Frechadas merecidas e imerecidas no “Livro do MEC”

Confesso que eu mesma fiquei contra o livro, o MEC e quem mais se dispusesse a defendê-los no início da polêmica, tendo em vista que estes estariam preconizando não haver mais “certo ou errado na Língua Portuguesa, e que doravante iria rolar um liberou geral”. No entanto, conversando (obrigada ao Doni e à Mahayana), pesquisando e pensando um pouco, refiz meu juízo de valor, o qual basicamente hoje consiste no seguinte:

O jeca forma os seus plurais com a mesma inteligência e economia do inglês; diz, por exemplo, “as casa”, “os home”, “as muíé”, em vez de dizer redudantemente como o português, “as casas”, “os homens”, ” as mulheres”. O inglês diz “the men”, “the women”, “the houses” – a mesma coisa que o jeca, só que invertido. Se pondo apenas o artigo no plural a frase fica perfeitamente clara, para que botar no plural também o substantivo? pensa com muita razão o jeca e o inglês faz o mesmo raciocínio quando pluraliza o substantivo e não mexe no artigo.” (Monteiro Lobato, tirado do post do Sergio Leo que merece leitura integral)

1. Livro NÃO diz que é certo escrever errado

Na verdade, o que o livro (tenta) dizer é que há diversas formas de se falar ou escrever algo, como se existissem (como de fato existem) diversos dialetos dentro da Língua Portuguesa (o que escrevemos na internet e no sms, com várias abreviações, ou e-mails informais, onde “vc” é algo corriqueiro, assim com “fds”). Guimarães Rosa também sempre escreveu dando um toque de regionalismo a seus textos, e o paulistês das músicas de Adoniran Barbosa é famoso. Aquela forma de falar tem toda uma lógica, como bem ressaltou Sírio Possenti em artigo pra lá de didático.

Ficaram muito bravos comigo quando relacionei a questão “os livro” e “os livros” com o sinal conhecido para finalizar as refeições, mas continuo achando ele bom: a forma de se sinalizar o final de uma refeição é deixando os talheres sobre o prato; no entanto, pessoas “educadas” sabem que jamais, nunca, em nenhuma hipótese, você coloca os talheres em “x”; eles “devem” ser colocados em paralelo (há uma divergência se eles podem ser colocados de forma parela ou formado ângulo de 90o com a mesa, mas isso é preciosismo   :-p)

A maioria de vocês dirá: ah Flavia, isso é uma idiotice, o importante é mostrar que se está satisfeito e encerrou a refeição! Poizé, o mesmo dirão aqueles que escrevem “os livro”: dá pra entender perfeitamente que aquilo é um plural, pra que tanta bagunça com o assunto? Eu hein?

O princípio é o mesmo. Quem diz que “ah, mas português não é o mesmo que etiqueta” não está se colocando no lugar de alguém que sempre falou ‘ os livro’ e foi entendido. Como você vai explicar que tudo o que ele fez até então estava errado? Não dá. Porque ele não vai entender, da mesma forma que vocês não vão entender se eu tiver uma síncope nervosa se empilharem pratos ao tirá-los da mesa. Simples assim. E por que isso? Porque é convenção. A língua é viva, mas salvo engano, o que se convenciona chamar de correto é, (acacianamente definindo), con-ven-ção.

Em resumo: o que o livro diz (ou tenta dizer, de forma um tanto desazada, confesso) é que você até pode falar “os livro”, mas essa não é a forma adotada pela gramática “oficial”, e ao não falar ou aprender a forma “oficial”, você será considerado burrão pela maioria das pessoas e sofrerá preconceito por isso. Não tem nenhuma mentira aí: a gente enxerga mesmo como mal educado (ou melhor, instruído) aqueles que não escrevem ou falam corretamente; o que talvez seja mais difícil enxergar é que somente uma convenção definiu o que é certo ou errado (a ABNT também tem uma convenção chatérima para citações de obras, o processo é similar).

 

<abre parênteses> A Mahayana vai chiar um pouquinho aqui, dizendo que o ideal seria que não houvesse restrições ou reprimendas pelo falar diferente, mas aí fico o Marcelo Soares que, ao compartilhar texto sobre o tema disse:

“A propósito, estou lendo o excelente livro “The Information”, do James Gleick. Exatamente no capítulo em que eu estou lendo, ele conta como a língua inglesa se padronizou lentamente a partir do século 16, por conta de necessidades comerciais (os documentos precisavam ser unívocos). Até então, “keep”, “keepe” e talvez até “kyp” eram grafias aceitáveis para o verbo “manter”. Diz Gleick que Newton escreveu em latim principalmente para garantir univocidade. Ou seja: se for olhar pela própria história da gramática, fica claro que ela não é “certa” ou “errada”, e sim convencionada para os fins a serem atingidos” </fecha parênteses>

É importante ressaltar que “nós”, os instruídos, também fazemos isso o tempo todo. Eu DUVI -DE-O-DÓ que alguém aí fale no dia a dia utilizando a forma preconizada pela gramática normativa (brincando no Twitter disse que deveria ser muito engraçado fazer sexo falando como os gramáticos o exigem. Já pensaram? Poizé) 😉

De tanto leva “frechada” do teu olhar
Meu peito até parece sabe o quê?
“Táubua” de tiro ao Álvaro
Não tem mais onde furá

(Tiro ao Alvaro, de Adoniran Barbosa)

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=ACg4OxVDr_w/youtube]

 

 

 

 

 

 

2. E o tal preconceito linguístico?

Uma das formas de se identificar a origem e educação de uma pessoa é observar a forma como ela fala ou escreve; aparência, modos à mesa, obediência de regras sociais de convivência e vestuário adequado às ocasiões são outros (Sim, quase todo mundo faz isso. Sim, o mundo é horrível, vai lá no S.A.C divino reclamar). Claro que isso é preconceito. Pode até te levar a conclusões erradas, mas eu mesma o tenho, confesso. Se é verdade que não me privo de ouvir os ensinamentos de alguém que fale errado, de outro não posso negar que me seria incômodo ouvir uma pessoa falando errado ao meu lado. Eu sei que não é bonito dizer isso, mas me incomodo. Teria dificuldades em ter uma relação íntima com quem fala errado, não tenho esse desprendimento todo. Admiro quem tenha. Eu não tenho.

No entanto, tenho consciência que essa minha percepção advém de eu relacionar português normatizado com “certo”, e a forma como pessoas educadas falam. Não sei se todo mundo tem essa consciência, principalmente aqueles que não falam de acordo com a gramática normatizada – e é importante que elas o saibam, para não se sentirem diminuídas.

Aí é que a história do preconceito linguístico “pega” um pouco pra mim: dizer que a pessoa é “vítima de preconceito linguístico” pode levar as pessoas a acreditar que todos têm a obrigação de tolerar que se fale errado, fazendo uma analogia com os direitos das minorias (sou negro, mulher, homossexual e mereço tratamento igual ao das pessoas que não pertencem a essa minoria) quando na verdade o que se está dizendo é “você fala de um jeito diferente porque foi educado assim, no seu meio é assim que as frases são formadas; em alguns lugares você pode falar assim e não será censurado, mas  a depender do local em que você falar desse jeito, você será discriminado, então vale a pena entender a gramática normatizada”.

Claro, há autores que defendem aquela ideologia toda de luta de classes na gramática, numa vaibe “bora dizer que nóis escreve como queremo e ‘ces têm que aceitar porque somo do proletariado”, com a qual eu particularmente não concordo, mas entendo o ponto. MAS TENHO QUE RESSALTAR DE NOVO: NÃO É ISSO QUE O LIVRO DIZ.

O que o livro diz ( e diz mal, como explicarei mais adiante) é que a linguagem normatizada é a oficial e a tida como culta, correta, a que te dá status de “pessoa educada”. Pessoas que não falam daquela forma são tidas como mal educadas, ignorantes e que portanto você precisa aprender a “oficial”.

I loves you, Porgy,
Don’t let him take me
Don’t let him handle me
And drive me mad
If you can keep me
I wanna stay here with you forever
I’ve got my man

 

[ I loves you Porgy, uma das músicas mais lindas que conheço, da ópera Porgy and Bess]

3. Os livros não são destinados para crianças

Eles fazem parte de um projeto bacana (ao menos até onde vi) chamado EJA,  voltado para jovens e adultos com pouca escolaridade.

Todo mundo que já teve filho pequeno e tem bom senso sabe: quando ele começa a falar, a maioria dos especialistas diz que o melhor para o desenvolvimento da fala de uma criança é não ficar corrigindo todos os erros dele; há que se repetir assim que possível o termo na forma correta para que aos poucos o conceito seja internalizado. E por quê isso? Porque se o corrigirmos toda hora, ele pode se retrair, pode desistir de tentar falar só pra não correr o risco de errar. Quando se fala de adultos então, deve-se ter tão ou mais cuidado na apresentação do material e do juízo de valor (inclusive de si mesma), que a pessoa fará.

Pensa bem: se você não estudou durante o tempo em que isso seria obrigatório, obviamente isso se deu porque a sua vida não é lá muito fácil. Aí você decide que precisa aprender a ler e escrever melhor e talz, e descobre que você não sabe quase nada. Daí pra largar o curso é um pulo. Isso também deve ser levado em consideração, não acham? Dirão alguns: “é paternalismo”, e eu admito que da forma como autora colocou, soa mesmo como paternalismo. Mas se a forma de exposição do conceito está (a meu ver) inadequada, o conceito em si é correto.

Sob o ponto de vista da psicologia (importantíssimo em questões educacionais, vocês hão de convir) não repudiar a fala daquele que está aprendendo também é muito importante. Nas palavras do Marcos Donizetti:

“ a inserção no mundo da linguagem é a inserção do indivíduo no mundo da cultura e, digo mais, a possibilidade que esse sujeito tem de participar de um mundo subjetivo que, em última instância, o constitui. Quando chamamos norma culta de “correta” e norma coloquial de “incorreta”, não estamos falando do idioma, mas sim de lugares, de posições referenciais do sujeito falante diante de seu mundo. Essas posições são socialmente determinadas. O que ocorre é a apropriação de um saber (o idioma) como ferramenta de diferenciação social. Eu mesmo, nascido de uma família “simples”, que pouco uso faz “dos plural” poderia muito bem internalizar a idéia de que o falar das pessoas que constituem o meu mundo é “incorreto”, daí facilmente pode haver o “salto” que me leva a pensar que meu lugar no mundo é incorreto, ou não tão correto quanto poderia ser se eu fosse de outra classe social. Isso é o tal preconceito, e acho SENSACIONAL que esse mecanismo seja abordado em livros didáticos. Dizer ao sujeito, ainda na fase de aprendizado, que existem maneiras diferentes de se dizer algo, e que cada forma é aplicável a determinado contexto é LINDO. Agora, isso deve ser feito com bastante cuidado. O trecho que eu li do tal livro que causou a polêmica era ruim, citava o preconceito lingüístico en passant e como motivo “único” para o aluno aprender a norma culta. SE (não vi o livro todo) essa for a pegada do livro, temos um problema. Assim como a questão do preconceito deve sim ficar clara para o estudante, os motivos de saber também a norma culta devem ser cristalinos (já que, falando em termos sociais, existe nesse saber questões de inserção, e em termos de comunicação, de poder se comunicar com mais pessoas, entender mais textos etc etc etc). O lance é que a gritaria da imprensa e a histeria dos blogueiros da Veja, que só pude ver hoje, é a mais pura manifestação do tal preconceito”

Acho que está claro né?

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver…

(Preciso me encontrar, de Cartola e Candeia)

 

4. Trecho do livro está mal apresentado

A se levar em conta a velha teoria de que quando muitos alunos repetem a culpa pode ser do professor, talvez tenhamos no próprio texto um exemplo claro de que a autora não cumpriu a missão de levar a mensagem a Garcia e não logrou êxito.

Isso porque, a meu ver, apesar de não ter nenhuma mentira ou erro conceitual ou mesmo novidade, está mal escrito. Eu mesma só consegui compreender os conceitos que a autora expôs depois de extensa explicação de minha amiga linguista Mahayana (sou chique, tão pensando o quê?) e eu me considero uma pessoa razoavelmente instruída. A autora talvez tenha tentado ser sucinta e não foi nada feliz; o assunto pode ser claro naqueles termos que ela colocou para os especialistas, para aqueles que sempre lidaram com a questão, mas para leigos é bem difícil de compreender o que se está sendo dito, a menos que o intuito ideológico.

Pecou também o MEC ao colocar o Ministro para explicar o livro ao invés de um especialista que entendesse não só do que estava falando mas também que soubesse se comunicar com as massas de forma adequada. Não dá pra negar: O Ministro Haddad tentando justificar o livro deixou a emenda muito pior que o soneto.

Mina,
Seus cabelo é “da hora”,
Seu corpão violão,
Meu docinho de coco,
Tá me deixando louco.

(Mamonas Assassinas, sucesso dos anos 90)

 

5. Como esse texto vai ser ensinado na escola?

Essa é a minha maior preocupação. Na verdade, estamos falando só de um capítulo, e não acho sequer que isso será muito aprofundado. O problema que vejo é: se a autora não está conseguindo passar sua mensagem para quem tem instrução e boa vontade (eu e várias pessoas que conheço), como será essa transmissão em um ambiente com várias pessoas de escolaridade mais baixa? Mais: isso será transmitido de forma “pura” ou carregado de “ideologia”? Já há questionamentos sobre a utilização de regra nenhuma no ENEN, o que ao meu ver é um absurdo. Esses os pontos que ao meu ver deveriam ser discutidos e enfrentados, ao invés de se discutir o que todo mundo já sabe: assim como moda é adequação, linguagem também é. Varia, quer queiram quer não 🙂

 

There ain’t no mountain high enough
Ain’t no valley low enough
Ain’t no river wide enough
To keep me from getting to you

(Ain’t no mountain high enough, de Marvin Gaye)

 

Crianças são “adestráveis”?

<abre parênteses> Quando meu filho era bem pequeno e eu tinha que dar bronca ou falar muito sério com ele, eu segurava no queixo dele quando ele desviava o olhar pra tornar a bronca menos dura. Certo dia, nosso cachorro, o Boris, um Schauzer, fez cocô no quarto dele. Eu entro no quarto e vejo meu filho segurando o queixo do cachorro, olhando bem sério pra ele e dizendo : “Bólis, não pode fazer cocô no meu quarto, entendeu bem”? </fecha parênteses>

Fiquei pensando muito nessa história e também na forma como educo meu filho quando me mandaram a polêmica matéria da Época falando sobre a similaridade entre se educar crianças e se adestrar cães.

Claro, quando a gente lê uma coisa dessas, a primeira reação é de repúdio. Como assim aplicar técnicas de adestramento de cães a crianças? A @srtabia mesmo falou que disciplina, respeito e regras não eram o mesmo que adestrar (ou disse algo muito próximo disso), e concordei com ela.

Mas confesso: achei a abordagem um tanto quanto superficial, e num tom irônico desnecessário e ao meu ver, pretensioso.

Vou tentar mostrar minha linha de raciocínio pra vocês:

Logo que li a matéria fiquei pensando:o que é adestrar?

Fui ver lá no Houaiss:

Adestrar

Acepções

verbo transitivo direto e pronominal

volver(-se) destro, tornar(-se) capaz, hábil (em alguma coisa); habilitar(-se), preparar(-se)

Ex.: <a. soldados para a guerra> <os recrutas adestravam-se em campo aberto>

Ué, será que a gente nunca faz isso com nossos filhos?

E vou um pouco mais longe: se o que fazemos com nossas crianças em algumas áreas da educação não é adestrar, então o que é? O que eu fiz, por exemplo, nesse caso aqui?

Contudo, não acho que educação seja sinônimo de adestramento, longe disso; na verdade, acho que a educação de um filho propriamente dita se divide em vários itens, dos quais destacaria:

a) ensino das inúmeras regras de comportamento em sociedade, que vão desde determinação de horário para refeições e lições até saber se comportar em um jantar, passando pelas regras à mesa e pelo controle do intestino e uretra;

b) ensino complementar àquele ministrado na escola – que para mim consiste em habituar a criança a freqüentar exposições, a ouvir música de todos os estilos (sim, de todos os estilos – depois, ela que escolha seus preferidos), a ler livros que os pais julgam relevantes para a formação de um ser humano (obviamente, respeitando capacidade cognitiva e faixa etária da criança), viajar etc;

c) construção da alta estima da criança – que, ao meu ver, está intimamente ligada à relação afetiva entre pais e filhos e principalmente, no respeito dos pais pelas opiniões dos filhos (vale ressaltar: eu disse opiniões, e não vontades e desejos; e também não disse que toda opinião divergente de filho deve ser acatada – mas ela deve ser ouvida e respeitada).

d) monitoramento (até certa idade), apoio e aconselhamento no que tange às relações sócio-afetivas dos filhos, bem como delegação de responsabilidade, na medida do amadurecimento e idade da criança.

Tenho certeza absoluta que técnicas utilizadas no adestramento de cães seriam total e absolutamente inúteis (e mesmo indesejadas) nos itens c e d; no entanto, confesso que acho os itens a e b muitíssimo similares às técnicas de adestramento.

Em inglês, o ato de tirar a fralda da criança e habitua-la a usar o penico é chamado “potty training”, algo cuja tradução seria “treino para penico”. O que é que as mães fazem? Levam a criança em horas determinadas para o penico e elogiam quando a criança faz cocô ou xixi lá. Isso não seria um adestramento?

O mesmo vale para determinar horários para se alimentar, para fazer lição (na minha casa não se ligava TV ou se brincava antes da lição estar feita), para não comer de boca cheia, para não colocar cotovelo na mesa, para segurar talheres corretamente (a esses treinos aliás, me parece que muitas pessoas faltaram…). Também vale para cumprimentar as pessoas, pedir “por favor”, se comportar em um restaurante etc.

Sinceramente? Não consigo, por mais que eu tente, encontrar diferenças nas técnicas que se aplicam para alcançar os resultados acima com crianças das que são aplicadas aos cães, até porque não há muito mistério: os pais devem ser assertivos, devem falar com autoridade (o que é muito diferente de gritar; só grita aliás, quem sabe não ter autoridade), olhando no olho da criança, e impondo sanções positivas (prêmio – que pode ser um sorriso de assentimento ou o “mamãe está muito orgulhosa de você”) ou negativas (castigo), dependendo de a criança ter cumprido ou não o determinado pelos pais (sim, determinado e não pedido – algumas coisas são negociáveis, outras não são, e aqui estamos falando das inegociáveis).

Por causa disso, acho meio inadequado o tom de chacota da Época. A certa altura, lemos no texto, em destaque “para o Encantador de Cães, o essencial é mostrar quem está no comando. Pais perdidos adoram essa ideia”.

Ora, com todo o respeito, se pais perdidos começarem a entender que precisam mostrar que estão no comando, eles talvez deixem de ser perdidos. Qual é o problema aí? Não vejo nenhum.

Também concordo com o psicanalista citado no texto, Aric Sigman, quando ele afirma que os pais estão totalmente sem diretrizes e se apegam a qualquer coisa que julguem funcionar (tanto que temos essa moda de criança fazer o que quer, pois do contrário ficará traumatizada); só não acho que é o fim do mundo você utilizar os parâmetros utilizados no adestramento de cães, desde que evidentemente, isso se dê em estágios específicos da educação e desenvolvimento emocional dos filhos, e muito principalmente, que os pais consigam, paralelamente a isso, atender aos itens “c” e “d”que eu mencionei acima, itens estes onde não há como se aplicar nada parecido com técnicas de adestramento.

O problema está aí: quantos pais conseguem discernir em quais etapas da educação da criança se aplicam métodos de treinamento, com imposição de limites, tarefas com sanções e em quais deve-se prestar atenção aos anseios do seu filho, ou como ele está se sentindo? Mais: quantos pais estão aptos (ou têm a grandeza d’alma e segurança em si próprios) a, paralelamente a esse “adestramento”, ensinar seus filhos a pensar por si próprios na medida de seu desenvolvimento, a permitir enfrentamentos saudáveis sem que isso signifique perda de autoridade, a ouvi-los, voltar atrás e eventualmente pedir desculpas quando erraram? O cerne do problema é esse, e não a forma como se ensinam determinados comportamentos às crianças, ou de onde tais técnicas foram retiradas. No fim, como dizia meu pai, o que interessa é bola na rede, certo? E como disse o @gpavoni no Twitter, tem gente por aí que muito ganharia se tivesse aprendido a fazer xixi no jornal… 😆

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P.S. O debate está aberto; por favor, dêem seus pitacos!!

Todos pela Educação

todos_pela_educacao

Sabem de uma coisa? Eu costumo dizer que se as pessoas nesse país se mobilizassem  como se mobilizam para a Copa do Mundo a cada 4 anos, este seria um país muito diferente. E acredito de verdade que se cada um fizer um pedacinho, o que estiver ao seu alcance, o mundo muda. Devagar, mas muda.

E por acreditar nisso, adorei quando fui convidada (através de indicação da @samegui) para participar como voluntária do Projeto Todos pela Educação, cuja campanha de 2010 foi lançada em novembro.

O Todos Pela Educação é um movimento da sociedade civil, apartidário, que reúne lideranças sociais, educadores, gestores públicos e representantes da iniciativa privada, com o objetivo de ajudar o Brasil a garantir Educação pública de qualidade para todas as crianças e jovens até o ano de 2022 (bi-centenário da Proclamação da Independência).

O Projeto definiu metas objetiva e numericamente mensuráveis que servirão de baliza para aferir se a educação no país está melhorando ou não. São elas:

Meta 1. Toda criança e jovem de 4 a 17 anos na escola.
Meta 2. Toda criança plenamente alfabetizada até os 8 anos.
Meta 3. Todo aluno com aprendizado adequado à sua série.
Meta 4. Todo jovem com o Ensino Médio concluído até os 19 anos.
Meta 5. Investimento em Educação ampliado e bem gerido.

Vejam o vídeo do relatório “De Olho nas Metas de 2009”, cuja apresentação ocorreu hoje no MAM (infelizmente, apesar de convidada, não tive condições de comparecer)

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=bRxtmk7SznU]

Por que eu curti? Porque eu estou absolutamente convencida que só com investimento em educação pesada é que vamos um dia conseguir resolver (ou ao menos amenizar bastante) uma série de problemas sérios que nosso país tem. Pra mim investimento em educação fundamental é o mais importante. E eu acho que a forma de ajudar o governo (e mesmo cobrar políticas pertinentes ao assunto) é fazer aquele pouquinho que está ao nosso alcance. Se todo mundo fizesse isso este seria um país melhor.

Pretendo falar bastante sobre o assunto ano que vem – tenho até umas pautinhas prontas – ; enquanto isso, deem um’olhada no site, pensem no assunto, no que podem colaborar (mesmo refletindo em casa com a família sobre o tema)  e venham me contar o que acham, ok?

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Pulseiras do Sexo são a nova Salada Mista?

Outro dia, num churrasco na casa da @lisatucson, eu ouvi a bendita história das tais “pulseiras sexuais“. Não entendi patavina, ela também disse que era exagero da galera, e morreu aí. Na semana seguinte, começou o zunzunzun no Twitter e nos emails, um texto aqui outro ali e de repente estava todo mundo escandalizado. Os adolescentes estariam usando pulseiras coloridas para, através de um código pré-estabelecido no qual cada cor significava uma prática sexual (que iria do abraço ao sexo oral, passando por “selinho”, “beijo de língua” etc). A pessoa que arrebentasse a pulseira teria direito àquela….hummm…vamos dizer assim… “prenda”.

shag-bands ou pulseiras do sexo - by radar urbano
shag-bands ou pulseiras do sexo - by radar urbano

Demorei um pouco para formar opinião, confesso. Essa minnha amiga apurou com o filho de 11 anos e descobriu que pra ele aquelas cores não tinham conotação nenhuma (tipo, ele queria a cor “x” porque era a cor do time dele, saca?). Perguntei para o meu filho, 13 anos recém completos. Ele respondeu que tava na moda sim, que ele tinha tido uma porque “os caras maiores têm um monte,  pedi uma e eles deram” – mas ele não sabia de nada dessa história de cor ou código (e antes que vocês me perguntem: não, ele não estava mentindo – ele não usa as tais pulseiras, portanto ele me contaria).

Bom, se a galera até 13 está fora disso, tenho que supor que isso está rolando com a turma de 14, 15, 16 anos em diante. E aí? Como ficamos?

Ora, essa é a fase em que normalmente começam (na verdade começam antes, mas começam de uma forma mais explícita, digamos assim) as experiências sexuais, sejam elas da intensidade que forem (pode ser um beijo mais bem dado, um amasso mais forte, ou até mesmo sexo na acepção pura do termo). E aí eu acho que o pessoal está fazendo um carnaval à toa, agindo exatamente como nossos avós, ou nossos pais, ao reclamar dos excessos da juventude. Fiz uma experiência e perguntei no Twitter como chamava uma brincadeira que tinha um monte de frutas (eu tive uma educação super rígida e nunca brinquei de nada disso – ai como me arrependo…); resultado? todo mundo respondeu com detalhes, olhem só:

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Na boa? Tá me parecendo aquela coisa de geração mais velha dizendo que a geração mais nova estava perdida. Eu também acho que vivemos numa sociedade excessivamente erotizada, que crianças são precocemente estimuladas (por vezes com anuência dos pais) a se tornarem sexualmente atraentes, mas sinceramente, não é isso que eu vejo nessas pulseiras (aliás, tá na hora a gente parar de repetir por aí todo santo cliché que ouvimos, né?). Pra ser sincera a única coisa que me preocupava nesta história toda era justamente a diferença fundamental entre a “salada mista” da geração anterior e as tais pulseiras: a publicidade do ato. Era isso que eu não conseguia entender. Estava pensando no assunto quando no meio do caminho o @doni chegou e me deu uma bela ajudada, 😆 .

Acompanhem meu raciocínio, acho que vale a pena:

O fato de desfilar as pulseirinhas diz para os outros, de uma forma clara, que vc já está pensando em fazer sexo (e isso acho que isso deve incomodar demais alguns pais: como assim meu bebê está dizendo aos 4 cantos do mundo que pensa em sexo?), que gostaria de ter experiências sexuais, na intensidade determinada pela tal pulseirinha. Vocês vão dizer: mas isso é pra ser feito aos poucos, com alguém que se goste, etc. Até é verdade, é muito mais gostoso quando ocorre assim, mas a gente dá umas cabeçadas antes de descobrir isso né?  – imagino que vocês lembrem que não se casaram com aquele cara com quem você foi pega aos beijos e abraços no fundo do salão da festa de 15 anos do “Marcelinho”, certo? E  acima de tudo, para que o sexo surja de forma natural na vida do seu  filho, ele  tem que estar preparado – e isso é algo em que você, pai, tem participação fundamental.

Ora, de certa forma, eles estão dizendo exatamente isso: que precisam ser preparados, que não estão sabendo lidar muito bem com tais questões. Esse “dizer pros outros”, inclui, obviamente (eu diria principalmente), os pais. O que é mesmo que a gente faz quando precisa de ajuda? Si-na-li-za. Sinalizar, praqueles que (ainda) não captaram é “mandar sinais”. Uia… e não é que esses moços são inteligentes?

Pra mim, essas pulseiras, independente da cor, signficam: estou pensando em sexo, quero ter experiências sexuais e estou ansioso com isso. Eu duvido que esses adolescentes, ainda que arrebentem as tais pulseiras, paguem a “prenda estipulada”. E sinceramente? Se eles conseguiram cumprir essa etapa, ou já estão prontos para essa experimentação (e aí teremos mais uma etapa de questionamentos a amparar, na condição de pais), ou estão tão desesperados para agradar que estão indo no embalo contra sua vontade. Em nenhuma das duas hipóteses a pulseira é culpada entendem?

Conversando com o @doni (não sei se ele vai escrever sobre o assunto, espero que sim), ele ainda comparou as tais pulseiras aos “paninhos” que as crianças usam quando pequenas (e eu achei uma comparação bastante pertinente). Nas palavras do  @doni (e se eu estiver sendo incorreta, é só me corrigir, tá?) essas pulseiras são uma espécie de proteção do mundo real, do que precisa ser enfrentado, além da identificação entre pessoas que sentem as mesmas angústias. Mas palavras dele, uma coisa  “eu estou vivendo as mesmas angústias que vc, e como vc tb não sei lidar com elas, então vamos só usar uma pulseira. Ou um paninho“.

Em suma: as pulseirinhas  são antes consequência do que causa, entendem?

Agora vocês perguntam para mim: e o que eu tenho que fazer? Eu vou responder o mesmo de sempre: conversa. Diálogo. Conversa essa que já deveria ter sido iniciada lááá atrás, mas nunca é tarde. E deixem-me ser clara aqui: por diálogo não entendam esse diálogo que andam falando por aí “explique para o seu filho o significado da pulseira e se ele tem que usá-la ou não”. Me desculpem, mas acho isso pouco inteligente. Porque você  só vai tirar o problema das suas vistas; você só estará eliminando a sinalização do problema, uma coisa “avestruz colocando a cabeça na terra”. Impedir de usar as pulseiras é dizer “não quero que você fale sobre isso, ou me diga que está pensando sobre isso”. Depois não reclamem…

Praqueles que discordam dessa leitura e acham (sempre há, né?) que isso é um jogo, uma super-exposição e que as crianças (!) estão sendo induzidas a praticar sexo : a única coisa que irá impedir que um adolescente faça algo que não está pronto ou que não quer fazer apenas para agradar ao grupo é ter auto-estima elevada. Não importa qual seja o assunto: cocaína, pulseiras coloridas, zoar travesti (sim, eu tive amigos que fizeram isso), jovens com boa auto-estima não vão cair nisso  e cumpre aos pais construir essa auto-estima desde o berço – lembrando que essa será apenas mais uma das pressões que os filhos irão sofrer por parte do grupo até o fim da adolescência, so, be prepared, hehehe.


Resumo da ópera: conversa. Tente prestar atenção ao que seu filho está dizendo através dos sinais que ele manda, ao invés de proibir os sinais, pois ao proibi-los,  vc está dificultando ainda mais a comunicação, que já está truncada; vá atrás do que está movendo ele, não do sintoma, ok? 😉

E antes de tudo, sejamos razoáveis:  Muitas vezes, uma pulseira é só uma pulseira. Eu tenho certeza que seu filho de 06 anos não está querendo fazer sexo oral. Menos, né moçada? 🙂

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P.S. O  @doni depois de nossa conversa fez mini-declarações no Twitter que eu acho muito pertinentes colocar  aqui:

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Ensinando seu filho sair na rua sozinho

Há uns dias atrás  vi uma reportagem na Época falando sobre como a violência e o medo nas cidades grandes fez com que os pais retardassem a autorização dos filhos para sair de casa sozinhos, e achei um tema interessante pra discutir aqui.

Eu costumo dizer que deixar o filho andar sozinho pelas ruas é algo que se deve fazer paulatina e gradativamente, levando-se em consideração não só a maturidade da criança – que dá sinais de que está pronta para isso, às vezes de uma forma que nos deixa aflitos-, como também a nossa maturidade ou nossa capacidade de lidar com o fato de que nosso bebê (sim, eles sempre serão  nossos bebês) estar por aí exposto a perigos insondáveis.

Então, levando-se em consideração que há algumas variáveis aí – maturidade da criança e capacidade da mãe em lidar com o fato de que não estará por perto pra defender o filho, além da criminalidade crescente hoje em dia -, não dá pra estabelecer ou determinar uma idade  certa para isso; mas vou contar como as coisas foram acontecendo na minha casa para vocês poderem estabelecer um parâmetro.

Moro no Centro de São Paulo, próximo da Avenida Paulista, e sei que sou um pouco menos encanada que a maioria das pessoas. Não sou irresponsável, mas sou mais cabeça fresca mesmo – o que não significa que eu seja cabeça oca, bien compris.

Comecei deixando meu filho ir comprar figurinhas na banca da esquina, onde ele não precisava atravessar rua nenhuma. E aos poucos fui ensinando ele a andar na rua.

Ensinar a andar na rua? Sim, vocês leram direitinho; ensinar a andar na rua, sim!

São Paulo (bem como as grandes cidades brasileiras) tem assaltos; é importante explicar pras crianças, AINDA ENQUANTO ANDAMOS COM ELES NAS RUAS, que temos que andar tendo visão periférica do que tá rolando. Eu também recomendo que não ande muito grudado das paredes, principalmente perto das esquinas, porque a gente não sabe o que tem do outro lado. Igualmente ensinei meu filho a como tratar ou passar ao lado dos bêbados e dos sem teto – eu costumo dizer que não devemos passar demonstrando medo, mas tampouco piedade (até porque não sei se é pena que devemos ter deles, e já disse isso) – e essa é uma nuance difícil de se explicar, só se aprende vendo fazer.

Eu também falo pra atravessar a rua se achar que alguém está seguindo ele; para entrar numa loja caso tenha medo e por aí afora. E mais importante de tudo: passei anos falando isso pra ele toda santa vez que andávamos na rua.

Na verdade, eu sempre falei que andar na rua era um videogame numa fase perigosa: a gente tinha que prestar atenção em tudo, um errinho podia fazer com que perdêssemos o jogo e que ele tinha que estar muito atento. Eu acho que temos que treinar a criança – conhecendo o que pode acontecer e dando soluções, elas terão mais capacidade para resolver as encrencas que aparecerem.

Depois da fase da banca de revista, meu filho começou aos 11 anos, a ir para o Inglês de ônibus. Ele era colocado por mim ou pela empregada no ônibus, a uma quadra de casa, e descia no ponto ao lado da escola, a meia quadra do ponto (não sendo necessário atravessar rua nenhuma). No começo, iam com eleaté a escola de ônibus, e depois que ele aprendeu o caminho e sentiu relativamente seguro esse sistema de ser deixado no ponto foi instalado.

O meu maior medo na verdade é a travessia de grandes avenidas – e para ir à escola há uma grande avenida a transpor. Tive uma conversa séria com ele, expliquei que eu morria de medo e que para deixar ele começar a andar sozinho ele tinha que me prometer que só atravessaria através da passagem do metrô, porque só assim ficaria sossegada. Ele concordou – e querem saber? Acho que a criança também tem medo – se vc disser que ele estará fazendo isso por você, ele pode se dar ao “luxo” de se resguardar sem se sentir um covarde.

Lembro direitinho do dia em que entendi que meu filho estava pronto para ganhar o mundo (quer dizer, aqui em São Paulo, porque ele sempre foi muito independente): ele já usava o ponto de taxi na frente da escola de inglês (outra coisa que fui fazendo aos poucos – pontos ou motoristas conhecidos) e me ligou do inglês pra dizer que estava saindo de lá, como sempre combinamos (essa é outra dica importante: ele ligar sempre, porque dá pra ver a partir de quando devemos começar a nos preocupar); ele só esqueceu de me dizer que tinha decidido voltar à pé pra casa (uns 15-20 minutos de caminhada) porque “estava sem dinheiro” – desculpa mais esfarrapada do mundo, como vocês podem perceber, mas foi a que ele achou pra me contar. Eu teria ido buscá-lo; mas ele quis fazer isso. Eu tive um pouco de medo, confesso, quando ele contou. Hummmm… pensando bem,  na verdade, não sei se senti medo mas sim a constatação de que ele está crescendo, querendo testar a autonomia e a capacidade dele e… ah gente, já falei isso, eu sei que a vida é assim, mas…ele vai ser meu bebê sempre sabem? Ainda que, sei lá, faça parte do médico sem fronteiras… 🙂

O que eu acho importante é o seguinte: a gente não pode deixar que o medo da gente impeça a criança de viver: da mesma forma que ele tem que dominar o medo dele, nós temos que aprender a fazer o mesmo, dentro de nossos limites, mas sempre tentando vencê-los. E vocês hein? Como lidam com isso?

Ajudando a construir a auto estima dos filhos

<abre parênteses> O post em tese seria sobre a matéria da Isto É semana passada, mas quando terminei vi que estava mais para um post desabafo de alguém que precisou fazer um esforço absurdo depois de adulta pra tentar recuperar alguma autoestima. Decidi publicar porque fazendo o caminho inverso as pessoas talvez consigam achar caminhos, certo? </fecha parênteses>


A Isto É da semana passada trouxe na capa matéria na qual fui entrevistada para falar sobre a construção da auto estima na infância, (confira o texto “A auto confiança começa na infância”).  Olha, devo admitir que o reconhecimento, por parte de terceiros, de que consegui influir positivamente na construção da autoestima do meu filho foi pra mim um dos melhores presentes que poderia receber.

Vou contar pra vocês: se tem uma coisa na a qual meus pais falharam miseravelmente, foi na construção da minha auto-estima. E quem é pai sabe: um dos compromissos que fazemos quando passamos a exercer a paternidade é não repetir os erros que fizeram na nossa educação.Sim,  nós sabemos que também iremos errar-; mas sempre achamos que os erros que fizeram conosco são piores, certo? Por isso minha satisfação com a entrevista: porque vi nela um indicador de que estava agindo diferente do que agiram comigo.

Mas sabem o mais engraçado? Apesar de achar que melhorei horrores, minha auto-estima ainda é tão precária que a princípio achei que não tinha muito a ver com essa faceta do meu filho; achava que “ele sempre foi assim e pronto”. Foi só após tomar as devidas broncas de alguns amigos e ler o resto da matéria (quando a  entrevista já havia sido publicada) é que me dei conta do quanto eu venho fazendo nesse tópico. Fiz então uma listinha do que acho importante nesse tema:

1. Dar à criança certeza de que ela está está correta nas suas avaliações e elogiá-la quanto a isso

Na matéria, há menção da  importância da criança ter certeza  da correção e acerto das avaliações dela. Quando li isso lembrei de um episódio doloroso que se encaixa nessa teoria perfeitamente: em certa crise de depressão que tive há muitos e muitos anos atrás, meu filho, então com uns 5 ou 6 anos, foi até o quarto da empregada (uma querida com quem falo até hoje, por sinal) e disse a ela chorando  que eu não tava boa, que eu tava doente e que ele não estava conseguindo me ajudar.  Linda (o nome da moça) disse que não era nada, que eu só estava com dor de cabeça. Ele olhou pra ela e disse que não era isso e continuou chorando. Quando ela me contou, eu, que já estava me sentindo o cocô do cavalo do bandido antes, fiquei ainda pior. Mas arrumei coragem e fui falar com meu filho.

Expliquei que sim, ele tinha razão: eu não estava boa mesmo, mas que infelizmente não tinha nada que ele pudesse fazer. Falei que não era culpa dele, mas que ele tentasse ficar tranquilo, porque eu estava me cuidando, estava indo ao médico, tomando remédios e ficaria boa logo.  Na sessão de terapia subsequente a essa conversa, ao contar aos prantos o que tinha acontecido  ouvi que apesar de ter sido algo difícil, eu tinha feito a coisa certa, porque tinha dado a certeza pro meu filho que ele não estava cometendo erro de julgamento. Pode ser que eu tenha ouvido isso pra não me sentir pior,  não tenho como saber, mas faz sentido né? Por mais duro que tenha sido pra ele, ao menos esta sensação de não estar errado ele teve. Não estou dizendo que crianças devam ouvir na lata qualquer coisa, ou participar de tudo como se fossem adultos; mas acredito que quando elas demonstram interesse, curiosidade ou preocupação quanto a determinado assunto, cabe a nós responder da forma mais simples e objetiva possível o que nos foi solicitado. Não tinha parado pra pensar no quanto esse tipo de atitude interferiu na construção da auto-estima do meu filho – pelo visto foi importante.

2. Ressaltar as qualidades da criança ao invés de compará-la com os outros

Na verdade, creio que só tenho uma vaga ideia de  como se pode construir a auto-estima de alguém percorrendo o inverso do que foi feito comigo: por mais que se prefira um filho a outro (e tenho certeza que não é possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo, de formas idênticas, na mesma intensidade – ainda que deva ser muito difícil para uma mãe reconhecer isso), não é divertido passar a infância ouvindo que sua irmã é melhor nisso ou naquilo, ou mais bonita, ou mais inteligente (e isso não foi só comigo: se de um lado eu ouvia isso de um dos meus genitores, minha irmã sofria o mesmo com o outro).

Certamente teria sido muito melhor pra nós duas se, ao invés de termos passado a  infância ouvindo o que a  irmã tinha de melhor sobre nós, tivéssemos  ouvido o quanto nossos pais se  orgulhavam  pelo fato de cada uma de nós ser boa em [coloque aqui o que quiser]. Eu teria mais confiança, me respeitaria mais se ao invés de passar a vida pensando no que eu não tinha e minha irmã sim, eu tivesse sido estimulada a olhar para minhas qualidades,  fazendo com que eu visse o que EU tinha de bom. Precisamos saber quais são nossas qualidades e qual nosso valor para que possamos nos apropriar dessas qualidades – acho que isso é o cerne de uma boa auto-estima: o respeito por quem somos, aí incluídas nossas fraquezas.

3. Demonstrar equilíbrio e estabilidade emocionais

Uma das coisas que eu acho que os pais não devem fazer é  ter atitudes díspares com relação ao mesmo assunto, ou alterar seu comportamento ao sabor do clima, de forma que a criança nunca saiba como seus pais irão reagir frente a determinada situação. Óbvio que não somos perfeitos, que num mau dia tendemos a tratar mal justamente aqueles que estão mais perto de nós, mas na medida do possível, as reações dos pais (e porque não dizer, das pessoas de uma forma geral) devem depender dos atos em análise, e não do nosso humor.  Na verdade não saberia dizer se isso afeta a auto-estima da criança ou a sua segurança emocional mesmo; mas pensando bem, uma coisa está intimamente ligada à outra né?

Vocês vão perguntar: e naqueles dias em que estamos tão insuportáveis que nem nos aguentamos, e estouramos ou agimos que nem uns idiotas? É simples: depois que passar, vá lá e peça desculpas para seu filho – é simples como isso. Reconhecer que errou, que teve atitudes erradas também mostra equilíbrio e segurança (não me lembro de meus pais terem pedido desculpas para mim nunquinha da silva – onde já se viu né? um adulto pedir desculpas para um fedelho?); só por favor não façam isso dia sim outro também, porque senão vira palhaçada, certo? 😉

4. Reconhecer que, graças à estrutura que você ajudou a construir, uma hora seu filho vai te vencer numa discussão

Que tal não sair aos gritos com seu filho só porque ele te deu uma resposta que te deixou vendido? Afinal,  tem horas que nada é melhor do que ver o resultado do que vc ensina a ele aplicado contra você – desde que respeito e autoridade estejam preservados claro (e não, respeito e autoridade não são impostos através de gritos, mas conquistados – ao menos não respeito e autoridade legítimos).

A história que mencionei na entrevista igualmente se repetiu inúmeras vezes: acho importante incentivar a discussão com os filhos – discussão aqui, bien compris, como série de argumentações e contra-argumentações, de forma civilizada, e não um amontoado de gritos e insultos. E obviamente, ao negar um pedido, explicar porque isso está sendo feito. Construção de auto-estima para mim não tem nada a ver com impossibilidade de se negar pedido dos filhos, mas sim, negá-los de forma firme e consistente.

5. Dar certeza de afeto

Acho que se sentir importante, valorizado e amado conta bastante. Meu filho, apesar de ter pais separados desde muito novo (perto dos 4 anos), nunca se sentiu “jogado” ou empurrado de um lado para o outro – ao contrário, as brigas que eu e o pai tivemos (e sempre tem né? mesmo quando ainda há casamento) era pra ficarmos mais com nossos filhos, e nunca menos. E a família da nova mulher do pai dele igualmente acolheu-o; ele tem verdadeira relação de avô e avó com os pais dela, por exemplo. Isso ajuda a criança a ir em frente, e certamente não fará com que ela tenha medo de desagradar os outros, ou achar que faz tudo errado e por isso, as pessoas não vão gostar dela.

Em resumo moçada, é isso.

Finalizando, queria ressaltar mais uma vez: escrevi  tudo isso aí em cima não como mãe que sabe o que é bom para um filho, mas como filha que sabe o que não foi bom pra ela e tenta, na medida do possível, fazer tudo diferente. Eu sempre falo que tenho um orgulho e admiração inauditos por meu filho – mas talvez me emocione tanto porque de uns anos pra cá tenho tido provas de que posso errar e fazer com que ele tenha cicatrizes e reclamações quanto à forma como foi criado (afinal, não sou e nem tenho a pretensão de ser perfeita) mas sei que elas não serão tão sérias (espero) ou tão sofridas quanto as que eu tive.

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P.S. Talvez depois desse post vocês me desculpem um pouco e entendam porque tenho uma necessidade absurda de enaltecer cada uma das qualidades do meu filho como talvez a mais coruja das mães não faça – mas é que na verdade eu preciso ouvir até entrar na minha cabeça que estou conseguindo, na medida do possível, ser uma boa mãe e criando uma pessoa menos insegura do que eu.  Me desculpem de verdade pelo tanto que amolo vocês falando do meu filho.

P.S. Vocês sabem né? Isso tudo o que eu falei não está baseado (ao menos que eu saiba) em teoria científica alguma; é meramente observação de uma pessoa que já foi filha e hoje é mãe – ou seja, pode ser que eu esteja errada em algum ponto, e quero mais é que vocês discutam comigo tá?

O que andei lendo – Especial Som e Fúria para crianças e adultos

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<abre parênteses: se vc perdeu o longa metragem que deu origem à série, dê uma olhada no “o que andei lendo – julho de 2008”  (e também o texto falando sobre a mudança de formato) para captar a mensagem e entender o porquê dessa lista…>

Eu sempre gosto de contextualizar alguns pontos que julgo obrigatórios na educação do meu filho;  quando estou viajando  explico in loco a vegetação, clima, história, faço ele prestar atenção no que está vendo durante a viagem etc.  Aprender dessa forma (fazendo com que as ” matérias” sejam um “assunto” como outro qualquer) é muito mais suave e prazeroso (acho eu); pra mim, alguns temas não são matérias de escola, não são obrigatórios para que você seja considerada uma pessoa culta, mas sim, porque simplesmente são interessantes, bacanas. Simples como isso.

Para isso, basta estar atento ao que acontece. Um exemplo? Graças à indicação da Sam eu comecei a ver o seriado de “Som e Fúria” que está passando na TV (e  estou adorando); meu filho (aka lordrastajr) também está curtindo horrores  – aliás, é só o tal do Oswald Thomas entrar em cena,  sem nem mesmo falar nada,  que ele chora de rir.

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Aproveitei então que Som e Fúria fala de várias peças de Shakespeare e falei pra lordrastajr procurarmos umas coleções das peças  em quadrinhos que eu já tinha visto, quando ele lembrou do volume do Mortos de Fama sobre Shakespeare. Aí eu me lembrei que há um tempo atrás comecei a comprar uma coleção (eu não diria infantil, mas quaaase adolescente), chamada Mortos de Fama, que  conta em linguagem atual e despretenciosa (inclusive com várias gírias e neologismos) a história da vida e da obra de algumas personalidades da História.

Deem um’olhada nessas duas páginas  para vocês verem como é realmente muito legal ( a tradução é ótima, aliás)  e não tem como não gostar:

Mortos de Fama - Shakespeare - Romeu e Julieta

Acho uma delícia, porque representa tudo aquilo que eu imagino ser ideal no processo de formação de uma pessoa: trata de forma leve e despretenciosa um autor literário importante, fazendo com que haja um interesse adequado à faixa etária da pessoa (aliás, se quiserem rir, talvez este post aqui seja do agrado de vocês).

Shakespeare - Romeu e Julieta - Mortos de Fama 2

Na boa? Ainda que você não tenha filhos vale super a pena ler – eu adoro ( e já muitas das peças de Shakespeare).

cotação Lady Rasta:cotacao-ladyrasta-4

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Mas  se você é adulto e quer  se embrenhar a fundo em Shakespeare, sugiro “Shakespeare, a Invenção do Humano”; ler as peças seguidas das observações de Harold Bloom é uma das coisas prazerosas que me orgulho de ter feito.

Mais sobre “Som e Fúria” no blog da Liliane Ferrari

Harry Potter e o inglês de meu filho

Harry Potter and the Half-Blood Prince Cover

Quem leu esse post aqui sabe que Harry Potter teve uma importância decisiva na iniciação à leitura do meu filho (aka lordrastajr); pois bem, aproveitando o gancho do lançamento do filme do Harry Potter, vou contar como a mesma saga fez com que ele começasse a ler em inglês.

Quando ele tinha uns 8 anos, já lia super bem, mas só em português; e como vocês devem saber, o lançamento dos livros do Harry Potter ocorrem primeiro na versão em língua inglesa, para depois ser traduzidos para as outras línguas.

Como eu adoro uma brincadeira, e sou daquelas que tudo tem que ser ontem, comprava sempre o livro na versão em inglês- que ele não conseguia ler. Quando o Harry Potter and the Half  Blood Prince saiu (por sinal, livro cujo respectivo filme estreia nessa madrugada) meu filho estava viciadíssimo em Harry Potter, feitiços, contra-feitiços, e coisas desse tipo.

Pois bem, o que eu fiz? Entrei naquelas comunidades de tradução dos livros (há uns anos atrás, assim que saía o livro o pessoal de cada uma dessas comunidades se dividia, cada um fazia a tradução automática e na sequência iam “acertando” as incorreções – algumas traduções ficavam bem razoáveis, devo dizer).

Eu imprimia cada um dos capítulos e… evidentemente não os entregava de mão beijada pro meu filho né? Tão pensando que ser meu filho é moleza? Na na ni na não…. ele tinha que PAGAR os capítulos, hehehe (nota: favor acrescentar risada maquiavélica ao fim desta frase).

grifinória

Eu fazia o seguinte: para ter o direito de ler o capítulo traduzido, ele tinha que traduzir algumas frases deste capítulo, que eu escolhia previamente (as mais simples, geralmente) e entregava numa folha de papel – mas bacana, eu decorava com marca d’água dos brasões das casas, ou colocava figuras das personagens…

Ele ficou puto, claro. Beeem puto. E eu ajudava um pouco, obviamente – meu intuito não era fazer dele um tradutor, e até sei que este não é um bom método para se aprender inglês; mas eu tinha dois objetivos ali: a) fazer com que ele valorizasse o que eu estava fazendo; b) fazer com que ele perdesse o medo de ver frases, livros etc,  em inglês.

Sabe que depois ele começou a curtir né? E é muuuito bacana ver a cara de satisfação de uma criança ao se sentir vitoriosa, ao sentir que conseguiu alcançar algo que ela julgava difícil conseguir, ao ver que superou um desafio – sem contar o que isso fortalece a auto-estima dela.

sonserina - harry potter

Anos depois (em 2007, ele tinha 10 anos) forcei-o a ler as tirinhas do Calvin em inglês. Comecei lendo com ele, obviamente, e ele, também obviamente, bufava de raiva. Mas aqui em casa tem algumas “matérias obrigatórias” e eu não tava nem aí. Todo dia lia com ele 2 ou 3 tirinhas (não mais que isso).

calvin

Depois de uns 2 ou 3 dias, ele mesmo começou a ler sozinho (histórias em quadrinhos são ótimas para ensinar língua estrangeira, porque os desenhos tornam o aprendizado mais leve, e dão a sensação – às vezes falsa- de que te ajudam na compreensão do texto).

Quando saiu o último livro do Harry Potter, estávamos no meio dos Lençois Maranhenses e não teríamos acesso a ele tão cedo. Mas como o mundo não é tão grande assim (e vá lá, eu conheço bastante gente) encontrei um casal de amigos com os filhos, em uma tarde numa cidadezinha micro micro micro que tem ruas de areia chamada “Santo Amaro do Maranhão”.

Santo Amaro do Maranhão por Ricardo Freire
Santo Amaro do Maranhão por Ricardo Freire

E esses meus amigos também tinham um método: o pai lia para os dois filhos o livro em inglês, em voz alta (o que, não sei se vocês perceberam, além de estimular o estudo de língua estrangeira, ainda agrega pai e filhos, certo? O veeeeelho truque de matar dois coelhos com duas cajadadas só, hehehe)  – e o que as crianças não entendessem, ele explicava. Como dali a alguns dias iríamos nos encontrar em Jericoaquara, meu filho  começou a participar dos saraus de leitura assim que chegamos lá.

Quando finalmente pegamos nosso exemplar do livro, fiz a mesma coisa. Algumas horas depois, meu filho falou que era melhor eu parar de ler em voz alta porque a leitura assim era mais devagar. E perdi o livro na minha primeira ida ao banheiro, porque na volta ele estava lendo absorto e não ia me esperar de jeito nenhum… E foi assim que ele começou a ler fluentemente em inglês, alguns meses apenas antes de embarcar sozinho para a Inglaterra a fim de visitar os primos e os tios.

Ensinar (e consequentemente aprender) pode ser uma atividade divertida – é só fazer com que seja assim. Para mim e para meu filho, que somos (dizem, eu não acredito) extremamente competitivos, fazer do aprendizado uma gincana sempre será algo estimulante. Tudo o que vocês precisam descobrir é qual é a forma de diversão do filho de vocês e explorar isso” 😉

THE END

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P.S. Desde que ele voltou da Inglaterra nós só vemos filmes e seriados com legendas em inglês – e essa é uma boa dica para usar com filmes que seus filhos já viram um zambilhão de vezes (crianças adoram ver filmes muitas vezes). Elas vão reclamar? Claro que sim!! Mas elas também reclamam quando as mandamos escovar os dentes ou tomar banho, certo? É a mesmíssima coisa.

P.S. II – pros curiosos, mais fotos dos Lençóis aqui