Assédios

Onde termina a cantada e começa o assédio? Por que em algumas circunstâncias as mulheres simplesmente não conseguem ter reação alguma,  e dão pra isso as mais diversas justificativas?

Antes que falem “ih, de novo esse assunto”, não é apenas do Bunnygate que eu vou falar, mas sim de alguns casos de assédio por parte de seguranças ocorridos no Campus Party, os quais na verdade não passam de situações razoavelmente comuns na vida da mulher brasileira (e muito provavelmente da maioria dos países latinos, imagino eu).

<parênteses para explicar o Bunnygate> : semana passada no Campus Party, tivemos um episódio lamentável ocorrido com a Ana Lucia,  uma coelhinha da Playboy que estava trabalhando no stand da Abril: um elemento do sexo masculino, segundo as afirmações da moça, teria apertado sua bunda, em um evidente abuso. A foto da moça chorando após o incidente deixou todo mundo consternado, e causou reações violentas de repúdio na chamada blogosfera. Houve também o time pro-burca das Irmãs Cajazeira, afirmando  que a moça mereceu o ocorrido tendo em vista a sua exígua vestimenta em um evento com 4000 geeks. </fecha parênteses>

Ana Lucia minutos após ter sido assediada - by skateonrails

Aos fatos pois!

Como meu filho não pôde participar do Campus Party durante a semana, na 6a feira à tarde eu fui com ele dizendo que ficaríamos até mais tarde e que, caso  ficássemos cansados, poderíamos descansar nas barracas que havíamos montado. Saindo da área do camping, percebi que não estava com minha credencial, abri a bolsa e comecei a procurá-la  e ao ver que eu ia para barraca e falei para o meu filho me esperar lá, ele decidiu me acompanhar (achei esquisito, mas pensei que ele estivesse desconfiado que eu não possuísse crachá). Quando chegamos, vendo  que eu só tinha a chave de duas barracas, perguntou onde estava “o meu esposo” –  e a burra aqui ainda disse que não tinha mais “esposo”. Ele ficou olhando eu procurar o crachá, com metade do corpo fora da barraca, metade dentro, e enquanto isso  puxava assunto. Quando eu estava terminando e me levantando pra sair da barraca, ele falou: “Viu, eu vou querer tomar um café com vc. Mas não agora!Mais tarde, lá pelas duas da manhã”. E  quando eu havia finalmente me levantado ele me pegou pelos braços (sabem meninas, quando não dá muito pra mexer o braço?)  deu um daqueles olhares incisivos e disse com voz enfática ” porque mulher como vc não é pra ficar sozinha por aí”.

Sim, isso mesmo que vcs ouviram!

Lívia Forte, a @misslivia, também teve problemas no Campus Party. Ela conta:

O cara foi de fato muito grosseiro e as minhas amigas (Pri e Vitória) viram tudo e ficaram indignadas com a atitude dele. Explico até: eu estava saindo pro #NoB e chegando na entrada para encontrar o pessoal e pegar o taxi, ele entrou na minha frente e ficou dando passos para os lados, não me deixando passar e falando gracinhas. Para não perder a calma, olhei muito feio pra ele e consegui desviar, mas as meninas foram falando indignadas até a portaria do evento.

A Lívia, talvez por estar com mais gente por perto, ao menos foi corajosa e fez alguma coisa; vocês sabem o que eu fiz, além de reparar no número de identificação dele? NADA. Não fiz NADA. Eu até poderia dizer pra vcs que ia ser a palavra dele contra a minha (bom, disso eu tenho certeza), que o meu filho estava lá na frente  mas…na real? Eu não fiz nada simplesmente porque na hora não me ocorreu fazer nada. Me senti muito mal e fiquei sem ação. Não fiz nada porque, por mais absurdo que pareça, já estamos acostumadas a isso;   no fundo, do mesmo jeito que a Ana Lucia (dentro das devidas proporções obviamente, afinal ela é uma mulher linda que deve ser assediada um zambilhão de vezes ao dia) eu acho que é meio do negócio, fico chateada, me sinto meio suja na hora e pronto, bola pra frente – comportamento que  está, evidentemente, errado.

Contando essa história para a @gabibianco, do Casa da Gabi, ela falou uma coisa importante:

é engraçado, quando é com as outras a gente fala “ah, se fosse comigo eu fazia um escândalo!” mas na hora a gente perde a fala, se sente pequena como uma mocinha de livro romântico, precisando ser salva.

É isso mesmo. A gente sempre fala que vai fazer e acontecer, mas não é sempre que achamos que a situação merece esse incômodo todo. Enquanto escrevia esse texto, decidi procurar por posts escritos por mulheres para falar sobre o assunto – e querem saber? NÃO TEM. Nenhuma mulher se sentiu suficientemente motivada para escrever sobre o caso – eu mesma, só estou escrevendo porque além de me sentir muito mal (e amedrontada né? eu não dormi lá, mas já pensou se tivesse que dormir?) tive vários amigos que insistiram para que eu metesse a boca no mundo;  caso contrário, teria tuitado um ou dois resmungos e mais nada.

Sabe por quê? Porque  toda mulher que viva num país latino vez ou outra passa por uma situação dessas e também se sente  mal, conspurcada, fica puta, mas meio que aprende a sair fora da maioria das grosserias e superar o assunto. E sinceramente? Eu nem sei se quero viver em um país onde eu possa andar pelada na rua sem levar uma cantada. Não é essa a questão – mas  existe uma diferença muito grande entre cantada, cantada grosseira, e assédio, investida física – como são os casos acima, em maior ou menor escala. Eu até admito (embora saiba que sou minoria, e que tenho idéias um tanto quanto preconceituosas e machistas) suportar uma cantada mais grosseira em prol de não viver num país falsamente assexuado como os Estados Unidos, onde tudo pode vir a ser sexual harrassment. Sim! Até admito que em razão da roupa (ou da inadequação da roupa ao lugar)  num arroubo de chauvinismo, ouvir umas besteiras mais pesadas, e acho que devemos usar roupas adequadas para cada situação social (e essa regra tanto eu e a Lívia que estávamos participando do evento quanto a Ana Lucia, que estava trabalhando fantasiada, obedecemos) –mas o contato físico é inadmissível.


Como disse a Carla do Brasil :

Acho que estamos perdendo a essência da discussão: mais importante que dizer “coitadinha, você tem meu apoio” ou então “bem feito, biscate” é pensar em quanto a garota, nesse momento, não foi dona do próprio corpo. Que tipo de pensamento misógino, de dominação, machista (coloque aqui seu adjetivo favorito) permite que um homem (o agressor é homem feito) “tome para si”, ainda que por instantes, o corpo de uma mulher, sem que ela dê liberdade para isso. O corpo É DELA. Mexeu no seu cabelo, na sua mão, na sua perna ou na sua bunda sem sua autorização, é agressão. Isso serve para mim, para você, para a Ana Lúcia, para qualquer outra pessoa. Inclusive para o homem que iniciou toda essa discussão, com uma atitude ridícula.

E, desculpa, não tem essa de “ela estava pedindo”. É exatamente esse pensamento que justifica o uso da burka. Os homens tem de ser responsabilizados pelos seus atos, chega de botar a culpa na mulher por qualquer coisa. Não consegue controlar a própria mão? Amarra ou corta fora. (grifos meus).

Agora vou um pouco além: sabe o que me envergonha sobremaneira admitir? Que lá, lááá no fundo, eu tenho um pouco das Irmãs Cajazeira dentro de mim – porque senti vergonha e me senti suja ao ser cantada(?) daquela forma. Porque depois do ocorrido, fiquei me questionando se estava muito decotada, ou se eu tinha em algum momento, falado alguma coisa inapropriada que pudesse ter induzido aquele elemento desclassificado a tomar aquelas “liberdades” comigo – da mesma forma, mal comparando mas ainda assim fazendo a comparação, que a Ana Lúcia diz que está sujeita a esse tipo de comportamento bestial em razão do seu trabalho. No fundo, tanto ela quanto eu achamos que merecemos esse tipo de comportamento (como foi dito por algumas pessoas ao comentar o “Bunnygate” ).

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É o fim isso né? Porque o que quer que estejamos vestindo, isso não pode justificar a invasão do nosso  espaço físico – e o mais triste é que se nem uma boa parcela das mulheres entendeu isso (tanto que, apesar de indignadas, nos perguntamos se não fizemos algo errado), como é que vamos conseguir exigir isso dos outros?- ia falar homens, mas já passei por situação igualmente humilhante, há pouco tempo atrás, onde uma mulher fez isso comigo – e a cretina aqui ficou puta mas não fez nada também.

Queria terminar falando que eu não quero ter que usar burca (ainda que seja “burca ocidental”, como essas roupas de mocréia, de Irmã Cajazeira) para ser respeitada.Porque se a mulher para ser respeitada tiver que esconder seu feminino, isso não é um avanço; é um retrocesso –  pois para mim ela estará sendo respeitada por disfarçar seus atributos femininos e se passar por homem, por ter atributos e atitudes masculinas. Eu não quero isso; eu quero ser respeitada por inteiro, com meu peito, minha bunda, meus saltos altos, minhas unhas compridas…

Eu sou tudo isso e não quero abdicar do meu feminino para ser respeitada. Eu não tenho vergonha de ser mulher. Eu gosto. Eu adoro. E tenho segurança suficiente quanto à minha capacidade intelectual para não precisar esconder  determinados atributos físicos meus (que eu nem acho que são assim tão fantásticos, mas tem quem goste, e é isso que vale certo? 😉 ). E quer saber?  Feminismo pra mim é a mulher ter condições  de não ser massacrada pela vontade do homem, ter independência para decidir o que fazer – até mesmo decidir ser um bibelô bonitinho, se isso lhe apraz.

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P.S. Antes que venham falar que é um absurdo mulheres se prestarem a servir de fantasia para os homens, eu repito: acho que a gente pode tudo. Inclusive abdicar de exercitar o cérebro caso achemos que seremos bem sucedidas dessa forma. Uma mulher não é igual à outra, e cada uma é dona de seu nariz.

P.S. Não, não sou obrigada a ouvir “o outro lado”, o movimento em prol das Irmãs Cajazeira; defendo até a morte o direito das pessoas falarem o que quiserem, mas não preciso ouvir asneiras para defender o direito das pessoas as dizerem.  E da mesma forma que não vejo programa ruim de TV, me reservo ao direito de não ouvir parvoices, d’accord?

Manda a empregada varrer o lixo pra debaixo do tapete

Sabe de uma coisa? Eu não me importo quando me chamam de burra. Ao contrário, dou risada da pessoa, e se estiver de bom humor ainda concordo. Mas se me chamar de gordinha, de mulher farta e outros eufemismos…eu vou correndo me olhar no espelho e vou ficar encanada o resto do dia (minto, da semana) – porque sei que estou gordinha mesmo.

Vcs devem estar perguntando: e com mil demônios, por que ela resolveu falar disso agora? Eu explico.

Semana passada, um dos bas-fonds comentados no Twitter foi o caso do texto de Henrique Goldman, chamado  “Carta Aberta para Luísa” publicada na Trip (que vcs podem conferir aqui )

Na chamada, podíamos ler o seguinte:

Nosso colunista pede desculpas públicas à empregada da família com quem transou, contra a vontade dela, quando tinha 14 anos

Mais adiante:

Quantos anos você tinha? Vinte, trinta? De onde você era? Quem você era? Só sei que você era empregada de casa, que teus seios eram fartos e que eu tinha 14 anos. Você era tímida e já trabalhava em casa há algumas semanas quando a Sheilinha, uma colega de classe, me disse que você já tinha trabalhado na casa da família dela e que você “dava para um motorista de táxi”.

A idéia de que você “dava” não saiu da minha cabeça, e você começou a estrelar obsessivamente todas as minhas punhetas. De tarde eu ficava rondando pela área de serviço enquanto você lavava a roupa. Era um tesão incontrolável, aflito, desesperado e covarde.

Inicialmente, não se tinha certeza se o texto era “baseado em fatos reais” ou não – e o estardalhaço foi tanto que a Trip teve que fazer uma advertência informando que o texto era fictício (bem como o autor teve que  dar mais explicações e detalhes sobre o caso, confirmando que se tratava de ficção).

Bom, o assunto é mesmo polêmico: trata do assédio sexual e/ou estupro de empregadas domésticas por parte de seus patrões, ou filhos de patrões. Empregadas domésticas essas que antigamente costumavam inclusive ser menores de idade (sim, muitas pessoas tinham não só um, mas 2 ou 3 empregados em casa – e era comum, por exemplo,  a filha da cozinheira, com 16, 17 anos, trabalhar de arrumadeira. Estou falando de São Paulo, no interior isso é ainda mais comum).

O texto é pesado? Sim, óbvio. Daqueles que, para usar um cliché cafona e demodé (sorry, adoro galicismos) “dá um tapa na cara da classe média”. Não tem como não ler e não desviar os olhos sabe? E na sequência se perguntar “ai meu Deus, quem dos meus amigos pode ter feito isso”?

Mas sabe o que me chamou a atenção? A forma como as críticas foram feitas. Era de uma revolta absurda, claro, mas não (só) pela situação, e sim pelo fato do cara ter escrito o texto!!! Como se o fato de não falarmos sobre o holocausto tornasse ele mais suave – ou inexistente…

Sim, eu concordo que é realmente é impossível  ler aquilo e não sentir um mal estar, repulsa  e vergonha profundos (eu mesma confesso que pulei alguns trechos, tamanho o mal estar); mas esse mal estar vem porque o texto pode ser fictício, mas retrata um costume generalizado no nosso país – costume esse, eu espero, em vias de se extinguir. Ou não?

Aí é que tá: será que ao invés de jogarmos a sujeira para baixo do tapete não deveríamos aproveitar a oportunidade que esse assunto veio à baila e discuti-lo?

Fica todo mundo discutindo se o texto é de mau-gosto ou não, se é verdadeiro ou não, qual o valor do texto se for fictício, bla bla bla; vi comentários de pessoas dizendo que “esse texto jamais poderia ser publicado” – meu Deus,  mas por que não? O texto não endossa o ato; pelo contrário, só pinta o (grotesco) retrato da nossa sociedade.

Então, por que ao invés de ficarmos com dez pedras em cada mão, não aproveitamos que esse comportamento foi trazido à baila e nos informamos? Por que não se fala abertamente sobre isso, não se procura empregadas que tenham passado pela situação (e patrões falsamente acusados, pois posso apostar que eles também existem), por que não escancaramos o assunto ao invés de fingir uma indignação que existe apenas nas palavras, e não nos atos?

Digo que existe somente nos atos porque nós somos a sociedade brasileira,  nós somos o conjunto de pessoas, atitudes, pensamentos, preconceitos que cria (ou criou) um ambiente favorável a esse tipo de comportamento odioso. Ambiente este que não vai deixar de existir só porque não falamos num assunto dolorido.

Pra mim,  dizer que um texto desses não deveria ser publicado é realmente brincar de “o rei está nú” – e esse tipo de atitude  não vai fazer com que a situação desapareça (se é que há condições dela desaparecer, bien compris).

Quer saber? Se a gente levar em consideração o princípio de que o caminho para a cura é reconhecer a doença, estamos longe, muuuito longe desse tipo de comportamento ser eliminado da sociedade brasileira. Pensando bem, os caras que meteram o pau no texto têm razão: melhor mesmo varrer a sujeira pra debaixo do tapete e não falarmos no assunto. Assim a gente finje que ele não existe, certo moçada? 🙂

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P.S. O Blog da Cidinha escreveu uma resposta ao texto , que vc confere aqui – e tem também um outro post legal aqui