Youkali e os tons de cinza

Passeando com um dos meus amigos mais queridos da vida (falo dele no último trecho deste post) sábado na feira orgânica da Barra Funda, comentava sobre  um dos últimos textos do Contardo Calligaris, que eu adorei e que muita gente viu como um soco no estômago.

Segundo o Contardo Calligaris, depressão acontece quando as pessoas não conseguem mais ver o encanto do cotidiano, aquilo que eu chamo de ver ritual onde as pessoas vêem rotina aborrecida, ver cor no dia a dia, nas pequenas coisas, porque é disso afinal, que a vida é feita: de pequenos momentos aqui e ali, e não dos momentos grandiosos, dos acontecimentos retumbantes. Estes têm sua força, nos nutrem por certo, mas é nas cores do dia a dia, é na conversa de todo santo  jantar, naquele telefone de boa noite ou pra dizer “não tive um dia bom e precisava falar com você” que as relações se constroem e a vida acontece.

Aí ele responde: ” o problema está justamente aí: não é que você não vê cor; às vezes você até vê cor, mas as únicas cores que você vê são vários tons de cinza”.

Tive que concordar. Quem nunca esteve lá no fundo do poço que atire a primeira pedra.

Inconscientemente ou não (ele sempre teve o dom de saber o que acontece comigo sem que nem mesmo eu saiba, aquela peste), depois do almoço ele me mostrou um vídeo lindo, da soprano Teresa Stratas (que eu, felizmente eterna ignorante, não conhecia), um Tango Habanera tristíssimo chamado Youkali, de Kurt Weill (o mesmo que escreveu a deliciosa Speak Low), cuja música sem a letra originariamente fazia parte de uma peça chamada Marie Galante e que merece ser visto:

 

A

A letra é linda:

C’est presqu’au bout du monde
Ma barque vagabonde
Errant au gré de l’onde
M’y conduisit un jour
L’île est toute petite
Mais la fée qui l’habite
Gentiment nous invite
À en faire le tour

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Youkali
C’est la terre où l’on quitte tous les soucis
C’est, dans notre nuit, comme une éclaircie
L’étoile qu’on suit
C’est Youkali

Youkali
C’est le respect de tous les voeux échangés
Youkali
C’est le pays des beaux amours partagés
C’est l’espérance
Qui est au coeur de tous les humains
La délivrance
Que nous attendons tous pour demain

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

Et la vie nous entraîne
Lassante, quotidienne
Mais la pauvre âme humaine
Cherchant partout l’oubli
À, pour quitter la terre
Se trouver le mystère
Où nos rêves se terrent
En quelque Youkali

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Youkali
C’est la terre où l’on quitte tous les soucis
C’est, dans notre nuit, comme une éclaircie
L’étoile qu’on suit
C’est Youkali

Youkali
C’est le respect de tous les voeux échangés
Youkali
C’est le pays des beaux amours partagés
C’est l’espérance
Qui est au coeur de tous les humains
La délivrance
Que nous attendons tous pour demain

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

(a versão em inglês, pra quem não entende francês, está aqui)

Chorei de borrar o rímel vendo o vídeo. Tá tudo misturado ali: tem mulher velha com moço moço, mulher com mulher, velhinhos, gente gorda, gente magra, todo mundo dançando feliz… Tem esperança. Tem serenidade. Tudo flui.

Mas como a letra bem diz,  isso não existe, né? Principalmente nos dias intolerantes de hoje. Youkali é só um sonho, uma loucura, não existe, nos conta a letra.

O problema é quando a gente não consegue sequer sonhar com ele. Como eu sempre digo, a pior coisa que pode acontecer a alguém é sentir desesperança, ter a plena convicção de que vai ver tudo cinza pra sempre e o pior: se conformar com isso, sequer ter forças de se revoltar com essa cinzidão toda. Ter forças somente para respirar fundo e olhar para o outro lado, colocando um sorriso no rosto quando vê que vai chorar se parar pra pensar em determinados aspectos da vida, porque se parar para pensar, vai chorar dias a fio e entrar num buraco de dar medo aos mais corajosos. Só quem já esteve (ou está) lá sabe como é isso. Não quero isso para o meu pior inimigo. Vou contar pra vocês: sorte daqueles que ainda conseguem sonhar com Youkali.

 

 

Carnaval em Salvadô (quase) sem axé: sim, é possível

Os ubber queridos @syferrari, @ianblack e @santa helena vão passar o Carnaval em Salvador, mas não gostam de axé. Estavam preocupados e me perguntaram se o problema deles tinha solução: dá pra ir pra Salvador e se divertir no Carnaval sem ter que ouvir Bel, Ivete e Liga da Justiça o tempo todo? Sim, dá.

Então resolvi fazer um post praqueles que por acaso estejam em Salvador odiando a ideia de passar um Carnaval lá. Espero que seja útil.

1. Pergunte pros locais ou blogs especializados quais são os blocos e os lugares alternativos bacanas para ir.

Esse ano  @riqfreire fez um post sobre “Carnaval  sem abadá” e circuitos alternativos em Salvador, graças às lindas e fofas Dri Lima e Eunice; vale consultar, estudar e seguir.

Vale lembrar uma coisa: é na frente do Ed. Oceania, no início do circuito da Barra, que muitas coisas acontecem, como Bono fazendo dueto com Ivete anos atrás, por exemplo 🙂

2. Programas históricos de Carnaval

A Bahia tem blocos tradicionais que merecem ser vistos em seu ápice e não como mais um bloco a desfilar no circuito. Ressalto abaixo três deles que merecem ser conhecidos:

SEXTA DE CARNAVAL: saída do Olodum e bloquinhos do Pelô

No Pelourinho rola uma espécie de Carnaval da Saudade, com blocos pequeninhos, como se fosse uma cidade de interior. A diferença é que estamos na Bahia, então eu já vi bloco misturando samba e jazz, batuque com clarineta, com outro de frevo à frente e por aí afora. O Olodum sai tarde, bem tarde (entre 11 e uma da manhã) e o bacana é que antes de concentrar na Rua Chile (o Olodum começa e termina o circuito na Castro Alves, ao contrário dos outros blocos), o grupo sai da sede e percorre as ruas do Pelourinho com o seu batuque de personalidade própria, levando todos atrás deles. É lindo, é emocionante, é puro videoclipe do Michael Jackson.

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http://www.youtube.com/watch?v=YDJDPfkHgP0

SÁBADO DE CARNAVAL: VER O ILÊ AYÊ SAIR NO CURUZU

Sábado o programa imperdível a noite é ir ver o Ilê Ayê no Curuzu. Esse é um daqueles programas da Bahia em que sacro e profano se complementam de uma forma deliciosa. Pra quem não conhece, o Ilê é música de protesto negro, uma coisa bem afro (com a péculiaridade dos negões colocarem lentes de contato azul, hahaha); só há pouquíssimo tempo é que permitiu-se a participação de brancos no bloco. A Liberdaade é um bairro muito pobre de Salvador, e pra lá só vão turista gringo, gente da terra que entende de Cultura e o pessoal da comunidade, além do Prefeito e toda a nata da baianidad cultural lá marcando presença.

Antes de sair, os pais e mães de santo fazem todas as mandingas próprias para a ocasião, soltando pombo branco e dando banho de pipoca (que no candomblé é um ritual de purificação) na galera, tudo isso ouvindo a batida do Ilê (totalmente diferente do Olodum, mas não menos emocionantee). É lindo, é autêntico e emocionante. Imperdível, se você se interesse por cultura brasileira.

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Mais sobre o Ilê Ayê ou “As aventuras de Lady Rasta na Liberdade” você encontra aqui e ali. 🙂

Chegue cedo e faça de quartel general o bar ao lado da sede. Aliás, importante: a saída é da sede antiga, não da mais nova, onde rolam os ensaios. Não se confunda, porque os rituais, que é o mais bacana, rolam na sede antiga.

DOMINGO: VER A SAÍDA DOS FILHOS DE GANDHI DO PELOURINHO

Vocês sabem por que os filhos de Gandhi usam branco? Uma das histórias afirma que, sendo um bloco de estivadores do cais do porto de Salvador que… humm… interagia (digamos assim) com as prostitutas do Maciel (Boca do Lixo ou Mangue baiano à época), usaram como fantasia os lencóis das moças 🙂

Filhos de Gandhi é um dos afoxés mais tradicionais de Salvador, e de novo o sacro e o profano, os banhos de pipoca, o cheio de alfazema se misturam com a farra. Antigamente (antes da playbozada fingir que desfila no Gandhi) era o máximo ganhar uma guia (colar de contas) dos integrantes do afoxé, era visto como sorte. Hoje em dia a playbozada só dá as guias se as meninas derem beijo na boca. Até pode ser que as pessoas achem graça, mas esse escambo eu não curto ;-).

Voltando ao que interessa: Eles saem da sede do Pelô no domingo ou 3a feira de Carnaval às 15:00. Sugiro que vcs almocem antes “do lado de lá” do Pelourinho (perto do Convento do Carmo – favor ficar esperto na baixa dos sapateiros, entre uma subida e outra no Pelourinho, perto do bar em que foi filmado “Ó pai ó”, porque ali é quebrada – tranquilo se vc prestar atenção, mas não deem mole). Uma pedida excelente é o Bar do Paschoal, que tem uma vista linda (todo mundo sabe onde é). depois do almoço, vão até a sede dos Filhos de Gandhi (no Pelourinho) e acompanhem a saída deles de lá.

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ATENÇÃO: não se conformem em vê-los na Barra. A Barra é a Vila Olímpia do Carnaval baiano, o bacana é ver os caras saírem da sede deles. Até porque tem uma coisa divertida: os caras não têm horário fixo pra entrar no circuito da Avenida, então eles esperam a brecha entre Ivete e Bel (Chiclete) pra entrar, e inevitavelmente Bel briga com Ivete pelo microfone 🙂

Quando cansarem, peguem o elevador Lacerda e de lá peguem um taxi pra voltar, é o mais fácil e tranquilo (todo mundo usa o elevador no Carnaval, como já disse).

ARRASTÃO DE CARLINHOS BROWN NA QUARTA FEIRA DE CINZAS

Coloque o despertador na 4a de manhã e vá pra Barra ver Carlinhos Brown arrastar quem ainda tem forças. Já vi Ivete mandar virar o trio pra encontrar com ele; já vi ele sair a pé na frente do trio com um cocar lindo, carregando todo mundo atrás.

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3. E qual é o lance pra quem não curte axé mas quer experimentar um pouquinho?

Pegar só um pouco dos blocos da Barra e do Centro. Eu adoro sair no Crocodilo de Daniela Mercury no domingo de Carnaval n Barra (é super GLS, já aviso), e na Timbalada no circuito da Avenida Sete (recomendo na 3a, pra fechar o circuito com chave de ouro). Vocês vão rir, mas eu acho que todo mundo um dia na vida deveria saber qual é a sensação de chegar na Praça Castro Alves no Carnaval. Muito melhor que escrever um livro, coisa banal nos tempos de internet.

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http://www.youtube.com/watch?v=p8MATnaFKbE

Se vocês virem o Olodum sair do Pelô na 6a, Ilê no sábado, Gandhi no domingo a tarde e Daniela a noite, descansar na segunda, Timbalada na 3a e Arrastão na 4a, parabéns: vocês merecem o carimbo de PHD de Baianidad. 🙂

E fiquem com Chame Gente, de Dodô e Osmar, considerada uma espécie de hino do Carnaval da Bahia, e que o sintetiza de uma forma única:

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P.S. Vocês vão achar mais dicas e a maioria dos links dos lugares que mencionei nesse post aqui (vale ver os outros relacionados também).

Passeando pelos proibidões

“ A capoeira agora é um AK-47 na mão q não está mais acorrentada”

(Gilberto Pavoni Jr., comentando um post meu)

O Vladimir Aras, que é meu oráculo em questões criminais na internet fez um verdadeiro estudo comparado entre as músicas que enaltecem o crime (aqui chamados de funk proibidões) por causa da prisão dos MCs dos proibidões.

Curiosa, fui dar uma fuçada nos ditos cujos pra conhecer um pouco daquilo e pra variar fiquei entre a cruz e a caldeirinha.

Não entendo nada de direito penal não vou me meter a falar dele, mas imagino que deva ser muito complicado fazer essa prova, por causa da linha tênue que existe entre liberdade de expressão e a apologia ao crime. Ouvi muitas músicas que ficam nesse limiar, nessa zona cinzenta, vi um documentário “Grosso Calibre” que a Liv Brandão recomendou (e é fundamental pra começar a tentar entender essa bagaça)  e to aqui mutanto o que pode ser considerado manifestação cultural e o que é efetivamente apologia ao crime (pra quem quiser, escrevi um post falando sobre manifestação cultural)

Quanto a mim, vejo outros pontos nessa equação: há o fato (benéfico) de que um determinado sujeito (e estamos aqui falando de pessoas da periferia, inclusive de criminosos) se sente inserido, se sente parte da sociedade ao se manifestar culturalmente (ou vê em determinada manifestação cultural algo com que se identifique). E quer queiramos quer não, tudo aquilo cantado (ou contado) nos funks proibidões são parte da vida deles, da vida da favela. Não acho que seja possível sufocar essas vozes todas – ou ao menos, em sendo possível, não sei até que ponto isso é desejável ou não. Eu tenho a posição de que se deve interferir o mínimo possível nisso.

E taí pra mim o xis da questão: o que é interferir o mínimo? Como se consegue um equilíbrio entre a liberdade de expressão, entre permitir a manifestação cultural dessas pessoas ao mesmo tempo em que se protegem determinados valores que o Estado vê como passíveis de serem tutelados?

Porque tem algo que não podemos ignorar: há uma diferença grande entre enaltecer as facções criminosas e retratar o dia a dia das favelas e quero  acho que é isso que deveria estar em discussão. Quanto à associação ao tráfico, por mais que eu entenda que na favela é muito difícil você não se associar ao tráfico, com todo o respeito não há como o Estado não punir artistas que vão a bailes funks e proferem palavras de ordem ou pedem para os integrantes das facções se identificarem.

Apesar de não gostar nada de ter que dizer isso, reconheço que veicular músicas enaltecendo as facções criminosas é sim um componente complicado na equação, à medida em que vai inculcar na cabeça das crianças um sentimento de pertencimento maior, de orgulho de pertencer ao tráfico – eu sei que eles não se sentem assim somente por causa da música, como eu disse ela é apenas mais um componente na equação, mas não sei se consigo ficar tranqüila com a decisão “pode falar o que quiser e pronto”.

Já há algumas crianças que no morro vêem os traficantes como heróis;  canções enaltecendo isso só pioram essa idealização (aliás, ao ouvir o próprio MC Smith falando no “Grosso Calibre”, ao menos para mim ficou claro que ele também tem uma certa admiração pelos caras do tráfico; tem um trecho inclusive  em que ele fala “querendo ou não os traficantes são os herois da favela” – o que, nós sabemos, não é tããão verdade assim)

Por mais que eu seja a favor da liberdade de expressão, não acho que esse tipo de exaltação deva ser permitida. Sei que não adianta, que essas músicas vão ser ouvidas de qualquer forma, sei até mesmo que os bandidos têm direito à sua própria manifestação cultural, mas não consigo ouvir esse tipo de música, imaginá-las sendo cantadas por milhares de pessoas numa quadra do morro, imaginar crianças cantarolando as ditas cujas e achar que é bacana. Não é.

Por outro lado não adianta nada haver a coibição dessas músicas se o Estado não estiver efetivamente dentro dos morros, provendo educação, infra-estrutura e segurança para os seus habitantes. O tráfico se alimenta dos “soldados”, das crianças que acabam entrando para o mundo do tráfico porque não têm condições sócio-econômicas, porque não têm boa estrutura familiar, e são atraídas por todos aqueles símbolos de proteção e segurança que uma facção e suas armas possuem. Não acho que o tráfico coopte as pessoas porque elas são pobres, mas porque à pobreza se juntam inúmeros outros fatores que vão fazer com que a tal “vida loka “ seja atraente.  A mim impressionou muito ver, no documentário do Falcão (que merece ser visto também) um menino no início da vida no tráfico dizer que a pessoa de quem ele mais gostava era o “fiel” dele. Fiel é o cara que já tá na “firma”, na organização criminosa, e que tem seus “protegidos”, meninos e meninas que querem entrar pro crime. Não é difícil imaginar porque o “fiel” é o cara de quem ele mais gosta: ele deve se sentir seguro, protegido, ao lado de uma figura masculina como essa. Triste né?

Também não ignoro que o problema do tráfico não é só um problema do morro e das favelas; há toda a questão do tráfico de armas, e durante aquela quizumba que rolou no Rio falou-se muito da questão do comércio de armas e de como não interessaria que o tráfico deixasse de existir para que esse mercado não perca receita. Também sei há muitas figuras conhecidas envolvidas no tráfico e que elas não estão na favela e ninguém as está proibindo de cantar as músicas que bem entenderem; por outro lado não posso deixar de lembrar o quanto de influência pode ter alguns tipos de música sendo inculcados na cabeça das crianças com o perfil que tracei alguns parágrafos acima e isso não acontece com as crianças das classes mais altas.

Por isso fico numa encruzilhada aqui: não sei dizer onde estão os limites da liberdade de expressão e a tutela do Estado no que tange ao enaltecimento das facções criminosas. Tendo no entanto  a defender que músicas enaltecendo facções criminosas não deveriam ser veiculadas, não por censura prévia, que isso fique claro, poi s é coisa que abomino, mas por critério dos próprios compositores – e que eles respondam em Juízo caso o Ministério Público ache que passou-se dos limites, como é o caso agora das prisões dos MCs. Por outro lado, por mais terríveis que sejam alguns funks, não havendo menção às facções do tráfico, não sei se proibir os proibidões é algo que faça sentido – porque não adianta acabar com a música se a realidade está lá..

Separei alguns proibidões aqui embaixo para vocês perceberem as diferenças entre eles, pois eu acho que há ao menos 3 grupos aí: protesto, cotidiano do crime e “hino” ou enaltecimento não ao crime, per se, mas às facções criminosas. Nem sei se o primeiro (do qual gostei muito, aliás) eu nem sei se é considerado proibidão, pois a mim parece mais música de protesto. Os outros são mais ou menos pesados, e alguns elogiam a ADA e o Comando Vermelho (tem vídeo ao vivo do MC Smith em festa do tal FB, por exemplo, que é de arrepiar – ao menos para mim). Já adianto: não me venham dizer que a música é um lixo, que isso não é arte, blábláblá; talvez não seja arte, mas é uma manifestação cultural legítima, que vive de forma pujante na periferia e ignorá-las não vai fazer com que os proibidões desapareçam.

E por favor, deem seus pitacos!!

Essa aqui ao vivo, cantada pelo Mc Smith é no aniversário de um traficante

P.S. Tive uma conversa com a Renata Correa sobre o assunto, que tem um comentário muito pertinente sobre o fato do MC Smith estar numa encruzilhada complicada, e gostaria que ela o reproduzisse aí embaixo pra nós quando pudesse. E também coloco na íntegra o comentário do Gilberto Pavoni no meu post sobre Manifestação Cultural, porque vale a reflexão (e ele também ta intimado a comentar – não basta seguir no twitter, tem que participar)

Há dois significados de cultura. Um é aquilo produzido pelos indivíduos e outro é o esforço desses indivíduos para tentarem viver suas vidas. O funk é um produto. Cultura-produto. Resultado de periferias de metrópoles tentando se manifestar com padrões de comportamento e linguagem que fazem parte do dia-a-dia delas… e tendo um melê musical pop americano muito forte nessa rotina de expressão e sobrevivência.

Como as periferias do Brasil continuam a ser guetos de descendentes de escravos, continuam a ter seu batuque com melemolência e lascividade como na época do Império. Não é no tambor, é no mixer.

Já leu sobre a história do Lundu como origem do Samba? Tb era mais batuque e rebolado do q qq coisa. Aí, a nobreza meteu uns instrumentos goela abaixo pra poder apresentar na sala de estar. Capoeira era luta de matar com o pé, já q a mão estava acorrentada. Aí virou dança pra poder ser vista por olhos puros dos colonizadores.

O lundu não virou jazz por aqui só pq esse gueto não tem instrumentos disponíveis nem aula de música. O gueto compra os instrumentos agora e a elite não é mais tão mescenas (talvez, por isso não vire arte pra muitos). Sem essa oportunidade (e outras), continua tudo sendo batuque, sexo… e violência pra sobreviver.

O lundu continua… só q agora com uma cara de 2 Live Crew pra todo lado. A capoeira agora é um AK-47 na mão q não está mais acorrentada…

Entendo o aspecto 2 Live Crew. Tem q ser mesmo assim. Sexo é algo da essência nesses guetos. É tabu, forma de ascensão social e ainda um traço de identificação histórica que torna a periferia menos Europa. É um sexo como linguagem e não o sexo como moral e objeto de estudo como se fosse algo alienígena. Já a violência não muda.. só qdo vira filme no blu-ray da TV full HD.

Brasil tira as flechas do peito do meu padroeiro

São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro

O @arnobio1969 escreveu  um post falando sobre o Rio de Janeiro, lançando a tag #amorio e na seqüência lembrei de uma declarações de amor mais bonitas que o Rio de Janeiro já recebeu, feita pelo meu ubber querido Ricardo Freire e… eu fiquei comuma inveja brava dos dois.

Então, como eu não vou conseguir fazer nada nem perto dos posts mencionados, faço aqui uma relação de sete dúzia de músicas sobre o Rio de Janeiro. Não sei o que é preciso pra essa situação mudar, não vou dar pitaco (mas faço minhas as palavras do meu querido Walter Hupsel e este texto aqui também); e sei também que fazer um post sobre o que o Rio tem de bom não vai mudar.

Foto gentilmente surrupiada do blog do Riq Freire

Mas a campanha I <3 NY começou numa época em que a cidade estava ao léu, um verdadeiro caos, e a primeira coisa que os americanos fizeram depois do ataque às torres gêmeas foi sair com bandeiras americanas às ruas, como para lembrar de quem eles eram, para ter força de seguir em frente. Acho que é um começo: admitir que temos problemas sérios, que está na hora da sociedade discuti-los e enfrenta-los de forma madura, mas nunca nos esquecendo que o Rio é mesmo uma cidade fantástica, com peculiaridades mil. É hora de enaltecer suas qualidades, não para esquecer o que está errado, mas para lembrarmos o que tem de bonito, peculiar e encantador por trás desse caos.

Por isso, vai aqui a lista das minhas músicas prediletas sobre o Rio de Janeiro, essa cidade que eu adoro e que não canso de enaltecer.

Aproveito pra mandar também um abraço enorme e apertado pra todos os cariocas queridos que moram no meu coração (os quais não vou me arriscar a citar para não correr o risco de cometer injustiças – mas vocês sabem direitinho quem são, né?)

Quanto a mim, não vai ser um pandemoniozinho qualquer que me fará deixar de amar essa cidade e de ir praí muitas e muitas vezes mais. E vou com encrenca ou sem encrenca por aí 🙂

1. Rap da Felicidade

Rio enquadrado pela Rocinha, do meu querido Riq Freire

Lembrada pela Renata Correa e totalmente auto-explicativo. E tenho que colocar funk e rap nesse post porque eles existem, fazem parte do Rio e eu sou pela diversidade. Ademais, o funk de hoje é o samba de ontem. Como bem disse o Gilberto Pavoni comentando esse post aqui, “O lundu continua… só q agora com uma cara de 2 Live Crew pra todo lado. A capoeira agora é um AK-47 na mão q não está mais acorrentada…”.

2. Sou carioca, sou do Rio de Janeiro, Gabriel o Pensador

A música não está aqui porque é uma das minhas preferidas, mas gosto da letra e do tom pesado, fúnebre que, sei lá porque, ela me passa. Acho um bom intróito pra gente se lembrar como está o Rio (e a percepção que temos dele) nos dias de hoje. Gosto também pelo contraste, por lembrar não só o que é bacana, mas o que não é. Importante para começarmos a pensar em toda essa quizumba que tá rolando.

3. Saudades da Guanabara, Moacyr Luz e Aldir Blanc

Eu já gostava do Moacyr Luz, sempre o admirei muito como músico, vê-lo tocar é sempre um privilégio. A admiração cresceu quando fui ao Samba do Trabalhador, bem como quando comecei a interagir com ele no Twitter. E ele é um daqueles cariocas com amor à sua terra: sabe dos defeitos, os critica (como quando, neste Carnaval, escreveu uma crítica dura à organização do Carnaval do Rio).

Hoje, procurando as músicas para esse post,lembrei dessa música, e chorei quando ouvi o trecho que acabou virando o título desse post. Como não se emocionar com uma letra dessas?

Brasil, tua cara ainda é o Rio de Janeiro
Três por quatro da foto e o teu corpo inteiro
Precisa se regenerar

Eu sei
Que a cidade hoje está mudada
Santa Cruz, Zona Sul, Baixada
Vala negra no coração
Chorei
Com saudades da Guanabara
Da Lagoa de águas claras
Fui tomado de compaixão (…e então)
Passei
Pelas praias da Ilha do Governador
E subi São Conrado até o Redentor
Lá no morro Encantado eu pedi piedade
Plantei
Ramos de Laranjeiras foi meu juramento
No Flamengo, Catete, na Lapa e no Centro
Pois é pra gente respirar (Brasil)
Brasil
Tira as flechas do peito do meu Padroeiro
Que São Sebastião do Rio de Janeiro
Ainda pode se salvar

É uma dor delicada né? Ou melhor dizendo, uma dor profunda colocada de forma delicada. Chorei horrores ouvindo-a hoje. E espero mesmo que essas flechas sejam tiradas. De verdade.

4. It´s delovely, Cole Porter

Ah, claro que eu ia colocar um de meus compositores prediletos nesse post. Diz a lenda que Cole Porter compôs “It’s delovely” após ter visto a Baía da Guanabara ao amanhecer chegando de navio à soidisant Cidade Maravilhosa. Há quem diga que não, mas não quero saber: é plausível, é uma história bonita, cai como uma luva para este post e pronto!!

Pra ser sincera, não sei se o Rio de Janeiro combina com Cole Porter. Mas sei que minha querida Constance Escobar vai adorar a menção, ela e a sua casa definitivamente combinam com Cole Porter ?

5. Aquele Abraço, Gilberto Gil

“ E o Rio de Janeiro continua lindo”. Na real? Eu não gosto dessa música, acho meio mala, ela poderia terminar no meio, é muito repetitiva. Sou capaz de apostar que essa música foi criada numa tarde em que tava todo mundo babalu d’aldeia e acharam que a música tava o máximo. Também tenho certeza que essa música encabeça qualquer top 5 músicas de gente cachaçada tocando violão, (parelho com “meu amigo charlie brown”).

Mas é impossível eu ir ao Rio sem começar a cantarolar “ e o Rio de Janeiro continua lindo”, então, ela não poderia faltar nessa lista.

6. Samba do Avião, Tom Jobim

Pra mim é o verdadeiro hino do Rio de Janeiro. Prefiro a versão do João Gilberto (quando cantarolo o Samba do Avião na minha jukebox mental, é sempre a versão dele que me vem à cabeça).

E não vou falar mais nada, porque a música é auto-explicativa, e só quem já chegou ao Rio pelo Santos Dumont e gosta da cidade sabe do que estou falando…

7. Cidade Maravilhosa

Só pra fazer um grand finale. Diz a lenda que muito provavelmente Noel Rosa (um dos meus darlings) compôs essa música (falei um pouco disso aqui)

E você? Quer que o Rio saia dessa enrascada? E o que você gosta de lá?

***

P.S. Outros posts meus sobre o Rio de Janeiro aqui:

Top 10 músicas falando sobre a Lua

Hoje é noite de lua cheia. Adoro lua cheia, por todos os seus simbolismos, por sua beleza, pela luz maravilhosa que deixa qualquer praia e qualquer campo especiais e deslumbrantes. Gosto da energia intensa que a lua cheia proporciona (ainda que a intensidade por vezes me nocauteie). Então, hoje a tarde, quando a lua despontou no horizonte, eu e @marianamsdias corremos para fotografá-la.

Estou estranhamente serena nesta lua cheia, ao contrário das anteriores, e acho ótimo; talvez por isso tenha me vindo à cabeça “Moonlight Serenade”, que não é uma música de explosão; pelo contrário, é lânguida, é introspectiva…Digna de se ouvir enquanto Selene passeia com seu carro no céu, né não?

E por que estava inspirada, e porque tive um fim de semana delicioso, resolvi fazer um Top 10 músicas sobre a lua. Divirtam-se.

1. Clair de Lune, Debussy

Eu falei Moonlight Serenade no twitter, e o @felds lembrou de Clair de Lune, no que foi seguido pelo @alvarofreitas. Tinha que constar da seleção, d’accord?

2. Reflejo de Luna, Paco de Lucia

Eu adoro Paco de Lucia. Sou uma boa daquelas bem aventuradas que teve o privilégio de assistir a um show dele – e confesso achar  suas músicas muito langorosas, sensuais… Aliás, a maioria das cordas me traz esse tipo de sensação, devo admitir… <suspiros> <suspiros>

3. Blue Moon, Ella Fitzgerald

A lua cheia de hoje não é uma blue moon, mas não poderia deixar de incluí-la nessa lista. Rodgers and Hart, inspiradíssimos, aqui interpretada por Ella Fitzgerald

4. Banho de Lua, Cely Campello

Eu ainda tenho o LP de Estúpido Cupido, novela que vi quando menina e lembro muito bem das músicas. Não dava pra não colocar numa seleção de músicas falando sobre a lua…

5. Moonlight Serenade, Glenn Miller

Foi essa a música em que pensei de cara quando vi a lua nascendo essa noite. Uma de minhas preferidas. E mais não digo, porque essa não é música pra se explicar, e sim pra se sentir…


6. Luar do Sertão, Luiz Gonzaga

“se a lua nasce por detrás da verde mata

mais parece um sol de prata prateando a solidão”

Eu adoro a poesia de Luiz Gonzaga, me emociono com suas letras. E Luar do Sertão não poderia ser diferente, né? Me emociono às lágrimas, confesso.

Mas sabem de uma coisa? Quando estou num estado de espírito que me permite olhar pro céu e admirar a lua e sua luz, não sinto jamais solidão; é como se eu tivesse a força do mundo dentro de mim, entendem? É tão grande que não há como se sentir só…

7. Noite de Lua, Dilermando Reis

Faz alguns meses que ando curtindo violão, choros, valsas e afins. Adoro Dilermando Reis, e acho que a música cai muito bem com uma noite de lua cheia.

8. Lua de São Jorge, Caetano Veloso

“lua de São Jorge,

brilha nos altares,

brilha nos lugares

onde estou e vou”

Essa foi a Mariana que lembrou. Tem astral, é animada, e… de certa forma, São Jorge tem andado comigo desde o 10 de janeiro, então não poderia deixar de citá-la.

9. Fly me to the moon

“Fly me to the moon

Let me play  among the stars

Let me see what spring is like

On a Jupiter and Mars

In other words, hold my hand

In other words, baby, kiss me”

Acho que no universo das cantadas cafonas, essa seria uma excelente candidata ao podium. Mas…no caso, é o Frank Sinatra cantando. E quando o moço que faz a cantada é interessante, a gente acha tudo lindo, certo? E a gente quer mesmo fazer ele voar pra lua ou…xapralá… 🙂

10. Recado à minha amada (Lua vai), Katinguelê

Fala a verdade, algum de vocês achava mesmo que eu ia fazer uma seleção de músicas em que não houvesse nenhuma de gosto, hummm….duvidoso? Se tivesse feito isso, não seria uma seleção feita por mim, hehehe…

Adooooro “Recado a minha amada”. Em primeiro lugar, obviamente, porque me traz lembranças boas, evidentemente. Em segundo lugar, porque gosto mesmo, principalmente da versão com a Alcione… E querem saber? A letra  é bonitinha. Eu gosto. E a lista é minha e quem manda nela sou eu :-p

BONUS TRACK

Lua nha testemunha, Cesária Évora

Não conhecia essa música da Cesária Évora, encontrei-a enquanto achava os vídeos para esse post. Achei tão bonita que decidi colocar como bônus aqui também…

E vocês? Qual a música que fala sobre lua predileta de vocês?

Noite de insônia

“Ai ardido peito
quem irá entender o seu segredo
quem irá pousar em teu destino
e depois morrer de teu amor
ai mas quem virá
me pergunto a toda hora
e a resposta é o silêncio
que atravessa a madrugada
vem meu novo amor
vou deixar a casa aberta
já escuto os teus passos
procurando o meu abrigo
vem que o sol raiou
os jardins estão florindo
tudo faz pressentimento
que este é o tempo ansiado
de se ter felicidade…”

(Pressentimento

(Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho)

Ontem a noite depois de semanas, fui pra varanda da minha casa e vi que todas as minhas damas da noite (que eu adoro e que tinha replantado há pouco tempo) morreram. E como sempre comparo meu jardim com o meu estado de espírito, lembrei da música aí de cima.

Ah, quem dera fosse fácil assim, e que a casa estivesse aberta e os jardins floridos tão logo a casa estivesse vazia, né? Aliás, ultimamente, no mundo em que tudo é acelerado e preencher formulários de redes sociais é algo corriqueiro, há quem acredite que é só dizer que a casa tá vazia  e pronto – mas pensando bem, talvez seja isso mesmo e a errada seja eu. Ou talvez eu só seja mais romântica e mais lenta. Mas prefiro assim.

“Casa vazia” pra mim é algo mais complexo. Fim de algo significa casa vazia? Acho que não, porque fim é uma coisa, abrir espaço interno pra esvaziar a casa é outra. Às vezes demora tempo pra termos coragem de deixá-la vazia (da última vez foram vários anos; não um ou dois, mas vários – não digo que acho isso certo ou desejável, mas aconteceu e foi o suficiente pra entender que não é uma experiência a se repetir).

Sempre precisei ir até o inferno beijar o diabo pra depois voltar – inteira e refeita, mas não é um caminho que eu goste de fazer, acreditem. É que na verdade, a mim parece incongruente que a maturidade faça com que abandonemos emoções vividas, obriguemo-las a ficar num local espremidinho no coração da gente rápido; sempre achei que isso seria uma espécie de traição para com o que foi vivido, sabem? Sabe quando você está triste, com saudades e tem uma noite divertida? Eu já cheguei a ficar indignada com o fato de estar me divertindo, acreditem. Sempre me senti meio mal com a ideia de que, para seguir em frente, eu tivesse que deixar de lado ou abandonar sensações que foram importantes e bonitas de se viver. Hoje eu sei que estou errada – mas não consigo abandonar fácil essa sensação de que estou “traindo” o que foi vivido. Talvez porque quando algo é muito especial, você tenha dúvidas de que possa viver algo semelhante novamente. Falta de fé, né? Porque dá, juro. Mas eu só descobri isso há pouco tempo, então vocês têm que dar um desconto…

Muito tempo se passou até que eu entendesse que dar espaço a emoções que, por uma razão ou outra, não têm mais espaço na nossa vida, é antes de tudo, não se dar a chance de viver isso de novo; demorou pra entender que temos que cuidar do peito para que ele pare de arder, para que possamos tornar a casa aberta com jardins floridos (mas de verdade, não da boca pra fora – porque sair falando que tá pronto pra outra é uma coisa, outra beeeeem diferente é estar internamente pronto). Não digo que tenha aprendido a fazer isso de forma indolor e rápida – mas ao menos entendi que é preciso fazer isso. É um começo, certo? É só ter paciência (aquela coisa que eu só conheço porque a definição está no dicionário…).

Não acho que tenha sido coincidência que todas as minhas damas da noite tenham morrido nas últimas semanas; é a casa gritando que você tem que fazer mudanças, né?

Torçam pra minha casa ficar limpa e pros meus jardins florirem logo, porque eu não sei viver sem o coração batendo forte de alegria – mas por enquanto ele tá ardendo que só…

Domingão fazendo jus ao nick Lady Rasta

Volta e meia as pessoas perguntam daonde surgiu o nick ladyrasta (já que de rastafari eu não tenho absolutamente nada, :lol:); resumindo muito, a denominação me foi dada por um certo moço há uns anos atrás por causa da minha versatilidade em frequentar lugares absolutamente diferentes com a mesma desenvoltura. Surgiu num momento bacana, num lugar bacana (praia da Almada, pra ser mais precisa), achei que era uma forma sucinta de me definir, e adotei o nome (e hoje, confesso, acho bonitinho todo mundo da internet me chamar de Lady ou Lady Rasta…).

Tava pensando nisso ontem a noite, quando pensei na minha programação dominical (que inclusive, exigiu uma super ginástica de produção, pois os lugares a que fui eram tão díspares que não havia a menor condição de usar a mesma roupa em ambos).

Querem ver?

Comecei meu domingo com um almocinho rápido (já que o café da manhã tinha sido farto e tarde) mas gostoso no Le Vin: aquele tempo plúmbeo simplesmente pe-di-a um Croque Monsieur quentinho (e va lá, calórico) e uma tacinha de vinho básica.

Depois disso, fui assistir a um concerto na Sala São Paulo. Na programação, Quarteto de Cordas da Osesp, este ano patrocinada pelo Itaú Personalité – tinha contrabaixo, e eu sou simplesmente maluca por contrabaixo e violoncelo. Como sou uma moça de sorte, o Nilo, amigo querido de todas as horas (que, ressalte-se, nunca na vida deixou de ter a palavra certa na hora certa quando eu precisei – e acreditem, eu vivo precisando), além de ser meu amigo e meu cabeleireiro, também estudou piano anosssss a fio em conservatório, ou seja, eu não assisti a um concerto: tive uma aula de música clássica (e quase chorei durante a execução de uma peça de Dvorak, confesso).

A Sala São Paulo é um super programa, e está cada vez melhor: agora além de uma Dulca (que adoro), tem também uma loja de CDs e discos, focada em jazz, música clássica e música brasileira de qualidade. Divino.

Depois, pausa rápida para café na Livraria Cultura (onde fui pegar umas reservas) e… toca trocar de roupa pra ir para um samba na Vila Guarani.

Vila Guarani? É, isso mesmo, lá pros lados da Estação Conceição do metrô. Explico: todo mundo sabe que eu frequento uma roda de samba na PraçaRoosevelt todo santo sábado, chova ou faça sol (sério, pra eu deixar de ir lá tem que ter um motivo muito bom mesmo, caso contrário…). E no último sábado, por uma série de razões que não vêm ao caso agora, eu estava muito tristinha. Sabe quando o coração tá pesado? Então, era assim que eu tava. Fui  pra lá porque o antídoto pra isso, como todo mundo bem sabe, é justamente ouvir música, né? (manja aquele “cantando eu mando a tristeza embora” ? Então… 🙂 ).

Quando eu cheguei, tinha um convidado lá, o Renê Sobral. E ao fim de uma música homenageando São Jorge, ele começou a declamar “Jorge da Capadócia” em forma de oração de uma forma tão bonita, tão inflamada, tão emocionada, que eu, com o coração pesado que estava, me pus a chorar (tá, eu sei, até um comercial de margarina mais bem feitinho me arranca lágrimas, mas eu chorei com gosto sabe?). Aquilo me aliviou tanto, tanto, eu fiquei tão melhor depois daquilo que resolvi conferir a casa dele, o Terreirão do Sobral (vocês sabem, sagitariana da gema como eu não deixaria jamais uma coisa dessas passar em branco, jamais, n’ est ce pas?).

E lá fui eu, sozinha, com a cara e a coragem pra Vila Guarani. Lugar super simples, com frequência idem, mas não tive qualquer problema (aliás, falam tanto do preconceito de mulher frequentar determinados lugares sozinha, que é bom frisar isso, né?), fui super bem recebida e pude dançar sossegada. O Renê canta samba de raiz dos bons, e lá pelas tantas começa uma sequência de sambas de terreiro de arrepiar. Gravei o finalzinho da oração de São Jorge pra vocês (apesar da qualidade estar ruim e não transmitir um milésimo da emoção e energia do local):

Jorge Capadócia – Renê Sobral from Lady Rasta on Vimeo.

Jorge da Capadócia

Eu queria tirar fotos bacanas como vários amigos meus sabem (um dia aprendo), mas confesso que a cena que mais me emocionou eu jamais seria capaz de tirar foto, por pudor: um rapaz de seus 25 e poucos anos numa cadeira de rodas dançando com a namorada. Eu às vezes tenho um pouco de receio de parecer aquelas deslumbradas com cenas de Jorge Amado (de achar que tudo que é mais simples e popular é melhor), mas quanto mais reflito, vejo que não é isso: o que me encanta em alguns lugares (e nas rodas de samba isso é muito claro pra mim) é que todo mundo pertence, todo mundo tem seu lugar. Não são lugares onde só pessoas de 20 a 30 anos querendo beijar na boca vão; são lugares em que todo mundo vai, seja da idade que for, seja na condição que for. E isso torna tudo (ao menos para mim) muito mais real. Porque vocês me desculpem, mas eu acho aquela vida “Leblon na vibe Manoel Carlos” chata pra dedeu.

Eu preciso de mais. Eu preciso ir onde coisas bacanas aconteçam, independente do estilo – porque ainda que aos olhos de alguns os programas acima possam parecer um tanto quanto díspares, para mim não são, pois ambos têm personalidade, diferencial, atitude; ambos acrescentam. E isso é o que conta.

Well, acho que deu pra pegar a essência do nick, né? 😉

Boa semana pra vocês. 🙂

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P.S.  Post dedicado ao Nilo e à @syferrari (ela vai saber por quê)

P.S. II (a missão): Pra não ser injusta, cabe aqui um agradecimento aos meus pais por terem me ensinado que é possível se divertir em (quase) qualquer lugar.

P.S. (a volta dos que não foram):  Fiquei pensando cá comigo que há muito tempo atrás escrevi um texto num dia super super triste, em que reclamava justamente dessa minha versatilidade; é bom ver que hoje eu a vejo de forma positiva, sabiam? 😉

Funk, conjuntos populares e manifestação cultural

A @tebenas recomendou no Twitter a leitura de um texto muito interessante, ” O que é Cultura afinal“, escrito tendo em vista “ti ti ti ” em torno de texto antigo da Bárbara Gancia, criticando o fato de rap, funk e grafite receberem incentivo por terem sido condideradas legítimas em manifestações culturais (Bárbara acha – ou ao menos achava – que não são. Transcrevo aqui um pequeno trecho do artigo indicado pela @tebenas, importante para dar continuidade ao post:

“cultura é a própria condição da comunicação”. A definição é da antropóloga e professora da UFRJ, Ilana Strozenberg. ‘ Não existe cultura superior ou inferior. Tudo que permite às pessoas se comunicarem é uma cultura legítima’, afirma a professora. Essa pequena palavra usada comumente como adjetivo que designa a forma de expressão de maior valor, é, para a antropologia, toda manifestação do homem em sociedade. Para a professora, a noção do senso comum sobre o conceito empobrece o processo cultural. ‘É como se as formas culturais tivessem que estar numa redoma. O bom é a diferença, a multiplicidade. O interessante é que as culturas possam conversar entre si’, afirma”. (grifos meus).

Questionei isso no Twitter, dizendo que  reconheço o funk como manifestação cultural (mas faço a ressalva: reconhecer como manifestação cultural legítima é diverso de reconhecer como arte, que poucos produzem – há cantores de rap e funk produzindo arte, mas pra mim a grande maioria está na indústria de entretenimento mesmo), mas é inegável que a qualidade das letras e da música é muito inferior a outras manfestações culturais, mesmo as populares como o samba, ou o repente, por exemplo.

Quero crer que isso seja consequência do meio, reflexo do que seus autores recebem de educação, referências, informação (mas pode ser preconceito meu querendo impingir o meu gosto sobre o deles, :lol:). Acredito que a qualidade do que nos é apresentado é somente consequência e não causa – e a meu ver  é melhor que haja manifestação cultural decorrente da vivência de seus produtores do que essas mesmas pessoas começarem a repetir manifestações culturais com as quais não se identifiquem; quero crer que a manifestação cultural seja  importante até mesmo para a pessoa se reconhecer como sujeito, se ver inserida na sociedade, sentir-se parte dela.

Há alguns meses tive uma discussão muito parecida com a @consescobar, quando falava sobre o Calcinha Preta. Eu dizia (e continuo dizendo, apesar de dar razão a ela em vários pontos) que o grupo fazia sucesso porque determinada parcela da população se identificava com as histórias contadas nas músicas – era a história de vida deles, ou de seus vizinhos e portanto, havia reconhecimento. A Constance levantou um argumento importante: que o fato das manifestações culturais provirem  de comunidades ou pessoas menos favorecidas em matéria de educação não deveria fazer com que a qualidade da produção cultural fosse baixa (e mencionou Cartola, que efetivamente, a despeito de sua baixa escolaridade, compôs músicas maravilhosas, em um português correto e poético – sem falar da qualidade de suas músicas). Tenho que levar em consideração esse ponto, pois se de um lado  há grupos populares como o Calcinha Preta, cuja pobreza em termos de letra e música é evidente – apesar de eu considerá-lo manifestação cultural legítima,  reconheço que há aqui e ali locais onde se tentam criar ou incentivar manifestações culturais populares de boa qualidade (o Samba da Vela em Santo Amaro é um deles – não conheço nada de funk para dar exemplos, infelizmente -, e aqui há mais alguns exemplos).

O @tiagokoy lá no Twitter apresentou um outro contraponto:

Well, é meio público e notório que indústria da música acaba dando destaque para bandas de maior apelo popular, de maior possibilidade de sucesso econômico, em detrimento daquelas que possuem maior qualidade; no entanto, no caso do funk (bem como do Calcinha Preta e mesmo da banda Calypso), me parece que não seja o caso, pois tais grupos (ou vertentes)  fizeram sucesso e foram para as gravadoras após reconhecimento popular (shows, CDs piratas etc); então, acredito que o fato do “bom funk” estar escondido nas favelas ainda tenha relação com os critérios: o que nós, de fora da favela acreditamos ser “de boa qualidade” não necessariamente é o que seus integrantes assim consideram. Quem está certo e quem está errado? Boa pergunta. 🙂

Concluindo: não sei se é possível ter produção cultural de boa qualidade artística a despeito  da má qualidade da educação – é uma discussão complexa, que perpassa inclusive pela definição do que seja “qualidade”, como disse acima (seria falar português correto? usar expressões consideradas mais “eruditas”? eu acho que não é isso, ou ao menos não é isso, tem um “algo mais” nessa equação que não consigo identificar), e também do que seja  arte  (manifestação cultural não é necessariamente boa ou ruim, ela” é”, ela apenas transmite, mas como disse, pra mim nem  toda manifestação cultural é arte, apesar de reconhecer que arte possa se verificar em quaisquer vertentes musicais, literárias, teatrais).

No entanto, de uma coisa eu tenho certeza: dizer que funk, rap, grafite não é manifestação cultural é negar voz e condição a seus autores; é dizer que eles não têm o direito de pensar e agir da forma que agem. E isso está errado. Ao menos para mim está. E para vocês?

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P.S. Sim, Crocs e esses sapatos de traveco que estão na moda também são manifestações culturais – e só comprovam que os maias não erraram e que o mundo acaba em 2012 😀