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Historinhas de Carnaval – Beijo na Boca

Essa semana, o Terra publicou uma foto de uma menina sendo beijada à força no Carnaval de Salvador, que suscitou uma série de comentários . E eu fiquei pensando um pouco sobre o assunto, até porque falei sobre assédios há umas semanas atrás.

Sob a minha perspectiva, esse tipo coisa acontecer no Carnaval é um saco, mas é mais fácil vc se defender, caso não esteja interessada na brincadeira,  justamente porque se está num lugar onde é mais do que previsível que uma situação daquelas aconteça. Pra mim,  o que me deixa sem ação nestas situações onde você é assediada é o elemento surpresa: quando se está num contexto onde nem passa pela sua cabeça ser assediada (local de trabalho de uma das pessoas, por exemplo), a situação é revoltante – e eu sou uma pessoa que fica sem condições de reagir. É diferente no Carnaval né? A nossa cultura dá um salvo conduto na festa, é uma época de excessos, e como sabemos disso, já saímos de casa preparados inclusive para reagir. Não acho que esses excessos (dentro de limites razoáveis, bien compris) atrapalhem muito, pois sabemos que eles possivelmente ocorrerão (e já falei que não quero viver em um país onde ninguém me cante).

E apesar de não ser especialista no assunto, acho que esse período de excessos tem um lado saudável para os adolescentes: faz com que eles exercitem o poder de sedução, a sexualidade sem ter culpa ou ressaca moral por causa dessas experimentações -  essa fase de descobertas é importante para eles.  Para pra pensar,  é uma sensação maravilhosa e arrebatadora né? Vc tem 14, 15, 16 anos e descobre que teu coração acelera, e que vc pode ficar excitada ao beijar um completo estranho? E que vai acontecer tudo isso de novo se vc beijar um outro estranho ali na frente? Ainda mais se vc não precisa  lidar com todas as consequências disso depois, em razão que o “salvo conduto” do Carnaval te dá. Quanto aos meninos, vão treinando essa coisa que deve ser super complicada, de dominar a timidez e “chegar” numa menina.

É uma experiência super importante, sim senhor essa fase de excessos! Hummm…Parando pra pensar agora, talvez por isso, os adultos que brinquem o Carnaval  sejam  aqueles que gostam do lúdico: aqueles que só brincavam Carnaval quando adolescentes para exercitar a sexualidade não vêm qualquer graça na bagunça depois de satisfeita essa necessidade – o que não está errado, obviamente (eu é que não vivo sem esse lado lúdico do Carnaval, hehehe :lol: ).

Mas depois de ver a tal foto do Terra, parei pra pensar no porquê de alguns caras, ao invés de exercitarem a sedução, a conquista (numa situação onde a negativa é menos traumática) já partem para a ignorância e agem como os romanos no rapto das Sabinas – e como uma coisa leva à outra, acabei lembrando na diferença que é ser cantada por um baiano e por um turista no Carnaval da Bahia (tido como o mais…hummm… agressivo do país nessa questão).

Em primeiro lugar: há que se fazer uma diferença entre a abordagem dos moços dentro dos blocos chamados de “elite” (aqueles caríssimos, como Chiclete com Banana, Asa de Águia etc, onde a grande maioria é de turistas) e a que é feita nos outros blocos, ou então na chamada pipoca.

Explico: o baiano quando se aproxima de vc no Carnaval não vem te pegando, te agarrando à força (aliás, na Bahia eles falam à pulso, e não à força, sabiam?). Na na ni na!!! Eles começam a dançar atrás de vc, com os braços em volta, mas sem encostar, numa espécie de proteção: vc dança- é um cortejo quase à moda antiga, uma dança do acasalamento moderna. Vc não está interessada? Simples. Saia daquela delimitação de espaço e pronto. Muito provavelmente ele não vai insistir – afinal, com tanta mulher bonita por ali, vc não acha que ele iria atrás de vc né? E posso falar? É uma delícia quando vê graça no moço que está ali teoricamente te “protegendo” porque quer te beijar. De-lí-cia. Sim, pois ser galanteada, ser cortejada, é uma delícia. Foi o que eu já falei: não é sempre que eu quero ser admirada pela minha inteligência: eu quero que me achem bonita, eu quero que um moço tenha vontade de ficar por perto só porque gostou do que viu, sem nem mesmo ter falado alguma coisa comigo  (ainda que sejam 15 minutos, hehehe – mas tenho que admitir que sempre tive muita sorte com os moços que conheci no Carnaval, pois eles sempre me deram muito mais atenção do que é praxe…).

As coisas mudam de figura quando vamos pros “blocos de elite”, onde hoje em dia não há mais baianos (pergunte a um baiano o que ele acha de pagar essa fortuna para sair num bloco e ele rirá da sua cara, sure et certain)

Daniel Piza falou uma verdade ao discorrer sobre  a elite nesse país:

Veja o que aconteceu com “elite”, originalmente concebida para designar aqueles que são os melhores no que fazem; como sempre lembra Sérgio Augusto, Pixinguinha era um homem de elite [...]

O problema do Brasil não é a elite, mas o fato de que a classe dominante – grupo de pessoas que tiveram mais oportunidades e deveriam assumir mais responsabilidades – não seja uma. (grifos meus).

E o Carnaval da “elite”, como não poderia deixar de ser, é o seu reflexo, não há como fugir disso. Porque pagaram, os caras acham que têm um salvo conduto para agarrar as meninas que bem lhe aprouverem, como se fossem uns senhores de senzala up to date exercendo seu “direito de propriedade”.  Não são todos os que fazem isso, é verdade: como Carnaval é sempre uma época de excessos, os caras que te agarram dessa forma em Salvador são muito provavelmente os caras que na Vila Olímpia ou na Vila Madalena aqui em São Paulo pegam no seu cabelo ou puxam sua mão durante a “balada” (outro termo paulista que abomino), falando “vem aqui lindinha” – são aqueles que acham que podem tudo sempre, seja porque têm uma pulseira VIP, seja porque têm um carro caro, ou porque simplesmente foram sempre muito mal educados mesmo… Triste né? Ao invés de aprender a seduzir e “ganhar”  uma mulher, vão virar uns grossos que acham que conseguem tudo na porrada. E assim a população do “você sabe com quem está falando”, essa pseudo-elite brasileitra cresce em tamanho, mas o cérebro continua menor do que um caroço de azeitona… Pior pra nós…

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P.S. Praqueles que não conhecem o termo: chama-se de “pipoca” à moçada que fica do lado de fora do bloco, acompanhando o trio elétrico no meio do povão. Dizem que é perigosíssima – e não é verdade. Só é perigosa para quem tem medo de gente. E de viver. Mas se você mora em condomínio fechado,  tem carro blindado, não pega ônibus e tem nojo de povo…ah, aí é perigosa sim. Não vá.

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