Quando mudam as perguntas

Minha bio no twitter diz: “tem opinião pra tudo, até para o que não conhece. mas está sempre certa”. Gosto de brincar dizendo que estou sempre certa porque numa discussão, quando por vezes vejo que me enganei, dou o braço a torcer e mudo de lado (não reclamem, isso é estar do lado certo afinal :-p)

Mas aí vem a adolescência do seu filho e você cai do cavalo. E não, não estou falando cair do cavalo em decorrência daquelas coisas que todo mundo espera: brigas, bateção de porta (ao menos elas não começaram ainda), drogas. Para isso eu vinha me preparando há anos (eu diria que vinha me preparando desde que ele nasceu).

Você cai do cavalo porque seu filho de 14 anos resolve ter dois AVCs. É, isso mesmo. AVC. Aquele treco que você acha que só acontece com velho e com balofo, mas não com uma criança saudável e esportista.

um dos dias mais aflitivos da minha vida

<abre parênteses> Não, ele não teve sequela alguma, e está tudo mais ou menos bem, e esse post não é pra fazer mundo cão. Quem me acompanha pelo twitter e facebook sabe o sufoco que foi aquela semana no hospital e as subsequentes, e eu não terei jamais palavras pra agradecer os inúmeros votos de melhoras (por vezes de gente que até então jamais havia falado comigo) durante aqueles dias. Tal como o Inagaki, acredito que a internet por aproxima as pessoas de forma quase mágica. Banana e chorona do jeito que sou – apesar de as pessoas não me enxergarem assim, sei lá porque-, tenho certeza que teria sido muito mais difícil atravessar aquela semana sem o apoio de tanta gente que perguntava, rezava, se preocupava comigo e com o meu filho. Não quero correr o risco de esquecer alguém, por isso vai aqui o meu agradecimento profundo a todos aqueles que nos apoiaram, que se preocuparam conosco. Não vou esquecer aqueles tweets nunca. Quem diz que internet só constrói relações superficiais realmente não entende nada. Tolinhos.  </fecha parênteses>

Mas voltando ao assunto: O problema do mundo sempre é depois  do felizes para sempre né? Pois então, quando os filhos melhoram as mães tombam. E algumas percebem que não são tão boas quanto gostariam. Que não são tão fortes quanto gostariam. Muito menos tão adultas ou racionais quanto se imaginavam. Ou tão sabichonas. E mais do que isso: elas simplesmente não conseguem ser fortes e equilibradas quanto precisariam para dar apoio aos filhos, simplesmente porque não aguentam vê-los ficar tristes. Alguém gosta de se olhar no espelho, ou para dentro de si e não gostar do que vê? Poizé, eu também não. Muito menos eu, a dona sabichona.

A gente *acha* que está preparado para vê-los seguir o caminho deles. A gente *acha* que está preparada para vê-los sofrer na frente da gente. E sabe? Por um tempo, quando as coisas são só privá-los do programa da televisão, do videogame, e a gente consegue dizer não, por vezes conseguimos acreditar que realmente estamos conseguindo ser suficiente duros (ou ao menos realistas) com nossos filhos. A gente até consegue ler esse texto da Eliane Brum, bater no peito e dizer: “eu não, eu sou diferente”.

A verdade? A verdade é que quando a porca torce o rabo, você percebe quão pouco tolerante às frustrações você próprio é, o quão infantil você ainda é e o quanto você não suporta ver seu filho sofrer, ainda que esse sofrimento seja muito relativo. Ver seu filho preocupado porque não sabe o que causou o incidente e ter medo de ter outro é muita coisa? Ficar sem jogar as finais das Olimpíadas da escola pelas quais ele esperava há um ano é muita coisa? Racionalmente não, mas para ele é muito. Para mim também. Eu choro quando não devia, e acho que o mundo não é lá muito justo. Infantil né? Também acho.

ele recebeu a medalha apesar de não ter jogado as finais

A verdade é que quando a porca torce o rabo você faria quase qualquer coisa para que seu filho pudesse viver de forma menos frustrante. Como diz aquela música do Ray Charles que o apdeites tuitou segundos depois de um daqueles telefonemas que têm feito com que eu respire fundo e consiga arrumar coragem sei lá de onde (é, telefonema dado por você mesmo, que tem tido uma paciência de Jó, e que tá quase merecendo ser canonizado, hehehe), “If I could – I’d protect you from the sadness in your eyes”. Mas não podemos né?

Eu sei. Vocês  vão dizer que são os micos de viagem que a tornam divertida, são as pedras na estrada que a tornam diferente de tantas outras, no fim a gente ri, bla bla bla… mas sabe… na hora em que o mocinho tá apanhando do bandido, a menina sempre quer que ele pare de apanhar. Faz qualquer coisa para que isso aconteça. E se a mocinha faz, imagine a mãe do mocinho, né?

Só que não tem jeito. Por mais que a gente não queira, chega uma hora em que os filhos vão ter que passar as provações e os perrengues deles. São os *deles* e não os nossos, e temos que entender isso. Ficar lamentando que eles tenham que passar por eles só vai piorar tudo para os filhos. Só vai fazer com que eles pensem que a vida deles é uma injustiça quando na verdade… Quem disse que o mundo seria justo, não é mesmo?

É por isso que tenho estado tão chateada. Porque treinei tanto pra nada. Porque de tanto treinar passes, tenho batido pênaltis que nem o Elano. Porque tenho discursos prontos para os mais diversos problemas e eles vão direto pro lixo (a menos que eu os venda pra alguém, hehehe).

Como bem diz o ditado, a gente se preocupa tanto em saber as respostas das perguntas, que um dia as tais perguntas mudam. Tem sido um belo exercício de humildade, devo admitir 🙂

Feliz Natal

Queridos:
Confesso a vocês que estou há uns 2 dias tentando escrever um texto de Feliz Natal sem sucesso. Soava cliché, melodramático, pretentious, tudo o que eu não queria e tento não ser.
Aos 45 do segundo tempo (tenho que ir para o jantar) desisti, porque queria falar muita coisa em pouco espaço.
Queria falar que meu pai todo santo ano vinha com a explicação de que o fato de o Natal cair em dezembro era um puta escumbelerrê da Igreja Católica para fazer coincidir a data com os festejos pagãos do solstício de inverno; queria dizer que eu sempre fiquei muito tensa no Natal porque a instabilidade emocional do meu pai poderia transformar a noite num daqueles capítulos trash de novela das 8 com componentes que prefiro não mencionar; queria explicar a benção que foram meus Natais na última década, quando passei a preparar a rabanada e o pudim de pão da minha avó para que eu sentisse a sua presença (afinal, preparar receitas é uma forma de perpetuar a memória dos entes queridos, né?) e ver meus amigos passarem na minha casa para um chill in antes das festas de família, fazendo com que minha casa tivesse um movimento sincero e alegre de bem querer entre 5 da tarde e 9 da noite; queria explicar pra vocês como eu fico feliz e me surpreendo até hoje com o fato de meu filho gostar de passar o Natal em casa apesar de sermos só nós 2, e adorar que eu cozinhe, e como isso faz com que eu me sinta tão mãe dele…
Mas como vocês sabem, eu sou prolixa e não conseguiria jamais escrever sobre tudo isso de forma sucinta; então, que vocês fiquem apenas com a ideia do que significa Natal pra mim.
Que vocês tenham um excelente Natal, um ótimo solstício de verão (sim, inverno é na Europa né?), um Festivus memorável, ou at least, um bom jantar com pessoas queridas por perto.

Um beijo enorme,

Flavia

P.S. Esse é o primeiro ano da minha vida que passo o Natal sem meu filho, que está com o pai nos Estados Unidos. Por decisão minha, ao invés de optar pela alternativa mais confortável – passar o Natal com amigos queridos-, decidi viajar sozinha e passar o Natal numa praia da Bahia. Pensei com os meus botões que, de uma vez que estar sozinha era uma opção minha  e não uma imposição da vida, ela não seria um fardo pesado. E não foi. Encontrei pessoas conhecidas, outras que me acolheram como se eu as conhecesse de há muito, e estou saindo para uma noite que tem tudo para ser extremamente agradável.  Como disse certa vez Anais Ninn, ” Life shrinks or expands in proportion to one’s courage“.  Nada mais verdadeiro 😉

41 anos hoje

Mas que seremos nós sem os nossos pertences, os nossos achaques,
todos os nossos inclusives?

Nós somos o que temos e o que
sofremos. E a coisa mais melancólica deste e do outro mundo é um
cachorro sem pulgas.

Já falei sobre como me sinto aos 40 anos ; e apesar de todo mundo comemorar os números inteiros, na verdade, na acepção pura do termo minha 4ª década de vida começa hoje. Pensando bem, tamlvez tenha sido esse o motivo pelo qual  tenha me sentido pronta pra escrever sobre isso mais próxima dos meus 41 anos do que dos meus 40; e olhando esse post aqui, percebo que tive uma virada importante na minha vida logo após fazer 31 anos – interessante não?

em Salvador aos 31 anos, quando decidi dar novo rumo a minha vida
em Salvador aos 31 anos, quando decidi dar novo rumo a minha vida

Gosto de medidas de tempo de uma forma geral para poder avaliar minha vida, minhas relações, minhas metas – tanto que em toda Copa do Mundo e Olimpíadas adoro fazer uma comparação entre o evento atual e o anterior. Reli esse post falando sobre as Olimpíadas e os ciclos  e não só reitero tudo como queria ressaltar esse pedaço aí embaixo:

Sabe de uma coisa? Ver como, anos depois, pessoas ou questões que pareciam ser de vida ou morte de repente tornaram-se tão desimportantes me dão um alívio e uma dor profundas. Alívio, porque vejo que nada é tão importante assim que justifique minhas preocupações, minhas crises de choro e meus questionamentos. Dor e aflição pelos mesmos motivos: afinal de contas, coisas importantes não deveriam ser tão fugazes; se era assim tão importante, como é que passou né? Essa impermanência das coisas é ótima, mas me angustia um pouco. É meio assim: eu adoro saber que nada melhor do que um dia depois do outro, mas às vezes me espanto com o fato de dores tão doídas (o pleonasmo é proposital tá gente?) passarem com o tempo.

Fiz questão de ressaltar  porque  nesse ano estou tendo a sensação de final de ciclo de uma forma mais forte, sabem? Passei os últimos 2 anos praticamente hibernando: não queria fazer muita coisa, não queria muita conversa, engordei horrores… mas, de uma certa forma, não era um isolamento “do mal sabiam”? Acho que era mais um casulo com uma Flavia passando por uma metamorfose do que aquela história de depressão que todo mundo adora falar. Quem é mais íntimo meu (ou me acompanha no Twitter) sabe que fui assaltada há mais ou menos um mês atrás; e tenho a nítida impressão que ali deram uma chacoalhada na minha chave geral sabem? Como se eu tivesse saído do casulo. Além do susto, praticamente nada em bens materiais foi roubado, e tenho me sentido outra, renovada desde então (e todos são unânimes em dizer o mesmo). Acho que o “seo” ladrão quebrou a casca. De certa forma, tenho mais é que agradecer a ele, 😆

Quatro décadas não é muito, mas já dá pra fazer uma boa análise né? Você  já tem amigos de quase um quarto de século que vc conheceu entrando na vida adulta (e sim, vocês sabem muito bem quem vocês são, não vou ficar aqui enumerando); já quebrou a cara dezenas de vezes, se enganou quanto às pessoas, por vezes se cercou de gente que não valia nada – porque você àquela época estava um lixo e igualmente não valia nada (é gente, a “culpa” se é que existe isso é sempre nossa) – e não se penitencia mais por isso… Ih, dá pra sacar muita coisa. Principalmente que algumas pessoas, não importa o que digamos, o que façamos, o que aconteça, onde estejamos, não vão sair da vida da gente nunca. E isso é bom – e acalentador. E só fica o que é bom né?

Mas se eu tivesse que dizer o que acho que finalmente entendi (ou estou em vias de entender, não sei bem – de vez em quando derrapo né? Afinal não sou santa, e nem quero ser!) é aquele famoso ditado “Deus escreve por linhas tortas”. É, isso mesmo. Falo muito disso quando o assunto é o meu filho, mas acho que nunca falei com relação a mim: do quanto, olhando pra trás, consigo ver que foi muito muito bom que alguns desejos meus não se realizassem; do quanto foi bom que alguns relacionamentos não fossem pra frente, do quanto situações aparentemente desafortunadas (como a morte de meu pai, a forma como meu filho nasceu, um broken heart danado, alguns acidentes menores, como o assalto do mês passado por exemplo) foram na verdade bons para mim – ou ao menos, se não foram bons, foram circunstâncias que serviram de molas propulsoras para coisas boas, para que eu melhorasse (ou as pessoas envolvidas melhorassem, também) que aconteceram depois.

Não vou dizer que não continuo querendo tudo pra ontem (dizem que sagitarianos vêm lá na frente né? deve ser por isso); mas estou ao menos me acostumando com o fato de que as coisas não acontecem da forma e (principalmente) na velocidade em que eu gostaria – e que virá coisa boa pela frente. Dá um alívio enorme pensar assim, sabiam? Faz com que não insistamos no que não tem solução, com que tenhamos confiança nos rumos que a vida da gente toma. Na verdade, a cada ano que passa, cada vez mais compreendo o sentido de uma fala linda de Antonio e Cleópatra:

We, ignorant of ourselves,
    Beg often our own harms, which the wise pow'rs
    Deny us for our good; so find we profit
    By losing of our prayers.
(Shakespeare, Antonio e Cleópatra, Ato II, Cena I) - tradução ao fim do texto

Vou contar uma coisa pra vocês: acho que o bardo tem razão sabiam? 😉

Flavia
Eu, sábado no samba

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P.S. Acabei de descobrir que Cartola e Fernando Pessoa morreram (obviamente em anos diferentes) em um 30 de novembro. De certa forma, a data do meu  aniversário não deixa de estar marcado por essas pessoas certo? E morrer não é ruim – afinal é parte da vida…

P.S. II. Queria de novo agradecer de novo àqueles que fizeram (ou ainda fazem) parte da minha vida. E aqueles que já não fazem mais, mas foram importantes… well, vcs sabem o que penso quanto a isso não?

P.S. III – A tradução do texto de Shakeapeare, tirada daqui : “Por nos desconhecermos, muitas vezes pedimos o que mal causar nos pode, o que as sábias potências nos denegam, visando ao nosso bem. Assim, lucramos em não ver nossos votos exalçados”.

Sem lenço nem documento – mas com dignidade

Tem dias em que determinadas coisas acontecem na nossa vida só pra fazer com que nossos conceitos sejam revistos; ontem foi um deles. Estava chegando no “meu samba” sábado à tarde quando reparei que embaixo de uma marquise ao lado  havia alguns moradores de rua com características bastante peculiares. O que era peculiar? A arrumação, a organização. Sim, isso mesmo.  Vocês podem me chamar de fútil, superficial, podem dar risada, mas eu pergunto: que tipo de morador de rua se dá ao trabalho de ter vasos de flores e plantas na sua “casa”?
Fiquei com vontade de parar para “assuntar”, mas tive um pouco de pudor, confesso: tinha medo que eu pudesse ofendê-los, nunca tinha tentado falar com um morador de rua antes … Deixei pra lá.

Mas algumas coisas simplesmente têm que acontecer né? Terminado o samba, uma  conversa daquelas simples com o guardador de carros da rua, nosso velho conhecido, acabou nos levando até os moradores da marquise. Quando falei que tive vontade de parar pra falar com eles, o Gringo (nome do guardador de carros) falou que era pra já, pois “Neguinho é um cara muito bacana”.

E lá fomos nós falar com eles (eram 3). Um deles, Ezequiel, tinha realmente uma história tristíssima: viu o filho de 8 anos ser atropelado na sua frente, e desde então nunca mais saiu da rua. Virou evangélico, chegou a sair “daquela vida”, mas voltou. Voltou segundo ele porque, tendo se convertido, era ali que ele julgava mais correto estar para falar sobre a “palavra de Deus” – mas sobretudo, disse ele, voltou  porque não conseguiu não voltar. Não conseguiu não viver na rua. Simples como isso.

Já Neguinho e Moacir, irmãos, não me contaram nenhum motivo triste que os colocou na rua. Ah sim! É bom ressaltar: nenhum dos 3 estava drogado, ou bêbado. Sequer estavam cheirando mal (podem falar mal de mim, mas a grande maioria das pessoas faz esta ideia dos moradores de rua – eu só estou verbalizando isso).  Eu falei o quanto tinha me impressionado a limpeza e a arrumação do lugar – principalmente o cuidado com as plantas. Neguinho me disse que tinha horror de sujeira. “Amanhã”, disse ele, “é dia de feira e eu vou ficar puto com a D. Fulaninha – das verduras – pq ela emporcalha a frente da minha casa“.

Eu confesso: estava perplexa. Como assim o cara mora na rua e está asseado, com o seu lugar limpo, em ordem? Como assim ele não me parecia uma daquelas pessoas dignas de pena?

Comecei a cutucar né? Falei na lata: Mas se você consegue manter sua dignidade aqui, no meio da rua, por que não sai dela, arruma um lugar pra morar?

“- Porque aqui,  dona menina” -ele me chamava assim, não me pergunte o motivo-, “a gente é livre. A gente faz o que quiser”  ( e é bom ressaltar: os outros dois concordaram na hora – aquilo pra eles era o óbvio ululante).

E ele continuou:

– Pessoal do bairro dá comida pra gente; chegam até a colocar envelope de dinheiro aqui em cima da mesa, acredita?!” (e apontou para a mesa absurdamente arrumada, com garrafa térmica e tudo o mais). “Banho, a gente vai nos abrigos e toma banho” (não vou dizer que ele recendia a Dolce e Gabbana, mas estava longe de feder, e estava, dentro das possiblidades dele, alinhado). “Se a gente estivesse no abrigo agora, teria horário, teríamos que estar dormindo, não estaríamos aqui conversando. É por isso que a gente não sai da rua” (e lendo alguns  textos percebi que esse sentimento de liberdade é dominante entre eles).

Perguntei se a polícia atrapalhava. Eles disseram que não – que só não deixavam ficar nas ruínas do pentágono da Praça Roosevelt porque “lá é propriedade privada”. Perguntei se não era ruim no frio ou na chuva. Ele disse que ali não chovia. Eu estava me sentindo uma boba; parecia que Neguinho era um sábio paciente tentanto explicar para um aborígene que aquele teto da marquise impedia a chuva de cair em cima deles, sabe?

Na minha cabeça aquilo simplesmente não entrava. Como assim eles não reclamavam? Como assim eles não começaram a desfiar um rosário de misérias na nossa frente? Como assim eles tinham a pecha de aparecer na minha frente de cabeça erguida, sem representar o papel que esperamos deles? Como assim eles não inspiravam piedade? Eles também podem, pensava com meus botões, dentro daquela aparente normalidade, estar escondendo as dores que passaram pra chegar àquele ponto (quando a gente sofre de verdade – mas de verdade mesmo-, tem pudor d’alma de mostrar o sofrimento – eu sempre acho que quando os sentimentos são muito grandes, são também, na maioria das vezes, de difícil expressão).

Neguinho (morador de rua) na Praça Roosevelt

As perguntas zumbiam na minha cabeça.  O que seria ” a gente faz o que quiser”? Não trabalhar? Não precisar pensar que o pior pode acontecer, porque afinal de contas, não deve haver nada muito pior do que a vida deles? Fiquei confusa, sabiam? Depois entendi: estava confusa porque tive a nítida impressão de que eles não queriam estar em outro lugar.Eu tive a impressão de que se eu dissesse que tinha uma casa sei lá onde pra eles irem morar, eles não iriam – ou ao menos não iriam por muito tempo-;  ao menos não naquela noite; ao menos não dentro da estrutura psíquica que possuíam naquele instante (e isso não deve ser inerente ao Brasil; nos EUA foi feita uma matéria com moradores de rua que possuem laptops, Twitter, Facebook e afins e continuam morando na rua).

Antes que vocês falem: sim, sei muito bem que tem o outro lado: alguns dirão que não é função do Estado sustentar (colocando à disposição albergues e abrigos) pessoas que poderiam trabalhar, que eles não podem se dar a esse “luxo” (ironia né? achar que alguém está se dando ao luxo de morar na rua). Tem também  o “nosso lado”, egoísta: para a maioria de nós é visualmente revoltante ver as pessoas jogadas no chão dormindo ao relento (talvez porque essa cena nos faça pensar não só na desigualdade social, mas na condição humana como um todo – como estou fazendo agora.); ninguém gosta de ver isso – melhor jogar essa visãopra baixo do tapete (e com isso jogamos nossas próprias mazelas lá pra baixo também – aliás, como nossa sociedade infantilizada faz com os velhos e os mortos, né? tiramos da frente tudo o que nos incomoda).

Enquanto conversava com Neguinho e seus amigos, tentava entender como  eles se sentiam de verdade. Será que são apenas pessoas desesperançadas? O que eles estão tentando nos dizer  ao afirmar que não querem (ou não conseguem) sair da rua, não se importanto em mostrar que não se adequam ao que a sociedade esperava deles?  Será que estão mesmo conformados (quase satisfeitos), dentro daquela outra realidade em que eles vivem?  E ainda: eles estão errados ao afirmar que não querem sair da rua? Não sei responder, confesso com toda a humildade. E eu fico desnorteada quando não chego a conclusão alguma, né?

<abre parênteses> Tenho falado nisso direto (e até sei porque), mas aqui cabe de novo repetir : costumo dizer que o pior dos sentimentos não é a tristeza – é a desesperança. Aquela condição quase sub-humana em que passamos a viver num limbo e letargia permanentes, sem esperar nada, sem se alegrar com muita coisa (quando conseguimos nos alegrar), sem conseguir acreditar que as coisas um dia podem vir a ser melhores. A tristeza e a angústia, como eu sempre digo, implicam num certo inconformismo; pode ser que a pessoa arrume forças para sair do buraco, pode ser que ela veja luz no fim do túnel. A desesperança não; ela é aquilo pra sempre, porque quem tem ela dentro de si não consegue achar que um dias as coisas possam ser diferentes. E não dá pra não pensar em desesperança quando se vê pessoas morando na rua </fecha parênteses>

Fomos embora com mais perguntas do que respostas (ou ao menos eu saí de lá assim). Mas tinha uma certeza: ver aqueles vasos de plantas na “casa dele”, aquela ordem no caos, me fez pensar que dá sim, manter dignidade e seu caráter quaisquer que sejam as condições e circunstâncias em que nos encontremos; basta querer.  Me despedi atordoada.; sei  que depois dessa noite eu, @juliareis e @amsp_fadinha nunca mais vamos olhar pros moradores de rua como olhávamos antes. Pensando bem, talvez nunca mais olhemos pra nós mesmas como olhávamos antes.

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P.S. Tem um livro muito bacana do George Orwell onde ele conta os seis meses em que viveu como mendigo em Londres. Obviamente, é uma situação completamente diferente, pois ele poderia parar de “brincar de mendigo” na hora em que bem entendesse. Mas nem por isso ele deixou de viver e avaliar de perto a vida e as sensações daquelas pessoas né?

P.S II (a missão): como acho que algumas coisas só acontecem porque determinadas pessoas estão juntas na mesma hora e lugar, tenho que agradecer à @juliareis e à @amsp_fadinha pela noite.

P.S. III ( o retorno). Reescrevi esse texto sei lá quantas vezes e ainda assim tenho a sensação de que há muito a ser dito, apesar de eu não estar conseguindo encontrar as palavras certas; mas como eu disse aí em cima, quando os sentimentos são muito grandes, nem sempre é possível exprimi-los né? Please do forgive me.

Serviços:

Listagem de Albergues e Asilos para moradores de rua em SP :
Legislação Municipal sobre População de Rua
Home Page da Secretaria Muncipal de Assistência social

Twitter das subprefeituras de São Paulo: @subprefeiturasp

Semana Aleitamento Materno – Amamentando na UTI

Leozinho e eu por Renata Rea

Pra chegar até o Banco de Leite do Hospital onde meu filho nasceu, era preciso passar na frente do “berçário dos normais” – e eu odiava aquilo, e odiava ter inveja daquelas famílias felizes comemorando o nascimento de suas crianças (não somos somente feitos somente de sentimentos nobres né?).

Não, meu filho não nasceu com qualquer tipo de deficência mental (apesar de, vá lá, ter sofrido uma hemorragia cerebral); ele apenas nasceu prematuro, com 27 semanas (aproximadamente 6 meses e meio), porque tive uma pré-eclâmpsia feia (meu parto foi aquela coisa parto ER, saca?)

Eu tinha feito um zambilhão de planos para quando meu filho nascesse e… Well, como diz o ditado, quando Deus quer se divertir, nos deixa fazer planos… Definitivamente não tinha sido daquele jeito que imaginava aquele nascimento (embora isso tenha sido necessário para que eu desse valor às coisas realmente importantes na vida – eu precisei daquele “se liga” que a moçada lá de cima me deu, acreditem).

Lordrastajr passou 56 dias na UTI do hospital; nos 1ºs  30 dias, ficou entubado, tendo tido várias intercorrências sérias –  e antes que vocês me perguntem, não, ele não mamava no peito, ele só recebia NPP (nutrição parenteral) – não tinha condição sequer de respirar, quanto mais de mamar. Só pôde começar a mamar meu leite depois que foi desentubado.

Leozinho UTI - Semana de Amamentação

Por essas razões,  tive uma experiência completamente diferente no que tange à amamentação; ela não começou como um daqueles comerciais lindos em que a mãe se emociona ao ver o bebê mamando no peito horas depois do parto, e sim numa máquina pra tirar leite no banco de leite, onde me deram também uma apostila para que eu entendesse como ele era produzido pelo meu corpo.

Ah sim, foi um fase terrível, onde eu não podia fazer nada além de rezar e tirar o leite que era congelado para que ele pudesse mamá-lo depois (Eu também comprei uma máquina elétrica pra repetir o processo na  minha casa mais uma ou duas vezes sem precisar me deslocar para o hospital).

<parênteses>  posso ser sincera com vocês? Isso tudo era horrível, mas  passar na frente do “berçário dos normais” acabava comigo, e é uma das poucas cenas daquela época da qual me lembro. Sabem por que eu odiava? Porque eu olhava pra dentro de mim e via sentimentos horríveis, principalmente raiva, revolta e… é, tenho que falar…inveja mesmo. Eu tinha inveja daquelas famílias felizes com o  nascimento dos filhos, comemorando, enquanto eu não podia ouvir o telefone tocar na minha casa porque morria de medo que algo tivesse acontecido com o meu; tinha inveja de ver as mães com os bebês no colo e imaginá-las saindo da maternidade dali a 2, 3 dias, enquanto eu tive que ir pra casa aos prantos, deixando meu filho no hospital. Era medonho ver dentro de mim dois dos sentimentos que julgo vraiment desprezíveis: autopiedade e inveja, aquela inveja corrosiva, de querer ser o outro, de querer estar no lugar do outro – e ter que passar ali todo santo dia era um castigo pra mim, juro. </fecha parênteses>

Eu fazia o que podia, obviamente, mas não podia fazer muito – o estímulo não é igual, o stress pelo qual estava passando era insuportável e isso não ajuda em nada na produção do leite…  E é, obviamente, mais dolorido. Até hoje acho que só consegui passar por aquilo porque era simplesmente a única coisa que eu podia fazer pelo meu filho além de rezar – e eu sabia que amamentar, naquela situação, com um bebê frágil como o meu, era vital.

Vital como é também amamentar em situações de emergência (além de ser muito muito mais prático), tema desse ano da Semana Mundial do Aleitamento Materno que termina hoje (vocês irão encontrar um zambilhão de informações importantes no post da Sam Shiraishi, que como sempre faz a lição de casa como se deve…) – cá entre nós, quando a mãe tem leite, não consigo imaginar forma mais fácil de se alimentar um filho, certo? Seria interessante que esse conceito se arraigasse nas pessoas…

Voltando à minha experiência quanto à amamentação, queria aproveitar esse post para falar sobre alguns mitos  que são absolutamente infundados,  no mais das vezes perpetuados pelos fanáticos de plantão – e vocês sabem o quanto eu não suporto fanatismo, como é perceptível neste texto, naquele, e ainda nesse aqui:

a) “se o bebê começar a mamar na mamadeira não vai querer mamar no peito da mãe”. Mentira daquelas deslavadas. Meu filho começou tomando 1 ml de leite depois de um mês de vida (porque poderia sofrer problemas com a digestão) no conta gotas, depois passou a tomar leite numa mamadeira (nada daquelas mamadeiras ortodônticas, era daquelas com um furo enorme no bico- pois ele não não podia gastar calorias de jeito nenhum, visto ter um quilo e meio se tanto à época).

Leo em casa 96 - Semana Amamentação

b) complemento alimentar (leite em pó)  faz com que o bebê deixe de mamar no peito da mãe porque o gosto do leite da mãe não é tão bom

Em decorrência do stress pelo qual passei  eu não tinha leite suficiente pra amamentá-lo, até porque com bebês preematuros  não há qualquer rigidez de horários – ele mama quando quer, porque a prioridade é ganhar peso; então, era preciso complementar as mamadas no peito com leite em pó, na mamadeira. Nunca tive problema, sério.

Sinceramente, acho que o bebê não é bobo; mamar na mamadeira pode ser mais fácil, mas vc não tem contato com a pele da sua mãe, o contato é menos íntimo; pra mim, o natural é que ele queira mamar no peito e não o inverso.

Finalizando:  amamentar é uma sensação maravilhosa, única e só quem já passou por isso sabe quanto; então, mães permitam-se viver essa experiência; àqueles que não podem fazê-lo, divulguem a importância desse ato – pois é só assim, através da educação (e nós pessoas mais esclarecidas, temos o dever de esclarecer aqueles que estão à nossa volta) que um país ou uma sociedade evolui.

Leo e Flavia - 2009

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[Este post faz parte da Blogagem Coletiva da Semana Mundial da Amamentação]

Se quiser entender melhor a importância dessa questão, baixe o folder de ação da WABA e/ou ótimo manual Alimentação de Lactentes e Crianças Pequenas em Situações de Emergência da IBFAN Brasil (em PDF). Você também pode fazer o download de vários materiais educacionais relacionados ao tema – slides para aulas, vídeos, manuais, cartilhas – no site do programa de promoção da Amamentação do Senac-SP. Veja o vídeo oficial desse ano e como encomendar materiais da SMAM nesse link.

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Site sobre: Locação e venda de extratores de leite materno

Informações sobre UTI NeoNatal e aleitamento materno e também nesse estudo muito bom

Outras informações sobre Aleitamento Materno

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P.S. Aproveitando que domingo é dia dos pais, quero fazer aqui um agradecimento ao pai do meu filho, que dividiu comigo esse período complicado pelo qual passei – afinal, sem ele a coisa mais importante da minha vida não existiria, e também ao meu pai, já falecido, que daquele jeito insano dele, me fez manter a sanidade naquele período, me obrigando a trabalhar meio período – chamei-o de tudo quanto foi nome à época, mas querem saber? Ele estava certo.

P.S. II Foram muitos os amigos que me ajudaram naquela época, de diversas maneiras;  mas tenho que fazer um agradecimento especial à Lisa e ao Sérgio, e aos pais deles, que deram um apoio inesquecível nessa fase (até a chave da casa deles eu tinha!).

P.S. III – Espero que vocês tenham entendido porque falo tanto do meu filho – na verdade, agradeço todos os dias da minha vida a ventura de tê-lo comigo, saudável, inteligente, companheiro. Eu não sabia que merecia tanto da vida, sério.

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Vou colocar aqui quem participou da blogagem coletiva, podem mandar os links tá?

A vida aos 40 ou… adoro ser balzaca

Outro dia minha querida @syferrari falou uma coisa que me fez compreender várias atitudes e comportamentos que tenho tido ultimamente.

Ela falou: é horrível ter 20 e poucos anos; eu queria ter 40 como você, e já ter passado por um monte de coisas que me fizessem entender tudo pelo que passo de uma forma melhor – quando estou atrapalhada  sempre penso que você deve ver as coisas de uma forma muito mais clara e serena, que deve ter um jeito mais fácil de encarar a parada, mas eu simplesmente não consigo enxergar, e sei que não enxergo porque me faltam anos. Eu queria ter 40 anos como você!!

<parênteses> na sequência expliquei que só consigo enxergar um monte de coisas porque já as vivi e, de alguma forma, tive cabeça pra ver onde eu errei, quais burradas eu fiz e o que poderia ter feito diferente. Como costumam dizer,”there’s no fucking free lunch” </fecha parênteses>

O Diego é outro que alega não saber como aguento algumas incertezas que a vida por vezes coloca na minha frente… (ah, esses meus amigos de 20 anos realmente fazem com que eu veja o quanto valeu a pena passar pelos perrengues que já passei, sabiam?).

Ouvindo esses comentários, e principalmente ao prestar atenção nas minhas atitudes hoje, fico pensando: será que amadurecer significa enfim  entender que, feliz ou infelizmente, a vida é feita de incertezas e inconstâncias?  Que não importa a quantidade de planos que façamos aos 20 anos, muitos deles serão inelutavelmente impossíveis de ser alcançados (ou sequer serão desejados anos à frente), e que, ao contrário do que pensávamos, isso não é nem um pouco ruim? Enfim, será que amadurecer é (finalmente) entender que não podemos tudo, que devemos aceitar derrotas com dignidade, aprender a ver o lado bom das coisas  e viver o que a vida nos dá? E que, se tivermos bom humor, errar não vai ser algo tão terrível assim, porque no fim das contas, não somos tão importantes como julgávamos ser aos 20 anos e portanto,  tampouco aquelas besteiras que fizemos serão vistas como algo terrível? Será que é isso?

Acho que sim – amadurecer talvez seja não se levar tão a sério, aliado ao fato de termos uma visão mais clara de quem somos e o que queremos para nossa vida.

Outro dia, conversando com um moço X no msn, disse pra ele que a diferença entre os 30 e os 40 anos era a seguinte: aos 30, você sabe o que não quer, mas ainda não conseguiu descobrir o que realmente  quer; aos 40 você sabe o que quer e o que não quer. Pensando bem, é  uma boa definição, e a ela acrescentaria: além disso, na maioria das vezes você tem estrutura pra sustentar suas decisões – justamente porque está mais certo delas.

Serenidade para enfrentar a vida (o que é muito, muito diferente de conformismo); compreender  o sentido da palavra serendipity; saber que o segredo para a ausência de rugas não é o preço dos cremes, mas sim, a incapacidade de se tornar amarga – talvez pudesse me resumir aos 40 assim…

Sabe aquela coisa de livro de auto-ajuda, ou de amiga metida a espiritualizada que fala  “aproveite o momento”, o que a vida lhe dá, pare de ficar ansiosa com coisas sobre as quais você não tem o menor controle? Então… Estou pegando o jeito. É meio uma questão de auto-confiança mesmo, ou melhor, de confiança na vida… Hummm… Posso ser sincera? Não é nada disso; é que dos 18 aos 40 você planejou tanta, tanta coisa que ou não aconteceu ou foi um lixo, que uma hora você aprende né? 😆

Não é também uma questão de subitamente ter virado  o ser humano mais equilibrado, calmo e zen do planeta, porque na maioria das situações continuo a ser molecona, agitada, espevitada, e choro pra burro (e desconfio que serei assim aos 80 anos também); estou apenas dizendo que em relação aos meus 20 e poucos anos, sem dúvida alguma eu evoluí- porque consegui aprender alguma coisa com as bobagens que fiz ou pensei fazer.

E sabem o que descobri? Que essa confiança no seu discernimento e na vida  passa para os outros; estou longe de estar na forma física que gostaria, mas tenho recebido muitos elogios e não posso reclamar que ninguém me dê atenção.  Sabe aquela coisa… desabrochando? É meio assim que tenho me sentido;  parece que um monte de coisas que eu tinha dentro de mim finalmente puderam ser expostas,  têm coragem de se mostrar… Estou finalmente aberta. Well,  se eu parar pra pensar, nunca gostei de rosas em botão – gosto de rosas abertas-; então nada mais coerente do que ter odiado minha adolescência (acreditem, eu odiei) e estar adorando essa fase balzaquiana da minha vida.

Finalmente estou consciente de quem eu sou, do que eu gosto, do que não gosto; que posso não ser perfeita, posso não ter rostinho de princesa mas que tenho minhas qualidades e que portanto sempre terá alguém que se encante comigo ; que  não preciso mais  convencer as pessoas de que sou uma pessoa com coisas interessantes pra dizer; demorou, mas  entendi que não preciso convencer os outros ou que tenho razão ou o direito de agir de acordo com minha essência.

No fundo, estou tentando há várias e várias linhas dizer que chegar aos 40 é finalmente entender que o caminho para a felicidade é  agir de acordo com nossas convicções, e não se deixar intimidar pelos outros; chegar bem aos 40 é finalmente entender que o mundo é muito muito grande, que existe muita coisa pra aprender, pra ver, e que não, não sabemos nada – e que ao contrário do que possamos imaginar, isso é o mais divertido.

Espero sinceramente que essa fase dure muito, muito muito… E que venha o relato dos 50!

lençois

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P.S. Tenho uma confissão a fazer: não sei se estaria falando tão bem da vida aos 40 se não fossem pelas decisões que tomei na vida. É realmente mais fácil falar da forma que falo quando se tem apenas um filho (hoje praticamente criado, entrando na adolescência); quando se tem a ventura (e também a coragem) de ter amigos das mais variadas idades (e se permitir isso), quando se tem a ventura de se sentir inserida, quando podemos  nos sentir parte, quando podemos nos sentir compreendidos.  Querem saber? Sou uma moça de sorte.

P.S. II – Eu me atrasei para postar esse texto, que deveria ter sido publicado naa 2a, junto com os textos do @penachiando e do @sergiovds – que me contive para não ler enquanto não postava o meu. Deixa eu ir lá agora (e recomendo que vocês tabém o façam).

P.S. III – O @gravz escreveu 2 posts sobre as balzacas: este aqui, que adoro, e este outro, recém saído do forno – e por favor, tratem de me dar bronca no dia em que eu virar algo remotamente parecido com a figura que ele pintou aí, certo?

Historinhas de Carnaval – O Ilê Ayê

http://www.atarde.com.br/cidades/noticia.jsf?id=1052803

Carnaval de 2005. Decido ir ao ensaio do Ilê Ayê, na Liberdade. Sabe a  música “e quem é que sobe a Ladeira, do Curuzu“? Então…Num belo sábado de Carnaval resolvi ir pro tal do Curuzu (eu e meu shortinho jeans velho de guerra). Confesso que quando o motorista de táxi parou e disse “é aqui”, eu vi um daqueles balões  de história em quadrinhos (o dos pensamentos) aparecendo em cima da minha cabeça com os dizeres “eu e minhas benditas idéias”, seguido de um enorme “glup“.

Saca a cena? Bairro pobre, perigoso, discriminado porque praticamente toda sua população é negra, aquelas casas de tijolos aparentes, muita muita grade – e era um ambiente estranho né? A gente tende sempre a enxergar hostilidade no que é feio quando não conhecemos o local – ainda mais à noite. E eu lá, loira e de shortinho tentando fazer de conta que nunca fiz outra coisa na minha vida a não ser ir pro Curuzu…

Curuzu, Bairro da Liberdade, Salvador, por glitterwahchee

A situação era um pouco mais delicada  também o fato de eu ser branca – sim, pois em alguns lugares onde o movimento de conscientização negra é mais forte, brancos não são exatamente tratados a pão de ló; o próprio Ilê Ayê só recentemente aceitou brancos para desfilar no bloco (já fui chamada de “barata branca” em alguns lugares do Pelourinho onde, pra ser sincera, eu não vou mais se não estiver acompanhada de algum “local”, confesso pra vcs…).

Mas como quem nasce para Lady nunca perde a majestade, por uma dessas coincidências da vida fiquei amiga de uma moça cuja família era dona do bar ao lado da sede do Ilê (da sede antiga), e fui  super bem”récépicionada” pela comunidade . Aliás, vou falar uma coisa: algumas pessoas têm nobreza não no sangue, mas na alma – apesar da simplicidade do local, fui recebida pela Aldaci ( o nome da minha amiga) como se fosse de lá, e meu copo ficou cheio a noite inteira, na condição de convidada – ganhei até um pedaço da fantasia do “bloco dos meninos”, o bloco de sujos do bairro (e contarei outra história a respeito nessa sequência de historinhas de carnaval). Well, nobreza e educação definitivamente não têm relação com saldo bancário…

A saída do Ilê tem vários rituais de Candomblé, com soltura de pombas, banho de pipoca, e tem muito pouco turista brasileiro: vão autoridades, a “comissão de frente da baiananidade” (Gil, Caetano e afins)  e gringos. Aquela bateria é realmente ensurdecedora, de emocionar. O bairro para, e as ruas viram um verdadeiro mar de gente, que, ressalte-se, não estão no bloco, estão o acompanhando do lado de fora na chamada “pipoca” : vc se move com a multidão, naquele ritmo cadenciado, todo mundo andando pro mesmo lado, porque não tem espaço para vc se mexer de outra forma.

<parênteses>: posso fazer um momento papo cabeça? Sabe aquela coisa “se sentir parte do todo”? Foi mais ou menos assim que me senti, e a sensação foi deliciosa.  E posso falar outra coisa? Apesar de estar com o meu super shortinho, não tive meio problema com assédios (eu tenho uma teoria sobre as cantadas dos baianos, que vou explicar em outro capítulo da série carnavalesca, hehehe).</fecha parênteses>

Depois de um tempo (umas 2 horas, já era madrugada) peguei um táxi quando o trajeto estava acabando (o desfile do Ilê se divide em 2 pedaços: um que vai da sede percorrendo o bairro da Liberdade inteiro, com fim no Plano Inclinado, e um segundo trajeto no Campo Grande) e rumei para a Barra, onde tem os blocos mais turísticos, plêibas etc.

Quando cheguei lá, a menina que pegou o taxi do qual estava saindo disse com ar de preocupação: olha, cuidado aí fora, porque a “pipoca” do Asa está perigosa viu?

Ao que o motorista responde:

-Xiiiii, se vc visse onde eu peguei ela não se preocupava não…

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Mais Ile Ayê pelo Ricardo Freire com as fotos que eu gostaria de ter tirado um dia  aqui

Método Lady Rasta de educar crianças – vol. 1

Outro dia, comentando um post lá no Caixa de Pandora, lembrei de como meu pai me fez “pegar o gosto” pela leitura: ele pegou os livros do Monteiro Lobato, e ia lendo pra mim, “fazendo” as vozes das personagens (já repararam que ninguém mais trata “personagem” no feminino? é uma das regras que parece estar saindo de moda ); a Emília tinha uma vozinha de taquara rachada engraçada, a Tia Nastácia falava meio errado, e por aí vai. Eu fiz a mesma coisa com o meu filho, e contei isso comentando o post. Só depois me lembrei de uma coisa: eu fiz isso com ele para fazê-lo gostar de Monteiro Lobato, especificamente falando – porque para fazer ele ler livros eu usei um ouuuuutro método…Vamos lá:

Em um determinado aniversário (o de 7 ou 8 anos, eu acho) ele ganhou em DVD o primeiro filme do Harry Potter. Viu o filme e adorou. Aí a bruxa malvada aqui teve uma idéia brilhante, típica dos planos “xis-alfa-bê-quatro” do Cebolinha para derrotar a Mônica: falei pra ele que se ele lesse o segundo livro, eu compraria o DVD do segundo filme.

Bom, vcs devem estar se perguntando: mas caramba, ele não era muito pequenininho pra ler um livro assim tããão grande? Bom, e eu respondo: ele era sim, pequenininho. Já lia há algum tempo (ele leu mais cedo, com uns 4 anos), mas tinha dificuldade em memorizar o que tinha lido. Era uma tarefa difícil mesmo. Só que eu acho que tamanho de livro não importa, vc lê palavra por palavra certo? Qual a diferença entre ler 150 livros “finos” e 1 “grosso”? . Pra mim, não tem nenhuma.

No começo eu lia com ele, e é verdade, ele não conseguia mesmo apreender o que tinha lido, e esquecia, ficava meio puto, mas eu não ligava, afinal aquilo não era “pra nota” certo? Ia lembrando ele, era uma brincadeira. Depois do segundo, terceiro capítulo, ele começou a entender e começou a curtir. E se antes ele lia 1, 2 páginas, começou a aumentar, ler 5, 10, 15…No ritmo dele. E a gente lia todo dia, mas não era um tempão, eu determinava uns minutos pra leitura só pra criar o hábito – mas ele lia o Harry Potter se quisesse, havia outros livros para ler, “mais finos”.

Quando ele estava na primeira 4a parte do livro, eu disse: quando vc chegar na metade do livro, eu compro o DVD e deixo vc ver metade do filme; e quando vc terminar o livro, eu compro o videogame… hehehe…

Antes que vcs me perguntem eu já respondo: sim, eu sou uma bruxa (muito) má e tive coragem de fazer essa maldade com o meu próprio filho: dei “stop” na metade do filme e pronto…Afinal, combinado não é caro, certo?

Lembro que ele me ligou no escritório um dia, antes de ir pra escola e disse:

“-Mã, só pra falar que eu já terminei o livro viu?

Quando ele chegou da escola, claro, o vídeogame estava em cima da cama esperando por ele…e nesse dia eu liberei o horário de jogar videogame, afinal, cada idade tem o seu “porre comemorativo”…Viram como eu sou flexível?

P.S. Ele terminou a saga do Harry Potter lendo os livros no original. Mas o que eu fiz pra conseguir isso conto outro dia – fica para um dos próximos capítulos do “Método Lady Rasta de educar crianças”…

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A ilustração do menino lendo chama “reading is cool”, de gul ril, que eu vi no Devianart.

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Se vc gostou deste post, talvez queira ler o “Método Lady Rasta de educar crianças vol.2: a história do ovo