos assim.

Há que se reparar diferenças ao fazer a lei ou aplicá-la. Nesse contexto, por óbvio, não dá pra dar o mesmo tratamento para uma Maria Bethania e para, sei lá, um grupo de teatro desconhecido da periferia; a mim é evidente que esse segundo grupo deva ter um maior apoio do Estado do que a Maria Bethania. Ou talvez nem estejamos falando de apoios maiores ou menores, mas em formas de se apoiar um e outro projetos.

Por exemplo, se uma Maria Bethania, por seu renome e contatos, tem mais facilidade, uma vez autorizada a captar recursos, do que o tal grupo, é evidente que o Governo precisa auxiliar este último a captá-los. Como? Tem que ser pensado.

A mim parece que, da mesma forma que o Governo Federal concede micro-crédito a pequeníssimos empresários, poderia fazer o mesmo no âmbito da Cultura.

O @sandro_serpa também aventou a hipótese de as empresas poderem descontar os incentivos do imposto de renda, mas não poderiam escolher para quem doassem, isso seria decidido pelo Governo Federal. É uma ideia, certamente haverá outras, e aqui admito que ideologia política tem um certo impacto: na minha concepção de Estado, este, dentre outras coisas, deve suprir ou atender a população onde a iniciativa privada não vai. Não acho que o Estado tenha que fazer tudo – se só fiscalizar já exige uma baita parcela do orçamento, executar tudo complicaria ainda mais as coisas. Não há como fazer os grandes empresários financiarem os pequenos projetos, ou aqueles de temática mais obscura? Acho que ele deve cuidar disso, da mesma forma que faz nos outros setores da economia. E já está na hora de parar de ver cultura como algo dissociado da economia, acho eu – até porque isso só a prejudica, como estamos vendo.

4. Vamos matar o mensageiro ou vamos prestar atenção no que o Poder Público está fazendo, analisar a lei e cobrar mudanças?

Pra encerrar: claro que devemos ser críticos, pegar no pé dos artistas e questionar os valores de captação autorizados: só estou pedindo uma crítica construtiva, sem utilização de clichês e palavras de ordem.

Acho que há muito a ser feito na legislação do setor, como mencionei nos itens acima.

Além deles, deixei de mencionar alguns pontos que merecem nota (mas não vou entrar neles senão esse post ficará ainda maior do que já está):

  • o alto preço dos ingressos de projetos financiados : não digo que se devesse tabelá-los, mas certamente isso deveria ser levado em consideração na hora da aprovação do projeto;
  • licença creative commons (fins não comerciais) para projetos que se beneficiaram de renúncia fiscal: acho que é uma contrapartida interessante e merecida (o que, diga-se de passagem, o projeto de Bethania, segundo Hermano Vianna prevê);
  • renúncia fiscal total (desconto do total investido no projeto) deveria permitir que a empresa colocasse sua marca como apoiadora? Eu acho que não.

Por fim, apesar de ficar um pouco incomodada de sempre terminar alguns posts repetindo que nem papagaio a mesma coisa, não tenho como deixar de dizer:  enquanto a população não entender que pode reclamar, que tem o direito de cobrar , participar e sobretudo fiscalizar o Estado, não há como evoluir em alguns setores. E confesso a vocês que fico cada vez mais desanimada ao ver o nível de argumentação de alguns setores de nossa intelecutalidad. Jogar pedra na Geni não resolve: pra mim é mais importante descobrir quem colocou ela lá. Mas tuitar é mais fácil, né? 🙂

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P.S. A expressão “tuitar é fácil” eu afanei do Marcelo Sant’ Iago 🙂

 

 

 

 

 

 

 

Carnaval em Salvadô (quase) sem axé: sim, é possível

Os ubber queridos @syferrari, @ianblack e @santa helena vão passar o Carnaval em Salvador, mas não gostam de axé. Estavam preocupados e me perguntaram se o problema deles tinha solução: dá pra ir pra Salvador e se divertir no Carnaval sem ter que ouvir Bel, Ivete e Liga da Justiça o tempo todo? Sim, dá.

Então resolvi fazer um post praqueles que por acaso estejam em Salvador odiando a ideia de passar um Carnaval lá. Espero que seja útil.

1. Pergunte pros locais ou blogs especializados quais são os blocos e os lugares alternativos bacanas para ir.

Esse ano  @riqfreire fez um post sobre “Carnaval  sem abadá” e circuitos alternativos em Salvador, graças às lindas e fofas Dri Lima e Eunice; vale consultar, estudar e seguir.

Vale lembrar uma coisa: é na frente do Ed. Oceania, no início do circuito da Barra, que muitas coisas acontecem, como Bono fazendo dueto com Ivete anos atrás, por exemplo 🙂

2. Programas históricos de Carnaval

A Bahia tem blocos tradicionais que merecem ser vistos em seu ápice e não como mais um bloco a desfilar no circuito. Ressalto abaixo três deles que merecem ser conhecidos:

SEXTA DE CARNAVAL: saída do Olodum e bloquinhos do Pelô

No Pelourinho rola uma espécie de Carnaval da Saudade, com blocos pequeninhos, como se fosse uma cidade de interior. A diferença é que estamos na Bahia, então eu já vi bloco misturando samba e jazz, batuque com clarineta, com outro de frevo à frente e por aí afora. O Olodum sai tarde, bem tarde (entre 11 e uma da manhã) e o bacana é que antes de concentrar na Rua Chile (o Olodum começa e termina o circuito na Castro Alves, ao contrário dos outros blocos), o grupo sai da sede e percorre as ruas do Pelourinho com o seu batuque de personalidade própria, levando todos atrás deles. É lindo, é emocionante, é puro videoclipe do Michael Jackson.

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http://www.youtube.com/watch?v=YDJDPfkHgP0

SÁBADO DE CARNAVAL: VER O ILÊ AYÊ SAIR NO CURUZU

Sábado o programa imperdível a noite é ir ver o Ilê Ayê no Curuzu. Esse é um daqueles programas da Bahia em que sacro e profano se complementam de uma forma deliciosa. Pra quem não conhece, o Ilê é música de protesto negro, uma coisa bem afro (com a péculiaridade dos negões colocarem lentes de contato azul, hahaha); só há pouquíssimo tempo é que permitiu-se a participação de brancos no bloco. A Liberdaade é um bairro muito pobre de Salvador, e pra lá só vão turista gringo, gente da terra que entende de Cultura e o pessoal da comunidade, além do Prefeito e toda a nata da baianidad cultural lá marcando presença.

Antes de sair, os pais e mães de santo fazem todas as mandingas próprias para a ocasião, soltando pombo branco e dando banho de pipoca (que no candomblé é um ritual de purificação) na galera, tudo isso ouvindo a batida do Ilê (totalmente diferente do Olodum, mas não menos emocionantee). É lindo, é autêntico e emocionante. Imperdível, se você se interesse por cultura brasileira.

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Mais sobre o Ilê Ayê ou “As aventuras de Lady Rasta na Liberdade” você encontra aqui e ali. 🙂

Chegue cedo e faça de quartel general o bar ao lado da sede. Aliás, importante: a saída é da sede antiga, não da mais nova, onde rolam os ensaios. Não se confunda, porque os rituais, que é o mais bacana, rolam na sede antiga.

DOMINGO: VER A SAÍDA DOS FILHOS DE GANDHI DO PELOURINHO

Vocês sabem por que os filhos de Gandhi usam branco? Uma das histórias afirma que, sendo um bloco de estivadores do cais do porto de Salvador que… humm… interagia (digamos assim) com as prostitutas do Maciel (Boca do Lixo ou Mangue baiano à época), usaram como fantasia os lencóis das moças 🙂

Filhos de Gandhi é um dos afoxés mais tradicionais de Salvador, e de novo o sacro e o profano, os banhos de pipoca, o cheio de alfazema se misturam com a farra. Antigamente (antes da playbozada fingir que desfila no Gandhi) era o máximo ganhar uma guia (colar de contas) dos integrantes do afoxé, era visto como sorte. Hoje em dia a playbozada só dá as guias se as meninas derem beijo na boca. Até pode ser que as pessoas achem graça, mas esse escambo eu não curto ;-).

Voltando ao que interessa: Eles saem da sede do Pelô no domingo ou 3a feira de Carnaval às 15:00. Sugiro que vcs almocem antes “do lado de lá” do Pelourinho (perto do Convento do Carmo – favor ficar esperto na baixa dos sapateiros, entre uma subida e outra no Pelourinho, perto do bar em que foi filmado “Ó pai ó”, porque ali é quebrada – tranquilo se vc prestar atenção, mas não deem mole). Uma pedida excelente é o Bar do Paschoal, que tem uma vista linda (todo mundo sabe onde é). depois do almoço, vão até a sede dos Filhos de Gandhi (no Pelourinho) e acompanhem a saída deles de lá.

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ATENÇÃO: não se conformem em vê-los na Barra. A Barra é a Vila Olímpia do Carnaval baiano, o bacana é ver os caras saírem da sede deles. Até porque tem uma coisa divertida: os caras não têm horário fixo pra entrar no circuito da Avenida, então eles esperam a brecha entre Ivete e Bel (Chiclete) pra entrar, e inevitavelmente Bel briga com Ivete pelo microfone 🙂

Quando cansarem, peguem o elevador Lacerda e de lá peguem um taxi pra voltar, é o mais fácil e tranquilo (todo mundo usa o elevador no Carnaval, como já disse).

ARRASTÃO DE CARLINHOS BROWN NA QUARTA FEIRA DE CINZAS

Coloque o despertador na 4a de manhã e vá pra Barra ver Carlinhos Brown arrastar quem ainda tem forças. Já vi Ivete mandar virar o trio pra encontrar com ele; já vi ele sair a pé na frente do trio com um cocar lindo, carregando todo mundo atrás.

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3. E qual é o lance pra quem não curte axé mas quer experimentar um pouquinho?

Pegar só um pouco dos blocos da Barra e do Centro. Eu adoro sair no Crocodilo de Daniela Mercury no domingo de Carnaval n Barra (é super GLS, já aviso), e na Timbalada no circuito da Avenida Sete (recomendo na 3a, pra fechar o circuito com chave de ouro). Vocês vão rir, mas eu acho que todo mundo um dia na vida deveria saber qual é a sensação de chegar na Praça Castro Alves no Carnaval. Muito melhor que escrever um livro, coisa banal nos tempos de internet.

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http://www.youtube.com/watch?v=p8MATnaFKbE

Se vocês virem o Olodum sair do Pelô na 6a, Ilê no sábado, Gandhi no domingo a tarde e Daniela a noite, descansar na segunda, Timbalada na 3a e Arrastão na 4a, parabéns: vocês merecem o carimbo de PHD de Baianidad. 🙂

E fiquem com Chame Gente, de Dodô e Osmar, considerada uma espécie de hino do Carnaval da Bahia, e que o sintetiza de uma forma única:

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P.S. Vocês vão achar mais dicas e a maioria dos links dos lugares que mencionei nesse post aqui (vale ver os outros relacionados também).

Livros

– “Filho, sua mãe não tá boa hoje, viu? Tô meio nervosa”.

– “Vamos na Cultura, mamãe? Você sempre fala que se acalma quando entra numa livraria; a gente podia ir lá e você fica melhor, que tal?”.

Meu filho tinha uns 10 anos quando esse diálogo aconteceu, e como (quase) sempre, ele estava certo: se tem um lugar onde eu consigo me acalmar é numa livraria ou numa biblioteca. Tem para mim o mesmo efeito que entrar numa igreja tem para algumas pessoas. Ver aquele monte de informação, aquele monte de histórias e modos de ver o mundo sempre me fascinou de tal forma que para mim é impossível não sair de lá diferente, pensando em um monte de coisas – ou com vários livros na sacola 😆

Sem contar o cheiro né? Sempre adorei o cheiro dos livros: desde os novos, prontos para serem anotados (sim, eu cometo isto que alguns julgam ser uma heresia: anoto livros – digo que tenho que marcá-los da mesma forma que eles me marcam), aos mais velhos, com aquele cheiro de sebo. É quase um afrodisíaco para mim. Poderia dizer que só o cheiro deles já faz com que eu me acalme, como um bebê que sente o cheiro da mãe, saca? Ou como uma moça apaixonada quando sente o cheiro do perfume do seu amor.

Foi meu pai o responsável por minha paixão pelos livros quando menina, hábito que felizmente consegui inculcar também no meu filho. E vou contar uma coisa para vocês: apesar de quase ninguém acreditar quando eu afirmo ser reservada (e mesmo tímida) ainda hoje, a verdade é que não só estou sendo sincera como eu era muito muito pior quando menina.  E os livros continuam tendo esse papel na minha vida: desde a minha infância, eles estão ao meu lado quando ninguém pode ou quer estar ali, ou quando eu estou tão triste ou tão sem vontade de interagir que só a companhia deles me é tolerável.  Sim, eu acho livros um remédio quase perfeito para solidão e para os momentos tristes da vida: nada como uma história cativante e envolvente para fazer você esquecer os seus problemas e se preocupar com o dos outros (no caso, dos personagens). Livros pra mim são quase uma medicação: quando algum amigo está muito triste eu digo que está “na hora da saga”: é o momento perfeito para você ler aquela história rocambolesca de vários volumes compridíssima – e quando terminar, tenha certeza: você estará melhor.

Sou tão fiel que os prefiro a filmes, disparado. Os amantes do cinema que me perdoem, mas para mim são raros os filmes que conseguem me prender como um bom livro consegue. Nas palavras do Nick Horby em “The Polyssalabic Spree”,

“Books are, let’s face it, better than everything else. If we played Cultural Fantasy Boxing League, and make books go fifteen rounds in the ring against the best that any other art form had to offer, then books would win pretty much every time. Go on, try it. The Magic Flute v. Middlemarch? Middlemarch in six. The Last Suuper v. Crime and Punishment? Fyodor on points. See? I mean, I don’t know how scientific this is, but it feels like the novels are walking it. You might get the occasional exception – Blonde on Blonde might mash up The Old Curiosity Shop, say, and I wouldn’t give much for Pale’s Fire’s chances against Citizen Kane. And every now and again you’d get a shock, because that happens in sport, so Back to Future III might land a lucky punch on Rabbit, Run; but I’m still backing literature 29 minutes out of 30. Even if you love movies and music as much as you do books, it’s still, in any given four week period, way, way more likely you’ll find a great book you haven’t read than a great movie you haven’t seen, or a great album you haven’t heard”

Não poderia concordar mais; como o diálogo do início do texto mostra, cada um tem o seu templo: um dos meus é uma livraria. Podem ter certeza: se um dia vivêssemos uma realidade similar à de Fahrenheit 456, eu seria da resistência. 🙂

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Este post faz parte da blogagem coletiva sugerida pelo Alessandro Martins, ” Por que eu gosto de ler livros“. Fiz depois do tempo regulamentar, mas o que vale é a intenção, né? 🙂

Passeando pelos proibidões

“ A capoeira agora é um AK-47 na mão q não está mais acorrentada”

(Gilberto Pavoni Jr., comentando um post meu)

O Vladimir Aras, que é meu oráculo em questões criminais na internet fez um verdadeiro estudo comparado entre as músicas que enaltecem o crime (aqui chamados de funk proibidões) por causa da prisão dos MCs dos proibidões.

Curiosa, fui dar uma fuçada nos ditos cujos pra conhecer um pouco daquilo e pra variar fiquei entre a cruz e a caldeirinha.

Não entendo nada de direito penal não vou me meter a falar dele, mas imagino que deva ser muito complicado fazer essa prova, por causa da linha tênue que existe entre liberdade de expressão e a apologia ao crime. Ouvi muitas músicas que ficam nesse limiar, nessa zona cinzenta, vi um documentário “Grosso Calibre” que a Liv Brandão recomendou (e é fundamental pra começar a tentar entender essa bagaça)  e to aqui mutanto o que pode ser considerado manifestação cultural e o que é efetivamente apologia ao crime (pra quem quiser, escrevi um post falando sobre manifestação cultural)

Quanto a mim, vejo outros pontos nessa equação: há o fato (benéfico) de que um determinado sujeito (e estamos aqui falando de pessoas da periferia, inclusive de criminosos) se sente inserido, se sente parte da sociedade ao se manifestar culturalmente (ou vê em determinada manifestação cultural algo com que se identifique). E quer queiramos quer não, tudo aquilo cantado (ou contado) nos funks proibidões são parte da vida deles, da vida da favela. Não acho que seja possível sufocar essas vozes todas – ou ao menos, em sendo possível, não sei até que ponto isso é desejável ou não. Eu tenho a posição de que se deve interferir o mínimo possível nisso.

E taí pra mim o xis da questão: o que é interferir o mínimo? Como se consegue um equilíbrio entre a liberdade de expressão, entre permitir a manifestação cultural dessas pessoas ao mesmo tempo em que se protegem determinados valores que o Estado vê como passíveis de serem tutelados?

Porque tem algo que não podemos ignorar: há uma diferença grande entre enaltecer as facções criminosas e retratar o dia a dia das favelas e quero  acho que é isso que deveria estar em discussão. Quanto à associação ao tráfico, por mais que eu entenda que na favela é muito difícil você não se associar ao tráfico, com todo o respeito não há como o Estado não punir artistas que vão a bailes funks e proferem palavras de ordem ou pedem para os integrantes das facções se identificarem.

Apesar de não gostar nada de ter que dizer isso, reconheço que veicular músicas enaltecendo as facções criminosas é sim um componente complicado na equação, à medida em que vai inculcar na cabeça das crianças um sentimento de pertencimento maior, de orgulho de pertencer ao tráfico – eu sei que eles não se sentem assim somente por causa da música, como eu disse ela é apenas mais um componente na equação, mas não sei se consigo ficar tranqüila com a decisão “pode falar o que quiser e pronto”.

Já há algumas crianças que no morro vêem os traficantes como heróis;  canções enaltecendo isso só pioram essa idealização (aliás, ao ouvir o próprio MC Smith falando no “Grosso Calibre”, ao menos para mim ficou claro que ele também tem uma certa admiração pelos caras do tráfico; tem um trecho inclusive  em que ele fala “querendo ou não os traficantes são os herois da favela” – o que, nós sabemos, não é tããão verdade assim)

Por mais que eu seja a favor da liberdade de expressão, não acho que esse tipo de exaltação deva ser permitida. Sei que não adianta, que essas músicas vão ser ouvidas de qualquer forma, sei até mesmo que os bandidos têm direito à sua própria manifestação cultural, mas não consigo ouvir esse tipo de música, imaginá-las sendo cantadas por milhares de pessoas numa quadra do morro, imaginar crianças cantarolando as ditas cujas e achar que é bacana. Não é.

Por outro lado não adianta nada haver a coibição dessas músicas se o Estado não estiver efetivamente dentro dos morros, provendo educação, infra-estrutura e segurança para os seus habitantes. O tráfico se alimenta dos “soldados”, das crianças que acabam entrando para o mundo do tráfico porque não têm condições sócio-econômicas, porque não têm boa estrutura familiar, e são atraídas por todos aqueles símbolos de proteção e segurança que uma facção e suas armas possuem. Não acho que o tráfico coopte as pessoas porque elas são pobres, mas porque à pobreza se juntam inúmeros outros fatores que vão fazer com que a tal “vida loka “ seja atraente.  A mim impressionou muito ver, no documentário do Falcão (que merece ser visto também) um menino no início da vida no tráfico dizer que a pessoa de quem ele mais gostava era o “fiel” dele. Fiel é o cara que já tá na “firma”, na organização criminosa, e que tem seus “protegidos”, meninos e meninas que querem entrar pro crime. Não é difícil imaginar porque o “fiel” é o cara de quem ele mais gosta: ele deve se sentir seguro, protegido, ao lado de uma figura masculina como essa. Triste né?

Também não ignoro que o problema do tráfico não é só um problema do morro e das favelas; há toda a questão do tráfico de armas, e durante aquela quizumba que rolou no Rio falou-se muito da questão do comércio de armas e de como não interessaria que o tráfico deixasse de existir para que esse mercado não perca receita. Também sei há muitas figuras conhecidas envolvidas no tráfico e que elas não estão na favela e ninguém as está proibindo de cantar as músicas que bem entenderem; por outro lado não posso deixar de lembrar o quanto de influência pode ter alguns tipos de música sendo inculcados na cabeça das crianças com o perfil que tracei alguns parágrafos acima e isso não acontece com as crianças das classes mais altas.

Por isso fico numa encruzilhada aqui: não sei dizer onde estão os limites da liberdade de expressão e a tutela do Estado no que tange ao enaltecimento das facções criminosas. Tendo no entanto  a defender que músicas enaltecendo facções criminosas não deveriam ser veiculadas, não por censura prévia, que isso fique claro, poi s é coisa que abomino, mas por critério dos próprios compositores – e que eles respondam em Juízo caso o Ministério Público ache que passou-se dos limites, como é o caso agora das prisões dos MCs. Por outro lado, por mais terríveis que sejam alguns funks, não havendo menção às facções do tráfico, não sei se proibir os proibidões é algo que faça sentido – porque não adianta acabar com a música se a realidade está lá..

Separei alguns proibidões aqui embaixo para vocês perceberem as diferenças entre eles, pois eu acho que há ao menos 3 grupos aí: protesto, cotidiano do crime e “hino” ou enaltecimento não ao crime, per se, mas às facções criminosas. Nem sei se o primeiro (do qual gostei muito, aliás) eu nem sei se é considerado proibidão, pois a mim parece mais música de protesto. Os outros são mais ou menos pesados, e alguns elogiam a ADA e o Comando Vermelho (tem vídeo ao vivo do MC Smith em festa do tal FB, por exemplo, que é de arrepiar – ao menos para mim). Já adianto: não me venham dizer que a música é um lixo, que isso não é arte, blábláblá; talvez não seja arte, mas é uma manifestação cultural legítima, que vive de forma pujante na periferia e ignorá-las não vai fazer com que os proibidões desapareçam.

E por favor, deem seus pitacos!!

Essa aqui ao vivo, cantada pelo Mc Smith é no aniversário de um traficante

P.S. Tive uma conversa com a Renata Correa sobre o assunto, que tem um comentário muito pertinente sobre o fato do MC Smith estar numa encruzilhada complicada, e gostaria que ela o reproduzisse aí embaixo pra nós quando pudesse. E também coloco na íntegra o comentário do Gilberto Pavoni no meu post sobre Manifestação Cultural, porque vale a reflexão (e ele também ta intimado a comentar – não basta seguir no twitter, tem que participar)

Há dois significados de cultura. Um é aquilo produzido pelos indivíduos e outro é o esforço desses indivíduos para tentarem viver suas vidas. O funk é um produto. Cultura-produto. Resultado de periferias de metrópoles tentando se manifestar com padrões de comportamento e linguagem que fazem parte do dia-a-dia delas… e tendo um melê musical pop americano muito forte nessa rotina de expressão e sobrevivência.

Como as periferias do Brasil continuam a ser guetos de descendentes de escravos, continuam a ter seu batuque com melemolência e lascividade como na época do Império. Não é no tambor, é no mixer.

Já leu sobre a história do Lundu como origem do Samba? Tb era mais batuque e rebolado do q qq coisa. Aí, a nobreza meteu uns instrumentos goela abaixo pra poder apresentar na sala de estar. Capoeira era luta de matar com o pé, já q a mão estava acorrentada. Aí virou dança pra poder ser vista por olhos puros dos colonizadores.

O lundu não virou jazz por aqui só pq esse gueto não tem instrumentos disponíveis nem aula de música. O gueto compra os instrumentos agora e a elite não é mais tão mescenas (talvez, por isso não vire arte pra muitos). Sem essa oportunidade (e outras), continua tudo sendo batuque, sexo… e violência pra sobreviver.

O lundu continua… só q agora com uma cara de 2 Live Crew pra todo lado. A capoeira agora é um AK-47 na mão q não está mais acorrentada…

Entendo o aspecto 2 Live Crew. Tem q ser mesmo assim. Sexo é algo da essência nesses guetos. É tabu, forma de ascensão social e ainda um traço de identificação histórica que torna a periferia menos Europa. É um sexo como linguagem e não o sexo como moral e objeto de estudo como se fosse algo alienígena. Já a violência não muda.. só qdo vira filme no blu-ray da TV full HD.