Quando mudam as perguntas

Minha bio no twitter diz: “tem opinião pra tudo, até para o que não conhece. mas está sempre certa”. Gosto de brincar dizendo que estou sempre certa porque numa discussão, quando por vezes vejo que me enganei, dou o braço a torcer e mudo de lado (não reclamem, isso é estar do lado certo afinal :-p)

Mas aí vem a adolescência do seu filho e você cai do cavalo. E não, não estou falando cair do cavalo em decorrência daquelas coisas que todo mundo espera: brigas, bateção de porta (ao menos elas não começaram ainda), drogas. Para isso eu vinha me preparando há anos (eu diria que vinha me preparando desde que ele nasceu).

Você cai do cavalo porque seu filho de 14 anos resolve ter dois AVCs. É, isso mesmo. AVC. Aquele treco que você acha que só acontece com velho e com balofo, mas não com uma criança saudável e esportista.

um dos dias mais aflitivos da minha vida

<abre parênteses> Não, ele não teve sequela alguma, e está tudo mais ou menos bem, e esse post não é pra fazer mundo cão. Quem me acompanha pelo twitter e facebook sabe o sufoco que foi aquela semana no hospital e as subsequentes, e eu não terei jamais palavras pra agradecer os inúmeros votos de melhoras (por vezes de gente que até então jamais havia falado comigo) durante aqueles dias. Tal como o Inagaki, acredito que a internet por aproxima as pessoas de forma quase mágica. Banana e chorona do jeito que sou – apesar de as pessoas não me enxergarem assim, sei lá porque-, tenho certeza que teria sido muito mais difícil atravessar aquela semana sem o apoio de tanta gente que perguntava, rezava, se preocupava comigo e com o meu filho. Não quero correr o risco de esquecer alguém, por isso vai aqui o meu agradecimento profundo a todos aqueles que nos apoiaram, que se preocuparam conosco. Não vou esquecer aqueles tweets nunca. Quem diz que internet só constrói relações superficiais realmente não entende nada. Tolinhos.  </fecha parênteses>

Mas voltando ao assunto: O problema do mundo sempre é depois  do felizes para sempre né? Pois então, quando os filhos melhoram as mães tombam. E algumas percebem que não são tão boas quanto gostariam. Que não são tão fortes quanto gostariam. Muito menos tão adultas ou racionais quanto se imaginavam. Ou tão sabichonas. E mais do que isso: elas simplesmente não conseguem ser fortes e equilibradas quanto precisariam para dar apoio aos filhos, simplesmente porque não aguentam vê-los ficar tristes. Alguém gosta de se olhar no espelho, ou para dentro de si e não gostar do que vê? Poizé, eu também não. Muito menos eu, a dona sabichona.

A gente *acha* que está preparado para vê-los seguir o caminho deles. A gente *acha* que está preparada para vê-los sofrer na frente da gente. E sabe? Por um tempo, quando as coisas são só privá-los do programa da televisão, do videogame, e a gente consegue dizer não, por vezes conseguimos acreditar que realmente estamos conseguindo ser suficiente duros (ou ao menos realistas) com nossos filhos. A gente até consegue ler esse texto da Eliane Brum, bater no peito e dizer: “eu não, eu sou diferente”.

A verdade? A verdade é que quando a porca torce o rabo, você percebe quão pouco tolerante às frustrações você próprio é, o quão infantil você ainda é e o quanto você não suporta ver seu filho sofrer, ainda que esse sofrimento seja muito relativo. Ver seu filho preocupado porque não sabe o que causou o incidente e ter medo de ter outro é muita coisa? Ficar sem jogar as finais das Olimpíadas da escola pelas quais ele esperava há um ano é muita coisa? Racionalmente não, mas para ele é muito. Para mim também. Eu choro quando não devia, e acho que o mundo não é lá muito justo. Infantil né? Também acho.

ele recebeu a medalha apesar de não ter jogado as finais

A verdade é que quando a porca torce o rabo você faria quase qualquer coisa para que seu filho pudesse viver de forma menos frustrante. Como diz aquela música do Ray Charles que o apdeites tuitou segundos depois de um daqueles telefonemas que têm feito com que eu respire fundo e consiga arrumar coragem sei lá de onde (é, telefonema dado por você mesmo, que tem tido uma paciência de Jó, e que tá quase merecendo ser canonizado, hehehe), “If I could – I’d protect you from the sadness in your eyes”. Mas não podemos né?

Eu sei. Vocês  vão dizer que são os micos de viagem que a tornam divertida, são as pedras na estrada que a tornam diferente de tantas outras, no fim a gente ri, bla bla bla… mas sabe… na hora em que o mocinho tá apanhando do bandido, a menina sempre quer que ele pare de apanhar. Faz qualquer coisa para que isso aconteça. E se a mocinha faz, imagine a mãe do mocinho, né?

Só que não tem jeito. Por mais que a gente não queira, chega uma hora em que os filhos vão ter que passar as provações e os perrengues deles. São os *deles* e não os nossos, e temos que entender isso. Ficar lamentando que eles tenham que passar por eles só vai piorar tudo para os filhos. Só vai fazer com que eles pensem que a vida deles é uma injustiça quando na verdade… Quem disse que o mundo seria justo, não é mesmo?

É por isso que tenho estado tão chateada. Porque treinei tanto pra nada. Porque de tanto treinar passes, tenho batido pênaltis que nem o Elano. Porque tenho discursos prontos para os mais diversos problemas e eles vão direto pro lixo (a menos que eu os venda pra alguém, hehehe).

Como bem diz o ditado, a gente se preocupa tanto em saber as respostas das perguntas, que um dia as tais perguntas mudam. Tem sido um belo exercício de humildade, devo admitir 🙂

Desarmamento infantil, Laranja Mecânica e Rocas

Por uma infeliz coincidência, a campanha de desarmamento infantil e de adultos está ocorrendo logo após aquele crime horroroso ocorrido no Rio de Janeiro.

(Também – ou ao menos assim espero) por uma coincidência, nesse fim de semana assisti ao filme Laranja Mecânica pela primeira vez na vida, e fiquei impressionada como ele tem (ou poderia ter) relação com esse clima pós crime do Realengo.

<abre parênteses contendo spoiler> pra quem nunca viu o filme, em resumo, trata-se de um cara violento que sai por aí com amigos estuprando, matando e tocando o terror na cidade, até que é preso por um homicídio. Na prisão, submete-se a um “tratamento”  que promete acabar com a violência – ou a capacidade de praticá-la – independente da situação, ainda que seja para se defender. O cara até tem o impulso de reagir, mas não consegue colocá-lo em prática porque sente dores horríveis ao fazê-lo. </fecha parênteses>

Voltando ao desarmamento: com todo respeito aos amigos queridos que pensam o contrário (e há muitos deles) essa campanha não é nada mais nada menos do que um placebo; para mim as pessoas estão querendo se agarrar a qualquer coisa que dê uma (falsa) sensação de que crimes como esse podem não acontecer jamais. Vão, gente, vão acontecer sim. Vão acontecer independente de campanha de desarmamento, porque são situações fora da curva, difíceis de se evitar 100%.  A verdade é que o ser humano tem violência dentro dele e não só algumas pessoas não conseguem controlar isso, como por vezes os sãos não têm condição de antecipar esses espasmos violentos.

A “bondade” e a “inocência” das crianças são mitos difíceis de se contestar: difícil admitir que aquela coisinha lindinha, que faz aqueles barulhinhos fofos possa ter não só vontade como também capacidade de fazer o mal a outra pessoa. Mas elas fazem. E isso se vê tanto entre irmãos (é comum ver irmão mais velho querer bater no irmãozinho que chegou, por exemplo), quanto nas escolas onde as crianças mordem pra expressar algum tipo de descontentamento (ou expressar que algo não vai bem com elas) e, mais velhos, com insetos. Lembro que em determinada idade, adorava colocar formigas num pote e colocar água em cima para vê-las se debater. É eu sei, vou pagar anos de karma e não me orgulho disso; mas eu fazia, tinha plena consciência do que estava fazendo  e conheço várias pessoas com o mesmo comportamento. Isto no entanto não me tornou um serial killer, da mesma forma que videogames não tornam uma pessoa uma serial killer, ou que escrever #forasarney vai derrubar o autor de Marimbondos de Fogo.

Dizem os psicólogos que isso não é incomum, e que lá pelas tantas, se tivemos uma evolução emocional correta, a gente se toca que afogar formigas e outras maldades correlatas não é uma coisa bacana de se fazer. Veja: não é que a gente “fica bonzinho”, é diferente: a gente aprende que isso não é legal. Eu pelo menos, continuo tendo ganas, de vez em quando (tá bom, é mais comum do que vocês imaginam), de socar algumas pessoas na parede 😆 e conheço várias pessoas que sentem a mesma coisa; mas aprendi que isso é moralmente errado – além de me trazer consequências.  Só farei isso (e espero que consiga) numa situação limite.  Obviamente, encontrei formas de lidar com frustração: saio pra andar, escrevo um post malcriado, ouço heavy metal, como um pacote de Amanditas, enfim, arrumo canais para colocar isso pra fora, porque senão essa raiva contida certamente me fará mal. Mas ela está lá, e precisa ser canalizada.

O mesmo quanto às crianças. Ou vocês acham que depois de aprender que morder e matar bichinhos por prazer é errado esse ímpeto de violência não existe mais? Eles viram monges budistas radicais daqueles que não matam nem moscas? Claro que não, né? Claro que o ímpeto tá lá e  AINDA BEM,  porque senão teremos um bando de palermas incapazes de reagir quando necessário – como o cara da Laranja Mecânica, ou o gordinho que finalmente reagiu ao bullying.

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Essa violência precisa sair, até porque imagino que ela seja também uma forma da criança lidar com os medos dela. Tenho a impressão que ao transformarmos em “mal” tudo aquilo que nos aflige, matar monstros e inimigos imaginários faz com que igualmente tenhamos coragem de enfrentar situações que nos afligem na vida real. Então, é importante (para não dizer crucial), que a criança trave suas lutas imaginárias (e mesmo mais reais com disciplina, como é o caso das lutas marciais). 

Faz diferença que ela saia através de armas de fogo, sabres de luz, armas brancas ou uma luta de judô? Desculpe, mas isso não faz sentido. Poderia concordar com vocês se estivéssemos falando de uma criança (como há muitas por aí infelizmente) que tem em seu cotidiano o uso de armas ou morte como solução de conflitos. Se você cresce num ambiente onde o castigo para fazer sei-lá-o-quê é matar a pessoa, ou cresce vendo seu pai matar uma pessoa por uma série de motivos que não o de legítima defesa,  quero acreditar que o seu conceito de motivação para matar alguém seja mais elástico do que pessoas não expostas a isso.

Mas por que imitar uma luta usando arma de fogo tornará a pessoa uma criminosa e luta com uma espada não? É irracional, vocês me desculpem. Não tem o menor sentido. 

O problema não está em sentir ímpeto violento (isso de certa forma e até determinados níveis é saudável), mas em como você o controla; não é sequer (na maioria dos casos) saber que aquilo é errado (convenhamos, o próprio autor do crime do Realengo sabia que estava fazendo algo errado): o problema maior é como fazer com que se atinja o ponto de equilíbrio onde as pessoas não levem determinados impulsos adiante a não ser em circunstâncias extremas.  Lembrem-se: o mesmo impulso (não a motivação) violento que permitiu a ocorrência do crime do Realengo permitiu também a reação do Sargento Márcio Alexandre Alves (sim, o nome dele eu pronuncio)  que salvou muitas vidas.  Como sempre, o maior problema é encontrar o caminho do meio.

Não gente, proibir armas ou proibir crianças de brincar com armas não vai acabar com crimes violentos no mundo. Concordo que atitudes violentas possam criar ambiente propício para a continuidade da violência, mas são situações distintas. Adultos dizem que crianças não distinguem a realidade da fantasia mas aqui me parece o inverso: adultos querem que o mundo vire o paraíso idílico que eles fantasiam para conseguir viver.

Diria até (me arriscando a tomar uma saraivada de impropérios)  que É IMPORTANTE ver como a criança lida com armas e que tipo de “monstros” ela mata durante o desenvolvimento (e como), para podermos avaliar se alguma coisa está saindo do esquadro. Colocar a cabeça na terra não adianta nada, lamento. 

Claro, a gente pode complicar: pode colocar um controle maior de quem entra ou sai das escolas (mas os assaltos a prédios de luxo com segurança fortíssima estão aí para provar que essa segurança pode ser quebrada), pode restringir, controlar e até mesmo proibir a venda de armas de fogo no país inteiro (eu sou contra soluções radicais, porque elas normalmente são placebos);  inobstante tudo isso, se a pessoa quiser, acreditem, ela vai arrumar uma arma pra cometer uma atrocidade.

 

Lembram da Bela Adormecida? Por causa de uma maldição que implicava na sua filha morrer por causa de um ferimento com roca, proibiu-se todas as rocas no reino. A despeito desses esforços, a Bela Adormecida foi igualmente ferida. Por uma roca. Porque ela não conhecia nem a roca nem a maldição. A Bela Adormecida se feriu não por causa da roca, mas por causa da ignorância, sacaram?

O duro da vida é esse: não tem fórmula mágica. Não bastasse isso, ainda tem um agravante: mesmo que você faça tudo dentro do roteiro, do que preconizam como certo, pode não dar certo, porque não há nada 100% seguro. É complicado? Eu acho. Complicado e assustador.

Mas ainda prefiro tentar explicar pro meu fillho que é bacana usar o sabre de luz como um jedi, quando necessário, e que não é legal ir pro lado negro da força. Pode ser que não dê certo – mas ao menos não vou me enganar achando que meu filho não tem violência dentro dele e que todo mundo só tem amor no coração. Aliás, desconfio muito de quem se diga assim, se é que vocês querem saber… lembremo-nos sempre da mãe do Cisne Negro, 😆

Meu filho, Harry Potter e eu

Tenho uma relação muito especial com Harry Potter, por uma série de fatores; mas o maior deles certamente é porque a história do hábito da leitura do meu filho está intimamente ligado a ele. Sim, porque foi com o Harry Potter que lordrastajr começou a ler “livro grande; foi também com o Harry Potter que meu filho começou engatinhando na leitura em inglês (os quadrinhos do Calvin também foram de grande auxílio nisso). Ele tem inclusive uma review do (agora) penúltimo filme ( e está me devendo a do último por sinal…)

Para mim foi um privilégio acompanhar (e curtir) uma saga que meu filho também curtia, até porque como os livros acompanham a vida escolar do Harry Potter e meu filho começou a lê-lo com uns 6 anos mais ou menos, a vida escolar de lordrastajr meio que coincidiu com a idade das personagens nos livros – e observar a mudança de percepção dele quanto à história, e vê-lo evoluir junto com ela foi muito interessante.

Quanto aos filmes, ao menos nos últimos 3 ou 4 eu sempre fiz questão de leva-lo no dia da estréia, e desde que existe a sessão da meia-noite e um, mesmo com ele relativamente pequeno (10, 11 anos à época) era a ela que comparecíamos.

Então,  vocês imaginem como eu fiquei feliz quando o @iadriel me deu os convites para assistir à pré-estreia feita pela Warner para os fãs, todos na linha cosplay, com presença do ator Matthew Lewis que interpretou o Neville Longbottom no cinema.

Se não fosse o @iadriel eu não teria essa pulseirinha...

Foi maravilhoso. Desde ver a produção do pessoal, passando pelo visual das moças servindo pipoca, culminando com a torcida durante o filme.

Sim, torcida!! Os mais velhos talvez se lembrem da cena do Fama em que dois personagens vão à uma sessão do “Rock Horror Picture Show” em que a platéia fantasiada canta, dança, repete as falas do filme; pois bem, foi exatamente assim que me senti semana passada.

Ver o lançamento de um filme com fãs não é só ver um filme, é entrar em catarse coletiva: você grita e torce quando as cenas de ação mais dramáticas acabam, suspira em grupo quando rola a vaibe “love is in the air”, e chora de soluçar também em grupo nas cenas tristes. Ou seja, no meu caso isso significa uma coisa só: quem está com você não passa vergonha!!!!

<abre parênteses> : aos puristas que enxergam cinema como um templo onde se reverencia a 8ª arte e que por isso o silêncio deve ser absoluto, devo dizer que estou mais pro lado da Igreja Carismática nesse quesito, e prefiro uma sessão onde a emoção das pessoas aflore de forma genuína – o que é diferente, muito diferente, de conversar alto ou atender ao telefone durante a sessão < / fecha parênteses>

Mas pra mim não era só estar lá;  tinha o fato de eu estar fazendo tudo isso com o meu filho. A sensação de ver que ambos temos Harry Potter em comum pra mim é muito bacana. Canso de dizer que mãe não é amiga, que a relação é outra, mas acho companheirismo importante. E mais do que isso, acho bacana ainda conseguir me emocionar com algo que também é importante pra ele, não porque é importante pra ele, mas porque é importante para mim também. Eu entender a ansiedade dele por causa do lançamento do filme porque eu também estou ansiosa, eu entender que ver o filme no dia do lançamento é muito muito bacana, ou seja, saber o que ele está sentindo porque eu também estou daquele jeito é muito precioso – até porque isso não vai ocorrer muitas vezes nas nossas vidas, né?

Alguns dirão que isso só acontece porque eu sou (segundo alguns) muito molecona, criançona mesmo. Mas eu acho isso bom, sabiam?  Acho legal a gente sair da máscara de adulto responsável que trabalha, se sustenta e só tem “diversões adultas” e conseguir acessar esse lado criança, lúdico e se divertir com uma sessão de cinema onde todos comparecem fantasiados e se emocionam. Sinceramente? Espero não perder isso nunca.

Saí do filme pilhada, porque ele é realmente eletrizante, e se tivesse ingresso pra outras sessões teria visto de novo. E querem saber?  Criança ou não, eu gosto de ser assim, viu? 🙂

****

P.S. Vai um beijo pro querido Marcelo Kneese, que no aniversário do meu filho neste fim de semana, lembrou do moleque lendo, quietinho, aos 9 anos, um dos livros da série numas férias que passamos na Ponta do Mel, e que sem saber, falou pra mim um monte de coisas que eu escrevi neste texto (que já estava pronto mas não estava publicado).

P.S. II – Serei eternamente grata ao Ivan Adriel que me ofereceu os convites para ver ao filme na pré-estreia para os fãs clubes. E ó, meu filho já disse que se rolar convite pro próximo ele vai a caráter, viu? Eu também!!  😉

Mãe é mãe, não é “amiga”

Dia desses, falando com uma amiga querida, parei pra pensar (mais uma vez) na relação que mães têm com filhos.

Todo mundo diz que a relação que tenho com meu filho é muito bacana, e eu também acho. Tenho a impressão de termos conseguido encontrar um equilíbrio entre companheirismo, lealdade, respeito e obediência (que os filhos devem sim aos pais, na minha concepção de vida, pelo menos até determinada idade, embora tal obediência a meu ver não deva ser cega) e harmonizar tudo isso é algo muito complicado, pois a priori alguns desses conceitos aí em cima poderiam ser excludentes.

Apesar dessa relação bacana, não gosto nada nada quando me dizem que “ah, você e seu filho são muito mais amigos do que mãe e filho”. Não gosto porque à uma, não é verdade, e à duas, não acho isso saudável; mãe é mãe, amigo é amigo. Só porque eu entendo a linguagem dele, passo a impressão de ser “moderninha” (o que eu não sou, mas as pessoas me veem assim), tenho amigos mais novos e nossa relação seja um pouco mais libertária do que algumas relações de mãe e filho,  isso não significa que a minha relação seja de “amizade” – os papeis continuam a ser bem definidos e não quero mudá-los.

Claro, há elementos na relação que também estão presentes numa relação de amizade, o que é excelente.

Confiança é um deles. Pelas conversas que tenho com meu filho, tenho a impressão (quase certeza, na verdade) que ele confia em mim. Há uma porta aberta para que, quando ele tenha um problema, peça auxílio a mim ou ao pai (e esperto como ele é, sabe direitinho a quem pedir auxílio dependendo da encrenca em que tenha se metido – e não acho isso nada ruim, se é que vcs querem saber); isso é algo que de que me orgulho.

Respeito existe dos dois lados: tanto da minha parte (e com o início da adolescência isso é muito importante, para que os conflitos existam apenas nas coisas relevantes e não em qualquer divergência que exista entre você e seu filho) quanto da dele (e respeito é diferente de medo – medo se impõe, respeito é conquistado).

esse é o lugar da mala de escola dele - e não, eu não brigo por isso. Pra mim o recado tá bem claro

Hoje há alguns recantos da vida dele que eu só entro se me for permitido (a menos claro, que uma interferência séria seja necessária, mas isso é outra história), e acredito que por um bom tempo eu terei “permissão” (digamos assim) para entrar em muito poucos, pois isso faz parte da adolescência, da busca (saudável) de sua identidade; depois talvez eu seja novamente convidada a entrar nesses recantos. Ou não. 🙂

Companheirismo e cumplicidade também. Canso de falar que meu filho é super companheiro de viagens, bom papo, dá amparo quando eu preciso (quando estou gripada, então é um lord, e invertemos a situação momentaneamente: é ele que vem ver se está tudo bem, por exemplo, como eu sempre faço com ele nos dias normais).

Mas companheirismo não é não é intimidade excessiva. Eu não não acho que numa relação de mãe e filho caiba sair contando todas as minhas questões pessoais; não acho que detalhes de determinados aspectos da minha vida (e o sentimental e o sexual certamente são alguns deles) devam ser compartilhados com ele. Isso eu faço com meus… amigos! Também não me sinto no direito (hoje em dia, com um menino de 13 anos, entrando na adolescência) de me imiscuir em determinados aspectos da sua vida; se ele achar que deve compartilhar comigo porque sente necessidade disso, é outra coisa: a mãe sou eu, eu tenho que estar disponível e manter o canal aberto – mas ele certamente não é a pessoa para quem farei determinadas confidências, e acho certo que seja assim. Posso ser careta, mas há coisas que filhos não precisam ver: a mãe paquerando, a mãe contando detalhes da vida íntima, bebendo demais (atire a primeira pedra aquele que nunca passou dos limites um pouquinho, né?). Não é uma questão de querer ser perfeita, mas de manter uma postura, de se colocar de forma mais estável para dar segurança a ele e deixar os papeis bem claros.

Voltando à minha amiga, esta queixava-se que a mãe era daquelas que gostaria de ser “amiga”, que queria sair com ela, beber com ela, virar noites em baladas junto com a filha e seus amigos e esta, com toda razão do mundo, não achava isso legal. Também tenho amigas que gostam de contar as peripécias amorosas na frente dos filhos (aquela coisa de falar baixinho, como se eles não fossem ouvir, sabem?) e francamente, não aprovo. Tive amigas minhas cujas mães “cruzaram a linha vermelha”: paqueraram amigos da filha, se colocaram em situações vexatórias pras minhas amigas – e por muito tempo muitas delas se ressentiram disso. Amigos meus, vendo a mãe fragilizada por esta e aquela razão, sentiram-se na incumbência de zelar e cuidar da mãe quando talvez sequer tivessem condição de cuidar deles próprios (quando a gente não é adulto, precisa de pai e mãe exercendo esses papéis, né? complica inverter a equação). Não acho certo. Cansei de ouvir minha mãe falando de aspectos do casamento dela que não me diziam respeito; cansei de ter que me meter (indevidamente, mas eu não sabia o que estava fazendo – era criança, né?) na vida de meu pai e minha mãe, quando tais assuntos não deveriam (ao meu ver) ser compartilhados comigo. Sinceramente? Tenho pavor dessa história de “nós somos mais amigos que mãe e filho” – até porque ouvi isso bastante estando do outro lado da história e tudo que isso significou pra mim é que alguma coisa na relação mãe e filha não funcionava.

É por essas e por outras que eu implico e emburro cada vez que dizem que “sou mais amiga que mãe do meu filho”. Não sou não. Sou mãe dele e alguns aspectos da relação não são necessariamente recíprocos; ainda que possamos dar muita risadas juntos e que ele seja uma das poucas pessoas capazes de tirar sarro da minha cara a ponto de me tirar do sério :lol , sou eu quem tem que esperá-lo em casa, sou eu quem tem que estar disponível, sou eu quem deve se preocupar com ele e não o inverso (guardadas as devidas proporções, bien compris – é óbvio que ele vai se preocupar se, por exemplo, eu for assaltada). E querem saber? Eu gosto de ser mãe dele. É a única pessoa no mundo com quem tenho essa relação.

E vocês, o que acham?

Livros da minha infância

A minha xará Flavia Durante me convocou para um meme criado por ela que adorei: falar sobre o primeiro livro que li na vida.

O primeiro, primeirão, confesso que não lembro; mas lembro bem de quando me encantei pela leitura, como comecei a achar que livros eram uma coisa legal, e isso se deu  através do meu pai.

<abre parênteses> meu pai tinha um jeito peculiar de contar histórias: lembro que uma vez ele comprou uma Bíblia ilustrada – e não, ele não era católico, dizia que as pessoas viravam poeira de estrela quando morriam – e numa ilustração de anjos falava algo como “eles falavam anjos em carruagem, mas bem poderiam ser ETs em disco voador”… Entenderam agora porque sou assim? 😆 </fecha parênteses>.

Já contei um pouco dessa história aqui, mas não com detalhes: o meu pai lia “Reinações de Narizinho” pra mim criando vozes de cada uma das personagens. A voz da Emília era uma voz fininha de taquara rachada, e eu morria de rir com ela. Na melhor parte da leitura ele parava. Eu falava “ah pai, lê mais!!” E aí ele falava que não, que se eu quisesse  era só continuar. E lá ia eu pro quarto  devorar Monteiro Lobato, lendo com aquelas vozes que meu pai havia criado… Foi assim que comecei a me empolgar com a leitura e a ver nos livros amigos fiéis (porque são, né? nada como uma boa leitura pra fugirmos da vida quando ela não está boa…Um dia conto pra vocês minha “teoria da saga”…).

Curioso: parando pra lembrar agora, apesar de ter certeza que ele começou a ler Monteiro Lobato pelo primeiro volume da coleção, “Reinações de Narizinho, eu me lembro melhor do meu pai lendo “ Os 12 trabalhos de Hércules” – onde a Emília chamava o Hércules de Lelé, adorava Palas Atena e se dirigia aos deuses com familiaridade… Eu adorava a entonação que meu pai dava à voz da Emília e à do Hércules. Foi por causa de Monteiro Lobato também que me encantei por mitologia grega quando menina – devorava tudo que me aparecesse à frente sobre o assunto (e, devo confessar, naquela época eu achava que os deuses gregos faziam muito mais sentido do que os deuses da Igreja Católica, hehehe).

Posso contar um momento #mortadevergonha da minha vida que tem relação com tudo isso que estou contando? Certo dia, falei pro meu pai que tudo que eu queria na vida era ter um pouquinho de pó de pirlimpim (pros que não leram Monteiro Lobato, pó de pirlimpimpim era a forma de aparatação do pessoal do Sítio do Picapau Amarelo). Ele respondeu que era fácil, pois na verdade o pó era a “peninha do Dumbo” da moçada: bastava eu me concentrar, mentalizar o lugar praonde eu queria ir e voilà… E lá foi a pastel aqui pro quarto, tudo escuro, de pé em cima da cama, pensando em um lugar… Vocês não imaginam a minha vergonha quando me toquei que tinha sido vilmente enganada. Claro, meu pai me enrolou dizendo que a gente ia com a mente e não com o corpo, que livro servia para entrarmos em outros mundos e tal, mas… não me convenceu à época, confesso. Hoje ao  me ver empolgada com alguma leitura, chegando a sonhar com as personagens quando estou muito envolvida na história, me pergunto se ele não teria razão…

E vocês? Qual foi o primeiro livro que leram, hein?

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P.S. Sabe que “História do Mundo para as crianças” é um livro muito bacana pra se ler na faixa dos 7, 8 anos, para que as crianças percam a mania de achar que história é algo chato, né? E é uma delícia de livro, recomendo que vocês o leiam com seus filhos como meu pai fazia… E achei um texto interessante e curto sobre o universo de Monteiro Lobato aqui

P.S. II Alguns livros que amei ler quando menina: Tistu o menino do dedo verde, “Camilinha no País das Cores”, “Pimpinela Escarlate” (nossa, agora que me dei conta que certas características sempre me fascinaram, hehehe) eum outro que sempre procuro em sebos e nunca achei (aliás, acabei de achar, uhu!!): Três Garotos na Amazônia (onde aprendi o que era uma zarabatana com curare – artefato que sempre quis ter na vida, hehehe)

P.S. III – Pra continuar o meme, convoco (pra não dizer notifico, hehehe)  a Liliane Ferrari, Sam Shiraishi, Liv Brandão, Srta. Bia e Lucia Malla (nossa, só mulher, né? não sei o que me deu…). E como o @inagaki é o mestre da organização, sugiro mandar o link pra ele também, hehehe

Copa do Mundo e educação

Em algum post por aí já disse que todos os tópicos chamados por algumas  pessoas  de “matérias escolares” na minha casa sempre se chamaram “assunto”: história, geografia, literatura, são coisas que se discute à mesa de refeições, ou numa conversa; fazem parte da vida de uma pessoa instruída, e como assuntos corriqueiros (e interessantes) são tratados.

Sempre me preocupei em  falar sobre itens do currículo escolar em situações casuais (viagens são excelentes para isso, diga-se de passagem), mas há como tirar partido de praticamente tudo que faz parte do dia a dia da criança –  e a Copa do Mundo é um exemplo claro disso.

Sábado a noite, num sarau em casa de amigos queridos, começamos a falar em como algumas escolas são muito sagazes ao usar a Copa do Mundo, evento que feliz ou infelizmente mobiliza a esmagadora maioria dos brasileiros, para ensinar vários assuntos.

A escola onde os filhos desses amigos estudam, por exemplo, aproveitou o gancho do Álbum da Copa do Mundo (que fez um sucesso estrondoso não só entre as crianças, mas também entre os adultos) para estimular a leitura, entre os alunos na faixa dos 10 anos , d ‘ O Gênio do Crime, livro cuja trama gira em torno da circulação de figurinhas falsificadas de um álbum, prejudicando o dono da gráfica das figurinhas oficiais. Preciso falar que as crianças se empolgaram e que a maioria delas não só não reclamou da leitura, mas comentou o assunto à exaustão?

O filho menor desse casal, por sua vez, tinha uma senhora preguiça para aprender a ler; a mãe passou a ler com ele os nomes dos jogadores (começou pelos japoneses, que o filho julgava mais engraçados), e ele foi se interessando, até que de repente, percebeu que estava lendo.

Outra amiga minha começou a fazer brincadeiras com os países, as bandeiras, e as capitais. Não sei se ela chegou a fazer isso, mas dá pra pegar um atlas, ou na própria internet, e mostrar a localização dos países, suas fronteiras, o que eles produzem, como vive seu povo, como é o povo daquele país, tudo com graus de detalhes e dificuldades condizentes com a idade da criança; aliás, um livro ma-ra-vi-lho-so para conferir essas diferenças é “Futebol sem Fronteiras – Retratos da Bola ao Redor do Mundo”, do fotógrafo Caio Vilela (confira matéria com algumas fotos aqui)

Os maiores poderão ser estimulados a ler os diversos livros sobre futebol que estão por aí (semana que vem tem post sobre isso, prometo!); de repente até mesmo um ” A Pátria em Chuteiras“, do Nelson Rodrigues, para introduzir o estilo de escrita dele (sim, sou fanzaça de carteirinha dele).

Também tem a questão da habilidade motora que a criança menor exercita ao colar a figurinha no álbum; ainda que no começo ela não consiga colá-las muito bem, aos poucos (e com nossa orientação) ela vai melhorando.

É muito mais fácil aprender uma coisa (e principalmente fixá-la) quando se vê utilidade prática para ela – e certamente as crianças, competitivas por natureza, irão adorar disputar na escola quem sabe o nome da capital do país da seleção do [insira aqui um nome de jogador da sua preferência], e isso estimula ainda mais o aprendizado. Dirão alguns que tais ideias ou iniciativas deveriam partir das escolas; é verdade, seria interessante que elas tivessem esse savoir-faire (hummm… acho que a palavra correta aqui seria linha pedagógica, mas não entendo disso a não ser intuitivamente, então vai “savoir faire” mesmo) – mas ainda que tivessem, isso não nos eximiria de participar desse processo.

Não canso de bater na mesma tecla: os maiores interessados na evolução dos filhos são (ou deveriam ser) os pais – e passar um tempo com eles ampliando um mundo que eles já reconhecem como deles é não só fascinante, como também cria uma série de vínculos emocionais pra lá de saudáveis.

Pra isso, você terá que abrir mão de fazer algo para passar esse tempo com eles, na gincana da Copa do Mundo – mas vale a pena. Aliás, como eu sempre digo, educar dá trabalho, mas vale muito a pena.

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P.S. E se vocês estiverem fazendo alguma coisa nessa linha, tratem de vir me contar, tá? Que tal uma gincana antes dos jogos, com uma premiação interessante pro vencedor? Aposto que eles vão adorar.

Crianças são “adestráveis”?

<abre parênteses> Quando meu filho era bem pequeno e eu tinha que dar bronca ou falar muito sério com ele, eu segurava no queixo dele quando ele desviava o olhar pra tornar a bronca menos dura. Certo dia, nosso cachorro, o Boris, um Schauzer, fez cocô no quarto dele. Eu entro no quarto e vejo meu filho segurando o queixo do cachorro, olhando bem sério pra ele e dizendo : “Bólis, não pode fazer cocô no meu quarto, entendeu bem”? </fecha parênteses>

Fiquei pensando muito nessa história e também na forma como educo meu filho quando me mandaram a polêmica matéria da Época falando sobre a similaridade entre se educar crianças e se adestrar cães.

Claro, quando a gente lê uma coisa dessas, a primeira reação é de repúdio. Como assim aplicar técnicas de adestramento de cães a crianças? A @srtabia mesmo falou que disciplina, respeito e regras não eram o mesmo que adestrar (ou disse algo muito próximo disso), e concordei com ela.

Mas confesso: achei a abordagem um tanto quanto superficial, e num tom irônico desnecessário e ao meu ver, pretensioso.

Vou tentar mostrar minha linha de raciocínio pra vocês:

Logo que li a matéria fiquei pensando:o que é adestrar?

Fui ver lá no Houaiss:

Adestrar

Acepções

verbo transitivo direto e pronominal

volver(-se) destro, tornar(-se) capaz, hábil (em alguma coisa); habilitar(-se), preparar(-se)

Ex.: <a. soldados para a guerra> <os recrutas adestravam-se em campo aberto>

Ué, será que a gente nunca faz isso com nossos filhos?

E vou um pouco mais longe: se o que fazemos com nossas crianças em algumas áreas da educação não é adestrar, então o que é? O que eu fiz, por exemplo, nesse caso aqui?

Contudo, não acho que educação seja sinônimo de adestramento, longe disso; na verdade, acho que a educação de um filho propriamente dita se divide em vários itens, dos quais destacaria:

a) ensino das inúmeras regras de comportamento em sociedade, que vão desde determinação de horário para refeições e lições até saber se comportar em um jantar, passando pelas regras à mesa e pelo controle do intestino e uretra;

b) ensino complementar àquele ministrado na escola – que para mim consiste em habituar a criança a freqüentar exposições, a ouvir música de todos os estilos (sim, de todos os estilos – depois, ela que escolha seus preferidos), a ler livros que os pais julgam relevantes para a formação de um ser humano (obviamente, respeitando capacidade cognitiva e faixa etária da criança), viajar etc;

c) construção da alta estima da criança – que, ao meu ver, está intimamente ligada à relação afetiva entre pais e filhos e principalmente, no respeito dos pais pelas opiniões dos filhos (vale ressaltar: eu disse opiniões, e não vontades e desejos; e também não disse que toda opinião divergente de filho deve ser acatada – mas ela deve ser ouvida e respeitada).

d) monitoramento (até certa idade), apoio e aconselhamento no que tange às relações sócio-afetivas dos filhos, bem como delegação de responsabilidade, na medida do amadurecimento e idade da criança.

Tenho certeza absoluta que técnicas utilizadas no adestramento de cães seriam total e absolutamente inúteis (e mesmo indesejadas) nos itens c e d; no entanto, confesso que acho os itens a e b muitíssimo similares às técnicas de adestramento.

Em inglês, o ato de tirar a fralda da criança e habitua-la a usar o penico é chamado “potty training”, algo cuja tradução seria “treino para penico”. O que é que as mães fazem? Levam a criança em horas determinadas para o penico e elogiam quando a criança faz cocô ou xixi lá. Isso não seria um adestramento?

O mesmo vale para determinar horários para se alimentar, para fazer lição (na minha casa não se ligava TV ou se brincava antes da lição estar feita), para não comer de boca cheia, para não colocar cotovelo na mesa, para segurar talheres corretamente (a esses treinos aliás, me parece que muitas pessoas faltaram…). Também vale para cumprimentar as pessoas, pedir “por favor”, se comportar em um restaurante etc.

Sinceramente? Não consigo, por mais que eu tente, encontrar diferenças nas técnicas que se aplicam para alcançar os resultados acima com crianças das que são aplicadas aos cães, até porque não há muito mistério: os pais devem ser assertivos, devem falar com autoridade (o que é muito diferente de gritar; só grita aliás, quem sabe não ter autoridade), olhando no olho da criança, e impondo sanções positivas (prêmio – que pode ser um sorriso de assentimento ou o “mamãe está muito orgulhosa de você”) ou negativas (castigo), dependendo de a criança ter cumprido ou não o determinado pelos pais (sim, determinado e não pedido – algumas coisas são negociáveis, outras não são, e aqui estamos falando das inegociáveis).

Por causa disso, acho meio inadequado o tom de chacota da Época. A certa altura, lemos no texto, em destaque “para o Encantador de Cães, o essencial é mostrar quem está no comando. Pais perdidos adoram essa ideia”.

Ora, com todo o respeito, se pais perdidos começarem a entender que precisam mostrar que estão no comando, eles talvez deixem de ser perdidos. Qual é o problema aí? Não vejo nenhum.

Também concordo com o psicanalista citado no texto, Aric Sigman, quando ele afirma que os pais estão totalmente sem diretrizes e se apegam a qualquer coisa que julguem funcionar (tanto que temos essa moda de criança fazer o que quer, pois do contrário ficará traumatizada); só não acho que é o fim do mundo você utilizar os parâmetros utilizados no adestramento de cães, desde que evidentemente, isso se dê em estágios específicos da educação e desenvolvimento emocional dos filhos, e muito principalmente, que os pais consigam, paralelamente a isso, atender aos itens “c” e “d”que eu mencionei acima, itens estes onde não há como se aplicar nada parecido com técnicas de adestramento.

O problema está aí: quantos pais conseguem discernir em quais etapas da educação da criança se aplicam métodos de treinamento, com imposição de limites, tarefas com sanções e em quais deve-se prestar atenção aos anseios do seu filho, ou como ele está se sentindo? Mais: quantos pais estão aptos (ou têm a grandeza d’alma e segurança em si próprios) a, paralelamente a esse “adestramento”, ensinar seus filhos a pensar por si próprios na medida de seu desenvolvimento, a permitir enfrentamentos saudáveis sem que isso signifique perda de autoridade, a ouvi-los, voltar atrás e eventualmente pedir desculpas quando erraram? O cerne do problema é esse, e não a forma como se ensinam determinados comportamentos às crianças, ou de onde tais técnicas foram retiradas. No fim, como dizia meu pai, o que interessa é bola na rede, certo? E como disse o @gpavoni no Twitter, tem gente por aí que muito ganharia se tivesse aprendido a fazer xixi no jornal… 😆

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P.S. O debate está aberto; por favor, dêem seus pitacos!!

Pulseiras do Sexo são a nova Salada Mista?

Outro dia, num churrasco na casa da @lisatucson, eu ouvi a bendita história das tais “pulseiras sexuais“. Não entendi patavina, ela também disse que era exagero da galera, e morreu aí. Na semana seguinte, começou o zunzunzun no Twitter e nos emails, um texto aqui outro ali e de repente estava todo mundo escandalizado. Os adolescentes estariam usando pulseiras coloridas para, através de um código pré-estabelecido no qual cada cor significava uma prática sexual (que iria do abraço ao sexo oral, passando por “selinho”, “beijo de língua” etc). A pessoa que arrebentasse a pulseira teria direito àquela….hummm…vamos dizer assim… “prenda”.

shag-bands ou pulseiras do sexo - by radar urbano
shag-bands ou pulseiras do sexo - by radar urbano

Demorei um pouco para formar opinião, confesso. Essa minnha amiga apurou com o filho de 11 anos e descobriu que pra ele aquelas cores não tinham conotação nenhuma (tipo, ele queria a cor “x” porque era a cor do time dele, saca?). Perguntei para o meu filho, 13 anos recém completos. Ele respondeu que tava na moda sim, que ele tinha tido uma porque “os caras maiores têm um monte,  pedi uma e eles deram” – mas ele não sabia de nada dessa história de cor ou código (e antes que vocês me perguntem: não, ele não estava mentindo – ele não usa as tais pulseiras, portanto ele me contaria).

Bom, se a galera até 13 está fora disso, tenho que supor que isso está rolando com a turma de 14, 15, 16 anos em diante. E aí? Como ficamos?

Ora, essa é a fase em que normalmente começam (na verdade começam antes, mas começam de uma forma mais explícita, digamos assim) as experiências sexuais, sejam elas da intensidade que forem (pode ser um beijo mais bem dado, um amasso mais forte, ou até mesmo sexo na acepção pura do termo). E aí eu acho que o pessoal está fazendo um carnaval à toa, agindo exatamente como nossos avós, ou nossos pais, ao reclamar dos excessos da juventude. Fiz uma experiência e perguntei no Twitter como chamava uma brincadeira que tinha um monte de frutas (eu tive uma educação super rígida e nunca brinquei de nada disso – ai como me arrependo…); resultado? todo mundo respondeu com detalhes, olhem só:

SM1

SM3

SM4

Na boa? Tá me parecendo aquela coisa de geração mais velha dizendo que a geração mais nova estava perdida. Eu também acho que vivemos numa sociedade excessivamente erotizada, que crianças são precocemente estimuladas (por vezes com anuência dos pais) a se tornarem sexualmente atraentes, mas sinceramente, não é isso que eu vejo nessas pulseiras (aliás, tá na hora a gente parar de repetir por aí todo santo cliché que ouvimos, né?). Pra ser sincera a única coisa que me preocupava nesta história toda era justamente a diferença fundamental entre a “salada mista” da geração anterior e as tais pulseiras: a publicidade do ato. Era isso que eu não conseguia entender. Estava pensando no assunto quando no meio do caminho o @doni chegou e me deu uma bela ajudada, 😆 .

Acompanhem meu raciocínio, acho que vale a pena:

O fato de desfilar as pulseirinhas diz para os outros, de uma forma clara, que vc já está pensando em fazer sexo (e isso acho que isso deve incomodar demais alguns pais: como assim meu bebê está dizendo aos 4 cantos do mundo que pensa em sexo?), que gostaria de ter experiências sexuais, na intensidade determinada pela tal pulseirinha. Vocês vão dizer: mas isso é pra ser feito aos poucos, com alguém que se goste, etc. Até é verdade, é muito mais gostoso quando ocorre assim, mas a gente dá umas cabeçadas antes de descobrir isso né?  – imagino que vocês lembrem que não se casaram com aquele cara com quem você foi pega aos beijos e abraços no fundo do salão da festa de 15 anos do “Marcelinho”, certo? E  acima de tudo, para que o sexo surja de forma natural na vida do seu  filho, ele  tem que estar preparado – e isso é algo em que você, pai, tem participação fundamental.

Ora, de certa forma, eles estão dizendo exatamente isso: que precisam ser preparados, que não estão sabendo lidar muito bem com tais questões. Esse “dizer pros outros”, inclui, obviamente (eu diria principalmente), os pais. O que é mesmo que a gente faz quando precisa de ajuda? Si-na-li-za. Sinalizar, praqueles que (ainda) não captaram é “mandar sinais”. Uia… e não é que esses moços são inteligentes?

Pra mim, essas pulseiras, independente da cor, signficam: estou pensando em sexo, quero ter experiências sexuais e estou ansioso com isso. Eu duvido que esses adolescentes, ainda que arrebentem as tais pulseiras, paguem a “prenda estipulada”. E sinceramente? Se eles conseguiram cumprir essa etapa, ou já estão prontos para essa experimentação (e aí teremos mais uma etapa de questionamentos a amparar, na condição de pais), ou estão tão desesperados para agradar que estão indo no embalo contra sua vontade. Em nenhuma das duas hipóteses a pulseira é culpada entendem?

Conversando com o @doni (não sei se ele vai escrever sobre o assunto, espero que sim), ele ainda comparou as tais pulseiras aos “paninhos” que as crianças usam quando pequenas (e eu achei uma comparação bastante pertinente). Nas palavras do  @doni (e se eu estiver sendo incorreta, é só me corrigir, tá?) essas pulseiras são uma espécie de proteção do mundo real, do que precisa ser enfrentado, além da identificação entre pessoas que sentem as mesmas angústias. Mas palavras dele, uma coisa  “eu estou vivendo as mesmas angústias que vc, e como vc tb não sei lidar com elas, então vamos só usar uma pulseira. Ou um paninho“.

Em suma: as pulseirinhas  são antes consequência do que causa, entendem?

Agora vocês perguntam para mim: e o que eu tenho que fazer? Eu vou responder o mesmo de sempre: conversa. Diálogo. Conversa essa que já deveria ter sido iniciada lááá atrás, mas nunca é tarde. E deixem-me ser clara aqui: por diálogo não entendam esse diálogo que andam falando por aí “explique para o seu filho o significado da pulseira e se ele tem que usá-la ou não”. Me desculpem, mas acho isso pouco inteligente. Porque você  só vai tirar o problema das suas vistas; você só estará eliminando a sinalização do problema, uma coisa “avestruz colocando a cabeça na terra”. Impedir de usar as pulseiras é dizer “não quero que você fale sobre isso, ou me diga que está pensando sobre isso”. Depois não reclamem…

Praqueles que discordam dessa leitura e acham (sempre há, né?) que isso é um jogo, uma super-exposição e que as crianças (!) estão sendo induzidas a praticar sexo : a única coisa que irá impedir que um adolescente faça algo que não está pronto ou que não quer fazer apenas para agradar ao grupo é ter auto-estima elevada. Não importa qual seja o assunto: cocaína, pulseiras coloridas, zoar travesti (sim, eu tive amigos que fizeram isso), jovens com boa auto-estima não vão cair nisso  e cumpre aos pais construir essa auto-estima desde o berço – lembrando que essa será apenas mais uma das pressões que os filhos irão sofrer por parte do grupo até o fim da adolescência, so, be prepared, hehehe.


Resumo da ópera: conversa. Tente prestar atenção ao que seu filho está dizendo através dos sinais que ele manda, ao invés de proibir os sinais, pois ao proibi-los,  vc está dificultando ainda mais a comunicação, que já está truncada; vá atrás do que está movendo ele, não do sintoma, ok? 😉

E antes de tudo, sejamos razoáveis:  Muitas vezes, uma pulseira é só uma pulseira. Eu tenho certeza que seu filho de 06 anos não está querendo fazer sexo oral. Menos, né moçada? 🙂

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P.S. O  @doni depois de nossa conversa fez mini-declarações no Twitter que eu acho muito pertinentes colocar  aqui:

SM4

SM5

SM6

SM7