Youkali e os tons de cinza

Passeando com um dos meus amigos mais queridos da vida (falo dele no último trecho deste post) sábado na feira orgânica da Barra Funda, comentava sobre  um dos últimos textos do Contardo Calligaris, que eu adorei e que muita gente viu como um soco no estômago.

Segundo o Contardo Calligaris, depressão acontece quando as pessoas não conseguem mais ver o encanto do cotidiano, aquilo que eu chamo de ver ritual onde as pessoas vêem rotina aborrecida, ver cor no dia a dia, nas pequenas coisas, porque é disso afinal, que a vida é feita: de pequenos momentos aqui e ali, e não dos momentos grandiosos, dos acontecimentos retumbantes. Estes têm sua força, nos nutrem por certo, mas é nas cores do dia a dia, é na conversa de todo santo  jantar, naquele telefone de boa noite ou pra dizer “não tive um dia bom e precisava falar com você” que as relações se constroem e a vida acontece.

Aí ele responde: ” o problema está justamente aí: não é que você não vê cor; às vezes você até vê cor, mas as únicas cores que você vê são vários tons de cinza”.

Tive que concordar. Quem nunca esteve lá no fundo do poço que atire a primeira pedra.

Inconscientemente ou não (ele sempre teve o dom de saber o que acontece comigo sem que nem mesmo eu saiba, aquela peste), depois do almoço ele me mostrou um vídeo lindo, da soprano Teresa Stratas (que eu, felizmente eterna ignorante, não conhecia), um Tango Habanera tristíssimo chamado Youkali, de Kurt Weill (o mesmo que escreveu a deliciosa Speak Low), cuja música sem a letra originariamente fazia parte de uma peça chamada Marie Galante e que merece ser visto:

 

A

A letra é linda:

C’est presqu’au bout du monde
Ma barque vagabonde
Errant au gré de l’onde
M’y conduisit un jour
L’île est toute petite
Mais la fée qui l’habite
Gentiment nous invite
À en faire le tour

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Youkali
C’est la terre où l’on quitte tous les soucis
C’est, dans notre nuit, comme une éclaircie
L’étoile qu’on suit
C’est Youkali

Youkali
C’est le respect de tous les voeux échangés
Youkali
C’est le pays des beaux amours partagés
C’est l’espérance
Qui est au coeur de tous les humains
La délivrance
Que nous attendons tous pour demain

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

Et la vie nous entraîne
Lassante, quotidienne
Mais la pauvre âme humaine
Cherchant partout l’oubli
À, pour quitter la terre
Se trouver le mystère
Où nos rêves se terrent
En quelque Youkali

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Youkali
C’est la terre où l’on quitte tous les soucis
C’est, dans notre nuit, comme une éclaircie
L’étoile qu’on suit
C’est Youkali

Youkali
C’est le respect de tous les voeux échangés
Youkali
C’est le pays des beaux amours partagés
C’est l’espérance
Qui est au coeur de tous les humains
La délivrance
Que nous attendons tous pour demain

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

(a versão em inglês, pra quem não entende francês, está aqui)

Chorei de borrar o rímel vendo o vídeo. Tá tudo misturado ali: tem mulher velha com moço moço, mulher com mulher, velhinhos, gente gorda, gente magra, todo mundo dançando feliz… Tem esperança. Tem serenidade. Tudo flui.

Mas como a letra bem diz,  isso não existe, né? Principalmente nos dias intolerantes de hoje. Youkali é só um sonho, uma loucura, não existe, nos conta a letra.

O problema é quando a gente não consegue sequer sonhar com ele. Como eu sempre digo, a pior coisa que pode acontecer a alguém é sentir desesperança, ter a plena convicção de que vai ver tudo cinza pra sempre e o pior: se conformar com isso, sequer ter forças de se revoltar com essa cinzidão toda. Ter forças somente para respirar fundo e olhar para o outro lado, colocando um sorriso no rosto quando vê que vai chorar se parar pra pensar em determinados aspectos da vida, porque se parar para pensar, vai chorar dias a fio e entrar num buraco de dar medo aos mais corajosos. Só quem já esteve (ou está) lá sabe como é isso. Não quero isso para o meu pior inimigo. Vou contar pra vocês: sorte daqueles que ainda conseguem sonhar com Youkali.

 

 

Noite de insônia

“Ai ardido peito
quem irá entender o seu segredo
quem irá pousar em teu destino
e depois morrer de teu amor
ai mas quem virá
me pergunto a toda hora
e a resposta é o silêncio
que atravessa a madrugada
vem meu novo amor
vou deixar a casa aberta
já escuto os teus passos
procurando o meu abrigo
vem que o sol raiou
os jardins estão florindo
tudo faz pressentimento
que este é o tempo ansiado
de se ter felicidade…”

(Pressentimento

(Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho)

Ontem a noite depois de semanas, fui pra varanda da minha casa e vi que todas as minhas damas da noite (que eu adoro e que tinha replantado há pouco tempo) morreram. E como sempre comparo meu jardim com o meu estado de espírito, lembrei da música aí de cima.

Ah, quem dera fosse fácil assim, e que a casa estivesse aberta e os jardins floridos tão logo a casa estivesse vazia, né? Aliás, ultimamente, no mundo em que tudo é acelerado e preencher formulários de redes sociais é algo corriqueiro, há quem acredite que é só dizer que a casa tá vazia  e pronto – mas pensando bem, talvez seja isso mesmo e a errada seja eu. Ou talvez eu só seja mais romântica e mais lenta. Mas prefiro assim.

“Casa vazia” pra mim é algo mais complexo. Fim de algo significa casa vazia? Acho que não, porque fim é uma coisa, abrir espaço interno pra esvaziar a casa é outra. Às vezes demora tempo pra termos coragem de deixá-la vazia (da última vez foram vários anos; não um ou dois, mas vários – não digo que acho isso certo ou desejável, mas aconteceu e foi o suficiente pra entender que não é uma experiência a se repetir).

Sempre precisei ir até o inferno beijar o diabo pra depois voltar – inteira e refeita, mas não é um caminho que eu goste de fazer, acreditem. É que na verdade, a mim parece incongruente que a maturidade faça com que abandonemos emoções vividas, obriguemo-las a ficar num local espremidinho no coração da gente rápido; sempre achei que isso seria uma espécie de traição para com o que foi vivido, sabem? Sabe quando você está triste, com saudades e tem uma noite divertida? Eu já cheguei a ficar indignada com o fato de estar me divertindo, acreditem. Sempre me senti meio mal com a ideia de que, para seguir em frente, eu tivesse que deixar de lado ou abandonar sensações que foram importantes e bonitas de se viver. Hoje eu sei que estou errada – mas não consigo abandonar fácil essa sensação de que estou “traindo” o que foi vivido. Talvez porque quando algo é muito especial, você tenha dúvidas de que possa viver algo semelhante novamente. Falta de fé, né? Porque dá, juro. Mas eu só descobri isso há pouco tempo, então vocês têm que dar um desconto…

Muito tempo se passou até que eu entendesse que dar espaço a emoções que, por uma razão ou outra, não têm mais espaço na nossa vida, é antes de tudo, não se dar a chance de viver isso de novo; demorou pra entender que temos que cuidar do peito para que ele pare de arder, para que possamos tornar a casa aberta com jardins floridos (mas de verdade, não da boca pra fora – porque sair falando que tá pronto pra outra é uma coisa, outra beeeeem diferente é estar internamente pronto). Não digo que tenha aprendido a fazer isso de forma indolor e rápida – mas ao menos entendi que é preciso fazer isso. É um começo, certo? É só ter paciência (aquela coisa que eu só conheço porque a definição está no dicionário…).

Não acho que tenha sido coincidência que todas as minhas damas da noite tenham morrido nas últimas semanas; é a casa gritando que você tem que fazer mudanças, né?

Torçam pra minha casa ficar limpa e pros meus jardins florirem logo, porque eu não sei viver sem o coração batendo forte de alegria – mas por enquanto ele tá ardendo que só…

Me conta: no que ele te fez melhor?

Outro dia, dei a maior bronca num amigo meu que, ao reclamar do ex namorado, desejava a ele as 7 pragas do Egito e os piores círculos do inferno de Dante. Sempre achei que esse comportamento, além de contra-producente (porque a energia que gastamos com isso pode ser utilizada pra gente ficar linda, loira e de bem com a vida) um tanto quanto indigno – até porque desmerece uma relação da qual você fez parte.

Indigno porque a vida pra mim é antes de mais nada uma grande troca entre as pessoas, e eu tenho a firme convicção que as deixamos entrar nas nossas vidasem decorrência de determinada função que elas tenham a desempenhar (e não, isso não tem nada a ver com religião ou vidas passadas, ou qualquer outra coisa desse jaez; tem a ver com olhar pra trás e ver no que precisávamos melhorar, o que precisávamos entender com tudo que foi vivido e avaliar o que nós vamos levar conosco daquilo que vivemos).

Meu filho é um exemplo claro:  ele nasceu meu filho pra me fazer entender que maternidade é algo quase divino; veio pra  me fazer ver que eu podia sim, ser uma boa mãe. Além disso (e talvez  acima de tudo), ele veio pra me dar norte. Meu filho é minha âncora; sem ele por aqui, era bem possível que a essa altura do campeonato eu estivesse escrevendo de uma aldeia de Gulu Gulu do Norte, sem saber exatamente o que eu estava fazendo por lá (e quem me conhece sabe o quanto isso é verdadeiro).

O mesmo vale para uma série de amigos queridos, tanto aqueles que passaram pela minha vida e com os quais não tenho mais contato, tanto para aqueles que, eu sei, estarão do meu lado ate o último dia da minha vida (e, espero, estarão resmungando no meu enterro quando lembrarem que eu dizia não querer ser enterrada sem maquiagem ou de salto baixo, :lol:).

Até aí é fácil; em geral quase todo mundo consegue dar valor e reconhecer o que as pessoas nos trouxeram de bom nas relações não carnais (ou melhor dizendo, nas relações onde amor e atração sexual não estejam presentes); a coisa muda de figura quando falamos de alguém de quem gostamos e que, provavelmente, não gosta mais da gente – ao menos não na intensidade e na disponibilidade de que gostaríamos-, porque isso mexe com nossas inseguranças e nossas suscetibilidades.

Quando se trata de amor, não só o reconhecimento do que o outro fez por nós ou fez por nós é difícil (até porque ele é mais doído e de certa forma prolonga o tempo de luto da relação), como também há um estímulo por parte da sociedade para que neguemos isso, como se o outro, pelo simples motivo de não ter mais os mesmos desejos ou as mesmas expectativas que você, merecesse ser punido por isso. Sempre achei esse comportamento idiota, confesso a vocês, coisa de revista feminina oca; acredito que as pessoas merecem sim, saber o que fizeram por nós – ainda que tenham frustrado algumas de nossas expectativas.

Não se trata aqui de fazer pedidos desesperados, ou de declarações inflamadas, ou acreditar que algo possa mudar (na maioria das vezes não há como), mas antes de reconhecer em que aquela pessoa específica nos fez melhor (ou quando a pessoa não teve atitudes bacanas, o que ela mostrou dentro de nós que não é bonito, ou não é desejável pras nossas vidas e que precisamos mudar).

Acho libertador, sabiam? De minha parte só consigo olhar pra frente – obviamente, depois de maior ou menor tempo, dependendo do grau de intensidade do envolvimento que tive com o moço (e eu demoro pra elaborar lutos em geral), se eu consegui dizer pra tudo o que ele me trouxe de bom e o que me acrescentou, e o motivo pelo qual  eu serei uma pessoa melhor depois dele, em razão das  coisas que eu vivi  (e sobretudo pelo que percebi em mim em decorrência daquilo que vivi, o que é ainda mais importante).

O mais tocante, contudo, é que em geral aqueles que mais nos marcaram em geral não lidam bem com isso. É curioso ver como as pessoas que mais fazem por nós, que mais nos modificam, são aquelas que menos aceitam – ou reconhecem merecer – os nossos elogios, o nosso reconhecimento. Recentemente cheguei a ouvir que é difícil lidar com isso, com o fato de se ter (ou ter tido) importância na vida de alguém (aliás, as duas pessoas que mais marcaram minha vida, curiosamente me disseram a mesma coisa, fiquei até impressionada quando ouvi de novo a mesma frase – mas talvez seja porque eu curta a linha “Mr. Darcy way of behavioring”, né?). Só que eu tenho certeza (ou então sou terrivelmente presunçosa, o que não podemos descartar) que mesmo me criticando por isso,  um dia, lááá na frente, quando tudo estiver cinza na vida deles, apesar do dia estar ensolarado, isso vai fazer diferença. Assim como eles fizeram na minha vida. Como eu disse, viver é trocar.

Queria finalizar com duas de minhas tirinhas do Calvin prediletas, apesar de muito tristes:

Essas duas tirinhas pra mim resumem tudo o que eu disse acima: eu sempre fui muito grata ao que vivi (e grata sobretudo a quem me proporcionou isso), ainda que algumas situações tenham me trazido depois profunda tristeza (é, e como o Calvin eu fico feliz em ter vivido tais situações).  Por isso tudo, e por acreditar  que amor de verdade, ali na batata, não morre nunca, que eu me sinto compelida a ser sincera; só assim posso me olhar no espelho e ter certeza que sou leal a mim mesma e aos meus sentimentos. É mais triste? Sim. Por vezes choramos até dormir de cansaço. Mas a sensação de liberdade e plenitude é imensa. Vocês deviam tentar. É muito mais legal do que desejar a tristeza de quem já nos fez tão bem um dia. E depois que passar vocês vão conseguir olhar pra frente com uma leveza maior, acreditem… 🙂

Viver dói – mas é bom

Outro dia uma amiga minha contou que estava em  dúvida se mergulhava fundo numa relação que estava começando muito bonitinha porque além de estar meio…hum…dividida entre dois moços, ela estava  com medo de quebrar a cara.

E eu, naquele meu modo meigo de aconselhar pessoas que por vezes é ativado, disse (por incrível que pareça, pra incentivá-la): uma hora vc vai quebrar a cara. Vocês não vão casar e ter 10 filhos, e uma hora esse relacionamento vai acabar. Se vai acabar daqui a um mês ou daqui a 10 anos, não há como saber. Mas vai acabar. Aliás, vai acabar ainda que vcs se casem e tenham 10 filhos  e vivam felizes para sempre porque uma hora um dos dois morre. Ou seja: uma hora vai acabar, e vai ser ruim. Simples como isso.

Aliás, curiosamente na mesma hora estava vendo um episódio do House onde ele às tantas falava, comentando sobre uma situação amorosa X : It’s not easy – but it’s simple (não é fácil- mas é simples).


Eu tenho uma forma muito particular de enxergar determinadas situações: eu não sou uma daquelas mártires que adora sofrer, que adora se sentir miserável ou que fica feliz quando tudo dá errado, nada disso; mas partir do princípio que uma hora todo príncipe vira sapo ajuda horrores  na hora em que tenho que  decidir alguma coisa. É como se, tendo certeza de um final  e de que tudo uma hora acaba,  fosse mais fácil ir em frente (vocês vão dizer que não dá pra saber se o final será triste, alegre, mas acho que todo fim é triste – só porque é fim, como diz a música do Paralamas…). Aliás, ainda bem que ficamos tristes né? Sinal de que a relação valeu a pena ser vivida. Sinal de que ela fez diferença. E eu gosto que as pessoas façam diferença na minha vida e vice-versa; gosto de carregar orgulhosa as cicatrizes que tenho no coração, do mesmo modo que os soldados mostram ferimentos de guerra. Significa que eu vivi né?

Tem gente que acha engraçado que eu funcione “ao contrário”; acham que eu sou do tipo que pula do avião sem paraquedas, mas não sou, até porque não faço nada sem pensar, sem avaliar – só não deixo de fazer, entendem? Não deixo de fazer em razão de achar   ” e se”  a expressão mais triste que pode haver na história da vida de uma pessoa. Sim! Pra mim, a perpetuação do talvez, a ideia daquele “e se”  infinito na minha vida é um zambilhão de vezes mais apavorante e triste do que sofrer ao fim de uma história romântica. O pior dos “nãos”  pra mim é melhor do que qualquer “e se”.

dá vontade de falar, vai pra qualquer lugar, desde que vc vá!

E  não  é uma questão de não se arrepender depois, pois só idiotas falam isso (sim, porque de uma vez que erramos, é idiota não admitir que poderíamos fazer algumas coisas de outra forma); na verdade, eu gosto de saber que, dentro das minhas condições e convicções à época, eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para ir atrás do que eu acreditava e buscava, mesmo quebrando a cara depois; me tranquiliza saber que não tem nada pra trás que eu pudesse fazer diferente – excetuada a opção de  tomar um caminho ra-d-ical-men-te diverso.

Vocês dirão que sempre tem um “e se” quando temos uma encruzilhada e tomamos um dos caminhos, e no fundo é verdade. Mas estou falando aqui em investir na mediocridade ao invés de arriscar – estou falando da situação onde, apesar de ficarmos tentados a escolher um caminho, continuamos no mesmo lugar em que estamos, estatelados,  “just to be on the safe side”.  Querem saber? Eu prefiro uma dor intensa que certamente passará (ou ao menos transforma-se-á numa cicatriz bonita, da qual me orgulhe)  do que uma dorzinha incômoda martelando na minha cabeça (ou no coração?) até eu morrer (sim, porque eu iria pensar nisso até o fim dos meus dias!).

É, eu não me acho nada corajosa – no meu caso, dói mais ficar parada. Dói mais não saber. Não! Eu não vou em frente porque tenho “guts”, como todo mundo pensa; vou em frente porque tenho medo daquela dorzinha chata durando a vida toda, é isso gente. É a covardia que me move, e não o inverso.

Quando me separei, a frase que eu mais ouvi foi: uma pena que não deu certo. E eu ficava brava, porque na minha cabeça não era isso: tinha dado sim, muito certo. Não se pode chamar de fracassada uma relação que durou 11 anos, resultou numa criança maravilhosa (cujas condições de  nascimento sem dúvida me fizeram  evoluir como ser humano) – não, não deu errado; ela simplesmente foi boa durante 11 anos e uma hora acabou. Fiquei triste quando acabou? Sim, claro. Mas nem por isso deixaria de vivê-la, porque o saldo foi positivo.

E a constatação acima não significa que eu seja Polyana. Muito ao contrário!  Significa que  reconheço a finitude dos relacionamentos;  que reconheço o fim de todas as coisas da vida (inclusive dela própria),  mas que não é por isso que vou evitar  viver determinadas histórias.  Alguém aqui mata bebezinhos só porque eles vão morrer um dia? Não né? 😆

Como dizia Vinicius (pra variar) : “depois da chegada tem sempre a partida, porque não há nada sem separação”. É isso. Não é fácil, mas é simples, hehehe.

Querem saber? Uma das coisas boas de se envelhecer é entender que no fim, tudo passa. A pior dor do mundo passa. Claro, nem por isso vc deixa de ter medo de viver aquela dor de novo – mas como disse uma vez a Maitê  Proença, corajoso não é o que não tem medo; corajoso é o que tem medo e mesmo assim pula. É isso. Eu pulo porque se eu não pular, estarei igualmente triste: então vcs me desculpem, mas prefiro morrer pulando a morrer em razão da tristeza e do torpor do “e se”, pois não há nada mais libertador na vida do que a certeza de se ter vivido o que podíamos.

Espero que a minha amiga seja feliz. Enquanto durar. Sabe-se lá Deus com qual moço. 😉

****

P.S. I. Eu sei que falo dele toda hora, mas não dá pra não pensar em “A vida tem sempre razão” do Vinícius quando se escreve um texto como esse; tanto que citei parte da letra aí em cima. Mas é que eu realmente acredito que nada  renasce antes que se acabe, e que é preciso paixão sabe? E como é preciso…

Toquinho – Vinicius de Moraes – Sei Lá A Vida Tem Sempre Razão – Antonio Carlos Jobim

P.S.II Ah sim! Não custa dizer que eu entendo perfeitamente aqueles que são diferentes de mim – eu é que não consigo ser como eles sem sofrer terrivelmente. Mas de novo, o que seria do azul se todos gostasse do amarelo não?

P.S.III – Não posso dedicar o post à essa minha amiga – afinal o mundo é pequeno, e vai que um dia um dos moçso cai aqui e lê né? Mas eu sei que ela passa por aqui de vez em quando, e vai rir do resultado 😉

Dúvida cruel: gostando de gostar ou gostando dele?

É, o título pode parecer esquisito mas é isso mesmo. Por uma série de razões que não vêm ao caso agora, tenho divagado um pouco sobre isso. Acabei falando semana passada sobre canções de fossa e, ao falar delas, falei um pouquinho, ao final do post, sobre o que eu penso do amor – que pra mim, ele não é um sentimento leviano que possamos sentir muitas vezes na vida, por uma simples questão de falta de espaço no coração, na alma, em nós, chamem como quiserem.

Já a paixão pra mim é diferente: vc pode (e deve) se apaixonar inúmeras vezes ao longo da vida. É sobretudo recomendável que tais paixões não durem muito – pois quando elas são avassaladoras, daquelas arrasa quarteitão, é certo que vc passará por uma fase de excessos, onde tudo é muito (menos o juízo, evidentemente – ainda bem, aliás).

Só que pra ser sincera, a essa altura do campeonato, acredito que,  a menos que se esteja vivendo um grande amor,  a melhor das sensações é aquela em que vc, depois de ter passado por poucas e boas e caído em inúmeras roubadas, aprende a valorizar outras coisas: no quanto é importante o companheirismo, amizade, a cumplicidade, ser bem tratada (ah, e desejada também né? não tem nada pior no mundo do que virar a irmãzinha do cara que dorme com vc).

<parênteses> um amigo meu diz que todo esse bla bla bla aí é conversa de menina que homem chama de “o que preciso fazer para continuar saindo com ela” – mas eu sou uma romântica inverterada e menina, enquanto ele é menino e um tanto quanto cético, hehehe</fecha parênteses>

Continuando: chega o momento na vida em que vc finalmente descobre o que vc quer para a sua vida, o que vc não quer, e melhor do que isso, assim que detecta que algo não é o que vc quer, vc está preparada para descartar essa relação, sem dó nem piedade,  ainda que doa um pouco no começo. Sim! Chega uma hora em que vc aprende que tolerância e compreensão em alguns relacionamentos não vão fazer com que esse relacionamento evolua como vc gostaria, à uma, porque a vida não é (feliz ou infelizmente) uma grande equação matemática; à duas, porque as pessoas têm lá suas vontades, certo?  Melhor dizendo:  não há como transformar uma situação real numa situação idealizada, pois no “real world“, assim como não existe príncipe encantado, não existe fada madrinha que consiga fazer com que as pessoas enxerguem uma carruagem onde há uma grande, redonda e laranja abóbora. Captaram?

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Só que tem uma coisa muito muito chata nisso tudo: enquanto vc não está apaixonada, ou não está vivendo um grande amor, ou não está saindo com ninguém relevante, vc não tem a quem mimar; vc não tem com quem se encantar e a quem encantar.  Sinceramente? Eu acho isso chatíssimo. Talvez seja por isso que eu adore flertar vez por outra, ou ter algum moço por perto ainda que não seja uma relação monogâmica (se bem que eu sou aquela tonta que é muito mais monogâmica do que deveria, pensando bem) ou estável: porque eu acho uma delícia provocar, ser provocada, agradar e ser agradada. Faz com que eu me sinta viva; faz com que eu veja o mundo e a vida sob outro prisma.

E é né? Vc vai dormir e tem pra quem dar boa noite; vc vê uma lingerie bonita em uma loja e dá vontade de comprar pra mostar pra ele (ou imagina a cara dele se vc contasse que comprou aquela lingerie pensando nele); vc pensa em mimos que poderia fazer – tá, vcs podem rir, mas eu adoro isso – adoro ser mimada, presenteada, galanteada, mas sobretudo adoro mimar, agradar, pensar em coisas que possam deixar o moço feliz  – tenho essa vocação forte em mim, fazer o quê? E querem saber? Não pretendo mudar.

Mas sabe o que é chato? Quando em determinado instante, vc fica contente ao achar que vai poder brincar de mimar alguém (brincar de mimar aqui no sentido exato do termo, e não brincar com a pessoa, bien compris – acho isso inadmissível) e vê que…vc se enganou. Não vai mais ter brincadeira, não vai mais ter telefonema pra contar da lingerie bonita que vc queria comprar… Ele não vai mais dizer que te acha linda e que te acha o máximo. E vc fica chateada e pensa : “ah, mas não era de verdade, era brincadeira, era só um exercício…”.

Eis o “xis” da questão: como distinguir quando vc está gostando da pessoa ou gostando de gostar (o que em tese, faria com que uma simples substituição da pessoa “meio” resolvesse o problema de se chegar ao “fim”, que aqui seria viver o “gostar”).

Matutando sobre esse assunto, lembrei de um capítulo de “Fragmentos de um Discurso Amoroso“, do Roland Barthes, chamado “Amar o amor”:

“Anulação: lufada de linguagem durante a qual o sujeito chega a anular o objeto amado sob o volume do amor em si: por uma perversão propriamente amorosa, é o amor que o sujeito ama, não o objeto.

[…]

Basta que, num lampejo, eu veja o outro sob a forma de um objeto inerte, como empalhado, para que eu transfira meu desejo, desse objeto anulado, para o meu próprio desejo; é meu desejo que desejo, e o ser amado nada mais é que seu agente. Eu me exalto ao pensar numa causa tão grande, que deixa atrás de si a pessoa da qual fiz o pretexto (pelo menos é o que me digo, feliz de me elevar rebaixando o outro); sacrifico a imagem do Imaginário. E se chegar o dia em que eu tiver que decidir renunciar ao outro, o luto violento que toma conta de mim então, é o luto do próprio Imaginário: era uma estrutura querida, e choro a perda do amor, não de fulano ou fulana

Tem um lado meu que adora o “gostar”. Há um tempo atrás  me vi procurando mementos de um famoso e antigo cantor que um moço x gostava (sim, é o mesmo sempre – está lá atrás, mas a essência dele fica guardada, fazer o quê), e que eu gostava de garimpar para dar de presente quando bem me aprouvesse. E por que eu estava fazendo isso? Por que eu queria uma sessão remember? Não! Porque eu queria viver aquela sensação de ter a quem agradar…É tão bom…Sou daquelas que adora dar presentinhos bobos, cuja elaboração é mais demorada do que a compra do presente em si, onde a caixa e o laço de fita são mais caros do que o que está lá dentro, ou mandar surpresas inesperadas (às vezes meiguinhas, às vezes mais picantes, como deve ser qualquer relação homem- mulher mais íntima) – porque afinal, vc está dando uma emoção de presente, e não uma coisa – e emoções demandam tempo para serem embaladas e, porque não dizer,  para serem percebidas…

Mas voltando à questão principal dessa bagaça aqui: quando vc começa a literalmente brincar com fogo, e percebe que a fogueira apagou, como saber se vc  está chateada pela ausência de qualquer fogueira, ou porque aquela fogueira específica apagou? Como é que a gente diferencia uma coisa da outra?

Cartas para a redação, please – embora eu ache que sei direitinho qual seja  a resposta: a gente faz um experimento prático. Sim! A gente tenta acender outra fogueira, uma fogueira qualquer e aí:

a) se a sensação foi a mesma de antes, a gente descobre que gostava era de ter uma  fogueira propriamente dita e não daquela fogueira específica;

b) a gente acende a fogueira e  na sequência, percebemos que estamos chateados não só porque não temos mais a fogueira específica da qual gostávamos, como também falta coragem de ir lá pedir pra acender a dita cuja de novo – afinal, se o outro lado apagou a fogueira é sinal de que não queria mais ela  e está preocupado com outras fogueiras , e não há nada que vc possa fazer a não ser esquecer o assunto e tirar todas as cinzas de perto (meaning, todos os resquícios daquela fogueira na sua vida) e…

O que eu acho duro, duro mesmo, é quando a tal fogueira  foi apagada sem nem sequer ter sido acesa comme il fault

Clichés só são clichés porque acontecem muito…Sim, post de dia dos namorados…

É mendigo

todo amor capaz de ser medido

(Shakespeare, in Antonio e Cleopatra)

Eu costumo dizer que clichés só são clichés porque são reais – pois ou são situações que acontecem com muita frequência, ou que imaginamos com muita frequência- e dá no mesmo né? Afinal de contas, o ser humano não mudou tanto assim; mudam os cenários, muda a carruagem, muda o conceito de amor ideal, mas quem não gosta de um xamego? Por isso, como eu sou adepta da camisa branca com o colar diferente (ou seja, pela customização do cliché…), vou aproveitar pra falar sim, de amor perto do dia dos namorados.

Eu sou uma daquelas românticas incuráveis: acho que amor é um sentimento muito forte, muito grande, pra vc sair por aí dizendo “eu te amo” como quem diz “adorei esse par de sapatos”.

Por isso, tenho uns casais “queridos” da literatura ou cinema: são os “econômicos” – os que dificilmente falam de amor a torto e a direito; aliás, justamente por sentirem muito, por possuírem dentro de si um sentimento muito grande, não conseguem (ou têm medo de) expressá-lo.

Nietschze dizia que havia algo de inútil no ato da fala, e que só conseguíamos expressar o que já estava morto nos nossos corações (não tenho a citação literal, mas é por aí) e eu concordo: afinal, quando conseguimos falar, quando conseguimos exprimir o sentimento, é sinal de termos conseguido entendê-lo, dimensioná-lo – e quanto maior um sentimento, mais difícil é fazer isso (fica mais fácil demonstrar através de atitudes do que falando).

É por essa razão que gosto dos casais que mordem a língua mas não se declaram – acho que eles se preservam justamente porque sentem muito, ou então respeitam muito o outro (quando sabem que não são correspondidos). Hummmm…ou será que eu acho isso porque me identifico com eles? Boa pergunta.

Exemplo clássico é um dos “moços de cinema” (ou literatura, whatever) que eu adoro, o Mr. Darcy: me encanta essa coisa contida dele, o jeito como ele faz de tudo para ajudar a Elizabeth sem se gabar disso, no melhor estilo cavalheiro apaixonado (“Orgulho e Preconceito” é um dos meus livros prediletos – aliás adooooro Jane Austen). Acho pungente quando ele fala que ama apesar de não dever amar, esse jeito durão, vomitando o que sente porque não se aguenta mais…quase uma “megera domada” ao inverso…

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=JF3ueHjUc3k&feature=PlayList&p=6ADA10695C7195CB&index=15]

(se o vídeo não estiver rodando, tente por aqui).

Ah, porque um outro “moço de filme” que eu adoro é o Petrucchio da Megera Domada (que eu gosto de ver com o Richard Burton e a Liz Taylor, por motivos óbvios). Ele, bonachão, estouvado, agressivo, grosseiro; ela aquela coisa “cavalo bravo”, com aquela agressividade típica das pessoas que são frágeis demais, doces demais e, de medo que as pessoas descubram isso, se fingem de megeras (por que será que gosto dela hein? hehehe). Nas brigas que eles têm, fica evidente que um morre de tesão pelo outro – e depois, com o tempo, que eles se amam…O Petrucchio e a Catarina pra mim são o Calvin e a Susie quando crescerem (crescerem? e lá apaixonados crescem? acho que não)…

Essa aqui é a cena em que eles se conhecem (sorry, não achei com legendas -mas é um clássico maravilhoso, que vale a pena ser visto um dia…).

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=tmOQh5RNveQ&feature=related]

E finalmente, Harry and Sally. Porque felizes daqueles capazes de viver um grande amor com amizade e cumplicidade tão profundas, como o do filme…

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Ah, mas eu tenho que colocar uma musiquinha aqui né? E agora? Gershwin ou Cole Porter? Fiquei na dúvida com qual dos dois eu terminava esse post mas…quer saber? Se eu não consigo escolher, vou colocar aqui uma música de cada um (e poderia colocar 20 de cada um falando de amor e variantes): “I loves you Porgy”, cantada pela Nina Simone, e “So in love” cantada pela K.D. Lang…Enjoy babes!

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P.S. Tenho visto pra tudo quanto é lado entrevistas e estudos sobre o “amor nos tempos modernos”, e coisas do gênero. E acho que não há receitas, mas tem alguns ingredientes que são fundamentais: respeito pela individualidade, lealdade, companheirismo. De preferência em casas separadas, que é pra ninguém brigar por besteira…

P.S. II. Mais uma do Calvin e da Susie vai…

definition of love

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